Terceiro e último capítulo. Espero que gostem!

Boa leitura!

Obsessão

Era um dia ensolarado em uma pequena vila em uma das ilhas do Japão. O lugar era pacífico, os plantadores cuidavam dos campos e as crianças se juntavam para ver os seguidores da Coroa Inglesa desembarcar no porto. Havia vários comentários sobre o motivo de eles estarem ali, o mais aceito era o que falavam sobre estarem atrás de traficantes, mas ninguém sabia ao certo o que acontecia. Os adultos estavam apreensivos, sem fitar os estrangeiros, enquanto os pequenos se maravilhavam com eles, especialmente o capitão e suas ricas vestimentas.

A primeira missão de Arthur Kirkland no comando de um corso era relativamente fácil. As instruções eram claras: prender os responsáveis pela desordem e, caso resistissem, matar sem piedade. Como chegaram antes do esperado, ajudados pelo vento, esperariam até ao anoitecer para entrarem em ação.

Kiku sentia-se frustrado. Seus pais não o acordaram no horário que pediu, acabou aparecendo tarde demais para ver os ingleses chegando. Caminhava com o olhar baixo, chutando de leve uma pedra ou outra que encontrava enquanto andava. Ao menos tinha ganhado dango da amiga dos pais que trabalhava na loja. Adorava aqueles espetinhos, fechando os olhos para apreciar melhor o sabor, esquecendo-se de que muitas pessoas trafegavam, acabando por trombar em alguém – já conhecendo o caminho, sabia não existir nenhum obstáculo – e derrubando seu lanche no processo.

- I-itai...

Murmurou, levando uma das mãos ao nariz, afastando-se dois passos. Quando ergueu a face para ver quem era e pedir desculpas, sua voz morreu na garganta e não conseguiu esconder sua surpresa. Tinha batido em um rapaz muito bonito e diferente, loiro dos olhos claros. Não parecia com ninguém que já tinha visto! E também as roupas eram diferentes. E tinha um sotaque estranho.

- O que foi, pequeno?

O loiro precisou abaixar a cabeça para fitar o menor, achando que ele não passava dos doze anos, já que era bem pequeno. Chegou a achar que ele poderia ser mudo, mas descartou a possibilidade por ter ouvido-o murmurando algo.

- A-ah! Desculpe!

A voz saiu em um pedido baixo, seguido de uma profunda mensura. Arthur arqueou uma das sobrancelhas, se perguntando se todos os japoneses eram estranhos daquele jeito, visto que o outro parecia prestes a sair correndo, dando as costas para si. Além de ser educado demais, bem diferente de seu irmão menor, Peter. Logo pousou uma das mãos no topo da cabeça dele, impedindo-o.

- Wait! Digo, espere.

Kiku gelou, virando-se lentamente, achando que receberia uma bronca.

- S-Sim?

- Isso era seu, não era?

O japonês concordou, vendo que o britânico indicava o espetinho pela metade que caíra no chão e agora estava tomado por terra. Arthur sorriu, pensando que seria bom caso aquele pirralho irritante do seu irmão fosse tão silencioso quando o oriental.

- Você quer outro?

Timidamente, o menor fez um gesto vago com a cabeça, com um pouco de receio. Achava-os fascinantes – por isso desejava vê-los -, mas tinha medo, pois sempre ouviu que eles eram pessoas ruins e que não deviam se aproximar. Provavelmente por isso seus pais não o acordaram.

- Então está decidido! – Arthur entendeu o gesto como um "sim". – Vou comprar outro para você.

Tomou a mão do menor, que o fitou em dúvida ao perceber que não saíam do lugar. Fechando os olhos, o inglês voltou-se ao outro.

- Aonde você comprou mesmo?

Nesse momento, o japonês esqueceu-se do medo, deixando uma pequena risada escapar, cobrindo os lábios com as pontas dos dedos para abafá-la. Tomou a frente, guiando o maior.

- É por aqui.

