CAPÍTULO UM

Hinata estava numa das barracas do souk, a feira livre, prestes a regatear com o vendedor uma peça de seda bordada, quando percebeu algo e se virou para ver o que era. Do outro lado da estreita alameda, ela o avistou. Ele usava um disha-dasha branco, o tradicional manto longo, e a luz do sol enfatizava o tom de mel de sua pele e fazia brilhar a faca afiada que trazia presa ao cinto.

Ao perceber que perdera a atenção da compradora, o vendedor informou, olhando naquela direção:

— Ele é da tribo ayghar tuaregue.

Hinata não respondeu. Pelas pesquisas que fizera antes de vir para Zuran, sabia ser essa uma tribo de guerreiros bárbaros que mantinha o mesmo estilo de vida nômade de séculos passados, quando seus membros escoltavam as caravanas de comércio pelo deserto.

Diferentemente dos outros homens de manto, esse trazia a barba e o bigode bem-cortados. Os cílios eram escuros e espessos, os olhos cor de âmbar escuro com manchas douradas transmitiam altivez.

Ele lembrava um perigoso predador que a civilização moderna não conseguiria domar ou reprimir. Era um homem do deserto, que criava seu próprio código moral. Os traços e a postura arrogante a atemorizavam e, ao mesmo tempo, a atraíam.

E a boca era perigosamente sensual!

Hinata estremeceu ao se perceber com esse tipo de pensamento.

Não viera para o reino de Zuran para pensar em homens de lábios sensuais. Ao contrário, fazia parte de uma equipe de cientistas visitantes cuja função era proteger a flora e a fauna naturais da região. Mas não conseguia desviar os olhos daquele homem.

Aparentemente sem percebê-la, o desconhecido olhou para os dois lados da alameda do movimentado bazar. Pelo menos para Hinata, a cena parecia uma visão de uma fantasia árabe. Certamente se comentasse com seu chefe, Orochimaru, ele a ridicularizaria. Mas não queria pensar em Orochimaru. Embora já tivesse deixado claro que não estava interessada nele, que, além de tudo, era casado, Orochimaru se insinuava com investidas desagradáveis e, ao ser rejeita do, a tratava mal.

Só de pensar em Orochimaru, Hinata instintivamente se protegeu nas sombras da barraca. Logo, porém, os olhos cor de âmbar a capturaram, levando-a a se esconder mais ainda, sem analisar o porquê de sua atitude.

Mesmo protegida pelas sombras, Hinata viu que o desconhecido tinha os olhos fixos exatamente onde ela estava. Seu coração batia acelerado, e gotas de suor brotavam em sua pele.

Um grupo de mulheres de manto preto e véu que caminhava pela alameda ficou entre os dois, interrompendo sua visão, e, segundo ela esperava, a do desconhecido também. Depois que as mulheres passaram, Hinata o avistou outra vez, mas era óbvio que perdera o interesse nela, pois já se afastava, cobrindo o rosto todo com a extremidade solta do tecido azul-índigo que lhe envolvia a cabeça, deixando apenas os olhos à mostra, no estilo tradicional dos homens da tribo tuaregue. Depois, de costas para Hinata, o desconhecido entrou por uma porta que havia atrás dele, inclinando a cabeça para poder passar.

Hinata percebeu que a mão que ele apoiava na esquadria da porta era esguia e bronzeada, com dedos compridos e unhas bem-cuidadas. Estranhou. Estudara as tribos nômades do deserto árabe e sua história, inclusive os costumes da tribo tuaregue, famosa pelas roupas azul-índigo. Sabia que não era comum um suposto tuaregue revelar o rosto para o mundo ver, contrariando séculos de tradição, nem ter mãos tão bem-tratadas, que mais pareciam as de um rico homem de negócios.

Hinata sentiu um nó na garganta. Não era uma tola impressionável pronta a acreditar que qualquer homem usando um disha-dasha era um líder poderoso. Também não tinha nenhuma fantasia secreta de fazer sexo na areia com um homem desses! Era uma cientista qualificada de 24 anos de idade! No entanto...

Quando finalmente ele desapareceu pela porta, Hinata suspirou, aliviada.

— Vai querer? É seda de muito boa qualidade... Muito boa mesmo. E está por um ótimo preço.

