Bem, depois de um grande período de falta de creatividade, estou de volta com um casal que aprendi a gostar de ver juntos. Esta fic gira à volta do facto de como teria sido se: 1 - fosse Draco a matar Dumbledore; 2 - Harry, Ron e Hermione estivessem em Hogwarts durante o seu 7º ano

Espero que gostem, desculpem alguma distracção gramatical (sou perita nisso) e gostava bastante de saber a vossa opinião, visto que é a primeira vez que escrevo sobre estes dois :)

(eterno) Disclaimer: HP não me pertence, não lucro nada com isto, apenas me divirto, etc etc etc.

Boa leitura


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You Shall Overcome

Novembro, o Fim do Sofrimento

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Os largos cachos moviam-se imperceptivelmente. Retirou a varinha, empunhando-a e criando um círculo cor de fogo à sua volta. Entoava uma pequena canção enquanto rodopiava e desenhava no ar gélido de Inverno, sentindo-se gradualmente mais quente graças ao simples feitiço que realizava. Os movimentos foram-se tornando mais bruscos, os cabelos dançavam descontrolados ao vento e este lançava contra ela gélidas rajadas que feriam os olhos, agora cerrados com força. Um pé mal colocado desequilibrou-a.

O frio invasor da neve roçou o seu pescoço e tornozelos. Pôde rever o imenso cinzento, desconsolado e triste. Triste. Pela primeira vez desde que o conhecera. Queria tocar-lhe, a sua feição simétrica e toda aquela apagada vida provocavam em si uma necessidade crescente de se envolver. Esticou um braço e um pequeno floco alojou-se na palma da sua mão, à medida que uma singela lágrima corria pelo pescoço.

Um céptico sorriso fracamente se formou nos seus lábios. Voltou a erguer os olhos para os telhados de Hogwarts que serviam de palco a uma perseguição entre dois corvos. Fitou novamente a janela que outrora se encontrava vazia, mas onde agora ia um vulto tomando forma. O seu olhar endureceu. Levantar-se sem nunca quebrar o contacto visual com o ser humano de platinados cabelos. Mordiscou levemente o lábio e virou-lhe costas, embrenhando-se na floresta. Naquela sala, àquela hora, só poderia ser uma pessoa.

Um cobarde.

Recostou-se nas raízes de uma das inúmeras árvores da perigosa floresta, rodopiando a varinha com perícia entre os dedos. Encontrava-se perdida num mar de recordações que ansiava banir de si, desejando com todas as forças esquecer as descargas de prazer e as pontadas de agonia que frequentemente sentira ao longo de vários meses… os sorrisos trocistas e as respostas amuadas, as correrias secretas a altas horas da noite pelos locais mais discretos das masmorras e os deslizes nos pontos mais altos dos telhados de Hogwarts… tudo isso se esvaia lentamente à medida que o tempo passava, mas o seu corpo ainda sentia o toque possessivo e frio de um assassino que nunca se importou.

Cerrou o queixo, impedindo-o de tremer. Jogou a varinha para longe tentando enxotar a raiva que se apoderava de si. Hermione não era como ele, Hermione não possuía sentimentos impuros nem um fascínio por tudo o que se esconde nas Trevas… pois não? Fungou e susteve brevemente a respiração.

Alguém a observava.

- Accio, varinha. – murmurou. Da indefinida escuridão surgiu prontamente o pequeno pedaço de madeira, que se alojou confortavelmente na sua mão direita. Esperou pacientemente enquanto um pequeno revolver de terra se aproximava de si. Por fim, pôde ver os sapatos bem engraxados e o enorme manto que cobria o homem à sua frente. Bem trabalhado, os elegantes detalhes em prata denunciavam o seu dono.

- Granger.

Não conseguia ver o seu rosto, escondido por detrás do grande capuz, mas aquela voz glacial era inconfundível. Encolheu-se instintivamente, sentia o frio e desconforto que emanavam dele apesar de estarem separados por cerca de cinco metros. Queria falar mas não sabia por onde começar. Os pequenos tremores que a dominavam também dificultavam a tarefa e faziam-na encolher-se, assumindo a sua costumeira posição defensiva.

Ele não tinha a intenção de se aproximar, contentando-se simplesmente em poder ver aquele belo rosto contorcido de desprezo. As sobrancelhas e o pequeno nariz franzidos enquanto os lábios cerrados a custo tremiam deixavam-no satisfeito. Satisfeito por aquela imagem adensar o seu sentimento de culpa, grato por aquele ser o seu castigo, o único que poderia estar à altura do crime que cometera.

