Lynne Graham

Adaptação.

Personagens pertencentes a Lynne Grahame e Stephenie Meyer

Historia pertence a Lynne Graham.

Desertos, montanhas, castelos... e um príncipe fascinante!

Isabella estava desesperada para impedir sua deportação da Jordânia, e só Edward, a quem tentara desesperadamente esquecer, podia ajudá-la.

Estivera envolvida com ele dois anos antes, mas não fora capaz de lidar com um homem tão orgulhoso e passional.

Isabella tinha de permanecer na Jordânia. Entretanto, a renovação da "amizade íntima" com Edward teria seu preço... e o preço estipulado por ele foi o casamento.

A Noiva do Deserto

Lynne Graham

CAPITULO I

Isabella estava espantada com a opulência do aeroporto. Os acres de piso de mármore, os lustres de cristal e a preponderância dos adereços de ouro a ofuscavam.

— Impressionante, não? — Mike Newton comentou enquanto esperavam na fila de verificação do visto. — Há cinco anos isso aqui era apenas uma pilha de blocos de concreto de onde se podia ver as dunas de areia. O Rei Carlisle extraía petróleo, mas sonegava os lucros. Sua attitude sovina causou muito ressentimento, não só entre os trabalhadores locais, mas entre os estrangeiros,

também. As condições eram realmente primitivas.

O empresário americano embarcara no avião na escala em Dubai, e desde então não havia parado de falar um instante sequer. A companhia ajudara Isabella a esquecer temporariamente o fato do chefe de seu departamento ter exigido que viesse desenvolver sua pesquisa nessa região do Oriente Médio. Não fosse por isso, jamais teria posto os pés na Jordânia!

— Quando o Rei Carlisle caiu doente, o príncipe coroado, Edward, assumiu o poder. — Newton prosseguiu, sem notar a súbita palidez de Isabella. — Ele é bem diferente de seu antecessor. Conseguiu resumir cinqüenta anos de modernização em cinco, e transformou a sociedade local...

O rosto dela transformara-se numa máscara de gelo, os cabelos volumosos, encaracolados e achocolatados escondendo o pânico que se estampava em seus olhos marrons. De repente queria que Mike se calasse. Não queria saber notícias sobre o príncipe Edward Anthony Masen Cullen, nem admitiria que seus caminhos haviam se cruzado de maneira inesquecível durante a rápida passagem do dele pela universidade.

— E as pessoas o adoram. Edward é uma espécie de herói nacional, e os súditos o chamam de Espada da Verdade. Mencione a palavra democracia e eles ficam enfurecidos! Começam a falar sobre como o príncipe os salvou da guerra civil durante a rebelião, como assumiu o comando do exército, e assim por diante. O orgulho que sentem pelo chefe político é tão grande, que chegaram a fazer um filme sobre ele!

— Posso imaginar. — Isabella comentou com voz agoniada e amarga.

— É como estou dizendo. — Mike suspirou admirado. — Embora esse culto construído em torno do sujeito possa ser sufocante, ele é um homem e tanto! A propósito, quem virá buscá-la? — perguntou, mudando de assunto repentinamente.

— Ninguém. — Isabella murmurou, torcendo para que o monólogo sobre Edward houvesse terminado.

— Mas... está viajando sozinha!

Isabella respirou fundo, contendo a irritação. Na verdade, chegara ao aeroporto de Gatwick acompanhada pelo assistente de pesquisa que viajaria com ela, mas o pobre rapaz tropeçou numa valise deixada no caminho e acabou fraturando o tornozelo. Havia sido horrível abandoná-lo no saguão, aos cuidados dos médicos do aeroporto, mas o trabalho tinha a precedência.

— E daí? Por que o espanto?

— Como conseguiu o visto? — Mike perguntou, subitamente sério.

— Da maneira habitual. Qual é o problema, afinal?

— Talvez nenhum. — o americano encolheu os ombros com desconforto evidente, desviando os olhos dos dela. — Quer que eu fique com você, caso haja algum contratempo?

— É claro que não! E não vejo por que haveria algum contratempo.

Mas houve. Mike acabara de afastar-se com um aceno preocupado quando o oficial examinou seu visto e perguntou:

— Sr. Tyler Crowley? Isabella franziu a testa.

— De acordo com seu visto, está viajando acompanhada por um cavalheiro. Onde está ele?

