Capítulo 3 – Tomando uma decisão muito difícil

Quando fui ao escritório conversar com Kalos, tive o imenso azar de encontrar Leon. Eles estavam conversando exatamente sobre o papel de Demétrio, porque pelo visto Leon ainda não aceitara a ideia de que eu faria o personagem. Sendo assim, quando contei o que aconteceu no consultório, Leon encontrou forças para exigir que eu desistisse do papel. Obviamente, Kalos recusou-se a fazer isso, e me disse o que já tinha me dito antes:

"Você ainda tem até domingo para me responder, Ken. Pense bem no assunto. Gostaria muito de te ter no elenco, mas não quero que você faça algo obrigado só porque eu te quero no papel. É uma decisão difícil, que só você pode tomar".

De fato, só eu poderia decidir se continuaria no elenco ou se saía e voltava à minha vida normal.

Resolvi não contar todos os detalhes para o Kalos naquele instante, até porque Leon estava ali. Por isso, omiti as exigências de treino que o médico me fez, bem como o fato de que eu corria o risco de precisar de transplante. Não queria que ele usasse aquilo contra mim, e também tinha o fato de que Sora ficara muito apreensiva quando ouviu a história toda. E eu não queria preocupá-la. Mas na sexta-feira, quando Kalos estava sozinho, eu lhe contei o resto. Mia já sabia como seria meu treinamento, então precisaria só da autorização de Kalos para continuar.

"Um personal trainer para vistoriar o seu treinamento físico" – ele murmurou, assim que eu terminei de contar – "É, acho que passou da hora de termos um. Você nos faria um grande favor".

"Eu sei que, do jeito que o médico está exigindo, eu treinaria menos, mas acredite Kalos, se eu aceitar o papel, eu vou me esforçar para compensar cada minuto de treino. Não vou deixar o espetáculo na mão..."

"Ken, por que você fala 'se'?" – Kalos me interrompeu, seriamente – "Se você não fosse fazer a peça, não estaria me dando satisfações. Por que você insiste em negar que quer o papel?".

Eu confesso que fiquei quieto na hora. De fato, apesar de toda a confusão e da indecisão – graças aos riscos médicos-; eu já me sentia parte do elenco. Era uma coisa engraçada: eu sempre ficava muito envolvido nas peças, mas nessa tinha uma coisa a mais. Eu estava me dedicando ao que eu devia fazer como ator, e não como técnico.

"Não se preocupe ao que precisa para treinar, Ken" – Kalos continuou, ignorando meu silêncio – "Você tem as chaves do Centro de Treinamento, então não será nenhum problema treinar aos domingos. Quanto ao personal trainer, já disse, realmente precisamos de um. O seu tempo de treinamento..."

Ele se calou naquele instante, parecia pensar bem no assunto.

"Você sempre treinou a Sora, e tendo em vista o sucesso dela, acho que foi um ótimo treinador" – ele completou – "Você tem noção o suficiente do que precisa fazer para realizar as acrobacias, e acho que saberá compensar as horas de treino que faltam com alguma coisa que acelere a técnica. Isso também não me preocupa. Eu só preciso mesmo ajustar os horários de treino dos outros acrobatas para baterem com os seus. Principalmente os de Sora, que vai fazer com você a técnica principal, e os de Leon".

No mesmo instante, fechei minha expressão, e Kalos me olhou desconfiado.

"Algum problema?".

"Eu vou ter mesmo que treinar com o Leon?" – perguntei, revoltado – "Não creio que ele vá gostar da ideia".

"E pelo visto você também não gosta" – Kalos me encarou seriamente – "Mas ele é seu parceiro de palco, tanto quanto a Sora e os outros. Além disso, vocês vão ter uma cena complicada juntos. Já leu o roteiro?"

Neguei com a cabeça, e Kalos pegou em uma gaveta próxima o roteiro para que eu lesse. Como eu ainda não tinha aceitado oficialmente o papel, Mia nem se deu ao trabalho de me entregar o texto, mas ainda bem que vi antes de tomar a decisão.

De fato, eu passava boa parte das cenas com a Sora. Mas eu tinha uma cena acrobática com a May, bem simples, que Kalos disse que eu poderia treinar com ela mais para frente. O final seria feito com os quatro acrobatas mais Rosetta, e na maior parte da cena eu atuava com a Sora. Provavelmente, começaríamos a treinar essa acrobacia final assim que melhorássemos nas individuais. Agora, tinha a cena de luta entre Lisandro e Demétrio pelo amor da Helena, depois que ambos tinham sido enfeitiçados por Puck. E essa cena era completamente minha e do Leon.