Durante seis meses Hermione fingira não saber de nada. Mentira a Harry, a Ron, às pessoas que confiavam em si, ludibriara Hogwarts inteira e ainda o próprio Ministério da Magia, para esconder um assassino. Um assassino puro-sangue que fizera uma sangue-de-lama sentir-se segura e divina, doce ironia. Sabia que os dias em que tentara escapar-lhe haviam terminado e que ele lia os seus pensamentos com a maior das facilidades. Sabia ainda que apenas ele conseguia ver a enorme ferida que a dilacerava.

Malfoy não queria aproximar-se, mas quando deu por si, encontrava-se ajoelhado junto dela, desviando cuidadosamente a varinha que se encontrava apontada ao seu peito. O braço dela caiu inerte à medida que a varinha rodopiava para longe. Quando uma das mãos lhe tocou a face, o seu transe pareceu dissipar-se, sendo arrancada do mar de recordações em que emergira. As maçãs do rosto brilhavam e a gola da camisa estava manchada e húmida. Os lábios ligeiramente entreabertos eram agora percorridos pelo polegar do homem encapuzado.

- D...

Não pôde terminar. Sentiu-se envolvida por um abraço angustiado que transbordava revolta, remorsos, e, sobretudo, medo. Fora o suficiente para a quebrar e fazer brotar todos os soluços que reprimira, trazendo de volta as lágrimas que tão facilmente caiam dos olhos de Hermione. Sabia que ele lutava contra si próprio sempre que se encontrava com ela, que se recriminava e desprezava por tocar em algo tão impuro como uma sangue-de-lama e que no fim acabava sempre vencido por um turbilhão de sentimentos com os quais nunca conseguira lidar. Abraçou-o com força, não importava se o sufocasse. O queixo de Malfoy alojara-se na curva do pescoço gelado onde enterrou a face, sustendo assim a respiração. Durante todos aqueles meses esperara por uma oportunidade como esta. Agora, só faltava o momento ideal.

- Porquê, porquê?… - Hermione chorava como há muito não o fazia. Contudo, não sabia porque chorava; se por ele, com pena, se por ela, com desdém por ter pactuado e dormido com um Devorador da Morte, ou se pela inexistente relação que os uniria durante todo o Inverno passado, com mágoa e alívio por finalmente estar livre.

Desencostara-se da árvore e acalmava lentamente. Aqueles braços, de momento, reconfortavam-na e faziam-na esquecer-se do ermo local que os rodeava e de todos os assuntos e caos que envolviam ambos os lados da guerra que decorria naquele momento e que os separara. Temia por tudo o que decorria à sua volta e passara a temer também inconscientemente a pessoa que a abraçava. Não, mentira. Nunca confiara verdadeiramente nele. Perguntava-se se Draco também a mataria se algum dia assim lho ordenassem, se Draco chegaria ao ponto de matar a própria mãe se assim lho ordenassem…

Enterrou-se mais nos braços de Malfoy. Não queria sequer considerar essas hipóteses obscuras e descabidas, estava a deixar de pensar como uma Gryffindor e isso sim assustava-a de verdade. Ele podia nunca ter tido um cuidado extremoso com Hermione, mas sentira que algo nele a exigia. Podia também ser um Devorador da Morte inteligente, mas não o era mais que ela. Respirou fundo, relaxando. Afinal de contas, Draco era apenas um infeliz perdido no meio de uma grande confusão. Um menino assustado e cobarde que fora arrastado por caminhos sinistros sem poder manifestar as suas opiniões, um desgraçado destinado a cumprir ordens porque era chantageado e não possuía a coragem de se libertar.

Hum? Não possuía a coragem de se libertar?

Abriu subitamente os olhos enquanto os seus músculos se contraíram em instantes. A dor pontiaguda e instantânea que sentiu trouxe-lhe mais lágrimas. Algo se espetara por entre as suas costelas. Procurou por instinto a sua varinha. Não a encontrou. O medo alastrava-se agora também pelo seu corpo.

- D-Draco? – como fora idiota…

- Quieta Granger. – a voz soou rouca nos seus ouvidos enquanto a varinha se cravava nas suas costas. Procurou durante segundos e com desespero pelos olhos cinzentos que a desconcertavam na ânsia de conseguir justificações, mas tudo o que conseguia ver era o enorme capuz. Era então este o seu prémio por se ter deixado levar? Agora sim, tinha a sua resposta. Claro que sim, claro que Draco Malfoy a mataria se assim lho ordenassem… Lamentava que assim fosse. Admitia, apenas para si própria, que a sua ingenuidade a fizera realmente acreditar que o podia mudar, que tinha capacidades para o retirar do negro abismo em que ele se encontrava mergulhado desde que nascera.

