PATRICIA

ESTA TINHA SIDO a pior manhã de todas; acordei com uma terrível dor de cabeça e mesmo assim fui para o escritório, não podia deixar uma dor de cabeça me impedir de fazer o que tinha de ser feito por lá, quando cheguei ao prédio, já ouvi reclamações logo na entrada, o cliente da companhia de cruzeiros queria ver o projeto da propaganda e ninguém além de mim sabia onde estava guardado, e o pior, ele estava chegando em cinco minutos, não era um tempo muito bom para poder montar as coisas na sala de reuniões, não para uma só pessoa, então foram necessárias quatro pessoas para poder montar tudo; pelo menos o cliente gostou da propaganda, mas o prazo dado não era dos melhores, até aí parecia que minha vida não poderia piorar, ou pelo menos isso era o que eu pensava, sem saber o quão errada estava.

Estava sentada na minha sala repassando alguns documentos da empresa quando o telefone tocou.

"Senhora, seu médica na linha," Kristin falou.

"Tudo bem, pode passar a ligação, Kristin," disse-lhe. "Olá, Dr. Franz, quais são as notícias?" perguntei, mesmo sem querer saber a resposta.

"Não são muito boas as que tenho para lhe dar, Srta. Shepperfield," o médico disse.

"Fale logo, doutor," falei, já com um pouco de medo.

"É o seguinte, os resultados dos seus exames saíram hoje, e..." Dr. Franz parou de falar.

"Diga, doutor."

"E infelizmente foi constatado um pequeno tumor no seu pulmão, mas teremos que fazer mais alguns exames para confirmar se ele é benigno ou não," disse ele, "e é para isso que estou ligando, para poder marcar um horário que possa fazer esses exames."

"Pode marcar pra quando quiser, doutor."

"Amanhã de manhã a senhorita pode?" perguntou-me ele.

"Só um minuto, doutor, verei com a minha secretária," chamei Kristin, colocando Dr. Franz em espera, "Kristin, amanhã de manhã tenho alguma coisa marcada?"

Ouvi quando Kristin folheou as páginas da agenda e então disse:

"Só uma reunião de meia hora, às sete, com os acionistas da empresa, depois, mais nada não, senhora."

"Tudo bem, obrigada," e então voltei a falar com o Dr. Franz, "Doutor, posso depois das oito horas."

O médico remexeu em alguns papeis, e falou:

"Tudo bem, direi para Susan agendar para oito e meia, tudo bem para a senhora?"

"Sim, claro, oito e meia está ótimo."

Despedi-me do doutor e então desliguei o telefone. Alguma coisa me dizia que aquele tumor não seria benigno, não sabia de onde vinha isso, mas, algumas vezes, tinha sentimentos como este.

Não dormi nada bem à noite, fiquei me revirando na cama, a qual não parecia ser a mesma que dormia há dois anos, parecia diferente, desconfortável, levantei três vezes, e fui a cozinha beber água, já que não tinha mais o que fazer e, na terceira vez, liguei a T.V. e fiquei assistindo, não tinha nada de interessante passando. Agora parecia um zumbi, tinha olheiras sob os olhos e tinha cara de quem estava doente, minha garganta doía, um resfriado, talvez. Levantei e fui para o banheiro escovar os dentes e me arrumar para ir trabalhar.

Na reunião com os acionistas correu tudo bem, tranquilo, as ações da empresa estavam crescendo mais e mais a cada dia e todos estavam felizes. Depois da reunião peguei meu carro na garagem do edifício e fui para a clínica do Dr. Franz, que ficava no centro de Nova York. Ao entrar na recepção Susan, a recepcionista, me recebeu com um largo sorriso no rosto e um "Bom dia!" animado, parecia que tudo estava indo bem para ela naquele dia. Quinze minutos depois ela me conduziu para uma sala, onde eu me trocaria e depois fomos para a sala de espera.

Até aquele momento, depois dos exames, tudo tinha corrido bem, e, agora que penso, até bem demais, nunca acontecia isso no meu dia a dia, um pouco estranho, talvez. Dr. Franz me dispensou e disse que ligaria assim que tivesse os resultados dos novos exames. Então resolvi tirar o restante do dia de folga, liguei para Kristin e avisei que não voltaria ao escritório e fui para meu apartamento.

Estava descansando um pouco, assistindo televisão, quando o celular tocou, olhei no visor para ver quem era e vi que era da clínica do Dr. Franz, atendi:

"Ah, olá, doutor, já tem os resultados?" disse, um pouco animada, a esperança é a última que morre, certo?

"Senhorita Shepperfield, a notícias realmente não são boas," Dr. Franz disse em um tom que deixava transparecer certo temor.

"Fale logo, Dr. Franz, está me deixando nervosa, mais do que já sou, e isso quer dizer muito," falei.

"É o seguinte, a senhorita tem um tumor no pulmão, como lhe disse anteriormente, e foi constatado que este tumor não é benigno," o médico disse.

