Eu não tinha uma boa impressão em relação à empresa de Sirius. Os únicos dois advogados que eu conhecia e trabalhavam lá tinham sérias falhas de caráter- apesar de competentes-. O primeiro faria de tudo por uma mulher que ele comeria uma vez e depois nem se daria ao trabalho de lembrar o nome dela. A segunda lia meus livros e acreditava realmente que existem homens capazes de corresponder às suas expectativas .Mas o prédio era impressionante; tinha uns sessenta andares , era o prédio mais alto do centro comercial de Londres, que sempre fora circundado pelos mais caros e excêntricos restaurantes.

Ela poderia escolher qualquer um desses tailandeleses ou porto riquenhos - ou qualquer outro mais esquisito como aqueles que servem cachorros-, mas surpreendentemente Lilly escolheu o Burguer King. Isso fugiu um pouco do conceito que tenho sobre ela, uma mocinha do século XVII presa no século XXI por algum tipo de sortilégio maligno, esperando pelo resgate. Lógico, que ela poderia escolher o Mac Donalds, mas Lilly era uma boa inglesa.

Nos sentamos nos bancos de couro barato e avermelhado, antes que eu iniciasse meu discurso sobre minha acusação - o que eu nunca pensei que faria em uma rede mundial de Fast-food.

"Bom..." começou minha advogada meio sem jeito, seria pela minha presença ou ela sabia mesmo que tocaríamos em um assunto delicado "O que você precisa me dizer afinal?" Ela desviou os olhos verdes brilhantes umas trinta vezes antes de terminar a pequena pergunta.

Eu me ajeitei no banco, pensando que a lanchonete não era tão ruim, ela poderia ter escolhido um daqueles restaurantes chineses com luzes vermelhas que transformavam qualquer ambiente em um puteiro holandês. Pelo monos, o Burger King é iluminado como um restaurante normal " Eu não fui sincero com você" Lancei-lhe um sorriso um pouco tímido, pois sabia que essas não eram as melhores palavras para se começar uma conversa com uma mulher. "Quando você me pediu para te contar o caso antes mesmo de ler o boletim de ocorrência. Você lembra?"

"Claro" ela se inclinou na minha direção, sem nem mesmo notar. Ela mais parecia prestes a ouvir a uma fofoca do que qualquer informação importante para o caso, que poderia levar um escritor de romances para a cadeia. Eu sabia que se eu perdesse - se Lilly perdesse - seria minha ruína, ninguém compraria livros água com açúcar de um 'assediador' da pobre senhora Longbottom! Com ninguém eu quero dizer nenhuma mulher...ou gay do planeta.

"Então, eu tive, realmente relações com a Alice" falei rápido demais enquanto mexia em meu cabelo castanho. Bom, a reação da Lilly não poderia ter sido melhor - sem contar desmaios-. Seus olhos ligeiramente amendoados pareceram saltar de seu rosto cheio de sardas.

"Relações? Hmmm,do tipo amigável?" minha advogada estava confusa mesmo. Ela não estava brincando com a minha situação! Ela nem conseguia acertar uma batata em sua boca.

"Relações do tipo sexuais" respondi sorrindo de leve com sua ingenuidade inoportuna.

"Sim, claro" ela pegou o copo de refrigerante e deu um gole gigantesco."Isso muda tudo." Lilly parecia um pouco hesitante, mas não queria parecer preocupada na minha frente. Foi em vão. Ela transpirava preocupação, enquanto mordia enérgica seu hamburguer enorme - como aquelas pessoas cheias de problemas de auto confiança que comem como loucas quando ficam nervosas.

Como que ela conseguia ser tão pequena?

Apesar de ser uma advogada, ela não sabia mentir ou enganar um mero escritor? Impossível... eu esperava uma atriz; alguém que com um sorriso pudesse me fazer acreditar na cura para câncer ou em Deus.

"Isso muda tudo. Alice tem um contrato pré-nupcial muito restrito." ela parecia mais profissional assim, meio dispersa como se pensasse em seu discurso para o tribunal. "Negociação não fazia parte dos meus planos, mas agora é impossível."