— O Sr. Crowley não pôde embarcar. — ela explicou exasperada.

— Então está viajando sozinha, doutora Swan ? — A maneira como enfatizara o título indicava que não dava muito crédito a validade de seu doutorado, o que não a surpreendia.

As meninas só haviam conquistado o direito à educação legal num passado muito recente, e o conceito de uma mulher com educação superior soava tão normal quanto a presença de um marciano para a maioria dos homens do lugar.

— Algum motivo pelo qual não deveria estar? — Isabella perguntou irritada.

O oficial puxou-a para o lado, o que só serviu para atrair a atenção de mais gente.

— Seu visto não tem validade. — ele informou, fazendo um sinal para os dois guardas uniformizados que já olhavam em sua direção. — Não pode entrar na Jordânia. Retornará ao Reino Unido no próximo vôo disponível. Se não possui a passagem de volta, faremos questão de arcar com todas as despesas.

— Mas... por que não posso entrar no país?

— Obteve o visto através de informações mentirosas. — o oficial explicou com ar severo, antes de dirigir-se aos dois guardas em árabe.

— Informações mentirosas? — Isabella repetiu, incapaz de acreditar no que ouvia.

— A polícia do aeroporto a manterá sob custódia até que possa embarcar de volta ao seu país.

Os policiais já se aproximavam com evidente curiosidade. Nem mesmo a incredulidade e a raiva por estar sendo ameaçada de deportação eram maiores que a indignação provocada pelos olhares insolentes e abertamente sexuais. As vezes acreditava que a natureza tentara divertir-se ao brindá-la com tantos atributos físicos. Com a opinião que tinha sobre o sexo oposto, devia ter nascido feia e sem graça, em vez de vir ao mundo com um rosto, um corpo e cabelos que enviavam a mensagem oposta àquela que gostaria de lançar ao mundo.

— Está cometendo um grave engano. — Isabella insistiu, erguendo os ombros para encarar o oficial. — Exijo falar com seu superior! Meu visto foi emitido pela embaixada jordaniana em Londres, e... — Ninguém a escutava, e os policiais aproximavam-se com o objetivo de tirá-la do saguão do aeroporto à força.

Uma sensação nova a invadiu. Era medo, puro e simples! Pânico! Respirando fundo, tentou controlar-se e lançou mão da única tática defensiva de que dispunha.

— Gostaria que soubesse que sou amiga pessoal do príncipe Edward!

O oficial, que já se preparava para atender o passageiro seguinte, virou-se e encarou-a com olhos arregalados.

— Nós nos conhecemos quando ele estudava na Inglaterra! — Seu rosto queimava de constrangimento e raiva por ter sido obrigada a recorrer a uma técnica tão antipática para ser ouvida. Erguendo o queixo, sustentou o olhar do oficial que, perplexo, parecia hipnotizado pelo reflexo das luzes em seus cabelos avermelhados.

De repente ele gaguejou alguma coisa incompreensível, retrocedeu um passo e, pálido, falou algumas palavras em árabe para os dois policiais. Choque e horror sucederam-se em suas expressões e eles também retrocederam, como se alguém encostasse um machado em seus peitos.

— Você é ela. — o oficial sussurrou, investindo as palavras com um significado peculiar.

— Ela quem? — Isabella perguntou, surpresa com o efeito provocado pelo anúncio.

O árabe disse algumas palavras rápidas em seu rádio e retirou um lenço do bolso para enxugar a testa suada.

— Deve ter havido algum terrível e imperdoável engano, doutora Swan.

— Meu visto?

— Não há problema algum com ele. Por favor, venha por aqui. — ele convidou, começando a recitar desculpas efusivas.

Minutos depois um tipo com ar de executivo apresentou-se como Harry clearwater, responsável pelo aeroporto. Tenso, também se desculpou pelo episódio que qualificou como lamentável mal-entendido e insistiu em levá-la a uma sala VIP, onde deveria esperar até que sua bagagem fosse retirada do avião. Todos eram tão servis que a situação tornava-se embaraçosa!

E pensar que a última coisa que queria era chamar atenção para essa rápida e discreta viagem de estudos e pesquisa! Por que não ficara de boca fechada? A referência a Edward for a provocada por um vergonhoso ataque de pânico. Por que diabos não permanecera calma e usara argumentos lógicos para desfazer a impressão de algum erro em seu visto? E por que toda essa confusão por estar viajando sozinha?

