Capitulo Um:

Um novo amanhecer, sobre um novo mundo.

Meus olhos estão pesados, mas o que aconteceu? Eles de repente se abrem para ver o que está acontecendo ao meu redor, minha cabeça dói demais, usando minha mão livre coço os olhos na tentativa de fazer minhas pupilas se acostumarem com a luz mais depressa.

Ainda meio cambaleante, consegui me levantar, me apoiando em algo que se parece com um carro, mas espera ai, esse carro é meu. Por que está tombado de cabeça para baixo? Aliás, que cheiro de morte é esse?

Finalmente, agora com os olhos mais acostumados com a claridade, eu enxergo aquilo que me rodeia, muito sangue, carros batidos, corpos sem os membros espalhados por toda parte. "O... O que?" As palavras saíram da minha boca diante da cena, eu conhecia aquela rua, a rua da praça onde eu sempre passava antes de ir para o trabalho, no final da rua, perto do ônibus incinerado, ficava a lojinha aonde eu comprava meu lanche para a hora do almoço.

Forço minha mente para lembrar o que aconteceu noite passada, o porquê dos corpos do sangue e da dor, mas não consigo lembrar, mas pelo menos ainda tenho aquilo que alegrava meu dia, meu pequeno "aparelho tocador de mp3 e mp4." Pelo menos foi isso que o vendedor me disse quando comprei isso três anos atrás, vasculho meus bolsos, não está aqui.

Minha cabeça vira imediatamente para o que restou do meu carro, um sorriso se forma na minha face ao vê-lo deformado pela batida que provavelmente sofri, nunca tinha gostado daquela maldita lata-velha, mas felizmente, a minha "caixinha da salvação" como gostava de chamar, estava intacta, jogada no chão perto de onde eu estava, os fones de ouvido ainda plugados, fiz questão de colocá-los e descer a lista de músicas até as últimas, bem mais pesadas e agitadas, que eu ouviu na volta pra casa para extravasar o estresse do dia.

Sem aviso outra parte do meu corpo começa a doer além da minha cabeça, meu estomago reclama, querendo ser saciado. "Já, já, amigão... Já, já. " Ainda meio cambaleante, embalado por um poderoso solo de guitarra de uma das minhas músicas favoritas eu forço meu corpo a andar rua abaixo, naquela lojinha, eu vou encontrar a minha comida.

Parei para admirar o ônibus incinerado, mas meus olhos desviaram assim que vi os cadáveres igualmente carbonizados dentro dele, virei para adentrar na lojinha pela porta, minha mão na maçaneta, empurrei a porta que estava sendo bloqueada por um carrinho de compras cheio de tijolos, estranhei, mas usando um pouco a mais de força consegui entrar, por um momento agradeci meu amigo Paul por ter me forçado a começar a freqüentar a academia da vizinhança, ainda assim eu não tinha conseguido me dar bem com nenhuma mulher, o que era minha real intenção em começar a malhar.

- Claire? – Chamei pela simpática estagiaria que sempre me atendia, ela foi a única que reparou na minha leve ganha de músculos, realmente uma pena que ela tinha apenas 16 anos. – Vou pegar o de sempre, ok? Depois eu deixo o dinheiro no balcão. – Com minha cabeça finalmente parando de doer eu entrei por um dos corredores para pegar um energético e algumas barrinhas de vitaminas, como de costume.

Tudo igual a sempre, tirando é claro, o fato de a metade de trás da loja ter desaparecido revelando a rua que dava para aquela pequena delegacia. Peguei o que precisava e fui depositar meu dinheiro no balcão, assim como de costume. Mas um choro me chamou a atenção, vindo da porta onde estava escrito "Apenas Funcionários." Enfiei minhas compras no bolso e abri a porta.

Estava tudo escuro, exceto por duas bolinhas de luz no chão, o choro vinha de lá, passei a mão pela parede até achar um interruptor, as luzes da sala se ascenderam, para revelar a cena grotesca, o senhor e senhora Johnson, o casal simpático de velhinhos donos da lojinha, estavam mortos em duas poças de sangue, e entre eles estava Claire, chorando, ela lentamente começou a se levantar, seus olhos brilhavam com uma cor amarelada, e suas mãos pareciam mais garras, rapidamente desliguei as luzes e me tranquei pro lado de fora do quarto, enquanto o choro dela se tornava mais baixo.

- Mas o que aconteceu aqui? – Me perguntei, olhando para fora da loja, nenhum dos corpos que eu tinha visto estavam lá, apenas o sangue no chão. Meus ouvidos captaram vários gemidos e grunhidos vindos rua acima, pareciam pessoas, eu não acharia tão ruim achar pessoas de novo, mas aquelas lá, eram justamente as que eu tinha visto mortas jogadas no meio da rua, com minha respiração tão ofegante quanto a de um obeso depois de realizar uma maratona, corri para a agora inexistente parte de trás da loja, ainda meio mancando, avancei até chegar na delegacia, onde entrei e me sentei no chão ofegante.