Ia ser algo realmente complicado. Leon e eu atuando juntos? E ainda por cima "lutando" pela Sora?

Eu não tinha bons pressentimentos sobre isso.

"Como você pode ver, a sua cena com o Leon vai exigir que vocês dois tenham certa sincronia, então vou adaptar o horário de treino dele. Você passará mais ou menos duas horas treinando com a Sora e uma com o Leon. Ele fará a mesma coisa: treinará uma hora com você e o resto do tempo com a May".

"É... acho mais sensato" – concordei, meio desanimado, jogando o roteiro na mesa do Kalos e suspirando alto.

Por alguma razão, ficou um silêncio agradável entre nós dois. Comecei a pensar em mim mesmo, imaginando o treinamento, os próximos meses, em como seriam os exercícios. O meu lado técnico já começou a traçar os exercícios que Sora e eu deveríamos fazer para realizar a acrobacia... e também como seria o treinamento com Leon, os olhares e as provocações, ISSO se Leon resolvesse ser simpático comigo. E levando em consideração a insistência dele em me tirar do papel, eu não duvidava nada que aquela cena fosse ficar mais real do que o desejado.

"Ken, por que você ainda está hesitando?" – Kalos me perguntou, de repente – "Achei que esse fosse o seu grande sonho".

"Por muito tempo, foi" – confessei – "Mas muita coisa aconteceu nesse meio tempo. E eu consegui outros sonhos para realizar. Além disso..."

Olhei hesitante para Kalos, e ao vê-lo sério, prestando atenção em mim, contei sobre o resto da consulta com o doutor Cartwright. Ele ficou bastante tenso quando eu contei as consequências que sofreria, caso viesse a aceitar o papel. Mas, no fim, ele se espreguiçou, suspirou fundo e, voltando-se para olhar na janela, disse:

"Sabe Ken... você não foi o único a reparar na trapaça de Leon nos testes".

Eu fiquei quieto. Afinal, eu sabia que Kalos também tinha notado.

"Confesso que, quando vi Leon forçando um salto malfeito, fiquei muito furioso, mas estava impotente" – ele continuou – "Eu realmente acreditei que os novatos não fossem capazes de fazer nem aquilo, então fiquei quieto. E também não foi como se os novatos estivessem realmente dispostos a desafiar a própria lógica para conseguir o papel".

"Kalos, perdão pela grosseria, mas aonde você quer chegar?"

"Ao mesmo lugar que você, suponho" – ele estava de costas, mas eu podia jurar que ele estava sorrindo – "Um acrobata do Kaleido Stage não precisa somente de talento. Para brilhar, é preciso ter vontade e superar as próprias limitações, em todos os momentos. Mais ou menos como você fez naquele dia".

"Kalos...".

"Ken, não quero que pense que te escalei para o papel somente para castigar Leon" – ele finalmente se voltou para mim – "Você provou, ao realizar aquele salto, que realmente merece essa chance. E por mais que me diga que conseguiu outros sonhos, eu sei que lá dentro você ainda quer realizar este. Você já fala e age como se estivesse no elenco. E levando em consideração o tempo em que trabalha conosco, isso é algo realmente novo".

Eu nem sabia o que dizer. Kalos era conhecido por sua seriedade e por ser calado, e comigo ele falava somente o necessário, como um dono do Kaleido Stage falaria para qualquer um dos seus técnicos. Vi Kalos se comportando daquela forma com pouquíssimas pessoas. Vê-lo me encorajando daquele jeito...

Afinal, o que ele queria me convencendo a tanto?

"Eu agradeço o voto de confiança, Kalos" – eu disse por fim – "Mas não posso deixar de pensar na minha doença. A minha família, por exemplo, vai ficar desesperada".

Kalos deu um risinho nervoso.

"Ken, você se lembra da época em que Layla e Sora treinaram para a Técnica Fantástica, não?"

Eu juro que tem momentos que eu não entendo o que o Kalos quer. E aquela conversa estava se tornando um desses momentos.

"Claro que eu lembro. Por quê?"

"Por nada" – ele suspirou – "Tem mais algum coisa que você queira me contar?"

"Hã... não, creio que não".

"Então, pode se retirar" – ele fez um gesto com a mão, me mandando embora, enquanto se virava de costas de novo – "E não se esqueça: quero sua resposta até domingo".

