A/N: Aloha, minha gente mais maravilhosa! Sim, eu sei que vocês devem estar me detestando mais do que esse tempinho chuvoso de férias. Quer dizer, presumo eu que esteja chovendo por aí. Ou isso, ou é a nuvem negra que me acompanha. Falando nisso, eu realmente sinto muito por ter faltado com a minha palavra de que atualizaria, no máximo, antes da virada de ano. Eu juro que fiquei chateada comigo por ter prometido e não cumprido, mas meu Natal foi tão desgraçado e sem vergonha que eu não tive computador, nem cabeça e nem mãos para digitar (já que vassouras quebrando em você fazem um belo estrago no seu ombro e irão deslocá-lo e eu meio que machuquei a mão socando alguém). Além do olho roxo de presente (do qual me livrei há um dia) e de objetos voadores que se quebravam em mim, ou de uma facada que quase me impediu de atualizar e de contar a história, mas não fui esfaqueada, por sorte(?). Tirando tudo isso, a pior parte foi ter perdido o especial do rei Roberto (sim, eu sou baixa desse jeito) enquanto davam com a minha cara de pau na porta da geladeira (e isso explica o olho roxo) e o processo que vou encarar assim que voltar para casa, já que a filha da puta da parente ainda disse que vai me processar. Aham, tô tomando rasteira até de cobra que não tem perna e o ano nem começou. Mas vejamos, o capítulo está escrito há quatro dias e essa maravilha de internet discada (tô em casa não, gente, porque to fugindo de confrontos diretos) não carregou a página nem por dinheiro, por isso, estou atualizando na mutreta. Para maiores detalhes das minhas derrotas, estou providenciando uma autobiografia e irei informá-los quando eu for lançá-la, porque estou disputando com a Bruna Surfistinha quem tem a vida mais fodida (em diferentes termos, obviamente). Então, eu realmente peço perdão por ter demorado e tudo mais, só que eu já tinha comentado que estava com medo de passar o Natal com essa minha família e vejam só o que deu. Mas me digam vocês, foram bem de festas? Eu realmente espero que sim e que tenham se divertido bastante. De verdade.

Ao que nos interessa, temos Puckleberry, Pezberry, Pezberryman (ou sei lá), Faberry e Santie. E não, isso não virou uma mega orgia louquíssima porque nem sou dessas. Temos Quinn fazendo besteira, Santana fazendo a louca e sexo também, fiquem avisadas. Ah, tem coisa demais pra dizer, já que temos 69 páginas nesse capítulo (de 44 pra 69 porque eu curto um número cabalístico) e quarenta mil palavras pra cansar as vistas de todo mundo, yay! Mas vamos às músicas: começamos com os judeus cantando 'Way back into love', dueto do Toni Gonzaga e Sam Milby (sim, estamos falando da canção do filme 'Letra e música' e esperem que a setlist da fic ainda vai ficar mais bagaceira), Santana canta 'Summer sunshine' do The Corrs e a Meg canta 'Under pressure' na versão da Joss Stone e é realmente importante que ouçam a versão dela. Bem, como a internet é discada, não dá pra passar os links e tudo mais. Esse aqui * é a citação na íntegra do filme 'Love story' (eu nem sei o título em português) e esse ** é a citação do Caio F. Abreu 'o que você mentir, eu acredito'. Por sorte minha, vocês não sabem meu endereço, ou vocês teriam que correr e me matar antes da maluca fazer isso. Mas relaxem, diferente da minha vida, aqui na fic as coisas se ajeitam no final.

Obrigada pelas mensagem de Natal e ano novo, Fanngirl e Carol. Achei-as muito fofas e, talvez, se eu tivesse lido antes, poderia ter tido uma comemoração normal ou algo que o valha. Mas espero que tenham tido boas festas e que esse ano seja ótimo em todos os aspectos para vocês. E todos e todas que lêem também.

Kps, desculpa e desculpa. Espero que entenda o porquê da demora e que goste desse capítulo. Jenny B., obrigada pelo comentário e por curtir a fic e sinto muito pela demora e pelo transtorno com os olhares tortos dos seus coleguinhas. A Santana realmente é muito desvairada do juízo e tem esse efeito até em mim. BabyArattus, obrigada pelo comentário e pelo elogio. É isso mesmo, o que esse povo mais arruma é inimizade e pode deixar que a cretina ainda vai aparecer pra fazer mais baixaria. Fala pro seu irmão que você é uma pessoa feliz e gosta de sorrir para objetos inanimados (funciona comigo). Ah, brazilingirl, acho que você vai curtir esse capítulo com a S. e K. e com a baixaria Faberry. Então, também as acho Santie super fofas. E sorte minha que nem estou em casa, haha, pelo que demorei, estaria numa vala agora. Desculpa... C. Honda, então, eu até postei a baixaria no Nyah!, mas essa maravilha de internet também não carrega a página lá pra eu poder atualizar, só quando eu voltar mesmo, infelizmente. Além do mais, aquele site tem limite de palavras, o que eu acho um absurdo, e bem, eu vou ver como vou dividir os capítulos por lá e tal... Se te valer de algo, é só apertar as teclas 'ctrl' e '+' que aumenta o tamanho das letras. E obrigada por gostar dessa baixaria, tô me sentindo. Rubbya Maac'SSIS, hahaha, Feliz Natal mega atrasado pra ti e feliz ano novo também! Eu sei que demorei mais e mais e me desculpa por isso (sério, tô pedindo mais desculpas que político cassado). Ah sim, os fantasmas aparecem quando menos esperamos, mas os vivos também fazem desgraças por aí, ainda mais com esse povo. Obrigada pelos elogios, como sempre e esses sapatões juntos com o marginal e a encrenqueira são um grupo surreal pra se meter em apuros. Danigarcez, a baixaria com essa gente não tem hora pra começar e nem pra acabar e tem interação dos judeus nesse capítulo e, como você previu, a Quinn não vai gostar nadinha disso. Haha, obrigada por acompanhar também. Carol, baixaria prometida é baixaria cumprida! Esse capítulo é uma prova disso, hehe. E eu fico sempre boba com seus elogios e nem sei como agradecê-los. 'Obrigada' serve? Também sou apaixonada por Joshua Radin e ouvi a música e logo pensei na loira ciumenta e numa serenata, ;p. Tatasant, guria, claro que teu comentário conta e o tamanho dessas bagaceiras de capítulos vai aumentando que nem a tragédia humana. A Santana realmente é um ser de outro mundo e os comentários dela atrapalham às vezes mesmo, pode deixar que pretendo consertar isso. Obrigada pela dica. ;]