Disciplinada, Hinata voltou a atenção para a seda. Era muito fina, e o tom de azul combinaria muito bem com a pele corada e o cabelo preto azulado. Como estava sozinha em público, tivera a precaução de afastar o cabelo do rosto e escondê-lo sob o chapéu de aba larga.

Mas num tecido como esse, o corpo semi-revelado pelas camadas transparentes ficaria provocante, e ela poderia soltar os cabelos como se fossem uma nuvem de seda, para o caso de um homem de olhos dourados aparecer e...

Hinata largou a seda como se lhe queimasse os dedos. Quando o vendedor se abaixou para pegar, um grupo de homens uniformizados apareceu na alameda, caminhando a passos largos, empurrando as pessoas que ali se encontravam, dispersando-as. Eles escancaravam portas e arrancavam as coberturas das barracas, nitidamente à procura de alguém, sem se importarem com o estrago que pudessem causar às pessoas e seus pertences.

Por alguma razão que Hinata não pode entender, ela dirigiu o olhar para a porta através da qual o desconhecido desaparecera.

Os homens uniformizados estavam bem próximos.

Atrás dela, a porta se abriu, e um homem saiu para a rua. Era alto, o cabelo escuro, e usava roupas européias — calça de algodão e camisa de linho —, mas Hinata logo o reconheceu e arregalou os olhos de surpresa.

O homem da tribo se tornara um europeu. Começou a caminhar pela alameda, e estava em frente à barraca onde Hinata se encontrava, quando um dos homens uniformizados o avistou e passou por ela apressado, empurrando-a, gritando para ele em inglês e em zuranês.

— Você! Pare!

Hinata viu os olhos pretos do homem da tribo examinarem, procurarem... até que pousaram nela.

— Querida! Finalmente a achei... Eu avisei para não se afastar de mim.

Ele lhe segurou o pulso, e depois a mão, entrelaçando os dedos esguios que Hinata observara há poucos instantes nos seus, como se fossem um casal, segurando-a apertado, de modo que ela não conseguisse soltar. Um sorriso calculado quebrou um pouco da arrogância do semblante. Ele se aproximou mais.

— Não sou sua querida — contestou Hinata, sem conseguir respirar muito bem.

— Comece a andar... — ordenou ele, baixinho, e o olhar duro, intimidador, a aprisionava, enfeitiçando-a com seu magnetismo.

Hinata estava tão irritada que os olhos perolados, geralmente suaves, pareciam feitos de pedra. Mas ao mesmo tempo ela sentia algo muito mais primitivo e perigoso que a entorpecia, enquanto agia segundo as instruções do desconhecido. Ele se aproximou mais ainda e, através da mescla de cheiros de temperos e perfumes, Hinata percebeu o cheiro cítrico discreto da água de colônia cara, e, quando ele se aproximou ainda mais, o cheiro íntimo, levemente almiscarado e muito mais perturbador de seu corpo.

A alameda já estava repleta de homens armados, que abriam as portas das casinholas e derrubavam as barracas, numa busca inquieta de algo ou de alguém!

O clima relaxado e alegre de antes desaparecera. A alameda transformara-se num lugar de vozes elevadas e de um medo quase tangível.

Um grande veículo 4x4, de vidros escurecidos nas janelas, chegou pela alameda destruindo o que tivesse pela frente e afugentando as pessoas, até que parou de súbito, fazendo chiar os pneus. Um homem uniformizado saiu do veículo rodeado de seguranças, e Hinata assustou-se ao reconhecer o ministro do Interior de Zuran, primo do rei, o sheik soberano.

Hinata fitou seu captor, apreensiva, com emoções conflitantes. Ela o vira entrar numa casa do outro lado da alameda vestido de tuaregue, e, a contar por seu comportamento, ele ocultava alguma coisa. O mais certo seria atrair a atenção daqueles homens muito bem armados que ocupavam a alameda para a presença do suposto tuaregue e suas próprias suspeitas, mas... Mas ele tinha um fascínio perigoso que a seduzia... Determinada, Hinata tentou se desvencilhar, mas o desconhecido a deteve e arrastou-a para um espaço estreito e escondido nas sombras da alameda, seus corpos ficaram literalmente colados.

— Não sei o que está acontecendo, mas... — começou ela, corajosa.

— Silêncio. — A ordem fria, sem emoção, foi sussurrada ao seu ouvido.

