À memória de Brandon Lee.


The Crow Black Dream

Oh. Então estava chovendo de novo.

Foi o que ele constatou, olhando pela janela estraçalhada, sentado numa poltrona esfarrapada. As pernas posicionadas de um jeito displicente, a cabeça jogada de lado no encosto da poltrona, alguns cachos negros do cabelo longo cobrindo-lhe o rosto.

Não pode chover o tempo todo.

Ou pode?

Um clarão de relâmpago iluminou momentaneamente o quarto, e ele. A roupa negra, o rosto quadrado, o porte musculoso. Em seguida, o trovão que abafou por alguns segundos a música que tocava, e que o entorpecia de um certo modo, por sua levada pesada e lenta de guitarra.

Ele girou a cabeça para o outro lado, preguiçosamente, olhando para as paredes rubras, iluminadas por velas. Ah, aquelas paredes vermelhas... se elas falassem... contariam toda a sua vida, a sua tão curta e tão longa existência de 20 e poucos anos.

Os olhares, os sorrisos, os beijos, as carícias, os sussurros...

Os gemidos...

"Shelly..."

Se as paredes falassem naquele momento...

Elas iriam GRITAR, gritar de tristeza pela perda, pela saudade, por aquela existência em preto e branco, pela dor da própria morte, e pela dor maior de voltar à vida e encontrá-la vazia. E depois de descarregarem a tristeza, as paredes iriam urrar, clamar pela única coisa que o mantém vivo, pela sua única razão de estar ali...

...Vingança.

Ele fechou uma das mãos em punhos e respirou profundamente, deixando o ódio invadir sua alma, injetando vida em suas veias. Não podia ficar parado ali. Precisava acabar logo com isso.

Levantou-se e foi até o espelho estilhaçado. Sua maior arma contra si mesmo estava ali. O pó branco e o lápis preto, que mais uma vez o vestiam com uma máscara que escondia toda a sua tristeza para deixar transparecer o ódio e a sede de vingança.

Olhar-se no espelho foi como olhar para dentro de sua alma, ver seu espírito refletivo em cacos de vidro.

Mas não doía mais ver a si mesmo. Não importava mais.

Vestiu o sobretudo e saltou para a janela. Iria atrás da única coisa que importava.

FIM