Eu concordei e me retirei da sala dele, embora ainda me sentisse desconfiado. Kalos não era de dizer as coisas sem razão aparente, e eu me perguntava onde eu perdera o fio da meada para entender o que ele estava me dizendo. Mas quando eu saí, ele continuava de costas, olhando para a janela, enquanto pegava o telefone para ligar para alguém.

~.~

No fim da tarde de sábado, eu terminei o meu trabalho no Kaleido Stage e fui pra casa. Sora me pedira para ir comigo, mas eu neguei. Pela expressão dela, preocupada do jeito que estava, sabia que queria falar comigo sobre o papel de Demétrio, e eu preferi não ouvir. Eu conhecia o efeito que Sora tinha em mim, e sabia que, se ela falasse comigo, eu acabaria aceitando o papel. Tudo bem, você pode achar isso bem sacana da minha parte (ou racional demais, como a Rosetta me definiu algum tempo depois, ao me contar que Sora ficara realmente chateada com a minha negação), mas apesar de eu gostar muito dela – muito mesmo – eu queria tomar aquela decisão por mim, e não por ela. Além disso, não poderia me esquecer das outras pessoas que gostavam de mim. E tinham três pessoas que eu ainda precisava levar em consideração naquela história toda.

A minha família.

Obviamente que eles não gostaram nada da ideia de que eu poderia aceitar o papel. Quer dizer, meus pais não gostaram. Minha irmã, Susie, ficara realmente extasiada quando soube que, ao menos uma vez, eu poderia "ser alguma coisa importante no Kaleido Stage" (é, essa é a forma carinhosa com a qual minha irmã ficou feliz por mim, mas tudo bem, creio que deva ser coisa da adolescência ou seja lá a fase pela qual ela está passando), e me apoiava de todas as formas para que eu aceitasse o papel. Mas a minha irmã era muito nova quando comecei o tratamento do coração, e obviamente ela não se lembra de como foi duro. Meus pais não. Eles lembravam bem de todas as vezes em que passei mal, e as vezes em que parei no médico também.

Não era fácil para eles aceitarem que eu poderia voltar a ficar doente, e a ideia do transplante só fez com que a tensão aumentasse. E era óbvio que eu não estava bem com essa situação. Meus pais me deram muito suporte para tudo que eu quisesse, e até por tudo que eles passaram quando eu era mais novo, eu não queria fazê-los sofrer de novo. E era por causa deles que eu estava realmente indeciso. Por isso que realmente quis ficar sozinho no sábado, porque não queria ter que encarar Sora e a minha família ao mesmo tempo.

Aquela indecisão estava não só acabando com qualquer humor que eu pudesse ter. Eu estava me sentindo realmente frustrado por não saber o que eu realmente queria.

"Cheguei" – anunciei, ao entrar em casa. Minha mãe me respondeu, vindo da cozinha, mas eu percebi o tom de voz desanimado dela.

"Chegou cedo hoje, filho" – meu pai disse, e ele também estava desanimado – "Deu sua resposta ao Kalos já?"

"Ainda não" – respondi – "Estou pensando em ir ao Kaleido Stage amanhã para falar com ele".

"Já sabe o que vai responder?" – minha mãe perguntou, aflita. Olhei para ela e percebi que estava de cabeça baixa. E pelo tom de voz, eu sabia que ela estava segurando o choro.

"Não, não sei" – confessei – "Se puderem, não queria falar disso hoje".

"Mas a gente quer" – minha mãe se sentou à minha frente, e eu senti que estava com problemas – "Ken, por que você está voltando com isso agora? Você sabe o quanto sofreu, você sabe o risco enorme que vai correr se tentar. Por que insistir em algo que vai te fazer mal?"

"Mãe, eu já disse que não quero falar sobre isso" – eu até tentei fugir do assunto, mas ela não deixou.

"Você pensa em aceitar, não pensa?" – ela continuou, e agora ela começava a chorar de verdade – "Eu sabia, você está tentado a aceitar. Meu Deus, por que deixamos você trabalhar no Kaleido Stage? Isso ia acontecer, cedo ou tarde".

"Mamãe, não precisa de tanto drama" – Susie de repente comentou, fazendo-se presente no assunto – "O Ken trabalha há anos no Kaleido Stage, e se só agora que ele quer ser ator, não acho que seja culpa do lugar".

Ok, era legal da parte da Susie tentar me ajudar, mas com isso ela só piorou a situação. Porque, falando aquilo, ela fez com que meus pais percebessem que, de fato, o Kaleido Stage não tinha muito a ver com a situação. E eles trataram de achar outro culpado.

O que foi muito pior.