Hinata procurou se convencer de que tremia tanto de susto e de medo, que não tinha nenhuma relação com aquela perna musculosa colada à sua. O coração do desconhecido batia tão forte que parecia ressoar nos dois corpos, sobrepondo-se à batida do seu próprio coração, subjugando-a, como se provesse a ambos da força vital.

A repentina lembrança de uma dor antiga, aguda, a di lacerou. O amor de seus pais fora assim: total, abrangente e para sempre.

Hinata fez um pequeno ruído, um murmúrio de medo, mas ele reagiu rápido e a puniu.

Segurou-lhe a garganta, bloqueou a visão da rua, e, com um beijo, silenciou qualquer protesto que ela pudesse fazer.

Ele tinha sabor de calor, de deserto e de mil e uma coisas que nele estavam impressas e que eram estranhas para Hinata. E, de certo modo, perigosamente excitantes, reconheceu ela, quando, contra sua vontade, uma força primitiva feminina a dominou.

Seus lábios suavizaram-se e se entreabriram, e o desconhecido aproveitou a deixa, pressionando os lábios contra os seus com mais força, levando-a à loucura ao introduzir a língua impetuosa contra a sua, exigindo sua submissão.

Seu corpo vibrava de excitação. Hinata jamais se imaginara beijando um homem em público com tamanha sofreguidão, em plena luz do dia, que dirá um total estranho.

Ainda estava sendo beijada, quando ouviu vagamente o 4x4 se afastar.

E tão bruscamente que quase a fez cair, o estranho a soltou e a segurou com uma das mãos sem qualquer traço de emoção, e desapareceu na multidão, deixando-a para trás, estupefata, e, pior, com a sensação de ter sido abandonada.

— Sua ALTEZA...

No palácio real, reverências o acompanhavam ao longo do caminho que o levaria à presença do meio-irmão mais velho.

Em frente à sala de audiências, guardas armados abriram pesadas portas duplas folheadas a ouro, o reverenciaram e abriram caminho para sua passagem.

Itachi curvou-se, em sinal de respeito ao meio-irmão, enquanto as portas se fechavam. Embora fossem filhos do mesmo pai, e o carinho que o irmão lhe dedicava não fosse segredo para ninguém, ele era o rei, o sheik soberano de Zuran. Pelo menos em público, devia respeitar sua posição.

Imediatamente o rei se levantou e fez sinal para que Itachi se aproximasse para abraçá-lo.

— É muito bom vê-lo de volta, irmão. Ouvi excelentes elogios a você de outros governantes e de nossas embaixadas nas Américas e na Europa.

— É muita gentileza sua alteza. O crédito é seu por me honrar com a tarefa de garantir que nossas embaixadas tenham o pessoal necessário para levar a cabo seus planos de instituir uma maior democracia.

Sem que fosse preciso dar alguma ordem, uma porta se abriu, e um criado apareceu seguido de outros dois, trazendo um café perfumado.

Depois de servidos, ao ficarem a sós, o soberano quebrou o silêncio.

— Vamos passear no jardim — convidou. — Lá podemos conversar mais livremente.

Atrás da sala de audiências, oculto por uma pesada cortina, havia um jardim privado muito exuberante, onde se ouvia o barulho das águas de inúmeras fontes.

Nem uma poeira quebrava a perfeição dos caminhos em mosaico por onde passavam os dois irmãos, lado a lado, em suas túnicas de um branco imaculado.

— É o que suspeitávamos — anunciou Itachi, em voz baixa, quando eles pararam em frente a um dos muitos lagos de peixes. Inclinando-se para pegar um punhado de alimento numa tigela e lançar na água, ele continuou. — Madara está conspirando contra você.

— Tem provas disso? — perguntou o soberano, bruscamente.

Itachi negou com a cabeça.

— Ainda não. Como sabe, consegui me infiltrar e me juntar ao bando de ladrões e renegados liderados por El Khalid.

O soberano bufou.

— Aquele traidor. Eu deveria tê-lo aprisionado pelo resto da vida, fui tolerante demais.

— El Khalid nunca o perdoou por tê-lo privado de suas terras e propriedades, depois de descobertas suas atividades fraudulentas. Tenho sérias desconfianças de que Madara lhe tenha prometido a reintegração de posse de tudo o que lhe foi tirado, em troca de destroná-lo. Mas, ao que parece, Madara pretende deixar que El Khalid apareça como responsável, pois, obviamente, não lhe interessa ser vinculado ao seu assassinato em hipótese alguma. — Itachi parecia preocupado. — Você precisa ficar atento...

