Lynne Graham

Adaptação.

Personagens pertencentes a Lynne Grahame e Stephenie Meyer

Historia pertence a Lynne Graham.

A Noiva do Deserto

Lynne Graham

CAPITULO II

Durante trinta segundos Isabella limitou-se a encará-lo, os olhos abertos ao máximo. Em seguida ele respirou fundo e sorriu, lutando contra a onda de amargura que ameaçava invadi-la.

— Seu harém? Muito engraçado.

— Agora está no meu mundo — Edward lembrou com frieza, os olhos negros impassíveis. — Quando sair dele será uma mulher diferente.

A postura arrogante e o sorriso sarcástico que bailava em seus lábios eram irritantes.

— Se olhar para mim desse jeito mais uma vez, juro que o farei engolir os dentes! — ela ameaçou.

O príncipe continuava sorrindo satisfeito.

— Meu pai perguntou se você valia um acidente diplomático. Se pudesse vê-la agora, tenho certeza de que ele não repetiria essa pergunta.

— O que quer dizer com acidente diplomático?

— Mais cedo ou mais tarde alguém sentirá sua falta. Perguntas serão feitas, e respostas terão de ser oferecidas. Nosso embaixador em Londres será chamado ao Ministério das Relações Exteriores, mas suspeito de que muitas semanas se passarão até chegarmos a esse estágio.

— O Ministério... De que diabos está falando?

— Bem, poucas pessoas participam de sua vida a ponto de perceberem que desapareceu. Só escreve para sua mãe uma vez por mês, e nunca se comunica com seu pai. Sua única amiga mais próxima está na América do Sul, em viagem de lua-de-mel. E quanto aos colegas acadêmicos... A universidade entrou em férias de verão, e nenhum deles espera receber notícias suas. - Descobri que sua vida de isolamento é uma triste testemunha para sua maravilhosa civilização ocidental.

— Como... como sabe tantas coisas a meu respeito?

— Está disposta a enfrentar repressão física?

— Contratei os serviços de um escritório de investigações.

— Mandou um investigador atrás de mim? Mas quando, se ninguém sabia que eu viria a Jordânia?

— Não sabia? Uma generosa doação à universidade garantiu sua eventual chegada.

— Não acredito! — A tensão começava a provocar pontadas de dor em sua testa.

— Porque acha que seus superiores insistiram na necessidade da pesquisa ser feita na Jordânia?

—Porque as tribos nômades daqui não sofreram o mesmo nível de exposição ao mundo moderno que as de outros países.

— Isso é verdade. Mas.., quem sugeriu o assunto de sua pesquisa?

Isabella empalideceu. A idéia viera de cima, de esferas muito mais atas que o departamento de antropologia, e provocara rumores ressentidos sobre uma possível ligação entre ela e alguém do alto escalão, já que as viagens para pesquisas no estrangeiro haviam sido cortadas desde que a universidade decidira conter despesas.

— Estou construindo uma nova biblioteca para a universidade. - Edward revelou. — E meu representante na Inglaterra, que demonstrou um imenso interesse pessoal na Jordânia e mencionou várias palestras suas às quais havia comparecido, fez questão do anonimato em troca da doação.

Isabella começava a tremer. Sem o menor sinal de remorso, o príncipe estava dizendo que fora trazida à Jordânia sob falsos pretextos!

— Não acredito no que diz... Recuso-me a acreditar nesses absurdos!

— Sabia qual seria a data de sua chegada desde que solicitou o visto. Entretanto, não podia prever que chegaria sozinha ao acre morto, fato que causou uma grande comoção. De qualquer maneira, o destino trabalhou a meu favor. Agora não há ninguém que possa dar o alarme... e a tenho em minhas mãos muito antes do que imaginava.

— Você não me tem em suas mãos, seu maluco! Ela explodiu, agarrando a bolsa para dirigir-se à porta. — Já estou farta de ouvir essas idiotices!

— Está disposta a enfrentar repressão física?

— O que quer dizer?

— Não pode deixar o palácio sem a minha permissão.

