Painting Pictures

... Filling up my heart with golden stories...
(Adele)


Scorpius estranhou completamente a festa de Natal que tinha todo ano no salão de festas em Londres. Começando com as crianças que eram calorosas e estavam sempre correndo ao redor das mesas, elas quebravam os pratos e os adultos davam risadas, o que era algo muito diferente de tudo aquilo que Scorpius já viu. Provavelmente ele estava se sentindo deslocado, porque se grudou em mim o tempo todo, como se tivesse ficado tímido de repente.

– Não são como aqueles jantares que nós geralmente vamos – eu lhe disse. – Mas você vai gostar bastante desse.

Draco nos levou até uma mesa desocupada, e Narcisa se acomodou ao lado de Lucius, que segurou o braço de Scorpius para ordenar:

– Fique sentado aqui. Essas crianças não têm respeito.

Scorpius ia obedecer, mas eu disse:

– Se você quiser brincar com elas, ninguém vai te impedir, está bem?

No entanto, ele ficou sentado entre mim e Draco, brincando com o garfo. Mas os olhos não paravam de rodar pelo salão, observando as outras crianças berrarem e empurrarem as outras. Scorpius não teve muitos amigos naquela sua idade até os dez anos. Ele e Dimitre costumavam se divertir juntos, no entanto Dimitre tinha mania de agir como se tivesse vinte anos a mais que ele. Uma vez eu perguntei a Scorpius porque ele não queria mais brincar com o primo e ele respondeu que o garoto era muito chato.

Naquela noite, no entanto, Scorpius se virou para mim esperançoso:

– Dimitre não vem aqui também?

– Eu não sei. Dafne não falou nada.

– Ah – ele mexia o garfo contra o prato, fazendo barulho, mas parecia um pouco desapontado.

De repente duas crianças começaram a correr em volta da nossa mesa. Estavam tão agitadas que a criança de cabelos ruivos esbarrou no braço de Lucius, fazendo-o derrubar o vinho no seu sobretudo. Irritado, ele levantou-se bruscamente, mas Draco segurou o pulso dele, alarmado.

– Não, pai – ordenou.

O garoto olhava assustado para o que havia feito.

– Me desculpe – pediu. – Meu irmão é um idiota, foi culpa dele.

– Foi nada! – exclamou o outro mais novo, de cabelos negros. Os dois começaram a se empurrar, mas não terminaram a briga porque uma voz muito brava ecoou atrás de nós.

– James! Albus! Parem já com isso ou vocês vão ficar sem presentes de Natal!

Era Ginny Potter e ela agarrou os braços dos meninos com força.

Quantas vezes eu já falei para vocês não encherem o saco das pessoas?

– Não estamos enchendo o saco delas, estamos apenas atrapalhando... – argumentou o ruivo.

– Não quero saber, voltem já para a nossa mesa.

– Quem chegar por último é a mulher de Dumbledore – avisou o mais velho, e os dois saíram em disparada.

Quando sumiram de perto, Ginny se virou para nós, um pouco embaraçada.

– Crianças – girou os olhos. Vendo que Lucius ainda estava com a cara fechada, ela preferiu olhar para mim, e depois para Draco. – Hum, tenham um feliz Natal.

Ia dizer mais alguma coisa, mas sua amiga apareceu no mesmo instante e elas se afastaram, deixando-nos sozinhos novamente.

– Potters – reclamou Lucius, limpando a mancha de vinho com um feitiço. – Não sei como os pais agüentam. Não, sei sim. São todos iguais. E...

– Pare – sugeriu Draco, sério. Lucius piscou. – Não precisamos ouvir suas reclamações.

– Está defendendo eles agora?

– Não, só acho que isso não vale a pena.

Lucius não disse mais nada, o que isso foi excepcionalmente bom.

Não se passaram nem cinco minutos, e o garoto moreno, o tal de Albus, se aproximou novamente, mas com muito cuidado e o mais longe possível de Lucius, para se aproximar de Scorpius.

– Quer jogar Quadribol com a gente?

– Quadribol? – Scorpius ecoou. Draco e eu nos entreolhamos. Os dois falavam a mesma língua. – Você tem uma vassoura?

– Não uma profissional. Meu pai fala que não posso ter uma vassoura já que ainda não vou para Hogwarts. Você quer jogar? Estamos montando um time lá fora.

– Eu não sei voar.