— Estou bem protegido, não tema por mim. Além do mais, todos sabem que Madara me odeia desde quando éramos crianças, portanto ele não ousará me atacar abertamente.

— É uma pena que você não possa bani-lo do reino. O soberano deu uma risada.

— Não podemos fazer nada sem provas concretas, irmão. Agora somos uma democracia, em parte, graças à sua mãe. Devemos agir de acordo com as leis do pais.

Itachi se comoveu diante da referência do meio-irmão a sua mãe, uma liberal entusiasmada. Inicialmente, ela fora contratada para ser educadora do atual governante, mas, enquanto desempenhava suas funções com o jovem aluno, apaixonara-se pelo pai, sendo correspondida.

Itachi era o resultado desse amor, mas não chegara a conhecer a mãe, que morrera de uma febre um mês depois de dar à luz. Antes, porém, fizera o marido prometer quê seu filho seria educado de acordo com sua cultura ocidental.

Em conseqüência da promessa feita no leito de morte da mãe, Itachi fora educado na Europa e nos Estados Unidos, antes de ser nomeado embaixador de Zuran.

— É você quem enfrenta o maior perigo, Itachi — preveniu o soberano. — E, como seu irmão e soberano, não quero que se arrisque tanto.

Itachi deu de ombros.

— Já concordamos que não existe mais ninguém em quem possamos confiar plenamente. Além do mais, o perigo não é tão grande assim. El Khalid já me aceitou como um tuaregue rejeitado pela tribo em razão de atividades criminais. De fato, já comprovei meu valor. Paramos uma caravana de mercadores na semana passada e os aliviamos de suas mercadorias...

O soberano fez uma carranca.

— Quem eram? Quero cuidar para que sejam recompensados, embora ninguém tenha vindo se queixar de algum ataque desse gênero.

— E penso que não o farão — disse Itachi, com ironia. — Primeiro, o ataque aconteceu no quarteirão vazio, depois da fronteira de Zuran, onde El Khalid tem sua base; segundo, a mercadoria consistia em dinheiro falso.

— Ah, por isso não deram parte.

— Embora El Khalid se vanglorie de estar envolvido com alguém muito importante, ainda não vi Madara, nem seus homens, o contatarem. No entanto, se Madara planeja assassiná-lo durante uma das suas aparições públicas no Dia Nacional, como suponho, precisará se encontrar com El Khalid em breve. Coincidentemente, El Khalid espalhou a notícia de que pretende convocar uma reunião importante, da qual todos nós deveremos participar, mas ainda não informou quando, nem onde.

— E você acha que Madara estará presente?

— É provável. Ele deve ser o responsável pela agenda da reunião, e vai querer se assegurar de que os homens escolhidos para acompanharem Khalid numa missão de assassinato sejam confiáveis. Obviamente, Madara não arriscará usar nenhum de seus homens, portanto... Sim, creio que ele estará presente. E eu também estarei.

O soberano não gostou de ouvir aquilo.

— Não tem medo que Madara possa reconhecê-lo?

— Disfarçado de tuaregue? — Itachi sacudiu a cabeça negativamente. — Duvido. Os tuaregues cobrem o rosto.

O soberano ainda parecia preocupado.

— E então, alteza, está contente com o andamento da obra do complexo do novo hotel? Em visita às nossas embaixadas, ouvi muitos elogios às condições turísticas do país — anunciou Itachi, ao mesmo tempo prevenindo o meio-irmão com um olhar de cautela, ao ouvir passos se aproximando.

As folhagens se afastaram para revelar a figura pequena e troncuda, mas poderosa, do homem de quem acabavam de falar. Ele se aproximou, os dedos cobertos de anéis pesados, incrustados com pedras preciosas. O olhar venenoso pousou primeiro em Itachi, depois no soberano. Ignorando Itachi totalmente, ele se inclinou para reverenciar o governante.

— Madara — saudou o rei com frieza. — O que o traz aqui? Não é sempre que se afasta de seus deveres como nosso ministro do Interior para nos fazer uma visita social.

— Estou muito ocupado, é verdade! — respondeu Madara, com arrogância.

— Eu soube que houve um tumulto no souk hoje cedo — comentou Itachi.

Imediatamente, Madara dirigiu-lhe um olhar desconfiado.

— Não foi nada importante... Um ladrãozinho insignificante causando confusão.