"Susie tem razão, não foi o Kaleido Stage que fez isso" – meu pai ponderou – "Na verdade, você só começou a querer participar dos espetáculos depois que aquela menina, a Sora, apareceu".

Opa, mexer com a Sora era assunto delicado demais.

"Como é?" – e dessa vez eu nem pensei que deveria ficar quieto, para não piorar a conversa – "O que a Sora tem a ver com isso?"

"Querido, eu sei que você gosta dela, mas você não vai conquistá-la se matando" – minha mãe disse, muito séria – "Se ela estiver tentando te convencer a fazer isso, é sinal de que ela não gosta tanto de você quanto você..."

"A Sora não está fazendo nada!" – eu senti minha voz aumentar um pouco o tom – "Se eu aceitar o papel, vai ser porque eu quero, e não porque ela me pediu".

"Ken, você jamais aceitaria tal desafio se não quisesse impressioná-la" – meu pai dizia, com aquele tom de voz que tenta ser compreensivo – "Sei que deve ser ruim, vê-la no palco com aquele moço, o tal Leon, mas você não precisa disso e..."

"Eu vou aceitar o papel porque eu quero!" – e agora eu tive certeza que gritei, porque meus pais ficaram mudos – "E a Sora tem culpa sim, nisso, porque ela acredita que eu sou capaz. Ela pensa que, se eu quiser, eu posso fazer isso, e me apóia independentemente do que eu decidir. Ao contrário de vocês, aliás".

"Nós nos preocupamos com você" – minha mãe murmurou – "E você nunca falou assim conosco..."

"Eu sei o que estou fazendo, tudo bem?" – resmunguei, respirando fundo para me acalmar – "Escutem, eu sei que vocês se preocupam, e acreditem, eu também tenho medo. Não me agradam as consequências, mas eu já não sou aquela criança que vocês levavam no hospital. Então, podem confiar, eu sei o que é melhor pra mim".

É, eu sei que não foi muito maduro da minha parte dizer isso, que eles só estavam realmente preocupados comigo. Mas entendam, superproteção demais também irrita. Levante a mão quem nunca se irritou com essa coisa de pais.

E não é como se eles estivessem falando daquele jeito só agora, que eu estava quase aceitando o papel. A vida inteira foi "Ken, não faça isso; Ken, não faça aquilo, olhe o seu coração, Ken!". Uma vez na vida, a gente quer esquecer de que é doente.

E foi daquele jeito que eu acabei indo pro meu quarto, batendo a porta quando passei. E tratei de dormir o mais depressa que pude, porque enquanto pudesse adiar aquela decisão, eu adiaria.

~.~

Acordei de manhã cedo com Susie me cutucando. Confesso que resmunguei um pouco no começo, mas ela insistiu, me balançando cada vez mais forte. Uma hora, acabei levantando, e fui conferir o relógio.

Eram pouco mais de sete horas.

"Susie, não está muito cedo para você acordar? Você não deveria dormir até, sei lá, onze da manhã?"

"Hoje é domingo, Ken" – ela disse, e eu levantei a sobrancelha – "O SEU domingo".

"Meu domingo? Você está dormindo de olho aberto, é isso?"

"Hoje você tem que ir ao Kaleido Stage" – ela insistiu, e eu finalmente entendi onde ela queria chegar – "Hoje você vai dizer que quer o papel".

"E como você pode ter tanta certeza disso? Se nossos pais ouvem você me incentivando a aceitar...".

"E você acha que eu ligo pro que eles pensam?" – ela deu de ombros – "Aliás, me pergunto por que você ainda se importa. Você já tem 21 anos, Ken. Aja como tal".

"Você não deveria dizer isso deles. Eles estão realmente preocupados. Além disso, você não ia gostar se seu filho aceitasse se arriscar de uma forma tão grande por causa de uma peça de circo".

"Mas a vida é sua, e não deles" – ela insistiu – "E você também vai se cuidar. Não vai?".

Senti um tom de preocupação vindo dela, e eu percebi que, apesar de me querer no elenco, Susie também estava assustada com a ideia. Aquilo me reconfortou, de alguma forma.

"É, eu vou me cuidar" – eu respondi, sorrindo pra ela – "Mas você não pode culpar nossos pais por quererem o meu melhor. Embora eu..."

"Você quer esse papel, está escrito na sua testa" – ela sorriu, vitoriosa – "Eu sabia, eu sabia! Meu irmão vai ser uma estrela do Kaleido Stage"

Ok, o modo adolescente da Susie estava de volta.

"Eu ainda não decidi" – respondi – "Não que eu tenha muito mais tempo para decidir, mas ainda não é nada certo".