– Você nunca voou numa vassoura? – Albus parecia estupefato. Scorpius fez que não. – Tudo bem, não estamos jogando de verdade. Mas meu irmão está com o time mais forte, com mais jogadores. Só tenho duas pessoas no meu time.

– Quem está nele?

– Por enquanto só eu e minha prima e minha irmã. Aquelas duas lá.

Scorpius olhou para elas há uns quatro metros dali, que nos observavam com expectativas. Eu não saberia o que Draco ia dizer se Scorpius pedisse permissão, mas ele mesmo disse com a voz baixa para o garoto:

– Acho que não quero.

Potter não insistiu, então voltou correndo avisar as duas garotas que ele não ia querer jogar. Uma delas, a mais alta, cruzou os braços e disse que ele era um chato. No entanto, Scorpius não escutara.

Eu me virei para ele.

– Por que não quis ir?

Só deu de ombros.

– Eles são melhores do que eu.

– Não, eles não são – foi Narcisa quem disse, e ela parecia brava enquanto repassava o batom nos lábios. – Não deixe ninguém fazer você sentir que não é melhor do que as outras pessoas, querido.

Deu para notar que, depois daquilo, Scorpius ficou arrependido. Estava na cara que ele queria ter participado da brincadeira, mas foi tarde demais. Potter não voltou para convidá-lo. Na verdade, a próxima vez que o vimos, o garoto voltara para a mesa da sua família gigante com os Weasley, e de repente todo mundo de lá começou a cantar parabéns, enquanto ele apagava a vela de um bolo, que não condizia com o tamanho da família.

– Pai, aquele garoto faz aniversário no mesmo dia que o meu – Scorpius apenas disse curioso, e eu fiquei aliviada que não tivesse feito nenhuma pergunta. Do tipo: "Por que não cantam para mim também?"

Apesar de Scorpius não ter reparado, senti-me mal por isso, por não ter a iniciativa de cantar parabéns em público ao meu próprio filho. No entanto, éramos diferentes daquela família. Éramos discretos, não gostávamos de atenção. Mesmo assim, até Draco parecia um pouco incomodado, e disse para irmos embora.

Achei que tinha sido por esse motivo, por ter se incomodado, que ele quis voltar. Mas quando chegamos à mansão, eu vi que estava um pouco enganada.

Draco queria dar um presente a Scorpius, muito diferente de tudo aquilo que nós imaginávamos. E não acreditei que ele conseguira esconder até de mim, porque eu fiquei mais surpresa que Scorpius quando Draco trouxe até a sala, em suas mãos, o filhote de um gato preto.

– Pai! – exclamou Scorpius, agitado. Ele se sentou no chão e começou a passar a mão nos pêlos macios do gato. Eu me aproximei e fiz o mesmo. – Como conseguiu um desses?

– Toda família deve ter um bicho de estimação.

– E não me falou nada? – perguntei, franzindo a testa.

– Queria surpreender os dois. Só que o gato é fêmea, então cuidado ao escolher o nome.

– Legal – exclamou Scorpius feliz. – Mãe, como você quer que ela se chame?

– Sou péssima em dar nomes – falei rindo.

– Ela tem cara de Penélope.

Imaginei que ele tivesse lido um livro que citava aquele nome. E mesmo que eu soubesse que Scorpius ia se arrepender, não protestei. Scorpius ficou fascinado pela gata e ele não parecia ligar muito para nomes. Mesmo que Draco não tivesse gostado daquele, acabou que o nome encaixou perfeitamente naquela gata. Aos poucos, até mesmo Draco se acostumou e começou a citá-la dessa forma. Penélope logo virou parte da família. Ela nos ajudou a perceber o quanto o tempo estava passando, pois seus pêlos ficavam cada vez mais negros e manchas brancas apareciam em seu pescoço e em suas patas peludas. Era uma gata elegante e não dava trabalho nenhum. Tinha olhos tão misteriosos que não podíamos prever nenhum movimento seu. Era calma, um tanto arrogante, e observadora, numa confiança extrema – e somente – para com Scorpius.

Quanto a mim, Penélope me arranhava e, sinceramente, nunca me dei bem com ela. Achei que ia ficar feliz se ela não aparecesse mais perto de mim, mas isso significava que Scorpius também não ia estar mais por perto, porque ele a levaria para Hogwarts, quando recebesse sua carta.

E foi Draco quem me acordara quando aconteceu.