Arthur acompanhou o menor até o estabelecimento, comprando um daqueles espetinhos estranhos e chá para ambos – isso não poderia reclamar, o chá japonês era ótimo. Sentaram-se do lado de fora, aonde havia um banco, e ficaram a conversar por um bom tempo, perdendo a noção das horas. Enquanto levava o britânico por alguns pontos da cidade, o asiático ficava fascinado com as histórias que ele contava. Mas a vida não esperava ninguém e logo o dever o chamou – em forma de um marujo.

- Capitão Arthur, hora de irmos – apesar de falar em inglês, tomou cuidado com as palavras ao ver o garoto que acompanhava o comandante.

- Certo – concordou, levantando-se e voltando o olhar para o oriental. – Preciso ir agora... Adeus.

Virou as costas para Kiku, caminhando e sendo seguido pelo outro homem. Apesar de concordar e saber que não tinha como evitar, o japonês ficou um pouco chateado. Mas tinha ficado ainda mais fascinado com o que ouvira! Vendo que ainda faltava um pouco para o anoitecer, agachou-se e começou a desenhar na terra com um pedaço de madeira a sua própria imagem como um daqueles homens do mar – mais exatamente na mesma posição de Arthur, nascendo em sua mente o infantil desejo de ser como ele.

Distraído, assustou-se ao ver que a luz diminuía, levantando-se de súbito. Abandonando a brincadeira, colocou-se a correr para casa, apressando-se ao ver marcas estranhas no chão. Soltou uma exclamação ao ver a porta da casa, onde morava com os pais, caída. E foi recepcionado por uma surpresa nada agradável: a silhueta de Arthur estava alguns passos à sua frente, segurando uma espada ensanguentada, fitando com certo nojo – este sentimento não sendo visível ao japonês, já que o outro estava de costas para si – o que dois homens faziam. Um dos marujos brincava com o corpo da mulher caída, já morta e com sangue escorrendo dos lábios, os olhos abertos preso no vazio. O outro batia em um homem que já estava ferido no abdômen por uma espada. O cômodo pequeno estava sujo de sangue e com vários utensílios quebrados, como se uma pequena luta tivesse ocorrido ali.

Assustado, Kiku cobriu a boca com as mãos para evitar que soltasse qualquer som, recuando lentamente, apesar da voz ter morrido em sua garganta. O olhar de seu pai se fixou nele por um instante, a face marcada pelas agressões esboçando surpresa. Não queria que seu filho o visse naquele estado. Quando abriu a boca e tentou se mexer, querendo explicar o que não tinha explicação, não teve tempo. Por trás, uma espada transpassou sua garganta, o que causou apenas um ruído antes do corpo cair com um baque surdo no chão. Trêmulo de medo, o menor não sabia ao certo o que fazer e, quando pensou em fugir, seus pés o enganaram e acabou caindo sentado – atraindo três pares de olhos sobre si. Arthur arregalou os olhos, enquanto os outros dois apenas se mostraram confusos no início, mas logo sorrindo com maldade.

- Não sabia que esse casal tinha um filho.

- Isso é fácil de resolver.

O outro retrucou, sorrindo sadicamente ao retirar a espada do corpo, balançando-a antes de se aproximar do menor. O nipônico estava assustado demais. Nem as lágrimas queriam cair de seus olhos, apenas ia se afastando, arrastando-se com as mãos para trás à medida que os homens se aproximavam. Arthur interviu, colocando um dos braços em frente aos dois, bloqueando o caminho e vestindo sua melhor feição inexpressiva.

- É só uma criança.

- Temos de acabar com ela! É só uma criança, mas pode vir atrás de nós no futuro e arrumar confusão.

Com a fala repleta e ironia, o loiro voltou-se ao menor, fixando os orbes nele. Mesmo tendo passado pouco tempo junto com ele, foi o suficiente para criar certa afeição. Só não podia falar isso.

