Depois daquilo tudo, não tinha mais forças para continuar andando, e ao mesmo tempo não tinha mais coragem para dormir na beira da estrada, por fim eu caminhei a noite inteira na mais completa escuridão, bastaram apenas alguns minutos para que minhas pupilas se dilatassem para enxergar com a mínima luz que a lua me proporcionava, ainda assim a floresta ao redor da estrada me cercava, de um lado meu senso lógico me fazia querer virar para checar quem ou o que poderia estar me seguindo, mas meu medo era maior e bem mais irracional, me limitando apenas a manter um olhar fixo no trajeto a minha frente e minhas mãos fechadas em punho para me defender.

Quando os primeiros raios de sol apareceram no horizonte e iluminaram o trajeto caí de joelhos, pois eles haviam me revelado aquilo que poderia ser a primeira boa noticia desde que deixei a cidade onde vivia.

A estrada descia e subia pela ultima vez, lá depois da subida estava a cidade que era o motivo de eu ter passado por aquela viagem no meio do inferno, eu estava cansado, então me dei ao luxo de sentar para analisar minha atual situação antes de entrar naquele lugar desconhecido.

Meus sapatos estavam totalmente enlameados e parte da lama já havia secado, o que me lembrou de um filme sobre a Segunda guerra que eu havia assistido quando jovem. No filme um soldado tentava retirar sua bota para verificar como seu pé estava depois de uma longa caminhada, mas o sargento o preveniu dizendo algo: Não tire sua bota, soldado... A lama seca não deixará seu pé entrar ai dentro de novo.

A memória veio e se foi em uma fração de segundos, então simplesmente desisti da idéia de retirar os sapatos... Ao menos por enquanto. Abri a mochila para ver o que ainda estava ali, dentro de um dos compartimentos estavam meus binóculos e o antigo rifle que roubei da cabana, no outro ainda restavam algumas latas de milho e carne seca, duas garrafas de água e o celular sem bateria que eu havia achado, sem falar na pistola que agora só tinha uma bala dentro do tambor.

Enfiei a ultima barra de cereais goela abaixo e me pus a caminhar novamente, sentindo meus músculos tensos e fatigados da viagem, minhas roupas estavam piores do que as de um sem teto, meu andar cambaleante e lerdo e minha pele coberta com machucados, me senti como um Deles, mas sacudi minha cabeça para afastar esses pensamentos.

Na entrada da cidade haviam vários carros batidos e abandonados, pulei por cima do capô de um modelo antigo da Ford, o que me poupou um bom tempo, caso contrário eu teria que dar a volta naquela imensa fila de carros.

A entrada dava para uma larga rua cercada de lojas dos dois lados dela onde alguns Deles vagavam sem rumo, havia uma barra de ferro do tamanho do meu antebraço jogada no chão perto do meu pé, com certo esforço eu agarrei a barra e continuei cidade adentro andando o mais rápido e o mais silenciosamente possível, acertei a cabeça de um que aparentava ser um idoso e que se opôs no meu caminho.

Percebi que quanto mais eu seguia pela rua mais deles saiam das lojas e vielas, vindos todos atrás de mim, andando lentamente e murmurando sons sem sentido, minhas pernas continuaram o seu trabalho de andar rápido o bastante para me afastar daqueles seres, enquanto meu braço ocasionalmente balançava a barra de metal na cabeça daqueles que chegassem muito perto de mim, mas logo percebi que eles se juntavam perto de mim as dezenas, seus números certamente estavam próximos da casa dos oitenta, e eu estava começando a ficar com mais e mais dificuldade de me mover e acertar a cabeça deles.

Meus olhos se alargaram assim que vi o que me esperava no final da rua.