– Hummm? – resmunguei, apertando o travesseiro contra o rosto. Na noite anterior nós havíamos brigado e talvez fora uma das nossas piores brigas desde que casamos. Nem ao menos dormimos abraçados naquela noite. Motivos eram idiotas, devido ao ciúme, ao medo de chegarmos a ser um daqueles casais que estavam cansados um do outro depois de tanto tempo vivendo juntos. – Que foi? Agora quer pedir desculpa pela ceninha que fez ontem? Eu não vou transar, estou com dor de cabeça e...

Eu não queria encará-lo, porque a culpa não fora apenas dele, mas eu não queria admitir assim tão fácil. Draco estava ao meu lado e como se eu nunca tivesse ficado irritada com ele, beijou meu ombro delicadamente. Eu fiquei com vontade de me afastar, mas Draco colocou um envelope em minha mão.

– Chegou – ele sussurrou. – Finalmente chegou.

Nós tínhamos certeza que isso ia acontecer, mas ter acontecido fez com que eu sentisse meu coração se apertar, involuntariamente. O envelope de Hogwarts não estava aberto, já que abrir deveria ser a tarefa de Scorpius. Mas sabíamos que era de Hogwarts porque todos nós já recebemos o mesmo em um momento da vida. A letra, no entanto, era diferente, uma vez que a professora McGonagall havia adquirido o posto de diretora de Hogwarts, no lugar de Albus Dumbledore.

Eu passei a mão na testa, compreendendo o que aquilo significava. Sem notar, eu comecei a sorrir e me virei para encarar Draco. Eu deixei ele beijar a minha boca, como se nossa briga não tivesse significado nada.

– Conseguimos – falei, à medida que ele descia os lábios até meu pescoço. – Scorpius vai para Hogwarts.

Draco não parou de beijar minha pele, então coloquei a carta no criado-mudo, para minhas mãos ficarem desocupadas e conseguirem tirar sua blusa.

– E eu te amo – sussurrei a ele, meio inspirada. Eram palavras que subiam pela minha garganta, numa súbita declaração. Draco apenas sorriu, e não deixei de pensar que aquela foi nossa forma de comemorar, e, claro, de pedir desculpas por sermos, às vezes, ainda tão idiotas em relação a nós dois.


Scorpius parecia estar desmaiando de sono quando desceu as escadas e chegou até a cozinha, onde eu mesma preparava seu café da manhã. Sentou-se na cadeira e ficou olhando para mim, segurando o rosto com a mão. Ainda estava com o pijama, mas antes que ele dormisse em cima da mesa, eu disse:

– Então você vai comprar suas vestes de Hogwarts assim, de pijama, com esse cabelo despenteado? Não vai dar boa impressão lá no Beco Diagonal.

Ele se afastou da cadeira bruscamente. Eu estava segurando a risada.

– A carta chegou? – perguntou com a voz arrastada, mas alarmada.

– Está em cima do piano e-

Scorpius não quis ouvir o resto. Foi até a sala e voltou trazendo a carta arreganhada, lendo-a em voz. Não via por onde pisava, então esbarrou em Lucius no momento que ele entrava na cozinha.

– Cuidado, Scorpius.

– A carta chegou! Olha – ele enfiou a carta praticamente no nariz de Lucius, que teve de se afastar um pouquinho para ler.

– Veja isso! – exclamou ao perceber. – Muito bem, Scorpius. Finalmente irá se tornar um verdadeiro bruxo.

– Vou ser um sonserino como todos da família, vô – ele disse, ajeitando a gola do pijama.

– Não vejo por que não – ele respondeu. – Mas o chapéu seletor escolhe os alunos que merecerem.

Scorpius diminuiu um pouco a pose presunçosa.

– Eu não sabia disso – murmurou.

– Não se preocupe, Scorpius, o chapéu seletor não vai querer quebrar uma tradição de família, tenho certeza disso. Se ele selecioná-lo a Lufa-Lufa, com certeza eu irei até lá para tirar satisfação. Seria um insulto colocarem meu neto em outra casa, a não ser a Sonserina.

Scorpius me encarou, preocupado. Estaria se perguntando: "E se eu não merecer?" Eu apenas disse delicadamente:

– Troque de roupa, nós vamos ao Beco Diagonal daqui a pouco.

Ele obedeceu e correu as escadas.

Lucius estranhou minha expressão e se fez de desentendido.

