Capítulo 2

Três dias se passaram. E eu tenho tido o mesmo sonho toda noite. As coisas estão ficando estranhas, já que Aerrow me contou o mesmo. Eu não deixei ele saber que eu estava na mesma situação. Ele já estava suficientemente preocupado com isso. É claro, procurei sabedoria nos livros, mas não encontrei nada. Nenhum cristal que podia causar pesadelos, nem nada parecido com o cristal do meu sonho. Aerrow ainda não me contou o que sonhou, mas sempre que eu tento falar sobre isso ele fala alguma coisa sobre não ter me protegido, e sempre faz a mesma promessa. Não vou deixar nada de mal te acontecer. O que ,é claro, me leva a conclusão de que seu pesadelo tem a ver comigo.

Esses sonhos não estão me deixando dormir direito. Cada noite eu durmo mais tarde e acordo mais cedo. Tenho tido medo de dormir, e Aerrow também. Eu tenho ficado no meu quarto, mesmo depois de acordar, para que o Aerrow não se preocupe ainda mais comigo. Nunca estivemos tão unidos quanto agora. Eu realmente gostava de estar nos braços dele sempre que ele precisasse de mim e vice versa.

Toda noite antes de dormir, ele me dava um "boa noite" triste e cansado, sabendo que estava prestes a voltar para o mesmo sonho que o assombra. E eu também.

Tudo estava prestes a se repetir. Por mais que eu segurasse o meu sono, meu cansaço me vencia. E tudo aconteceu novamente. Só que dessa vez foi pior. A dor foi maior. A sensação foi tão forte e pesada que eu sentia o meu sangue bombear veneno pelo meu corpo. Foi absurdamente doloroso, em vários sentidos. O que mais me machucava não era a dor física. Desde o começo não era.

Dessa vez foi demais para mim. Eu acordei chorando. Desesperadamente. Não conseguia parar. Isso nunca aconteceu, eu nem achava possível sentir tanta dor. Era tão exagerado, deixava de ser real. Dormir se tornou uma tortura insuportável. E a única pessoa que poderia me entender e me ajudar está passando pelas mesmas coisas. Era tão estranho tudo isso. Voltarmos toda noite para o mesmo pesadelo ao mesmo tempo. E como Aerrow não me conta como é o dele, eu não posso associar eles.

Eu continuava soluçando na escuridão. Não conseguia me controlar, dessa vez foi demais para eu aguentar em silêncio.

Poucos segundos depois Aerrow apareceu correndo em minha direção. Os outros foram chegando depois. O que é estranho, já que o quarto do Aerrow é um dos mais afastados do meu.

Eu estava chorando tanto que mal conseguia respirar.

Aerrow logo sentou-se na minha cama e me abraçou com força.

"Está tudo bem, calma." Disse ele me balançando como se estivesse tentando acalmar um bebê. "Já passou. Eu estou aqui, vai ficar tudo bem."

Eu estava agarrada a ele. Meus soluços estavam abafados em sua camisa. Mas estavam finalmente diminuindo.

Eu podia ouvir os outros cochichando na porta. Estavam preocupados, mas não queriam nos interromper.

"Ela está bem?" Um deles perguntou. Não prestei atenção em quem era.

"Ela vai ficar bem. Não se preocupem." Respondeu. "Vai ficar tudo bem". Sussurrou para mim.

Aerrow deve ter feito algum sinal para os outros voltarem para os seus quartos, porque saíram juntos.

E logo estávamos sozinhos. Eu havia parado de chorar, só estava dando uns suspiros pesados.

"Aconteceu denovo?" Ele perguntou suavizando o seu aperto para que eu pudesse me afastar e responder.

"Aerrow, nunca parou de acontecer." Falei a verdade. "Me desculpe por não ter te contado antes, mas é que você já estava tão preocupado."

"Piper..." Eu sabia que ele não sabia mais o que falar. Não havia mais o que dizer. Não havia como dar um jeito nessa situação. E não sabíamos como isso iria acabar.

"Dessa vez...Dessa vez foi muito pior." Eu estava voltando a chorar. Ma ele segurou o meu rosto e encostou sua testa na minha.

"Não está sozinha, Piper. Não se esqueça disso. Eu sempre vou estar do seu lado." E mais uma vez me surpreendendo, ele chocou seus lábios contra os meus.

Meus olhos cederam e logo nossos lábios estavam se movendo em sintonia. Meus braços agora pareciam possuir vida própria, minhas mãos foram em direção ao seu pescoço e podia sentir seus braços passeando pelas minhas costas. Ele ma puxava para mais perto dele, para aprofundar o beijo. Ficamos assim por alguns segundos. Nos separamos para poder recuperar o ar. Nossas respirações estavam pesadas. Nossos corações acelerados.

Eu fiquei completamente sem palavras.

"Me desculpe." Ele disse castigando a si mesmo mentalmente. "Me desculpe, Piper. Eu me aproveitei de você."

Antes que ele pudesse dizer algo mais, eu me aproximei dele e o beijei novamente. Ele pareceu um pouco surpreso no começo, mas logo me beijou de volta.

Novamente nos separamos para respirar. Mas ele manteve as mãos na minha cintura.

"Aerrow, não vai." Eu pedi. "Fique aqui comigo hoje? Por favor, não quero sonhar com tudo denovo..."

Ele sorriu e arrumou o meu cabelo. "Como você quiser."

Ele se deitou ao meu lado. Estávamos nos abraçando, eu me sentia bem assim e acredito que ele também.

Tudo foi maravilhoso. Eu nunca dormi tão bem em toda a minha vida. Pela primeira vez nesses dias eu não tive aquele pesadelo horrível. Minha cama nunca foi tão confortável. E eu acho que nunca havia dormido até tão tarde antes.

Eu acordei com a luz do sol, pouco bloqueada pela cortina, no meu rosto. A primeira coisa que vi foi um par de olhos verdes. Aerrow estava sorrindo para mim.

"Bom dia." Ele disse carinhosamente. "Dormiu bem?"

"Pela primeira vez em muito tempo, sim." Falei com um sorriso largo. "E você? Conseguiu dormir?"

"Sim, e muito bem. Acho que nunca dormi tão bem antes."

Eu realmente fiquei feliz em ouvir isso.

Depois fui reparar que eu acordei na mesma posição em que dormi. Meus braços ainda estavam em volta dele. Eu realmente estava cansada. Pensei. Geralmente eu me mexia muito durante a noite.

"Parece que encontramos um jeito de bloquear esses sonhos." Comentou.

"Espero que sim."

"Eu gosto da idéia..." Disse ele com um sorriso sugestivo no rosto.

"Aerrow, você é um pervertido!." Nós dois rimos. "Eu tenho que levantar. Já é tarde."

"Sim senhora." Disse ele me ajudando a me mover, já que os meus braços estavam um pouco dormentes.

Então eu me lembrei de um detalhe. "Aerrow, os outros! Não fiz o café da manhã! Junko vai matá-los!"

Por mais que eu estivesse falando sério, Aerrow começou a rir. "Eles sobrevivem. Tenho certeza de que estão bem."

Eu sorri enquanto juntava minhas roupas.

"Bem, tivemos uma boa noite, então vamos aproveitar o dia." Disse ele me dando um beijo na bochecha. "Vou no meu quarto. Te encontro na ponte." E saiu para o corredor.