Um prédio havia caído, e os destroços estavam bloqueando o caminho formando uma barreira de uns cinco metros de altura, olhei para trás, agora sim, poderia facilmente dizer que haviam pelo menos duas centenas deles me seguindo, girei meu tronco para dar um impulso extra ao meu braço, arrancando a cabeça de um que tentou me acertar pela esquerda, mas ao mesmo tempo outro vinha pela direita, coloquei meu antebraço no pescoço dele, enquanto seus braços balançavam freneticamente tentando me alcançar.

Mais deles vinham pela frente e alguns começaram a me flanquear pelos lados, tentando me acertar pelas costas, empurrei aquele de antes com meu antebraço e segurei a barra com ambas as mãos, usando ela como uma espada eu entrei em um frenesi pela minha própria sobrevivência, sangue voava por toda a parte, não sabia se era meu ou não. Apenas sei que fui derrubado, o que havia me derrubado tentava me morder, pondo a barra horizontalmente em frente ao meu rosto eu consegui bloquear a mordida, mas os outros estavam se aproximando... Era meu fim.

A cabeça do que estava em cima de mim explodiu, espalhando sangue e miolos pelo meu rosto e meu peito, uma descarga de adrenalina me fez levantar, me virei e vi em cima dos escombros atrás de mim um homem que segurava um rifle de caça silenciado, a postura era perfeita e a habilidade com a arma invejável, o homem continuou atirando e explodindo a cabeça de todos em volta de mim.

- Quer morrer seu retardado! – Ele gritou enquanto recarregava, sua voz era forte e rouca. – Escale os escombros se quiser viver! – O homem disse ao terminar de recarregar o rifle.

Não pensei duas vezes e enfiei a barra de ferro no crânio de um zumbi que estava no caminho, a barra ficou presa mas eu já não me importava com ela, apenas coma a minha vida, assim que cheguei na beira da parede de escombros usei as ultimas forças que restavam nos meus braços para subir um grande bloco de concreto, deixando os zumbis pra trás eu escalei meio cambaleante os escombros, tomando cuidado para não escorregar, assim que cheguei no topo daquela montanha dos restos daquele edifício o homem bateu no meu peito e apontou um carro parado do lado oposto.

- Entra no carro! Vai agora! – Ele falou se virando e descendo a pilha de escombros com uma agilidade que me parecia sobre humana, hesitei um pouco mas o grito de um zumbi me despertou do meu transe, desci correndo a barreira, fazendo pequenas pedras e pedaços de metal caírem junto comigo, a porta de trás do carro estava aberta e o homem já esperava no volante do carro pronto para fugir dali, me lancei para dentro do carro e fechei a porta enquanto o carro acelerava rua abaixo.

- Ei... Obrigado. – Eu disse depois de alguns minutos, quando já havia recuperado minha respiração. – Qual o seu nome?

O homem me olhou através do retrovisor, seus olhos me analisaram friamente antes dele parar em frente a um beco e desligar o motor. –Saia do carro. – foi tudo o que ele me disse.

- O quê? – Foi tudo que consegui dizer antes dele me puxar pelo braço para fora do carro.

O homem me jogou mais para dentro do beco e retirou uma pistola de dentro da jaqueta. – Você foi mordido? – Ele perguntou friamente, o prateado da arma brilhando no sol e apontando pra mim. – Vamos me responda! Você foi mordido! – Ele repetiu ao notar que eu demorei para responder.

A imagem daquele homem me apontando a arma me fez ficar mudo, não apenas pelo fato de ele me apontar uma arma, mas sim sua aparência. Ele era bem alto, talvez trinta centímetros mais alto do que eu, o braço direito saia da inexistente manga direita da jaqueta de couro que ele usava, o braço totalmente adornado com tatuagens incompreensíveis, dois largos cintos de couro e metal seguravam a calça jeans desgastada e desbotada, enfiada por dentro de uma pesada bota que ia até a metade da canela, o cabelo curto se juntava com a barba por fazer, que mal fazia o trabalho de cobrir duas cicatrizes no lado direito do rosto, um par de óculos escuros na ponta do nariz, revelando dois olhos verdes e cheios de ódio para distribuir.