A ruiva parecia mais decidida, o tipo de mulher que fica mais bonita quando decide fransir o cenho e realmente pensa- ou seja ,também fica bonita irritada já que uma discussão é o único momento em que uma mulher se esforça para argumentar e rebater TODOS contra-argumentos mesmo que esteja errada. Não pude evitar pensar que seria legal experimentar um dia.

"Claro, acho que o marido dela está pensando seriamente em negociação" respondi irônico e emburrado como um idiota. Mas um idiota inocente de qualquer acusação feita injustamente por uma vadia que não queria admitir uma traição.

"James, eu já cuidei de casos muito piores do que esse " Ela pegou no meu braço como se estivesse me consolando, como se soubesse pelo que eu estava passando. Ela não parecia me achar culpado, o que não me deixou menos nervoso porque poderia ser só sua mente idealizadora de fã falando mais alto, não seu instinto de advogada. "É muito pior quando o cliente é culpado e você sabe disso" ela revirou os olhos. " Eu sei que defender esse tipo de pessoa me faz desprezível, mas eu preciso sobreviver...e todos precisam de defesa."

"Obrigado" tentei ser o mais educado quanto possível, mas não consegui evitar ser seco.

"Sabe, esse marido dela não parece ser mesmo um idiota. Eu nunca vi um contrato tão específico...e completo "ela sorriu e ajeitou sua franja ruiva. Não pude deixar de achá-la bonitinha.

"Frank Longbottom não é tão imbecil" levantei os ombros. "Pelo menos ele conhece a vadia com quem se casou."

"Frank Longbottom?" ela falou devagar. Muito devagar. Seu rosto perdeu a cor e ela pareceu estremecer por um segundo. "O cabelo escuro? Olhos azuis escuros e profundos como a chegada na noite no céu? Alto e com traços firmes? Braços fortes? O rosto gentil como o de um diretor de orfanato para portadores de necessidades especiais?" ela falou tão rápido que foi difícil de entender o que sai de sua boca levemente trêmula. Lilly parecia sem ar. Parecia que ia desmaiar de novo.

"Eu não o descreveria assim, mas é mais ou menos isso sim" respondi hesitante, estava em dúvida se ela iria desmaiar ou vomitar seu hamburger ou ter uma convulsão.

"Ele é casado com ela? A mulher que te acusou?" ela se inclinou mais ainda, quase sujou sua blusa social de molho de sanduíche.

"Sim. Frank Longbottom é casado com Alice Longbottom" disse irritado e revirei os olhos. Sei que não era óbvio porque muitas pessoas tem sobrenomes iguais mesmo sem ter realmente um parentesco ou relação...mas não há uma pessoa em Londres que não soubesse do casamento tão pomposo deles- com mais de seiscentos convidados, incluindo a duquesa de York, que compareceu; as flores azuis importadas da Turquia; o conjunto de chá Richard Ginori para todos os convidados! Parece que pelo menos um ser inglês não sabia. Uma advogada graciosamente ruiva e assustadoramente pálida, parecendo que entraria em colapso a qualquer momento.

"Eu..." Lilly parecia tonta, a mão na têmpora branca como papel. O banco não era grande o suficiente para mantê-la em equilíbrio sentada. Eu tinha certeza de que ela iria cair.

Eu larguei meu hamburger e decidi fazer alguma coisa antes que a situação piorasse e ela tivesse que ir à uma clínica."Lilly, sua casa é perto daqui, não?" eu a levantei segurando seus ombros, ela conseguiu assentir e se manter em pé ao mesmo tempo. Deve ser um novo recorde pessoal..."Então, eu te levo até lá."

Eu preferia não perguntar porque a menção de um nome poderia transformar uma advogada divertida em uma mulher que não conseguia manter a compostura ou impedir os joelhos de falharem...

Mas era Frank Longbottom, certo? Um empresário muito bem sucedido no ramo de roupas íntimas. O que a senhorita mundo da fantasia poderia ter com ele? Frank não tem uma fábrica de homens perfeitos, polidos e incapazes de machucar o coração feminino! Um empresário casado com uma morena absurdamente gostosa sem nem um pingo de qualquer coisa esperada por uma mulher como a Lilly! E com toda a certeza ele não parecia o dono de um orfanato!