Quinze minutos mais tarde o responsável pelo aeroporto reapareceu e levou-a para fora... para um tapete vermelho que não estivera ali quando entrara! Isabella começou a sentir-se realmente constrangida, a tensão alcançando níveis quase incontroláveis. O tratamento VIP a espantava. Todos olhavam para ela, e o aeroporto todo havia sido tomado por um clima de expectativa e ansiedade que não conseguia compreender.

Só podia tratar-se de um caso de erro de identidade, Isabella decidiu, tentando manter a compostura. Quem pensavam que fosse? Ou o fato de conhecer Edward já era suficiente para garantir toda essa atenção?

Como fora idiota ao dizer-se amiga do príncipe... especialmente porque mentira! Ainda lembrava o último e explosivo encontro com o príncipe, e a recordação tinha o poder de provocar uma dor tão intensa quanto a que sentira na época. Escapara por pouco. Quase fizera um terrível papel de tola, mas pelo menos ele jamais soubera. Não tivera essa satisfação...

Uma dúzia de policiais perfilados a aguardavam na calçada banhada pelo sol escaldante, e Isabella empalideceu. O calor intenso tornava sua pele úmida sob a blusa de algodão bege e a calça comprida, que escolhera com base na praticidade. De repente, a rápida e discreta viagem escapara ao seu controle.

— Sua companhia, Doutora Swan. — Harry Clearwater estalou os dedos para um policial que se adiantou e abriu a porta da viatura de polícia parada junto à calçada. No mesmo instante uma jovem aproximou-se, colocou um imenso buquê de flores em seus braços e agarrou uma de suas mãos, beijando-a.

— Allah akbar... Deus é grande! — o responsável pelo aeroporto exclamou, sendo imediatamente acompanhado por várias vozes masculinas.

A essa altura Isabella já estava encolhida no banco traseiro da viatura. Estava numa terra de loucos! Sabia que esse tipo de idéia não combinava com sua formação de antropóloga treinada para entender diferenças culturais, mas era cada vez mais difícil controlar o pânico e a irritação provocados pelo estranho tratamento que recebia desde que descera do avião.

O motorista partiu, e duas outras viaturas vieram logo atrás, as sirenes ligadas e as luzes acesas. O bom senso oferecia a mais óbvia explicação. Harry Clearwarter ficara tão assustado com o engano cometido no aeroporto, que não, poupava esforços para retratar-se ao saber que era amiga do príncipe coroado.

Resumindo, toda essa confusão tinha o objetivo de salvar as aparências e demonstrar respeito pela família real. Por isso merecera uma escolta policial para acompanhá-la ao hotel onde fizera reservas, nos limites da cidade. Tudo muito exagerado, mas tinha de entender que não estava em Londres. A Jordânia era um reinado feudal, com uma cultura que só havia saído das trevas da Idade Média muito recentemente.

A cidade de Amã passava pela janela do automóvel como num filme. Arranha-céus ultra modernos e centros comerciais completos misturavam-se às mesquitas antigas e suas paredes caiadas, o velho e o novo numa convivência pacífica.

Quando deixaram a área urbana da pequena cidade para trás, a estrada seguiu em frente cortando a paisagem desolada das planícies desérticas. Isabella inclinou-se para enxergar melhor aquela espécie de fortaleza de pedras que se erguia no meio do vazio, alguns metros adiante. O motorista falava com voz excitada num pequeno rádio de comunicação, dividindo sua atenção entre o volante do automóvel e o equipamento eletrônico.

Isabella estava na beirada do assento, rezando. De repente, o motorista saiu da estrada e atravessou os portões da fortaleza, onde mais de dez membros das tribos do deserto montavam guarda. Todos brandiam metralhadoras. O motorista freou com tanta violência que ela caiu entre o banco e o assento dianteiro. Ao ouvir os estalos das armas letais, Isabella cobriu a cabeça com os braços e encolheu-se, esperando a rajada que certamente os mataria. Então a porta se abriu.

— Doutora Swan? — uma voz inexpressiva perguntou. Isabella ergueu a cabeça e deparou-se com o olhar penetrante de um cavalheiro árabe com uma espessa barba negra.

— Sou Emmett...