Ele pousou o dedo no gatilho. – Posso considerar então que você foi mordido. – Ele destravou a arma e apontou para minha testa.

- Eu... Eu não sei senhor! – Eu disse apressadamente assim que notei que o gatilho estava prestes a ser puxado. – Talvez eu tenha sido talvez não... Tinham muitos deles lá! – Eu não sabia o que dizer para me defender, muito menos queria ser morto pelas mãos de alguém que á pouco tinha me salvado.

- Parece que vou ter que te levar pro doutor... – Ele murmurou consigo mesmo antes de entrar no carro. – Entre... E nada de gracinhas, me ouviu?

Apenas acenei positivamente com a cabeça e entrei no carro, permaneci calado enquanto atravessávamos a cidade com o velho carro de uma cor azul escuro, estranhamente o motor emitia muito menos barulho do que a maioria dos carros antigos como aquele.

Finalmente após longos minutos ele parou em frente ao que parecia um corpo de bombeiros abandonado, o homem girou uma manivela para fazer o vidro do carro descer o bastante para que ele levantasse a mão fechada em punho acima da cabeça.

Alguns minutos se passaram até que a porta de ferro da garagem começou a se levantar lentamente, revelando uma galpão mal iluminado por onde o carro entrou, aos poucos rostos de pessoas de varias raças e idades começaram a aparecer pelos cantos, como se estivessem com medo... Ou talvez indecisos?

O homem abriu a porta e saiu do carro, levantando os dois braços com um sorriso. Do fundo do galpão eu ouvi uma voz feminina gritar.

- Joshua! Você está vivo! – Uma mulher que aparentava ter cerca de vinte anos veio correndo na direção do homem, que aparentemente se chamava Joshua, ela o abraçou e o olhou nos olhos. – Pensamos que você havia morrido, faz três dias que você saiu para a coleta.-

- Fui cercado e tive que me abrigar num prédio durante alguns dias, mas consegui escapar ileso de um jeito ou de outro, Claire. – Joshua disse abraçando a mulher que se chamava Claire, a moça era bem menor se comparada a ele, não tendo mais do que 1,65m, os cabelos eram ruivos e chegavam na altura do ombro, e tinha um perfume que mesmo de dentro do carro eu ainda conseguia sentir, um cheiro esse que foi o melhor que senti desde que acordei alguns dias atrás devo acrescentar. – Ei, você. – Joshua disse se virando para mim e acenando para que eu saísse de dentro do carro. – Ainda temos que ver se você está limpo. -

Meio sem jeito sai do carro e caminhei lentamente em direção daqueles novos rostos.

- Hmm... Quem é o novato Josh? – Claire perguntou, apoiando as mãos nos quadris e se aproximando de mim, me analisando de cima a baixo, desejei que meu estado não estivesse tão desgastado e sujo.

- Um qualquer que salvei de uma horda de andarilhos. – Dito isso ele caminhou a passos largos para a parte de trás da garagem. – Kevin! Temos um novo aqui! – Ele disse em voz alta e esperou uma resposta.

- Mesmo? Nossa faz tempo que não temos um novo! – Uma voz um pouco mais aguda do que a de Josh respondeu e saiu de uma sala que parecia ser usada como escritório do chefe dos bombeiros. O homem usava um jaleco de médico branco, com alguns pontos manchados de sangue, também tinha uma luva plástica encharcada com sangue, ele que aparentemente se chamava de Kevin tinha uma pele bem escura e olhos igualmente escuros, o corte de cabelo curto e prático, as feições de um afro-americano se misturavam com as de um europeu para formar a face daquele que parecia ser o medico daquele grupo.

- Como ele está Kevin? Alguma melhora? – Josh perguntou ao médico em um tom de voz baixo, mas eu consegui ouvir mesmo assim.