– Como consegue? – perguntei, franzindo a testa. – Quero dizer, não fez nem dois minutos que ele viu a carta e o senhor já o deixou preocupado.

– Estou só dizendo. Ele não vai querer ser diferente nisso.

– Eu não quero que ele se sinta obrigado a querer ser o que o senhor ou Draco foi.

– Não estou obrigando ele a nada.

– Está induzindo-o.

– Você quer que ele seja um Corvinal? – senti um mero tom de deboche.

– Seria interessante. Eu fui uma.

Você?

– Ops. Devo me divorciar de Draco agora? – disse sarcasticamente.

– Deveria parar de me enfrentar, Astoria. Você sabe perfeitamente que sobre issominha opinião nunca irá mudar. Mas não quer dizer que eu esteja arrependido com o rumo que esta família está tomando. Não estou admitindo meu orgulho por tê-la como nora, estou apenas dizendo... em outras palavras, que nunca pensei que haveria uma mulher que pudesse extrair de Draco tudo aquilo que ele sempre foi. Você não o mudou, ninguém o mudou. Draco sempre foi o que ele está sendo, mas eu o reprimi durante todos aqueles anos. Ele apenas não se importa agora com o que eu penso, e se tornou uma pessoa melhor. E ele está certo. Você também não deveria se importar com o que eu penso.

– Eu não me importo – afirmei. – Mas Scorpius sempre irá considerar tudo o que o senhor disser a ele.

– Talvez – falou. – Mas Draco não irá fazê-lo cometer esse erro por muito tempo, eu tenho muita certeza disso agora.

– É, você tem razão, mas ainda assim tarefas como essas não precisam ser apenas nossa.

Mais uma vez Lucius se calou.

– Mãe, já estou pronto. – Scorpius reapareceu com suas roupas no corpo magro. De repente eu percebi que ele havia crescido bastante, com os cabelos para trás.Oh não, eu já estava começando a reparar em mudanças. Mudanças que o tornavam cada vez mais parecido com Draco.


Tivemos nossa caminhada pelo Beco Diagonal nunca antes tão infestado de famílias com suas crianças. A nossa frente, Scorpius andava calmamente, sem muita pressa. Embora estivesse animado, mantinha-se concentrado em todas as lojas ao seu redor e, principalmente, nas pessoas. Mas não ficava insistindo entrar em todas as lojas de uma vez. Quando viramos a rua em que havia a loja das vassouras de Quadribol, eram tantas crianças ao redor da vitrine, babando na nova versão da Firebolt, que quando Draco perguntou se ele queria entrar, Scorpius fez que não.

– Acho que quero comprar minha varinha primeiro – falou.

– Estava pensando em deixar a melhor parte por último – disse Draco. – Mas já que você quer, continue andando.

Nós fomos até o velho – e coloque velho nisso – sr. Olivaras que, por sorte, estava vazio. Entramos no aposento aconchegante e, diferente da minha época, muito mais organizado. Draco se aproximou com Scorpius até o balcão.

– Boa tarde – disse Olivaras voltando do seu estoque de varinhas. Ele tinha um sorriso receptivo em seu rosto, no entanto desapareceu logo que viu quem era. – Malfoy. Oh – o bruxo ajeitou os óculos assim que viu Scorpius. – Então hoje a varinha é para o jovem herdeiro. Acho que tenho uma muito boa para você, sr. Malfoy.

Ele se referia a Scorpius e voltou para o seu estoque de varinhas, desaparecendo de vista por um minuto.

– Ele é estranho – comentou Scorpius e Draco apenas soltou uma breve risada.

– Ele parece muito normal para mim.

O bruxo voltou com uma varinha em mãos. Scorpius a experimentou pela primeira vez, usando um feitiço simples de teste. No entanto, não serviu. Poderíamos ficar ali por horas até uma varinha escolher Scorpius, mas isso aconteceu logo na terceira experiência, o que foi surpreendente e rápido.

– Faça bom uso dela, meu jovem – desejou Olivaras, ao entregar a varinha a Scorpius.

– Ele fará – garantiu Draco, segurando o ombro dele. – Vamos, filho.

– Obrigada – eu disse a Olivaras, que apenas assentiu e deu as costas.

Quando voltamos a andar pela rua, Scorpius não deixou de comentar:

– Aquele homem não gostou da gente.

– Ele não gosta de mim. Você e sua mãe não têm nada a ver com isso – respondeu Draco.

– É por causa da sua marca? – perguntou baixinho.