"Eu só acho que você não deveria se deixar impedir por algo que você possa controlar" – ela resmungou – "E daí que você vai precisar de uma cirurgia no final? Vai valer a pena, pelo menos. Você finalmente tem chances de realizar um sonho antigo e não vai aproveitar?".

Eu não soube responder a isso. Por sorte, ouvi a voz da minha mãe vindo da cozinha, e chamei Susie para irmos tomar café. Eu não queria mais discutir sobre o assunto com eles, então decidi que, daquele assunto, eles só saberiam quando eu fosse falar com Kalos.

~.~

Obviamente, isso demorou um pouco para acontecer.

Meus pais e minha irmã saíram, resolveram que visitariam uma tia minha. Eles até tentaram me convencer a ir junto, mas respondi que queria pensar com muito cuidado na decisão, e meu pai resolveu não insistir. Susie saiu piscando o olho pra mim, e de certa forma eu sabia que ela tinha certeza da minha resposta.

Passei boa parte da manhã tentando ver TV, e pondo a cabeça em ordem. Pensava em tudo que o doutor Cartwright tinha dito, o que Sora e as meninas comentaram, nas palavras de Kalos e na dos meus pais. Até mesmo a conversa com Susie parecia pesar na hora de decidir. Eu estava realmente perdido.

E eu continuaria naquele ritmo se, no começo da tarde, a Sarah não tivesse aparecido lá em casa. Surpreso, eu a deixei entrar, e ela entrou eufórica.

"KEN, KEN!" – ela dizia, correndo e querendo me puxar para fora – "Ainda bem que te achei em casa! Preciso de um favor seu, diz que sim, por favor!"

"Calma Sarah, o que aconteceu? Parece que vai tirar o pai da forca".

"Estou chegando a esse ponto, se você não vier comigo!" – ela continuava me puxando, até que eu me vi obrigado a segui-la. Fechei a casa e fomos os dois andando pelas ruas de Cape Mary, ela toda animada.

"Sarah, se importa em dizer para onde estamos indo?"

"Você ainda não soube?" – ela sorriu, toda faceira – "A Layla está na cidade. Pensei em ir visitá-la, mas ninguém estava disponível para ir comigo, então fui buscar você".

Eu parei abruptamente de andar, e ela me encarou, confusa.

"Ninguém disponível para ir ver a Layla?" – resmunguei – "Nem mesmo a Sora ou a May? Sarah, você consegue bolar uma desculpa melhor".

"Desculpa? Ken, do que você está..."

"O Kalos te mandou vir me buscar, para conversar com a Layla sobre o papel. Mas aposto que ele pediu para eu não ficar sabendo, não foi?"

Ela ficou quieta, e começou a rir, nervosa, e eu apenas balancei a cabeça. E de repente comecei a entender o que o Kalos queria me dizer na sexta. Lembrei que a Layla tinha machucado o ombro gravemente no treinamento para a Técnica Fantástica, e que por culpa disso ela não pôde mais atuar no Kaleido Stage depois de realizarem a Técnica. Então era isso que Kalos queria dizer. Ele queria que eu pensasse nos sacrifícios que Layla fizera.

"Vamos, Sarah" – eu falei, voltando a andar – "Se a Layla saiu de Nova Iorque só para falar comigo, melhor não desperdiçarmos o tempo dela".

Nós dois fomos andando até a grande mansão dos Hamilton. Assim que fomos anunciando, Layla apareceu. Como sempre, vinha séria, compenetrada, mas parecia feliz, de toda forma. A Broadway parecia fazer bem a ela. Ou apenas Cathy lhe propôs algum papel muito complicado, que ela adoraria fazer.

Ou os dois.

"Layla, que bom te ver!" – Sarah cumprimentou, daquele jeito animado dela – "Você me parece tão bem, tão bonita!".

"Obrigada, Sarah, você também" – ela sorriu para Sarah para em seguida me encarar – "Você não mudou muita coisa, Ken".

"Acho que fico feliz com isso" – respondi – "Desculpe-me interromper sua rotina, senhorita Layla, mas a Sarah insistiu para que eu viesse".

"Você já deve saber por que estou aqui, então" – ela respondeu, e eu engoli em seco. Era difícil se acostumar com o jeito direto da Layla – "Sarah, se importa de nos deixar sozinhos por uns instantes? Creio que não demorará muito".

Sarah pareceu meio espantada de começo, mas em poucos instantes se recuperou e, sorrindo, disse que voltaria assim que terminássemos. E ficamos a senhorita Layla e eu, sozinhos, um olhando para a cara do outro.