- Nenhuma melhoria infelizmente... Mas ele recobrou os sentidos á pouco, pode ir vê-lo se quiser. – Kevin disse, antes de direcionar sua atenção para mim. – Olá, sou Kevin e sou eu que vou examiná-lo hoje. – ele disse como se fosse uma consulta de dia-a-dia, o que me deixou um pouco mais relaxado pelo efeito cômico da coisa.

- Você cuida dele, Kevin? Aproveita e apresenta o resto do pessoal. – Claire disse antes de entrar naquele escritório de onde Kevin tinha saído, sendo seguida por Joshua.

- O que houve? Tem alguém doente? – perguntei ao médico assim que ele me mostrou uma pequena tenda armada a alguns metros do escritório.

- Sim... Bob foi mordido. – Kevin disse com o tom de voz fraco apontando uma cadeira para eu me sentar. – Isso vai soar muito estranho, mas tire as roupas para eu poder ver se você foi mordido ou não. – Fiz como ele me disse, e logo começou a examinar meus machucados.

- Esse Bob... Quem é? – Perguntei antes de uma pontada de dor gerada pelo bisturi do médico me fizesse abafar um grito de dor.

- Oh... Me desculpe. – Ele disse. –Tive que retirar um pedaço de carne morta que estava tapando um corte aqui. – Kevin secou o suor da testa com as costas das mãos e continuou me examinando. – Bob era o líder da nossa comunidade... Que nós montamos depois que tudo isso começou, para tentar viver o mais próximo possível do que eram nossas vidas antigamente... Bob era um grande homem, foi mordido para proteger Claire de um zumbi que entrou aqui durante a noite, já fazem uns três dias que ele está lutando para não se transformar em um deles... Mas... – ele parou assim que seus olhos se tornaram visivelmente tristes.

- Mas...? – perguntei.

- Não temos muitas esperanças de que ele sobreviverá... Ninguém sobreviveu a uma mordida dos Andarilhos... – Kevin terminou de me examinar e cobriu todas as feridas graves com ataduras, por fim me entregou uma camiseta e calças novas. – Vista isso... Suas roupas velhas precisam ser queimadas.

- Obrigado... Kevin não é? – Perguntei vestindo as novas roupas, que pareciam terem sido limpas á pouco tempo atrás.

- Exato... E como posso chamá-lo novato? – Ele me perguntou com um caloroso sorriso enquanto retirava as luvas e a máscara de cirurgia.

- Não sei... – eu disse. –Não me lembro de quase nada para falar a verdade. – Apontei para a grande mancha preta no lado direito da minha testa. – Devo ter batido bem forte a minha cabeça antes de ter acordado.

- Acordou a quantos dias? – Ele me perguntou.

- Cinco... Eu acho. Já perdi a conta. – Resmunguei tentando me lembrar, me senti um inútil por nem sequer me lembrar do meu próprio nome.

- Não se preocupe, é provavelmente uma amnésia passageira, logo você se lembrará. – Kevin disse pondo a mão no meu ombro. – Todos temos histórias difíceis meu amigo... Ás vezes é melhor nem se lembrar delas. – O rosto dele perdeu toda a felicidade e o brilho que tinha antes, mas logo um sorriso voltou a seus lábios. – Bom... Vou deixar que descanse, deve ter sido uma semana difícil pra você.

Com isso ele foi embora e me deixou a sós na tenda, me sentia muito mais seguro lá dentro do que em qualquer outro lugar. Minha mente se esvaziou no segundo em que eu fechei os olhos, eu não havia apenas dormido, eu havia simplesmente desmaiado de exaustão.

Novas pessoas... Mas sinto como se não devesse me apegar demais, afinal tudo que tenho feito desde que acordei é me apegar a coisas e perde-las dez minutos depois...

Pensarei melhor nisso depois que dormir, por hora, estou exausto demais para pensar direito.