— Ninguém precisa me dar permissão para nada! Faço o que quero, e quando quero! — ela disparou, virando-se para alcançar a maçaneta de metal brilhante. — Saiba que estou voltando ao aeroporto.

— Se meus homens tiverem de tocá-la, certamente ficarão embaraçados diante de uma mulher capaz de permitir tamanha indignidade.., mas não se esquivarão ao dever.

As portas se abriram. No mesmo instante os dois guardas que vigiavam a soleira viraram-se, baixando os olhos para não encará-la. Um homem árabe jamais encarava uma mulher que não fosse de sua família, pois o gesto era considerado ofensivo. Sabia que não conseguiria vencê-los e, frustrada, Isabella bateu as portas com violência.

— Se não me deixar sair daqui vou começar a gritar!

— Isso só vai piorar sua enxaqueca.

Como sabia que sofria de episódios de enxaqueca? E como percebera que já sentia os primeiros sinais de um ataque?

— Acha que não vou gritar, não é? Acha que tenho medo de suas ameaças ridículas. Pois vou lhe mostrar... — A beira da histeria, Isabella respirou fundo e gritou. O grito feria seus ouvidos, sua garganta e sua cabeça, mas o que a afetava de maneira ainda mais intensa era a constatação de que ninguém aparecia para saber o que estava acontecendo.

— Pergunte-se que felicidade conquistou com o tipo de vida que leva no Ocidente — Edward sugeriu enquanto se aproximava dela. — Trabalha horas e horas a fio, esforçando-se como uma maluca por nada, negando-se todo e qualquer prazer feminino...

— Sou extremamente feliz! Meu trabalho me satisfaz!

— Satisfazer-se comigo será muito mais agradável. E ajudará a liberar toda essa tensão que...

— A única maneira pela qual pretendo liberar a tensão é atacando-o fisicamente! Fique longe de mim! — ela gritou, lutando contra a dor de cabeça que crescia a cada instante. Já podia sentir os sinais evidentes de um episódio de enxaqueca: suor frio e náusea. — Esse seu jogo de poder pode até diverti-lo, mas já foi longe demais. Quero ser levada de volta ao aeroporto imediatamente!

— Se concordar com o que pede, sei que acabará amargando o arrependimento pelo resto de sua vida. Por isso não posso concordar.

— Afaste-se, Edward! — ela exigiu, vendo-o aproximar-se lentamente.

Normalmente seria capaz de enfrentá-lo, mas agora... Já não podia sequer enxergar com nitidez, tal a intensidade da tontura que a tomava de assalto.

- Não pode me manter aqui, ouviu bem? Não sou seu tipo, e intelectualmente o considero...

— Um desafio? Depois de algumas horas de descanso estará mais ajustada à maravilhosa mudança de ares. Agora não está mais sozinha...

— Eu gosto de estar sozinha!

— Tem medo de partilhar?

— Não quero partilhar nada com você!

De repente o mundo girou e ela abaixou a cabeça, sentindo que o chão escapava de sob seus pés. Mãos fortes a agarraram pelos braços, impedindo-a de cair, mas Isabella ainda tentou resistir.

— Ponha-me no chão — pediu com voz fraca

— Pare de lutar, está bem? A rendição pode ser o mais doce de todos os prazeres para uma mulher.

Era inútil continuar discutindo, e já não tinha energias para mais nada. Dois anos antes gastara todas as economias de uma vida numa viagem ao Canadá, onde se hospedara na casa de uma tia e tentara esquecer o príncipe da Jordânia. Como uma viciada em drogas, sofrera os sintomas de noites de insônia, perda de apetite, oscilações de humor e, pior, a assustadora convicção de que

possuía os mesmos traços masoquistas que levaram sua mãe a suportar a presença de seu pai durante tanto tempo.

Edward a carregava sem nenhum esforço aparente, e o perfume exalado por sua pele a entorpecia. Jamais haviam estado tão próximos antes, mas quantas vezes imaginara o toque de suas mãos, ou como seria estar em seus braços! Agora as circunstâncias a empurravam novamente para perto desse homem, e o pior era que apreciava o momento. Gostava de como ele assumia o comando da situação, de como a amparava com firmeza em seus braços musculosos, gostava de ouvir as batidas cadenciadas de seu coração e o som tranqüilo de sua respiração. Um soluço que não tinha nenhuma relação com a enxaqueca a sacudiu.