— Um ladrãozinho insignificante? Mas você foi resolver pessoalmente!

— Por acaso estava por perto. E o que você tem a ver com a maneira como cuido das minhas responsabilidades?

_ Nada além do interesse de um cidadão preocupado _respondeu Itachi, cortês.

Os lábios franzidos, Madara voltou-lhe as costas e dirigiu-se ao soberano.

— Pelo que entendi, sua alteza preferiu ignorar meu conselho e não ter a escolta armada de minha guarda pessoal para garantir sua segurança durante as celebrações do Dia Nacional.

— Agradeço sua preocupação, primo, mas não devemos esquecer nosso dever para com o povo. Os convidados de outros países, especialmente aqueles que deverão apoiar nossa crescente indústria de turismo, não se sentirão seguros quanto à estabilidade da nossa nação se pensarem que o governante não pode se misturar ao próprio povo numa ocasião de alegria, sem a proteção de guardas armados.

— Além do mais — acrescentou Itachi, suavemente, no silêncio tenso que se seguiu às palavras do soberano —, devemos sempre nos perguntar, quem cuidaria dos guardas?

Uma expressão de ódio tomou conta do rosto de Madara.

— Se está sugerindo... — começou ele, furioso.

— Não estou sugerindo nada — interrompeu-o Itachi, friamente. — Só me referi a fatos.

— Fatos?

— Já está provado que a presença de um grupo armado pode transformar incidentes relativamente pequenos em situações fora de controle. Estou certo que nenhum de nós gostaria de ter de explicar ao embaixador de alguma outra nação que um de seus conterrâneos foi morto por um guarda mal treinado que se entusiasmou demais.

— Conversaremos sobre isso em particular, primo — disse Madara, irritado, dirigindo-se ao soberano, propositalmente ignorando Itachi, ao fazer uma breve reverência e sair.

O sheik soberano franziu o cenho ao trocar olhares com o meio-irmão mais jovem.

— Nosso primo esquece que deve respeito a você — disse ele, sem esconder o descontentamento.

Itachi deu de ombros.

— Ele nunca escondeu que não gosta de mim, nem de minha mãe.

— E de nosso pai? Ele foi o maior governante que este país já teve! Madara deveria se lembrar disso! Infelizmente, nosso pai e eu só viemos, a saber, muito depois que Madara o maltratava quando você era criança.

— Aprendi a lidar com isso, e também com ele.

— Ele e o pai odiavam a sua mãe. Não lhes agradava a influência que ela tinha sobre nosso pai. E depois, quando se casaram...

— Madara não gosta de mim, mas é você que ele almeja destronar — assinalou Itachi, secamente. — Preciso voltar para o deserto, antes que minha ausência provoque comentários. Temia que Madara tivesse suspeitado de mim, ao ver seus homens virarem o souk do avesso à minha procura, mas depois percebi que estavam atrás de outro tuaregue!

— Oficialmente, você só veio a Zuran de passagem e partirá esta noite para aproveitar um merecido descanso. É pena que não tenha tempo para examinar nossos novos empreendimentos. A primeira fase da marina está quase pronta. Ah, quase me esquecia, suas éguas deram belas crias.

Itachi sorriu os dentes muito brancos contrastando com a pele dourada. O soberano era famoso no mundo inteiro por seu envolvimento com corridas de cavalos.

Quando os dois irmãos já voltavam para o interior do palácio, o rei virou-se para Itachi, muito sério.

— Não tenho certeza se devo permitir que faça isso. Gosto muito de você, irmão. Mais do que imagina. Sua mãe foi quase uma mãe para mim. Ela me apresentou um mundo de conhecimento. Foi por sua influência que nosso pai começou a pensar num futuro a longo prazo para nosso país. Quando ela morreu, ele não teve mais vontade de viver. Perdi os dois, e não quero perdê-lo também.

— Nem eu a você — respondeu Itachi, com firmeza, ao se abraçarem.

— Olá, gata! Quer sair comigo esta noite? Soube que sua alteza está oferecendo uma grande recepção para celebrar o começo da estação das corridas de cavalos. Depois, poderemos ir a algum clube.

O convite animado que Hinata recebia do fotógrafo solteiro do grupo a fez sorrir. Kiba Inuzuka era um galanteador incorrigível, mas era impossível não gostar dele.