Aquilo foi bem desconfortável.

"Então, você pensa em entrar para o elenco?" – ela disse, finalmente quebrando o silêncio – "Confesso que quando Kalos me ligou, na sexta, para me contar sobre os testes para Demétrio, fiquei muito surpresa ao ouvi-lo dizer que você tinha sido escolhido. Nunca te imaginei em algo tão grandioso assim".

Acho que ninguém imaginou.

"Na verdade, ainda não estou com o papel. Tenho até daqui a pouco para responder ao Kalos se aceito ou não. Creio que foi por isso que ele pediu para a senhorita vir falar comigo".

"Não, está enganado" – ela disse, em seu tom mais sério – "Kalos não me pediu para vir. Eu vim por contra própria".

Aquilo me surpreendeu. Por que Layla perderia o tempo dela, por vontade própria, para falar comigo?

Não me senti nada bem com aquela colocação.

"Se bem que, conhecendo Kalos, ele já me ligou com essa intenção" – ela continuou, e pareceu levemente irritada nessa hora – "Ele sabia que eu viria, independente de convite ou não".

"Se... senhorita Layla...".

"Ken, confesso que não me sinto à vontade com a ideia de você atuando no Kaleido Stage" – ela me interrompeu, friamente – "Nunca te vi fazendo uma acrobacia sequer, e não sei se quero arriscar o palco que tanto amo, colocando-o nas mãos de alguém inexperiente como você. O pouco que te conheço, é como Técnico e Contra-Regra, nunca como acrobata".

Fiquei quieto, remoendo aquelas palavras. A senhorita Layla sabia desanimar qualquer um quando queria. E eu já conhecia bem aquele "dom" dela, mas ser o alvo era, no mínimo, esquisito.

"E tem o fato de que você vai atuar ao lado da Sora. Eu jamais permitiria que alguém estragasse o brilho dela no palco, e isso inclui você. E não me importa os seus sentimentos por ela, isso não o impediria de atrapalhá-la, se você não for capaz de ser o seu parceiro de palco."

Eu não sabia com o que ficava mais chocado. Se com a delicadeza da Layla (ou a falta de), ou se com o fato de que até ela sabia do que eu sentia pela Sora.

"Não pense que tenho algo contra você, Ken, porque realmente não tenho" – ela parecia não notar o meu espanto – "Você realmente nos ajudou em diversos momentos, e creio que não houve pessoa melhor para a Sora do que você. Porém, entenda que, mesmo que hoje eu tenha outros sonhos, eu ainda amo o Kaleido Stage de todo o meu coração, e não poderia permitir qualquer tipo de ameaça aos sonhos e às expectativas dos espectadores, ou até mesmo aos sonhos da Sora. Isso seria incompatível com o que acredito".

E eu pude compreender o que ela me dizia no momento. Qualquer pessoa se sentiria brava ou chateada com tamanha franqueza vinda da Layla, mas qualquer pessoa apaixonada pelo Kaleido Stage – e qualquer pessoa que admirasse a Sora – também entenderia o ponto dela.

Bem, eu era realmente apaixonado pelo Kaleido Stage. E não vamos nem dizer sobre o que eu sinto pela Sora.

"Compreendo" – respondi, ficando quieto e de cabeça levemente baixa. Percebi Layla me olhando com curiosidade, um sorriso sarcástico formando em seus lábios.

"É tudo que você tem a me dizer?" – ela perguntou – "Eu te digo que você não é capaz de ser parceiro de palco da Sora, e tudo que você me responde é 'compreendo'?".

"Eu também me preocupo com o espetáculo, Layla" – respondi, sendo muito mais franco do que eu próprio queria – "Me preocupo com a felicidade dos espectadores, com o nível técnico das peças, mas principalmente, me preocupo com a atuação da Sora. Se há alguém que a admira como acrobata e atriz, esse alguém sou eu. E eu prometi a mim mesmo que faria dela a maior estrela que o Kaleido Stage já viu, que faria com que todos sentissem o mesmo encanto que eu sinto quando a vejo atuar. Exatamente por isso que compreendo o que a senhorita quer me dizer. Eu também não permitiria que alguém estragasse essa magia tão forte que o Kaleido Stage proporciona, ou que estragasse a atuação da Sora. Mesmo que esse alguém fosse eu".

Layla pareceu surpresa de início. Ficamos alguns minutos em silêncio absoluto, até ela sorrir para mim. Um sorriso bastante terno, eu diria.