Um clamor de vozes femininas a recebeu num aposento amplo e arejado, onde foi colocada sobre uma cama. Dedos frios pousaram sobre sua testa. Edward. Parte dela queria prolongar o contato, e esse desejo a fazia sentir-se ainda pior. Então ele ergueu sua cabeça.

— Beba isso...

O remédio que costumava tomar estava em sua bolsa, mas Isabella engoliu a poção de ervas e deitou-se, fraca como um animal ferido. Por um momento abriu os olhos e viu duas jovens ajoelhadas no tapete ao lado da cama, ambas encarando-a com um misto de espanto, preocupação e fascínio.

— O médico já deve estar chegando — Edward informou, afastando os cabelos que caíam sobre sua testa fria e úmida. — Feche os olhos e relaxe. A tensão deve fazer piorar a dor.

Relaxar? Ele a trouxera ao seu harém, e aqueles deviam ser suas mulheres a observá-la. Esposas, concubinas... Que importância tinha o nome? O fato era que Edward era um homem com duas centenas de jovens e belas mulheres à sua disposição.

A Jordânia enviara uma reclamação formal ao governo britânico, quando um certo jornal sensacionalista divulgara o que os jordanianos consideravam informações de interesse privado para um público inglês ávido de fofocas. As relações diplomáticas foram cortadas por seis meses, e contratos que deviam ter sido assinados com empresas britânicas foram oferecidos a outros países.

Desde então a mídia mantinha-se silenciosa a respeito da exótica vida sexual do príncipe da Jordânia. Nenhum murmúrio surgira na imprensa nos últimos dois anos.

Edward havia ficado devastado quando ela se atrevera a atirar esses mesmos fatos em seu rosto, tão furioso, ultrajado e incrédulo com a ousadia de uma mulher capaz de abordar assunto tão delicado e ainda expressar opinião a respeito de sua conduta moral, que esquecera tudo que havia aprendido do idioma estrangeiro. Depois de despejar uma torrente de palavras árabes, ele saíra e a deixara soluçando, vazia e amarga.

Perdida nas recordações, a princípio Isabella cochilou como um barco num mar sacudido pela tempestade, mas o barco finalmente alcançou um porto de águas calmas e ela adormeceu, os dedos entrelaçados a outros, mais seguros e firmes.

Isabella acordou com o canto dos pássaros e espreguiçou-se. Ao abrir os olhos, deparou-se com um encantador teto de vidro e sentou-se, sem saber que outro choque a aguardava. Não estava sozinha. Três jovens silenciosas e sorridentes esperavam ajoelhadas no tapete.

— Está acordada, sitt. — Uma delas levantou-se graciosa e fitou-a com seus grandes olhos amendoados. O corpo esguio era guardado por um vestido colorido de corpete justo e saia rodada de tecido leve, os pés escondiam-se em alpargatas bordadas e jóias de ouro tilintavam a cada movimento. — Sou Angela. Fomos escolhidas para servi-la. Muitas ansiavam por essa honra, mas

só eu conheço seu idioma.

Isabella a encarava boquiaberta, tentando assimilar a surpresa provocada pelo aposento luxuoso e desconhecido. Mais surpreendente ainda era a camisola de seda branca com que havia sido vestida.

— Vou preparar seu banho, sitt. Deve estar ansiosa para refrescar-se depois da longa viagem. Certa vez voei num avião com a princesa Irina... — O rosto animado de Angela tornouse repentinamente sombrio, e ela abaixou a cabeça como se houvesse cometido uma gafe.

Irina ... Quem era a princesa Irina? A irmã de Edward? A mãe, a tia... a esposa? Não sabia nada sobre a família real.