- Olhe bem – sorriu de canto. – Sinto ele tremendo daqui. Vai crescer como um covarde e viverá fugindo. Caso ele precise se vingar de alguém, vai ser de mim. – Caminhou duramente, com passos pesados, passando de forma fria pelo japonês, sem fitá-lo. – Vamos. É uma ordem!

E sendo uma ordem, não tinham como contrariar, apesar de não gostarem nada dela. Seguiram o capitão a contragosto, um dos marujos empurrando Kiku para que este caísse no chão, acabando por ser sujo com o sangue fresco. As lágrimas começaram a cair sem que o asiático percebesse, lágrimas de uma mistura de tristeza, medo, raiva e decepção. Aquela frase tinha soado como um pedido: "venha atrás de mim". Não teria como rejeitá-lo.

Naquele dia, a chuva lavou o sangue e os sonhos desenhados, sendo testemunha de um novo objetivo traçado.

x

Definitivamente, Kiku pensava, não teria outra oportunidade. Decidido e com os olhos de alguém pronto tanto para matar quanto para morrer, levantou-se, rumando em direção às cortinas que se abririam para o ato final.

x

- O que vocês pensam que estão fazendo?

Bradou o corsário contra vários tripulantes com armas em mãos. Tinha desvantagem numérica, mas ainda era o capitão! Sua palavra era a autoridade máxima em alto mar. Mas poucos pareciam levar isto em conta, a maior parte se bandeara para o lado de Antonio, o qual lhe sorria calorosamente, mas com olhos irônicos e tom frio, mostrando sua outra faceta.

- É simples, capitão. Cansamos de você. Não teremos piedade, mas não se preocupe: caso não resista, vai ser rápido.

Com um sinal, os antigos companheiros começaram a se atacar, o metal das espadas rugindo junto aos trovões. Espanhol maldito! Sabia que não deveria ter o recrutado, mas ele conseguia convencer as pessoas. Aliado a isso, sabia desagradar a muitos no navio. Agradecia silenciosamente, com um meio sorriso nos lábios e uma gota de suor escorrendo pelo lado da face, ao fato de seu irmão não estar no navio – apesar de que ele seria de uma grande ajuda naquele momento.

Uma das velas começou a pegar fogo por causa de uma tocha que fora arremessada e o sangue manchava o chão do navio. O vermelho estava por todo canto, avivando ainda mais no japonês o sentimento daquele dia. Precisou desviar de muitas lutas e corpos que caíam, pensando que, no final, ninguém sobreviveria àquele caos. Após muito buscar, viu Arthur e Antonio batalhando de igual para igual em uma parte mais alta da embarcação.

- Heh, até que você é bom, Antonio.

- Obrigado, Artie! Assim não preciso usar golpes baixos, hã?

As investidas recomeçaram, era difícil se equilibrar com o mar batendo violentamente contra o casco, mas já haviam enfrentado tempestades piores. Pequenos pingos começavam a cair, abaixando aos poucos a fumaça, mas a luz já havia chamado a atenção de um navio que passava – seja por coincidência ou não, visto que o comandante era velho conhecido de Antonio. Este, golpeando com força a espada de Arthur, fez com que ela escapasse das suas mãos, apontando, em seguida, a própria para ele.

- Onde prefere ser atingido? Quer que corte seu pescoço? Ou talvez o coração?

Riu secamente, irritava ao castelhano o fato do inglês não retirar aquele meio sorriso dos lábios. Ficou sério repentinamente.

- Morra.

Mirou o peito do britânico, pronto para atingi-lo, mas a espada de Arthur bloqueou o golpe. Só não era ele quem a empunhava.

- Kiku?

- Não me entenda mal. Não estou te defendendo – disse, sem olhar para o loiro. – É só que... Apenas eu posso matá-lo.

O japonês disse seriamente, fazendo o espanhol recuar.

- Tem certeza, Kiku-chan?

- Sim.

Respondeu convicto, o que fez o outro anuviar a expressão.