"Sabe Ken, eu aprendi algumas coisas com a Sora ao longo desses anos" – ela me disse, e eu senti que ela estava já não estava sendo hostil – "Uma delas é que nem sempre o melhor acrobata é aquele mais experiente, ou aquele que aprende as acrobacias com facilidade. O verdadeiro acrobata é aquele que ama o palco, e o público. E isso, pelo visto, você tem de sobra".

"É, acho que sim" – confesso, fiquei sem graça, não esperava isso da Layla. Não dirigido a mim.

"Obviamente que, se você aceitar o papel, vai ter que treinar muito e se esforçar ao máximo para conseguir fazer Demétrio. Isso que não falamos ainda do seu problema do coração".

"É, eu sei que seria bem difícil. Mas isso não me preocupa, para ser sincero".

"Kalos me avisou que você ainda estava hesitante" – ela cruzou os braços, e olhou bem fundo nos meus olhos – "Ken, você se sente confiante o bastante para fazer Demétrio? Para brilhar ao lado da Sora?".

"Eu posso fazer aquela acrobacia" – respondi, e me soou até mais confiante do que o esperado – "Eu acredito que posso ser sim o parceiro de palco da Sora, e que, se eu me esforçar, conseguirei fazer a temporada completa. Mesmo com os problemas do coração, eu sinto que eu posso fazer isso".

"E não aceitou o papel por quê?"

"Porque sei que faria muitas pessoas sofrerem no processo. A minha família, por exemplo, e talvez até a própria Sora. Não sei se vale a pena arriscar tanto por um sonho tão antigo quanto esse".

Layla fechou os olhos, provavelmente pensando um pouco.

"Ken, qual é o seu sonho atualmente? Seja sincero, por favor".

"Meu sonho é a Sora" – respondi sem pensar duas vezes – "Fazer dela a estrela que ela merece ser. Esse é o meu maior sonho".

"Sora já é uma estrela. E você a ajudou a trilhar esse caminho, esteve com ela, seja treinando, seja apoiando. Você já realizou esse sonho".

"É, eu já realizei. E talvez seja esse o motivo para eu querer voltar ao meu antigo sonho".

"Então, você ainda não desistiu de ser acrobata do Kaleido Stage?"

"A senhorita desistiu?" – confesso que não planejei aquela pergunta, mas sabia que agora eu estava falando de igual para igual com a Layla. Os dois que foram impedidos de atuar por alguma razão específica. E ela pareceu perceber o mesmo, pois não me olhou feio ou ficou irritada. Apenas sorriu mais.

"Há uma diferença básica entre você e eu, Ken" – ela respondeu – "De fato, eu só desisti de ser parte do Kaleido Stage quando tentei a Técnica Angelical. Foi naquele instante que percebi que tinha outros sonhos, e que o Kaleido Stage já tinha acabado para mim, pelo menos como acrobata".

"Não entendo..."

"O que nos difere, Ken, é que eu tive a oportunidade de realizar o meu sonho no Kaleido Stage" – ela continuou – "Eu quis ser a estrela do palco, e eu consegui. Eu quis fazer a Técnica mais incrível que o público já tinha visto até aquele dia, e eu fiz. Eu quis transformar a Sora numa estrela, e eu transformei. Não havia mais nada que me prendesse ao Kaleido Stage, a partir do instante em que Sora alcançou o brilho máximo. Só quando me desliguei do Kaleido Stage que pude correr atrás de outros sonhos".

Aquilo me bateu tão forte, que por um instante, me senti tonto. Layla tinha razão. Havia uma grande diferença entre ela e eu. Ela só perseguira novos sonhos quando realizou os seus antigos. Eu, em compensação, fui atrás de outro sonho para substituir aquele que me tinha sido negado. E não era como se ela tivesse tido a chance e eu não. Layla sacrificara a sua própria carreira, o seu próprio ombro, para realizar a Técnica Fantástica. E ela não hesitou duas vezes em arriscar tudo isso quando lhe deram a chance de se apresentar.

E lá estava eu, com a mesma chance nas mãos. Também tinha a oportunidade de realizar o meu sonho, com um sacrifício da mesma proporção ao que ela tinha feito.

"Layla" – comecei – "Você se arrepende de ter feito a Técnica Fantástica? Quer dizer, foi por causa dela que você se acidentou, e teve que se afastar do palco. Se pudesse voltar no tempo, ainda faria o que fez?".

Ela se remexeu, desconfortável.