— As armas... — ela gaguejou.

— Os guardas do palácio precisam se precaver contra possíveis emboscadas. Ficou assustada? Por favor, aceite minhas desculpas em nome do corpo de segurança.

— Oh... — Sentindo-se ridícula, ela ergueu o corpo e saiu do carro; só então as palavras do árabe fizeram algum sentido. — Guardas do palácio? Isso aqui não é um hotel?

— Não, Doutora Swan. Este é o palácio real. — Emmett sorriu. — O príncipe Edward solicitou que fosse trazida para cá o mais depressa possível.

— O príncipe...? — Isabella repetiu desesperada.

Mas Emmett já caminhava na direção da enorme fortaleza, evidentemente esperando que ela o seguisse.

O responsável pelo aeroporto devia ter entrado em contato com Edward para relatar sua chegada. Mas por que o príncipe a traria ao palácio? Depois de como haviam se separado dois anos antes, era impossível que quisesse vê-la novamente! A certeza de ser a fantasia de todas as mulheres não preparava um príncipe para a amarga experiência de ver seus avanços detidos. No final do

último e estressante encontro, Isabella ficara com a certeza de que Edward sentira-se mortalmente ofendido por ter se recusado a aceitá-lo como amante.

Planejara as palavras com que o repeliria antecipadamente, usando todo o tato de que dispunha. Já ouvira falar no famoso orgulho árabe, e esforçara-se muito para evitar uma situação delicada. Mas Edward perdera a cabeça e provocara uma resposta igualmente explosiva.

Atordoada, Isabella seguia o árabe através do hall imponente cercado por colunas de mármore. O ambiente exótico só aumentava a sensação. Pequenos mosaicos formavam complexos padrões geométricos em tons de verde, ocre e azul, cobrindo cada milímetro das paredes e do teto. O efeito era estonteante, a mistura de belo e antigo. Um som abafado chamou sua atenção.

Uma risada... um sussurro? Erguendo a cabeça, viu a cortina entalhada mishrabiyyah que acompanhava toda a extensão da galeria no segundo andar. Por trás da efetiva, embora delicada, barreira de filigrama, podia vislumbrar movimentos, impressões voláteis de cores explosivas, e ouvia risos infantis e quase femininos, sussurros excitados que brotavam de gargantas delicadas

para serem silenciados em seguida. Um odor almiscarado chegou às suas narinas.

Uma pequena janela ligando o harém ao mundo exterior? Isabella empalideceu e parou, tomada de assalto por uma violenta pontada de dor. A tese com a qual conquistara o doutorado e a cadeira que ocupava atualmente numa conceituada universidade falava sobre a supressão dos direitos femininos no Terceiro Mundo. Não estava no Terceiro Mundo mas, mesmo assim, a terrível

ironia da atração quase incontrolável por Edward incendiara seus princípios dois anos atrás. As colegas riram e mostraram-se chocadas quando ele fora procurá-la... um príncipe árabe com duzentas concubinas num harém instalado em seu palácio!

— Doutora Swan! — Emmett chamou.

Assustada com o poder das lembranças, Isabella voltou a segui-lo. No final do longo corredor, dois membros das tribos montavam guarda junto às altivas portas duplas de Madeira entalhada. Usavam as espadas cerimoniais, mas carregavam metralhadoras. A um sinal de Emmett, eles empurraram as portas, que se abriram para um magnífico salão de audiências. O mais velho retrocedeu um passo, deixando claro que seu papel de acompanhante encerrava-se ali.

Do outro lado do salão, raios de sol penetravam pelas portas abertas para um pátio interno, diminuindo a penumbra e realçando a riqueza e o esplendor do ambiente. Os saltos de suas sandálias faziam um barulho irritante no chão brilhante. Isabella hesitou, o coração batendo acelerado ao olhar para o trono vazio, forrado de almofadas de cetim. De repente uma incrível excitação a invadiu e ela sentiu a presença antes mesmo de vê-lo, aquela assustadora mistura de pavor e antecipação que, dois anos antes, transformara sua vida tão calma e organizada no mais completo caos.

— Doutora Livingstone, presumo?

O tom aveludado a fez virar-se. Lá estava ele, parado na soleira do pátio interno. A personificação do macho medieval e da beleza moderna, Edward Anthony Masen Cullen, príncipe da Jordânia, o exemplo de masculinidade selvagem do Oriente.