O feitiço que Malfoy pronunciou fê-la transbordar de incredulidade e pavor. Guinchou de dor. O turbilhão de agulhas invisíveis que a dilaceravam pareceu enfraquecer após uns torturantes minutos. Reconheceu a luz esverdeada os envolvia.

- N-não, não!- choramingou em pranto.

O feitiço ia aos poucos espalhando-se pelo seu corpo. O que para ela parecia uma eternidade na realidade não passava de uma questão de segundos. Queria lutar, queria gritar novamente e apelar ao bom senso dele, queria manifestar qualquer espécie de emoção no seu rosto, mexer nem que fosse apenas o dedo mindinho do pé. Mas não era possível. Perdia controlo nos membros, no tronco. Sentiu a cabeça descair e uma enorme névoa cinzenta invadindo o seu cérebro. Os olhos fecharam-se e, finalmente, o formigueiro que tomara conta dos seus lábios consistia no último passo do feitiço de que teria conhecimento. Desejava com ardência resistir, desejava tanto como nunca o fizera na sua vida. Ouviu a voz de Malfoy, aparentemente calma e controlada, apesar de rouca e tremida: "Lamento… Hermione".

Sorriria se conseguisse. Era a primeira vez que pronunciava o seu nome próprio, "Hermione". Gostara, era uma boa moeda de troca. Mergulhou num mundo gélido e vazio, onde não sabia se o preto era Escuridão ou apenas a ausência da própria cor. Decidiu que queria que fosse escuridão. Aprendera gradualmente e em segredo a gostar da mesma. Estava confiante. Sabia que algures, longe ou perto de si, ele também estaria envolto naquela mesma escuridão.

Hermione estava completamente imóvel, mas quente. Podia senti-lo nos lábio dela, espremidos contra os seus. Beijara-a e embalara-a cerrando os olhos com demasiada força. Desejava com isso afugentar a dor, mandá-la embora. E, apesar de isso ter resultado com a rapariga nos seus braços, Draco não tivera tanta sorte. Continuava, então, a abraças o corpo inerte, passando as mãos pelos cabelos rebeldes. Não sabia ao certo há quanto tempo ali se encontrava, mas ela deveria estar quase a despertar. Não queria saber o que Hermione pensara enquanto o feitiço a consumia, sabia que era a única opção que lhe restava. Na verdade, estava até satisfeito consigo próprio, dentro do possível.

Bastante satisfeito.

Pela primeira vez na sua vida tomara a iniciativa e fizera o que era correcto, dali em diante ela estaria de certo mais segura. Limpou-lhe o rosto, ainda húmido das lágrimas que chorara de forma descarada. Teria que ser rápido, necessitava regressar ao castelo antes que Granger abrisse os olhos.

Largou-a com cuidado, recostando-a novamente ao tronco em que estivera apoiada. Colocara a varinha na sua mão e afastara-lhe tremulamente um pedaço de cabelo da cara.

Sangue-de-lama insuportável, nunca confiara verdadeiramente nele. Duvidara do que ele sentia por ela. Sentia? Draco sorriu de forma torta e maliciosa. Disso até ele próprio duvidada, não podia sentir nada por ela mas, se pudesse, até que não se importaria de ter deixado aquela luz iluminá-lo um pouco mais.

Há medida que se afastava e enterrava os pés na neve do desconsolado mês de Dezembro, dava por si novamente a ser invadido por gratidão. Confessaria apenas para si que gostara dos momentos que passara com ela. Gostara até de mais. Contudo, isso não seria mais um problema, nem a própria Granger se recordaria disso. Reduzira-se novamente ao desprezível Malfoy que aterrorizava criancinhas. Desprezível mas talentoso o suficiente para realizar um feitiço tão raro e complicado como o que acabara de fazer. Para além de bonito era incrivelmente inteligente, Draco pensava. Os seus olhos brilhavam e espelhavam o céu cinzento. Tinha conseguido protegê-la do Senhor das Trevas e de si próprio e, como bónus, Hermione, sempre tão espertinha e sabichona, não desconfiara de nada, nem sequer tentara afastar o capuz que escondia todos e quaisquer vestígios que o denunciassem.

Nevou.


Continua...


Comentário: Pois bem, é isso mesmo, decidi tornar You Shall Overcome numa longfic graças aos incentivos de nikax-granger e MegAnne Cormack. :) Opiniões, comentários? Deixe uma review e faça-me feliz :D