"Confesso que, se tivesse uma chance de fazer tudo de novo, eu seria apenas um pouco mais cuidadosa. Mas não, não me arrependo do que fiz. Lesionaria o meu ombro mil vezes de novo, se isso fosse o requisito para realizar o meu sonho, até porque não foi algo que me causou grandes danos. Tive que abandonar o Kaleido Stage, claro, mas minha vida se abriu em novos rumos, que me fazem muito feliz. Foi um sacrifício que valeu a pena, porque ainda prefiro ter sentido a emoção da Técnica Fantástica e ter me afastado do palco, a jamais ter experimentando tal alegria, jamais ter tirado do público o seu melhor aplauso para continuar com minha vida de acrobata".

Não era à toa que a Sora admirava tanto a Layla. Ela era realmente formidável.

"Obrigado, senhorita Layla" – agradeci – "Realmente, me ajudou muito".

"Só te peço uma coisa, Ken" – ela continuou, e o tom hostil voltou à sua voz – "Não aceite esse papel se você não estiver confiante de que pode e de que quer realizar o seu sonho. A Sora merece alguém que brilhe com ela no palco. Não aceite essa oportunidade se você não estiver disposto a brilhar na mesma intensidade".

"Eu não faria uma coisa dessas".

"E sobre aqueles que sofrerão com a sua decisão" – ela acrescentou – "Se te ajuda saber, eu também hesitei quando lesionei o ombro. Pensei em como Sora se sentiria, e no que meu pai diria de mim. Mas depois entendi que poderia me cuidar, e eles não gostariam de me ver desistir de um sonho, independente da razão. Por isso, não se preocupe tanto com que sua família irá pensar. Cuide-se e prove que pode ir além. Eles ficarão felizes no final".

"Acho que compreendo"

"É engraçado, não é?" – ela suspirou – "A Sora tem esse poder. Ela faz com que você acredite que é capaz. Ela te faz querer acreditar" – ela me encarou com seriedade – "Estou lhe dando um voto de confiança. Não me decepcione".

Eu afirmei com a cabeça, em um gesto decidido e pensado. Não tinha mais dúvidas do que eu queria. E naquele instante, eu fiz uma promessa à Layla, que não iria quebrar por nada nesse mundo.

"Sarah, pode sair detrás da porta" – Layla comentou, e só então reparei que, durante todo aquele tempo, Sarah estivera ouvindo a nossa conversa – "Creio que Ken já tomou sua decisão".

Sarah apareceu, meio sem graça, mas parecia muito feliz.

"Desculpem-me, mas é que eu não resisti" – ela ficou vermelha de vergonha, o que fez Layla rir.

"Tudo bem, você tinha uma boa razão" – e olhou para mim – "Você está pronto?".

Eu afirmei de novo, e ela disse que então ia se preparar para ir comigo e com Sarah para o Kaleido Stage. Chamou o motorista particular da família, pediu para que carregasse suas malas – afinal, voltaria naquele mesmo dia para Nova Iorque – e em seguida partimos. Sarah ligou no meio do caminho para Kalos, avisando que eu estava indo dar minha resposta. Graças a isso, quando chegamos, todos estavam esperando. Mia, Anna, Rosetta, May, Leon, e até mesmo Marion e Jhonatan. Todos me esperando na sala do Kalos.

E Sora, obviamente, também estava lá. Ela parecia a mais nervosa de todos, e assim que me viu, correu até mim. Creio que ela queria saber qual seria a minha resposta, mas parou assim que viu Layla.

"Se... senhorita Layla" – ela gaguejou, recebendo um sorriso da Layla em resposta – "O que faz aqui? Quando chegou? Por que não me avisou que viria? Eu poderia te visitar, te buscar no aeroporto, ou algo assim. A Cathy está bem? Você está bem? Me parece tão feliz".

"Calma Sora, respire!" – ela riu um pouco – "Eu estou apenas de passagem. Digamos que eu vim ajudar uma pessoa".

Ela me olhou de soslaio, e eu me senti feliz. Pela primeira vez, estava tendo algum tipo de cumplicidade com a Layla, e digam o que quiser, mas isso deixaria qualquer pessoa honrada.

"Bem, o que estamos esperando?" – Kalos falou, fazendo com que todos voltassem sua atenção para ele e para mim – "Então, Ken? Qual a sua resposta final?"

Olhei para cada um dos presentes na sala. Todos me olhando com expectativa, esperando a minha resposta. Cada um por uma razão. Cada um contando com a minha decisão.

"Eu pensei muito, Kalos, e depois de ponderar, eu decidi" – respondi – "Eu aceito o papel de Demétrio".