"Fale sem rodeios, doutor," falei.

"Está bem, o que acontece que a senhorita tem um tipo de câncer no pulmão, e o tratamento não solucionará pois já está em um estágio muito avançados," Dr. Franz disse.

"E..." incitei.

"E a senhorita tem apenas mais três ou quatro meses de vida," o médico disse, sem rodeios, como eu tinha pedido.

Fiquei muda, não tinha palavras para descrever o que eu estava sentindo, meu estômago deu uma volta, como se uma cobra estivesse se enrolando ali dentro, minha cabeça não pensava outra coisa além de "Tenho só mais três meses de vida!"

Desliguei o telefone, ainda muda e paralisada pela notícia, a televisão não emitia som, pelo menos eu não escutava nada, tudo girava ao meu redor, meu mundo estava desabando naquele momento. Um câncer... três meses... eram as únicas coisa que me vinham na cabeça.

Inconsciente do que fazia, peguei o celular e disquei um número, só despertei do meu transe quando ouvi a voz de meu irmão:

"Oi, o que foi?" disse ele.

"Preciso falar com você. Urgente!" falei e então desliguei o celular.

Mais ou menos vinte minutos depois, Thomas estava saindo do elevador dentro do meu apartamento.

"O que está acontecendo? Deve ser alguma coisa muito grave, pra me ligar quase dez da noite," disse ele.

"Lembra-se que fui no médico na sexta?" ele acenou com a cabeça positivamente, então continuei, "ontem ele me ligou, os resultados dos exames que fiz tinham saído," mais uma vez ele acenou, concordando, "encontraram um tumor no meu pulmão," a expressão dele mudou, "então hoje de manhã, fui fazer mais alguns exames para saber se o tumor era benigno ou não," ele me olhava fixamente, "Dr. Franz me ligou agora a pouco, o resultado dos novos exames saíram, e..." não tive coragem de continuar, parecia que só agora aquilo estava se tornando real, quando eu ia contar para meu irmão.

"E..." Thomas encorajou.

"Deu que o tumor não é benigno, e eu estou com um..." mais uma vez perdi a voz, "estou com um câncer no pulmão," finalmente disse.

Thomas pareceu atordoado, amedrontado e cético ao mesmo tempo. Ele estava paralisado ali, parecendo uma das estátuas espalhadas por Nova York.

"Isso não é... não é... p-possível," ele gaguejou quando falou.

"Infelizmente, é possível sim," falei.

Sentia as lágrimas vindo e via que Thomas também estava a beira das lágrimas, seus olhos já mostravam sinais disso. E então, pulei nos braços dele e o abracei e nós dois desabamos a chorar. Thomas fora o melhor irmão mais velho que eu podia querer, ou melhor, que qualquer pessoa podia querer. O tipo de irmão que te ajuda a escapar de alguma encrenca, e te dá conselhos nos momentos difíceis, te abraça nos momentos de tristeza e te consola, que faz lembrar que nem sempre a esperança está perdida, sempre existe uma segunda chance, mas neste caso não haveria segunda chance, não haveria uma nova chance de voltar no tempo e recomeçar, refazer o que foi feito errado.

Afastei-me, olhei para ele e disse:

"Me desculpa."

"Não tem o que desculpar, maninha, não tem," ele disse, entre lágrimas, "você não tem culpa do que está acontecendo."

"Não, realmente não tenho culpa do que está acontecendo comigo, mas estou te fazendo sofrer, e isso é minha culpa," e o abracei novamente, voltando a chorar e deixando uma grande mancha no ombro do seu paletó.

Mais uma vez não dormi bem, na verdade, nem dormi direito, não conseguia parar de pensar naquilo tudo que estava acontecendo comigo, liguei para o escritório, avisando que não iria trabalhar naquele dia. Fiquei o dia todo em casa, deitada, não tinha vontade de me levantar para nada, nem mesmo para comer.

Estava assim quando me ocorreu uma ideia, podia ir viajar, sempre quis ir para Paris, faria isso, conclui, então procurei o celular no criado mudo ao lado da cama e liguei para Kristin. Ela atendeu no primeiro toque.

"Shepperfiel Propaganda e Publicidade, boa tarde."

"Kristin, sou eu, Patricia, poderia ligar para a companhia aérea e marcar uma viajem para Paris para mim?"

"Sim, senhora, qual agência a senhora deseja?"

"Pode ser a mesma em que faço as viagens da empresa," disse.

"Tudo bem, senhora, ligarei."

Então desliguei o telefone. Dez minutos depois, Kristin ligou.

"Senhora, sua viagem está agendada para amanhã, às três da tarde," Kristin falou.

"Obrigada, Kristin."

Liguei para Thomas para lhe falar da viagem, ele não pareceu concordar muito, mas, como ele mesmo dizia, eu já era maior de idade e vacinada e sabia o que fazia.