– É, e... por outras coisas também.

– Não entendo. Aconteceu há tanto tempo... por que as pessoas agem como se o senhor ainda fosse um comensal da morte?

– Às vezes é preciso mais do que tempo para as pessoas esquecerem – ele respondeu. – Além disso, trazemos más lembranças a algumas delas.

– Deviam superar – comentou Scorpius, meio irritado.

– Não é fácil – garanti. – Mas o que o sr. Olivaras disse sobre você fazer bom uso da sua varinha, é melhor que leve em consideração.

– Eu farei bom uso – ele garantiu. – Não é como se eu quisesse explodir...

Scorpius parou de falar quando olhou para a construção de Gringotes assim que viramos uma esquina. Era gigante, maravilhosa, e todas as letras que compunham o nome eram feitas de ouro.

– Uau, posso explodir tudo isso? – ele perguntou, irônico demais para um garoto de onze anos.

– Nem brincando – retruquei. – Vamos, ainda temos que comprar suas vestes, e lá o lugar é completamente demorado. Você não vai querer ver as outras pessoas experimentando as vestes.

– Nem brincando.

Draco separou de nós dois, ia sacar uma quantia necessária de dinheiro em Gringotes para entregar a Scorpius durante seus anos em Hogwarts. Enquanto isso, fomos até Madame Malkin que, infelizmente, já estava atendendo duas crianças.

E elas eram conhecidas. Scorpius também pareceu reconhecer.

– Você vai para a Sonserina – provocava o Potter mais velho.

– Cala a boca – retrucava o mais novo, que mal se movia enquanto as vestes de seu corpo eram medidas.

– Você sabe que só a mamãe me manda calar a boca, então como ela não está escutando, eu posso continuar dizendo que você vai entrar na Sonserina!

– Assim está bom para você, querido? – interrompeu a Madame Malkin, que ajeitava a barra da calça de Albus.

– Acho que a senhora deu as vestes erradas. Uma saia cairia bem melhor nele, não acha?

– Você já está pronto, James – Madame Malkin falou, girando os olhos enquanto o garoto ruivo ria da sua própria piada. – Não provoque seu irmão. Ele está assustado que será o primeiro ano dele. Lembro que no ano passado, você gritou enquanto eu media a barra da sua calça, achando que era uma cobra, mas na verdade era só esse alfinete.

– O que conversamos sobre nunca revelarmos esse episódio para as pessoas, Madame Malkin? – James coçou os cabelos, mas depois se virou para o outro lado e pegou o braço de uma garotinha também ruiva, deixando o irmão ainda estático como uma pedra ali no centro da loja.

– Hum, acho que ficou um pouco larga – comentou Malkin olhando para as calças de Potter. – Fique paradinho aí enquanto faço o alfinete trabalhar nisso, vou atender o outro garoto.

Potter parecia incapaz de se mover. Madame Malkin finalmente atendeu Scorpius. Sugeriu que eu esperasse sentada no sofá e, enquanto lia uma revista, conseguia ouvir a conversa estabelecida entre meu filho e o filho de Potter.

– Você tem medo de ir para a Sonserina? – perguntou Scorpius.

– James diz que as pessoas ruins são selecionadas para lá. Ele diz que o "resto" fica na Sonserina.

– Então seu irmão não entende muita coisa, não é?

O garoto ficou em silêncio, considerando essas palavras. Scorpius continuou:

– Minha família inteira é da Sonserina.

– Minha família inteira é da Grifinória.

– A casa dos corajosos, meu pai diz – falou Scorpius. – Mas espera entrar nessa casa se está com medo de ser selecionado para outra? Não faz muito sentido.

O garoto parecia estar querendo retrucar algo à altura. A mãe dele, curiosamente, estava sentada ao meu lado e eu nem havia reparado nisso até o momento em que ela disse:

– Ainda bem que eu não trouxe Harry para ver essa cena.

– Acha que ele vai deserdar seu filho por estar conversando com o meu? – perguntei com as sobrancelhas erguidas, mesmo que eu também estivesse aliviada que Draco não nos acompanhara dessa vez.

– Provavelmente. – Mas havia um tom irônico em sua voz, de modo que senti que não íamos nos desentender. – Você é a mulher de Draco. Quero dizer, casamento já é difícil, imagine só com...

– Eu nunca reclamei de ter me casado com ele, se é o que quer saber.