Enquanto Angela exigia rapidez e eficiência das garotas, Isabella deixava-se contagiar pela disposição das jovens que, embora ocupadas, continuavam lançando olhares fascinados em sua direção. Seriam criadas, ou teriam alguma ligação mais íntima com Edward? Afinal, cada uma delas usava jóias suficientes para afundar o Titanic! Deus, Edward a colocara em seu harém, como havia

prometido, e a drogara para mantê-la em seu palácio!

Assustada, pulou da cama ao ouvir o barulho de água no aposento contíguo e, antes que pudesse pôr os pés no chão, Angela aproximou-se com um par de chinelos macios.

— Por favor... — Queria pedir que a deixassem em paz, mas não teve coragem de repelir a quase idolatria com que era tratada pelas jovens.

— Vamos banhá-la, sitt. Isabella, que considerava até mesmo os vestiários comunitários constrangedores, ficou assustada com a sugestão. Tentando esconder a vergonha, murmurou:

— Não precisam me servir, Angela.

— Mas você é ela... deve ser servida!

Ela quem? Já ouvira essa frase antes, e ainda não conseguira entendê-la.

— De onde venho, não costumamos partilhar banheiros — disse.

Angela riu e compartilhou o costume bárbaro com as companheiras, que divertiram-se com o estranho desejo de privacidade. Aproveitando o momento de descontração, Isabella foi trancar-se no banheiro onde, embaraçada, tomou um banho rápido. Sentia-se como uma virgem convidada para uma orgia em meio a tanto luxo!

Quando terminasse de dizer o que pensava a Edward, ele teria pressa em mandá-la de volta ao aeroporto! De onde havia tirado a idéia de que podia mantê-la prisioneira? E a ousadia de interferer em sua vida acadêmica... O sujeito merecia uma boa lição!

— Onde estão minhas roupas? — ela perguntou ao sair do banheiro enrolada numa toalha.

Orgulhosa, Angela apontou para a coleção de vestidos de seda colorida estendidos sobre a cama.

— Minhas roupas... minha mala — Isabella explicou, tentando conter a irritação.

O silêncio preocupado e temeroso das jovens a fez desistir da busca e, resignada, ela decidiu usar um dos vestidos.

— Escolha por mim — pediu a Angela, que, sorrindo novamente, indicou um caftan verde com bordados dourados e um delicado conjunto de calcinha e sutiã de renda branca e transparente. Jamais pensara em colocar nada parecido em sua gaveta de roupas íntimas, sempre tão cheia de peças de algodão branco. Um rubor furioso tingia seu rosto e, apressada, vestiu-se e parou diante do

espelho para escovar os cabelos com movimentos vigorosos.

— Eu a aborreci, sitt? — Angela perguntou com voz chorosa. - Por que não aprecia minha ajuda?

Sentindo-se a maior das egoístas, Isabella suspirou e entregou a escova de cabo de prata à jovem que, satisfeita, começou a penteá-la com cuidado reverente.

— Nunca vi cabelos tão maravilhosos. São da cor de chocolate, como foi dito!

— Dito por quem?

Angela suspirou encabulada.

— Pelos guardas do príncipe. Não têm permissão para falar mas é sabido que os homens são mais fofoqueiros que as mulheres. Há muito tempo ouvimos falar sobre a inglesa dos cabelos cor de chocolate... Logo todos comentavam e o Rei ficou furioso com os rumores sobre seu adorado filho. Ah, o café da manhã como na Inglaterra! — ela exclamou excitada ao ver a porta se abrindo.

Isabella gostaria de saber mais sobre os tais rumores, mas Angela já havia aberto outra porta, revelando uma mesa de jantar e várias cadeiras.

— Como em sua terra — disse orgulhosa, enquanto uma procissão de criados entrava com bandejas e mais bandejas.

Boquiaberta, Isabella observava a mesa que ia sendo coberta por pratos e travessas. Sucos de frutas variadas, cereais torradas, croissants, pães doces, pão integral, pão francês, ovos fritos, ovos quentes, ovos mexidos, salsichas, hambúrgueres tomates, cogumelos...

Angela puxou uma cadeira e Isabella deixou-se cair estupefada, analisando o banquete à sua frente. Estava com fome mas jamais conseguiria comer tamanha quantidade de pratos.