— Essa roupa estaria completa com um chapéu de caça — Edward comentou com tom divertido e relaxado, fazendo-a sentir-se tola em seus trajes práticos.

Isabella não conseguia desviar os olhos do homem que caminhava em sua direção com movimentos fluidos e graciosos. Belo, exuberante... terrivelmente exótico. Com aqueles traços duros e bem definidos, o rosto claro e a pele de suavidade impecável, parecia ter saído de uma antiga tapeçaria oriental. Era muito alto para os homens de sua raça. Envolto pelo roupão de linho claro, o turbante preso por um duplo cordão dourado e azul, Edward a fitava com olhos que eram verdes como esmeraldas.

Isabella teve de fazer um enorme esforço para não retroceder.

— Está muito quieta... — ele comentou. — Parece chocada... O bárbaro finalmente aprendeu seu idioma.

Pálida, ela se encolheu como se uma estaca houvesse sido cravada em seu peito.

— Por favor...

— E também aprendeu a usar os talheres ocidentais.

De cabeça baixa, tentou lutar contra a angústia que ameaçava dominá-la. Então Edward acreditara realmente na importância de detalhes tão banais? Deixara-se comover quando, orgulhoso, ele tentara ajustar-se a um mundo cuja existência seu pai tentara negar.

— O bárbaro só não aprendeu uma de suas lições. — Edward murmurou.

— Não precisei empenhar-me porque sempre conheci as mulheres, e ainda penso da mesma maneira, apesar de dois anos terem se passado. Não a abordei movido por minha arrogância primitiva e machista, mas pelo convite que li em seus olhos...

— Não!

—Ânsia... desejo... necessidade. Os lábios rosados diziam não, mas os olhos chocolates imploravam para que eu persistisse. Alimentei seu ego, Doutora Swan? O jogo de provocação a excita?

Assustada ao descobrir que ele recordava cada palavra pronunciada dois anos antes, Isabella ficou imóvel. Então ele sempre soubera! Tivera certeza de que, num nível sombrio e secreto, também o desejara e quisera, apesar de todos os protestos em contrário. Pior, Edward interpretara sua recusa da maneira mais ofensiva possível. Uma provocadora...? Assexuada, fria e frígida eram adjetivos mais familiares aos seus ouvidos.

— Se acredita que fiz um jogo, lamento ter dado essa impressão. Não foi intencional — respondeu tensa, os olhos fixos no chão. Talvez devesse esse momento a Edward. Finalmente ele diria as palavras que a raiva o impedira de pronunciar num idioma estrangeiro e quase desconhecido havia dois anos.

O silêncio prolongou-se, e Isabella pôde sentir a frustração que o dominava. Edward queria que respondesse, que oferecesse resistência e argumentação. Estranho como conseguia saber exatamente o que se passava naquele cérebro diabólico e poderoso. Mas discutir prolongaria a agonia, e preferia escapar o mais depressa possível do perfume de sândalo que tantas recordações despertava.

— Posso ir agora? — ela sussurrou, temendo sucumbir sob o peso da tensão e da ansiedade.

— Olhe para mim.

— Não...

— Olhe para mim!

Os olhos de Isabella encontraram outros, verdes e penetrantes, e de repente ela parou de respirar. O coração batia como um tambor africano, e uma tontura intensa e inesperada ameaçou derrubá-la. Edward bateu palmas duas vezes, e o som foi como uma explosão no silêncio profundo.

— Agora tomaremos chá e conversaremos — ele anunciou com simplicidade.

— Acho que não...

Três mulheres surgiram do nada, cada uma delas carregando uma bandeja com xícaras, bules e uma variedade de petiscos delicados. Certa de que seria inútil discutir, ela acomodou-se no tapete, diante da graciosa mesa de mogno, e recostou-se contra as almofadas de cetim alinhadas junto à parede, as memórias desfilando diante de seus olhos nublados.

Apaixonara-se por ele. Deixara-se fascinar por cada detalhe de Edward, ingênua como uma adolescente, apesar dos vinte e dois anos de idade. Ele fora seu primeiro amor, uma obsessão que a atingira como um raio, especialmente porque já não dispunha da velocidade de recuperação de uma garota de dezesseis anos. Fora arrogante ao supor que a superioridade intelectual a protegeria contra certos impulsos hormonais e uma imensa imaturidade emocional, e Edward reduzira suas crenças tolas a cinzas.