– Não, apenas penso em tudo o que aconteceu aos Malfoy. Não deve ser fácil fazer parte de tudo isso. Mesmo assim não deixa de ser admirável, o que fez pela família.

Lembrei que ela estava em trabalho de parto no mesmo dia que eu, há onze anos. Talvez ela e sua família tenham escutado algo sobre como alguém sacrificara a vida para dar um herdeiro aos Malfoy. Talvez agora eles estivessem reconhecendo isso.

– Já foi muito mais difícil, acredite – falei.

Mais difícil quando eu não fazia parte de tudo aquilo, mas não precisei compartilhar isso com ela.

Naquele momento seu filho apareceu, trazendo consigo as sacolas das vestes. Os dois foram embora logo depois, deixando a mim e Scorpius ali, enquanto Madame Malkin dava últimos ajustes nas vestes dele.

Assim que tudo estava pronto, encontramos Draco no restaurante do meu tio e almoçamos por lá. Não comentei sobre minha conversa com a mulher de Harry Potter. Mesmo se eu quisesse, ele estava ocupado demais fazendo planos para o fim da tarde. Então saímos para comprar uma coruja a Scorpius, e, por último, os livros e o caldeirão. Foi uma tarde repleta de reencontros. Até esbarramos em Dimitre e Dafne no meio da loja de livros. Naquele ano Dimitre já ia embarcar para o seu segundo. Ele havia entrado na Sonserina, o que deixara sua mãe muito orgulhosa.

Fomos embora com tudo o que Scorpius precisava para o seu primeiro ano. Draco ficou nas próximas semanas até primeiro de setembro, muito calado e estranho, principalmente na cama. Não parecia disposto a conversar, e mesmo que eu tentasse satisfazê-lo nas transas, ele se distraía. Scorpius estava completamente preparado para Hogwarts, mas Draco não.

Porque quando primeiro de setembro chegou, ele havia acordado mais cedo do que era necessário. Ao abrir os olhos eu o encontrei ajeitando o sobretudo no corpo. Vestir-se assim mostraria que ele não queria esconder o fato de ainda ser um Malfoy e, agora, com um certo tipo de orgulho, porque levaria seu filho a embarcação.

– São cinco horas ainda – resmunguei. – Só vamos sair às sete.

– Não consigo dormir.

Ele sentou-se no pé da cama e ficou olhando para o armário.

– Vamos – encorajei, ajoelhando-me atrás dele na cama para massagear seu ombro. – Ele vai ficar bem lá.

– Eu sei.

– Então por que está com essa cara?

– Estou nervoso, só isso.

Ele admitir me impressionou.

– Nervoso porque você vai rever certas pessoas na estação ou nervoso porque seu filho vai ficar fora por vários meses?

– Não sei, os dois, talvez. Eu sou patético.

– Se ser patético é ser um bom pai, eu amo quando você é patético – sussurrei, beijando seu maxilar. Eu fiquei abraçada a ele, compartilhando aquele nervosismo tão inédito e patético entre nós. Encostei o queixo no seu ombro e fechei os olhos, enquanto Draco cutucava o anel em meu dedo. Eu voltei a dormir assim e só acordei de novo deitada quando o sol já havia nascido completamente, dando o ar atmosférico de uma maçã dourada. Draco não estava ao meu lado.

Ele e Scorpius tomavam café da manhã em silêncio quando desci. Os dois estavam prontos e muito parecidos, exceto que Draco havia deixado a barba crescer, e Scorpius fosse vários centímetros mais baixo. Acabamos que todos nós tomamos café em silêncio, pois na verdade queríamos dizer muitas coisas para Scorpius, mas nem sabíamos por onde começar. E ele, também, estava nervoso, o que em si já o deixava mais quieto do que o normal.


– Já está na hora – falei, olhando meu relógio.

A estação estava repleta de famílias despedindo-se de seus filhos. Acho que eu não estava preparada para fazer isso ainda, mas Scorpius se virou para mim, quando a fumaça do trem ficou excepcionalmente forte e o monitor de Hogwarts soou o apito da primeira chamada.

– Tchau, mãe – ele disse e eu só consegui corresponder ao seu abraço. Ele ia se soltar de mim, mas eu meio que o apertei um pouquinho mais. Scorpius não reclamou, ao em vez disso me olhou ao soltar-me e se virou para ver o trem enchendo-se de pessoas. Nunca tive a concreta sensação de que ele se parecia comigo, porque também não era muito confortável com despedidas.