— Gostou?

— Digamos que estou bastante impressionada.

— O príncipe Edward trouxe um cozinheiro de Dubai. Se na gostar de alguma coisa, ele irá embora — Angela informou com seriedade.

Edward contratara alguém especialmente para cozinhar à maneira ocidental? Para ela? Então pensava mesmo que ficaria no palácio? Isabella respirou fundo, sentindo-se como se estivesse transitando por um mundo irreal, a eras distante ri vida prática e tranqüila que sempre levara.

Estava terminando de tomar o chá quando Angela aproximou-se novamente.

— O príncipe... ele disse que a receberá agora — a jovem murmurou, excitada como se marcasse um inesquecível encontro romântico.

Isabella levantou-se e ergueu os ombros com coragem e confiança.

— O que estamos esperando?

Já estavam se aproximando do salão de audiências quando se depararam com uma cena impressionante. Edward tentava atravessar o saguão principal, mas uma mulher mantinha-se agarrada em seu tornozelo, impedindo-o de seguir em frente. Ela se lamentava em árabe, chorando e gritando, mas o príncipe mantinha-se impassível.

— O que significa isso? — Isabella perguntou a Angela.

— É melhor irmos dar um passeio, sitt...

— De jeito nenhum!

De repente Edward disse alguma coisa e literalmente passou por cima dela. A mulher tentou agarrá-lo novamente, mas o príncipe chamou dois dos guardas que se mantinham no saguão e eles a agarraram, levando-a embora.

— Quem é aquela mulher, Angela?

— A princesa Irina. O Príncipe Edward toma apenas uma esposa, como ele mesmo sempre disse. Apenas uma...

Isabella sentiu o coração parar de bater. Então Edward era casado! A pobre mulher atormentada era sua esposa, e podia compreender a origem de sua histeria. Edward trouxera mais uma mulher para o palácio, e a pobre criatura estava naturalmente perturbada. A crueldade do comportamento do sujeito era de enfurecer!

A beira de um ataque de nervos, Isabella desceu a escadaria de mármore e caminhou ao encontro do príncipe que, ao vê-la, sorriu como se nada houvesse acontecido. Aquele sorriso teve o poder de atingi-la como um soco violento, minando sua resistência o fazendo-a fraquejar. Mas não podia fraquejar! Não desta vez! Fraquejara quando o vira pela primeira vez, parado na porta da biblioteca da universidade, cercado por lindas garotas que lutavam por migalhas de sua atenção, e tivera dois anos para se arrepender. Tinha de desprezaras emoções vergonhosas que acabariam impedindo qualquer tipo de pensamento racional.

— Sempre ouvi dizer que os árabes protegem e respeitam as mulheres da família, mas vejo que o relato não corresponde à realidade. A princesa Irina não mereceu seu respeito.

O sorriso desapareceu como se ela o houvesse esbofeteado.

— Então viu...?

— Vi.

— Lamento que tenha testemunhado cena tão degradante, mas me recuso a discuti-la.

Pelo menos tinha a decência de não expor a pobre mulher a um ridículo ainda maior! E ficara realmente embaraçado ao saber que o encontro entre ele e Irina havia sido testemunhado, e por uma ocidental. Era quase como se quisesse que ela fingisse que as outras mulheres de sua vida não existissem. Concubinas e uma esposa!

Nunca o odiara por seu estilo de vida. Como antropóloga, sabia que cada um era produto de seu meio, e tinha conhecimento de muitos outros países onde se permitia a manutenção de diversas concubinas. Na verdade, sabia que muitos homens pertencentes à chamada civilização occidental adotariam o costume com alegria, caso pudessem desfrutar de tão grande variedade sexual.

— Dormiu bem?

— O que acha? Você me drogou!

— Estava sentindo muitas dores, e não suportei vê-la sofrer — Edward explicou. — Um sonífero natural ajudou-a a relaxar.

— E como pretende responder às acusações de seqüestro e cárcere privado?

— Você não me deixou outra escolha.