- Tudo bem, então! Sua raiva parece ser maior que a minha.

- Venha logo, Antonio! Até quando pretende ficar enrolando? Kesesese!

Ouviu-se o grito do navio germânico, comandado por um rapaz de cabelos brancos e olhos vermelhos, o que fez o espanhol rir.

- Hahaha! Já vou! – Exclamou, fincando a espada no chão. – Vou deixá-los a sós. Dessa vez, ninguém vai interromper.

O castelhano abandonou o navio com o sentimento de que perdia mais alguém para Arthur. Porque, pela situação e o que vira no olhar do nipônico, ele estava disposto a qualquer coisa para alcançar o resultado desejado. Kiku caminhou até a arma abandonada, pegando-a e jogando a de Arthur para o próprio.

- Finalmente sozinhos... O palco é apenas nosso, Arthur Kirkland. O que acha de começarmos o espetáculo?

- Não quero fazer isso.

- E por que não? – Kiku indagou com descaso, talvez um pouco insano por finalmente ter se deixado dominar pela raiva e amargura. – Eu te lembro alguém? Diga, você realmente não se lembra?

Do que ele falava? Inicialmente confuso, não demorou muito para que o loiro se lembrasse. Não poderia ser aquele garotinho. Ou poderia? Depois de refletir por poucos segundos, constatou que pareciam, mas orientais eram parecidos, não tinha como saber. Mas desde a primeira vez parecia que já se conheciam – ou ao menos Kiku conhecia Arthur. Tinha algo nele que lembrava aquele garotinho. Só tinha descartado a possibilidade por preferir imaginar que ele levava uma vida tranquila, criado por algum parente, mas a verdade era diferente. Matara os únicos que poderiam protegê-lo, mesmo que aquele menino tivesse idade para ser um irmão. Kiku perdeu até mesmo os amigos, ninguém queria conviver com o "filho dos traficantes". A ilusão daquele mundinho perfeito foi perdida para sempre; vivera apenas com um propósito.

- Não... pode ser.

- Acredite. É.

Decidindo que já havia esperado demais, o japonês foi o primeiro a investir, fazendo com que o britânico ficasse na defensiva. Arthur pensava que o outro tinha aquele direito, mas queria que ele também fugisse.

- Devia ir com Antonio! Este navio vai afundar de qualquer jeito.

- Não – afastou a espada de Arthur, sério. – Eu decidi sob esse mesmo céu tempestuoso que minha vida acabaria junto com a sua.

Nesse momento, ambas as armas já estavam no chão e o nipônico contrariara o que falara, pois tinha acuado Arthur contra a cabine.

- E por que isso?

O japonês sorriu com melancolia ao ouvir a pergunta.

- Era para eu ter morrido aquele dia.

Aproximou-se, segurando a mão do outro e entrelaçando os dedos, prendendo-a contra a parede. Com a mão livre, retirou a adaga que o loiro carregava junto a cintura, esboçando uma expressão de dor – a qual foi seguida por Arthur – ao transpassar a lâmina pelas mãos unidas, fazendo com que ficassem presos.

- Você me salvou, eu reconheço isto. Eu desejei ser como você e depois me amaldiçoei por isto... – Kiku suspirou pesadamente, sentindo um solavanco sobre seus pés. O mar iria tragá-los. – Lamento por isso. Tentei viver normalmente, mas não consegui. Não consegui te odiar... Talvez... Você tenha sido como minha paixão ou primeiro amor.

Apesar de toda aquela cena, a chuva batendo fria contra o corpo e o sangue escorrendo quente da ferida da mão, o inglês acabou sorrindo, pousando a mão livro no topo da cabeça do menor.

- Ou só uma obsessão, huh?

Sim, talvez estivesse mais para aquilo. Mas, seja lá o que fosse, finalmente chegou ao fim.

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E também chegamos ao final da fanfic! O que acharam?

Agradeço a todos que acompanharam! Espero pela opinião de vocês. :3

Beijos!