Ele estava esperando algum conselho sobre Hogwarts. Eu era a péssima pessoa para fazer isso. Scorpius estava apavorado, sim, e sua postura estava ereta demais, como se ele quisesse prestar atenção em tudo. O que eu ia dizer a ele? Olhei Draco, pedindo ajuda.

Mas ele estava com os olhos atentos para o outro lado da estação. Adiante estavam os Potter e os Weasley, que se despediam de seus filhos. Nós não éramos os únicos que olhavam para eles, mas curiosamente éramos vistos por eles. Estavam olhando em nossa direção também. Draco apenas acenou com a cabeça, o máximo que podia fazer, já que não os desprezávamos a ponto de perder a educação. Draco logo se virou para Scorpius de novo, que ainda olhava naquela direção, curioso.

A mão de Draco segurou o ombro dele, chamando-lhe sua atenção. Scorpius levantou a cabeça e o encarou.

– Escute, Scorpius – Draco começou a dizer e suas sobrancelhas estavam juntas como se ele estivesse formulando as palavras da melhor forma possível. – Algumas pessoas vão falar sobre nossa família em Hogwarts... e não deixe ninguém tratá-lo com desprezo. Não dê motivospara tratarem você dessa forma, entendeu? E tente não dormir muito durante a aula de História da Magia, que é a coisa mais difícil que você pode enfrentar por lá.

– Está bem, pai – ele sorriu.

O apito soou outra vez. O vapor do trem estava ficando cada vez mais intenso. Scorpius me olhou uma última vez e eu sorri, querendo garantir que tudo ia ficar bem com ele.

Ele fez que sim e pegou as malas, com a gaiola da coruja e sua gata. Quando virou de costas para nós e se aproximou do fluxo de alunos que embarcavam, ele voltou a olhar para Draco. Ao em vez de entrar, ele voltou para nós de novo e perguntou:

– Pai, eu posso escolher entrar na Sonserina?

– O quê? Eu... não sei, Scorpius. Eu acho que tudo depende do que você é ou merece...

– E se eu não entrar na Sonserina? E se eu não... merecer? Eu não quero ser diferente da família e...

– Eu... – Draco observou enquanto o trem se infestava de pessoas. Ele realmente não sabia o que dizer a Scorpius, e todos já estavam entrando no trem. Pensei em apressá-lo, mas Scorpius estava tão preocupado que Draco apenas suspirou e disse: – Se não entrar... está tudo bem, Scorpius. Você merece aquilo que você deseja, então prove isso por lá. E não é ruim ser diferente.

Ele olhou para mim, como se quisesse que eu confirmasse que Draco estava mesmo falando sério.

– Vejo você no Natal, querido – eu disse, tentando não soar muito dramática. – E mande lembranças a Dimitre, caso ver ele por aí.

Com um passo em nossa direção ele abraçou Draco com força e se virou de novo para entrar no trem. Acenou para nós, um pouco inseguro, quando já havia conseguido um compartimento e o observávamos através da janela. Diferente dos outros alunos, ele estava sério, atento, demonstrando seu nervosismo de uma forma fechada e rígida.

Senti vontade de chorar.

O trem começou a andar e Draco apertou a minha mão, sem tirar a atenção do trem, que fazia a curva.. Ele esperou transformar-se em apenas um ponto distante do horizonte, para olhar para mim. Havia preocupação em seus olhos. A expressão que se espelhava a de Scorpius, mas por motivos diferentes. Não dissemos nada, mas nosso silêncio já revelava muita coisa.

Aquele dia todo, porém, a preocupação de Draco não o abandonou. Ele não quis conversar com ninguém. Até mesmo Lucius parecia estranhá-lo. Ficou calado o dia todo até a hora que fomos para a cama. Resolvi não insistir muito. Conhecia o marido que eu tinha, sabia lidar com isso.

Ultimamente Draco esteve dormindo mais cedo e nossa vida sexual não era mais ativa, comparada a dos nossos primeiros anos juntos. Não que nossa atração sexual tenha terminado, mas acho que isso passou a ter menos importância desde que tivemos um filho.

Naquela noite, porém, eu o senti dentro de mim mais uma vez e quando estava a ponto de atingir o orgasmo com seu corpo magro e intenso movendo-se sobre mim, eu reparei como aquilo jamais deixou de ser importante. A diferença é que tínhamos outra grande prioridade agora. Estranho pensar que eu não veria Scorpius naquela manhã. Mas quando se pensa que ele está em Hogwarts, o alívio preenche qualquer preocupação, então eu podia me concentrar no sexo que Draco e eu fazíamos naquele momento.