De qualquer forma eu estava um pouco curioso, querendo saber por onde a pequena Lilly andou para conhecer um sujeito com tendências aproveitadoras como Longbottom.

Saímos do Burger King com metade dos atendentes me olhando carregar uma ruiva pálida para a rua, o que não foi nem de perto mais constrangedor do que carregar Sirius, quase em um coma alcoólico, para fora de um bar. Ao menos Lilly se esforçava para se manter em pé - e conseguia muito bem -. Porém receber o olhar de reprovação de alguém que usa um boné tão ridículo quanto o do Burger King é, no mínimo, humilhante.

Foi mais fácil do que pensei andar até o meu carro. Lilly conseguiu se apoiar em mim, se equilibrando e chamando atenção de poucas pessoas na rua - ela parecia um pouco bêbada com o andar hesitante e falho, mas se alguém olhasse para o rosto pensaria que ela estava com malária... na Inglaterra...no outono.

Ela também fez um ótimo trabalho desviando daqueles pedestres imbecis que parecem tentar esbarrar em qualquer um que fique na frente deles por mais de dois segundos. Pela experiência eu diria que ela já foi carregada para casa muitas vezes...talvez pela Lene.

"Seu carro é vermelho" foi o que ela disse sorrindo quando viu meu Mustang brilhante de tanto polimento que eu insistia em dar pelo menos uma vez por semana. Também tinha bancos de couro, se ela quisesse acrescentar.

Eu sabia o caminho até o apartamento que ela dividia com Marlene por pura precaução. Só no caso de eu não ter mais lugar nenhum para ir, até mesmo Sirius teria que me chutar para fora da sua pequena mansão do tamanho de um quarteirão; o que nunca iria acontecer porque ele não é tão egoísta e poderia me emprestar um dos dez quartos.

Eu nunca tinha entrado lá, apesar de saber a localização. Tinha pelo menos sete andares, o hall era muito amplo e tinha um pé direito absurdamente alto para uma cidade como Londres; o chão era de mármore, dando uma aparência de Hotel de luxo ao lugar - até o porteiro usava terno.

Eu sabia que Marlene ganhava muito bem por ser minha descobridora, mas nunca pensei que assédio sexual pudesse bancar metade de um lugar como aquele. Quando entramos o porteiro de terno nos informou que os elevadores - os dois- estavam em concerto e que teríamos que subir as escadas...

Ótimo! Carregar uma pessoa até o quarto andar ou demorar três anos para chegar à casa dela? Lógico que Lilly não era pesada, ela deveria ter no máximo um metro e sessenta sem o salto; mas mesmo assim ela era uma fã maluca que teria alegria pelo resto da vida se eu a carregasse no colo, como uma moçinha que torceu o pé na raiz da árvore do bosque, até a casa dela.

Antes que eu pudesse tomar uma decisão ela se livrou do meu braço ao redor de sua cintura pequena. "Obrigada, James." ela estava soluçando "Pode ir, eu consigo chegar até o apartamento."

Eu estava sem saco para cuidar de uma mulher à beira de um ataque de nervos. Eu estava me culpando pela idéia imbecil de ter contado tudo para ela. Eu estava pensando que seria muito melhor ir para minha casa do que ouvir alguém que eu não conhecia e não tinha o mínimo de intimidade...

Mas eu ainda tinha aquela maldita consciência; Não era um personagem de um dos meus livros,mas era impossível não sentir nenhuma pena da ruiva chorando."Não tem problema. Eu posso enrolar a Marlene para estender os prazos." sorri de leve só para que minhas palavras parecessem convincentes.

Então subi em direção ao apartamento de Lilly Evans.

N/A: eu sei que faz bastante tempo que eu não posto, mas aqui está!

Não sei o motivo, mas nesse capítulo eu dei uma idéia de que o James é meio sem ação ou relutante...sei lá! Foi muito difícil a narração do James, mas espero que na tenha desagradado! É que escrever com as impressões de um cara é muito difícil!

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XD