Ela sacudiu a cabeça, negando. Mas antes que Hinata pudesse dizer qualquer coisa, Orochimaru interveio, abruptamente:

— Estamos aqui para trabalhar, e não para socializar, e é bom não se esquecer disso, Kiba. Além disso, amanhã acordaremos cedo.

No silêncio que se seguiu à explosão do chefe da expedição. Kiba fez uma careta para Richard, sem que ele visse.

Embora muito qualificado, Orochimaru não era nada popular entre os integrantes da equipe. Mas Hinata era quem mais sofria.

— Ele é horrível — comentou a outra mulher do grupo, Sakura Haruno, naquela noite, sentada na beira da cama de Hinata.

A luxuosa vila privada colocada à disposição da equipe fora construída segundo as tradições do lugar. Mulheres e homens tinham aposentos separados, e havia uma acomodação adicional para os funcionários.

No início, Hinata achou estranho ela e Sakura ficarem trancadas em seus aposentos durante a noite. Agora, porém considerando os avanços indesejáveis de Richard, estava muito feliz por ter de adotar os costumes do país.

— Tenho pena da mulher de Orochimaru — admitiu Hinata.

— Eu também! Embora ele não goste quando a mencionamos. Já percebeu como ele está obcecado por você?

— Ao ver o olhar apreensivo de Hinata, Sakura teve piedade e acrescentou: — Talvez chamar de obsessão seja um exagero, mas sem dúvida ele está determinado a levá-la para a cama.

— Talvez, mas não conseguirá — assegurou Hinata.

— Posso suportar as investidas de orochimaru, mas quando ele começa a usar a posição de chefe da expedição para me punir por rejeitá-lo, começo a me preocupar. Este é o meu primeiro emprego, e estou em fase de experiência.

— Procure não deixar que ele se aproxime — aconselhou Sakura, sufocando um bocejo. — Vou dormir. O dia foi longo e, como Orochimaru lembrou, amanhã começaremos antes do amanhecer.

Hinata sorriu. Pessoalmente, estava ansiosa pela expedição que examinaria uma das cadeias de montanhas do deserto, conhecidas como ravinas.

JÁ deveria estar dormindo. Fazia uma hora que estava na cama, mas, toda vez que fechava os olhos, confrontava-se com a imagem perturbadora do homem de olhos dourados, como o nomeara secretamente.

E não só a cor dos olhos dele estava gravada em sua memória. Seu corpo estremecia com a mesma violência e delicadeza com que dedos fortes puxam as cordas de uma lira.

"Isso é ridículo", pensou. Uma mulher de 24 anos, com doutorado em bioquímica, não podia ter uma reação Ia e primitiva a um total estranho — e muito provavelmente um criminoso!

Mas os dedos já buscavam na curva suave dos lábios a marca deixada por ele. E ela relembrou cada emoção daquele momento.

Irritada, Hinata procurou negar o que sentia. E recordou o passado... Seus pais tinham sido um casal de cientistas totalmente dedicados um ao outro. Assim viveram e morreram juntos, quando o sítio que escavavam desmoronou sobre seus corpos.

Na ocasião, Hinata estava com 17 anos. Já não era criança, mas também não era uma adulta. Como seus pais não tinham irmãos, ela ficou sem nenhuma família.

Quando se viu órfã e totalmente só, Hinata sentiu uma grande necessidade de ter alguém que a amasse e a completasse, mas também teve medo de sua fragilidade e da vulnerabilidade que esses sentimentos lhe causavam.

Imatura e amedrontada, ela os enterrou bem fundo dentro de si. Concentrou-se nos estudos, permitindo-se fazer amigos, mas com cautela, sem abrir muito a guarda.

Aos 24 anos, considerava-se bem-ajustada e emocionalmente madura, mas agora... O que sentia pelo desconhecido demonstrava o oposto.

"Analisemos a situação", pensou ela, determinada.

"Você está num país estranho, com costumes muito diferentes, um país que sempre a fascinou e a entusiasmou, a ponto de viajar para cá, e, antes, de estudar zuranês. Além disso, diante daquela situação incomum, sua adrenalina subiu. E evidente que isso a afetaria", concluiu.

"Mas a ponto de reagir sensualmente a um estranho, um homem a quem, segundo tudo indicava, ela deveria temer?", rebateu a si mesma.

"Todos podem errar", pensou, tentando se consolar. E era improvável que voltasse a vê-lo. Mas Hinata não quis pensar no quanto essa constatação a deprimia.