Isabella respirou fundo e encarou-o com olhos cheios de tristeza, tentando ignorar as lembranças que a visão familiar despertava. Agora Edward vestia um terno austero e bem cortado, um traje que realçava seus atributos físicos. Por fora era um perfeito cidadão ocidental, apesar dos costumes bárbaros que fazia questão de manter.

— Sabe que não vou aceitar uma desculpa tola como essa.

— Desculpa?

— Uma evasão — ela explicou, fazendo questão de encará-lo para demonstrar que não estava intimidada. Sabia que a experiência de ser enfrentado por uma mulher era nova para o príncipe árabe. Irina acabara de arrastar-se aos pés dele, e sabia que muitas outras deviam repetir o gesto diariamente.

Seria esse o fato de atração? Sua independência, o espírito de combate com que o repelia? Na Jordânia, até mesmo os homens o idolatravam. Um dia ele seria o rei!

— Não pode estar disposto a me manter prisioneira...

— Não precisa ser uma prisão. Dê-me sua palavra de que não tentará fugir, a deixarei andar em liberdade pelo palácio.

— Uma contradição quase ridícula — ela disse, estranhando a própria calma.

Por que estava argumentando, em vez de gritar e exigir que a libertasse? O sofrimento crescera tanto nos últimos instantes, que engolira a fúria. E agora era forçada a reconhecer um desejo traiçoeiro e perigoso de passar mais alguns momentos na companhia desse homem, nem que fosse só para enfrentá-lo. O pensamento a enchia de vergonha.

— Você é um homem educado, Edward...

— Apenas superficialmente. Conheço sua opinião a meu respeito, e sei que está mentindo. Meu pai enviou milhares de homens jordanianos para as universidades estrangeiras, porque sabia que nosso país não sobreviveria sem profissionais competentes que pudessem atualizá-lo, mas jamais recebi permissão para me aprofundar nos conhecimentos tecnológicos dos ocidentais. Sei que a leitura e o breve período que passei numa universidade não me torna um homem educado, especialmente aos olhos de uma mulher cujo nome é precedido por diversos títulos acadêmicos.

Só agora percebia a humildade com que ele se considerava no nível intelectual, e a descoberta despertava um estranho sentimento de compaixão e solidariedade. Gostaria de esganar o pai arrogante e obstinado que o impedira de estudar, negando ao filho as oportunidades que oferecera aos súditos.

— Edward, ninguém seria capaz de duvidar de sua educação depois de ver o que realizou em seu país num espaço de cinco anos.

— Faço uso de muitos conselheiros em todos os níveis de nossa sociedade. Não tolero nepotismo, e procuro tornar nossa cultura mais liberal em benefício de nosso povo. Mas, como já disse, conheço sua opinião, aziz. Deve estar pensando em como sou incongruente, falando em liberação depois de roubar uma mulher.

— Tenho consciência de que roubar mulheres é um elemento da cultura tribal. Mas...

— Não se trata de um crime, desde que a mulher seja honrada e tratada com respeito — ele cortou com um sorriso satisfeito e orgulhoso.

Isabella lutava contra o riso. Quando convinha, o príncipe era absolutamente simplista, capaz de justificar a própria conduta lançando mão de justificativas quase infantis.

— É claro que o casamento deve acontecer o mais depressa possível — ele comentou. — É esperado.

Olhos chocolates cravaram-se no rosto do príncipe, que continuava sorrindo.

O silêncio prolongou-se por alguns instantes, tenso e repleto de expectativas.

Então Edward resmungou alguma coisa em árabe, adiantou-se alguns passos e segurou-a pelos ombros como se quisesse sacudi-la.

— Em nome de Alá, aziz. Não esperava que eu a insultasse com algo menos que uma proposta de casamento, não é? Era esse o motivo do pânico de ontem à noite? — ele perguntou, tomando suas mãos entre as dele num gesto quase desesperado. — Trouxe você até aqui para tornála minha esposa!

Sua segunda esposa. Ultrajada, Isabella fitou-o por alguns segundos no mais atônito silêncio e, de repente, soltou-se das mãos que a seguravam e correu.