Apertei seu rosto, segurando seu olhar sobre o meu. Ele gemia alto, acompanhando o som que eu fazia. Implorei e implorei para ele ir mais rápido, mais forte, e ele obedecia, mas sua expressão ainda estava contraída em pura seriedade. Ofegava quando gozou dentro de mim e caiu ao meu lado, exausto. Nós nos encaramos. Encostei a cabeça no seu peito enquanto deixava-o brincar com o anel em meu dedo.

– Quer conversar? – perguntei quando voltei a respirar normalmente.

– Eu queria dizer mais coisas a ele – disse Draco tão baixo que mal ouviria se ele não estivesse praticamente com os lábios no meu ouvido.

– Às vezes é bom que ele saiba como lidar com as coisas sem a nossa ajuda.

– Lembrei de quando eu embarquei pela primeira vez. Achava que ia me dar bem, melhor do que qualquer outra pessoa. Eu tinha tanta certeza que ia para a Sonserina, como se isso fosse importante. Depois eu descobri que o mais importante é fazer as pessoas confiarem em você, independente em que casa você é selecionado.

– Você quer que ele seja da Sonserina? – perguntei.

– Sim, e não é porque a família toda é dessa casa. Quero que ele mostre que isso não significa ser um perdedor. Hoje em dia essa casa não é bem vista, assim como nossa família. Eu queria que ele pudesse mostrar que as pessoas estão erradas. Mas o que eu quero não importa agora. Qualquer escolha que ele fizer, sempre será melhor do que qualquer uma que eu já viz, então eu confio nele.

– Ele vai ficar feliz em ouvir isso.

– Estou arrependido de não ter falado.

– Teremos tantas chances. Afinal, são sete anos e ele está no primeiro ainda, não é mesmo?

– Sim... mas sabe o que eu mais temo em relação a Hogwarts?

– Hum?

– Que as pessoas comecem a mostrar a ele que ele podia ter crescido num lugar melhor... com pais melhores.

Refleti. Era intrigante, mas não tinha sentido temer tal coisa. Falei com veemência:

– Scorpius não vai dar a mínima para o que as pessoas falarem. Eu sou assim e o criei assim. Sei que ao longo desses anos eu errei bastante, mas eu tenho certeza que nisso eu acertei, nisso eu o influenciei. Ele tem orgulho de ser seu filho, Draco. Ele sempre terá.

Senti o braço dele se apertar ao meu redor. Depois disso, não falou mais nada, mas pareceu mais confiante quando me beijou para dormir. Não sabíamos por quanto tempo aquela preocupação ficaria dentro de nós, e mesmo assim não me pareceu anormal. A respiração de Draco estava controlada, tínhamos convicção de que Scorpius estava em um lugar seguro, e que ia se tornar o bruxo que nenhum de nós chegou a ser. Eu podia fechar os olhos, num sossego iminente, e continuar descansando nos braços do homem que mudou a minha vida. Os próximos dias sem ver Scorpius iam ser estranhos...

Mas agora tudo estava bem.

- Fim -


Como posso começar? Ou melhor, finalizar...?

Bem... chegamos a um fim! Meu interesse por Draco e Astoria iniciou quando algumas pessoas com quem conversei sobre o epílogo do livro disseram que Draco nunca se casaria com uma mulher ou que fosse fiel a essa tal mulher.

Money Honey é a minha resposta indignada a um pensamento desses. Aqueles 19 anos não se passaram apenas para o Harry, o Ron e a Hermione. Eu acredito sim, que até Draco teve o direito de amar e ser amado - a sua maneira. E eu sempre fui interessada no outro lado da história, no lado negro da guerra, sempre gostei de escrever sobre eles. Além disso, os Malfoy são tão intrigantes que me fazem pensar. E acho que nunca vão parar de me fazer pensar.

Último capítulo postado e agradeço a todos os lindos nomes que passaram nas reviews esses cinco meses (Sim, fora cinco meses de fic!). Obrigada por terem lido, gostado, por terem comentado, favoritado, votado, elogiado, rasgado ceda, amo vocês! Cada comentário faz diferença na vida de qualquer autor, lembrem-se disso *O*

Um beijo a todos,

Pokerwell.