— Houve uma certa confusão a respeito do meu visto no aeroporto... caso contrário, não teria mencionado seu nome. — Isabella disse num impulso, contrariando a própria natureza sempre tão racional. Perto de Edward, não conseguia nem se reconhecer.

— Seu visto foi anulado.

— O que disse? — ela espantou-se, deixando a xícara de chá sobre a mesa.

— Mulheres jovens devem atender a certas exigências para receber seus vistos: hospedaremse com alguma família jordaniana, estarem de posse de um contrato de trabalho ou viajarem com um parente ou colega do sexo masculino. Seu visto estabelecia que estaria acompanhada, e você chegou sozinha. Foi esse fato que invalidou seu documento.

Bethany ergueu o queixo, os olhos brilhando de indignação.

— Então discriminam as mulheres fazendo listas de regras ridículas...

— As vezes a discriminação pode ser um ato positivo.

— Nunca!

— Está me obrigando a ser grosseiro — Edward respondeu impaciente. — Um influxo de prostitutas não traria nenhum benefício à nossa sociedade.

— Prostitutas? — ela repetiu atônita.

— Nossas mulheres devem se casar virgens: Caso contrário, ninguém a aceitará como esposa, e sua família será desonrada. Numa sociedade com tais regras, a profissão mais antiga do mundo pode florescer num piscar de olhos, mas não tínhamos problemas desse tipo até distribuirmos vistos de entrada com liberalismo excessivo.

— Está tentando me dizer que aquele sujeito do aeroporto confundiu-me com uma...?

— A outra categoria de mulheres que procuramos excluir é a das chamadas aventureiras trabalhadoras, se é que me entende.

— Receio que não.

— Mulheres jovens chegam ao nosso país com o único propósito de trabalhar. Elas procuram se divertir nas boates que proliferam nas cidades. Lá essas jovens vestem-se, bebem e comportam-se de maneira perfeitamente aceitável em outras civilizações, mas esse mesmo comportamento é visto com outros olhos pelos homens daqui. Uma porcentagem considerável dessas mulheres jamais volta para casa. Permanecem em nosso pais em condições ilegais e

transformam-se em amantes de quem puder oferecer um estilo de vida luxuoso e confortável.

— Francamente, não acredito que me pareça com uma delas! A propósito, agradeço as explicações, mas acho que já é hora de mandar alguém me levar ao hotel.

— Mulheres sozinhas de sua idade não são aceitas como hóspedes em nossos hotéis.

— Não entendi — Isabella sussurrou temerosa.

— Nenhum hotel aceitará hospedá-la quando apresentar-se sozinha. Se não a houvesse trazido para cá, já estaria voando de volta ao Reino Unido.

— Mas isso é ridículo! Não tenho culpa pela fratura que impediu meu assistente de embarcar!

— É uma pena — Edward sorriu, deixando claro que não pretendia ajudá-la a solucionar as pequenas dificuldades burocráticas da tumultuada viagem.

Isabella empurrou a xícara com um sorriso forçado.

— Escute, vim aqui para realizar uma pesquisa importante e séria...

— Seu trabalho sempre foi muito sério — ele apontou com ironia.

— Estou aqui para pesquisar a cultura nômade. — Um assunto completamente sem graça.

— Sem graça? — ela espantou-se. Esperava que sua formação cultural o levasse a tratar o assunto com o devido respeito.

— Li sua tese sobre a supressão dos direitos femininos.

— Leu minha tese? — Isabella surpreendeu-se mais uma vez.

— Por isso decidi oferecer-lhe uma oportunidade num campo de pesquisa que vai torná-la famosa no mundo acadêmico quando retornar ao ocidente.

— Que campo? — ela quis saber, a testa marcada por uma ruga profunda.

— Trata-se de um estilo de vida jamais revelado ao escrutínio de uma antropóloga ocidental. Sinto-me como Papai Noel, para ser bem franco — o príncipe sorriu.

— Quer fazer o favor de ir direto ao ponto?

— Se insiste... Uma estadia prolongada em meu harém não só proporcionaria amplo material de pesquisa, como me daria a tão esperada oportunidade de ensinar a você o que é ser uma mulher.

E ai o que acharam?