Então, meus amores! Eu ia atualizar essa maravilha ontem, mas choveu e caiu o telefone (pra vocês verem como eu só conto derrota), o que quer dizer que são cinco dias sem poder postar. Enfim, obrigada pelos comentários e elogios e dicas e críticas legais e mensagens pessoais e tudo mais. Tenham um ano maravilhoso, queridos e queridas, é só o que desejo! Bem, nesse capítulo começa a última parte da fic e não se assustem, mesmo se eu demorar a postar, já estou com o desfecho em mente. Caso queiram continuação, cruzaremos essa ponte se for necessário, okay?

Senti saudades de vocês, sério mesmo. Ah sim, caso queiram me presentear nesse aniversário (qualquer coisa é melhor do que ser difamada e processada, apostem), reviews nesse mês de janeiro seriam uma ótima pedida. Fica a dica! E eu continuo aceitando sugestões, xingamentos, elogios, processos, convites para café (só descobri que não sou receptiva pra agressão física) e comentários adoráveis de adoráveis leitores(as). É isso! Boas férias, meus amores e aproveitem e se cuidem também! Nos vemos em breve (assim eu espero)! Xoxo.

Se eu tenho Glee? Pro inferno rachá, a minha resposta é nãããããão!


'I'm gonna wake up, yes and no.'

"Cadê aquela vagabunda?" A piranha estava gritando enquanto era agarrada e arrastada para a sarjeta como merecia. "Eu vou destruir a vida dela! Ela não perde por esperar. Não perde!" Ainda teve tempo de berrar nos braços do Noah que estava empurrando-a porta afora e sendo socado na fúria corna daquela cretina. Virei-me para procurar pelos guarda-costas daquela rainha da sucata e ambos estavam sendo escorraçados do bar graças aos ajudantes do Joe e tomavam bons e justos tabefes em suas caras infelizes.

Apoiei-me na cadeira e me pus a vasculhar o local em busca da minha loira e de sua rebelde irmã. Não pude evitar meu sorriso (ele automaticamente se abre ao vê-la) quando a avistei encostada no balcão, de braços cruzados e com belo sorriso torto me olhando. E, como sempre, uma onda de calor me invadiu e tenho certeza de que fiquei corada ao ver o brilho malicioso dos seus olhos, por isso abaixei os meus e me preparei emocionalmente para andar em sua direção. Respirando fundo, segui, ainda com a força ameaçadora de seu olhar me desafiando a permanecer de pé (é até absurdo o que esses incandescentes olhos verdes fazem com meu autocontrole e com as forças das minhas pernas e essa foi uma das missões mais complicadas em que já me meti. Esqueçam tudo sobre fantasmas, fazer minhas pernas funcionarem por tempo o suficiente para marchar até aquela menina de olhar penetrante era mais difícil que escalar o monte Everest cantando 'Don't rain on my parade' em latim enquanto eu fazia um exorcismo africano. Sim, ela seria o meu fim.). Mas apesar de humanamente impossível, consegui chegar ao meu destino (que sempre será ela) e me estacionei ao seu lado, que simplesmente me puxou com um braço num meio abraço e beijou minha testa. Soltei a respiração que nem sabia que estava segurando e relaxei em minha fortaleza.

"Tudo bem, Broadway? Eles te machucaram?" Sua pergunta foi baixa e ainda em meus cabelos como se, de repente, ela estivesse com medo de descobrir que eu tinha sofrido alguma fratura misteriosa só pela força do ódio daquela sem vergonha. Ora essas, eu sou Rachel Berry, futura estrela da Broadway e mediadora desde que me entendo por gente, não é qualquer biscate que consegue me acertar, além do mais, poucas são as pessoas que contam com a minha agilidade e isso não é arrogância, estou apenas sendo sincera. Sentindo seu corpo ficar tenso ao esperar pela minha resposta, me apressei em balançar a cabeça para garanti-la de que não, aqueles três patetas não conseguiriam me machucar nem em duzentos anos. Obviamente isso não a ajudou a relaxar e tão logo ela me soltou para me olhar nos olhos e vasculhar meu rosto por algum ferimento. Passando seus longos dedos por minhas feições, fechei os olhos e suspirei contente com a delicadeza e preocupação que transparecia pelo seu toque leve, porém firme. Ao abri-los novamente, me deparei com sua expressão culpada, a mesma que tinha usado no dia que fui suspensa por bater na âncora que era nosso ex-namorado em comum. Balancei a cabeça negativamente e abri um sorriso sincero em sua direção, segurei sua mão e beijei a ponta de cada um dos seus dedos.

"Está tudo bem, blondie, eles nem me acertaram para início de conversa. O pior que aconteceu foi com a minha mão, que hoje já acredito que nunca mais ficará boa, mas graças a Barbra eu sou ambidestra e consigo fazer minhas apresentações segurando o microfone com minha mão esquerda. Porque, você sabe, se algo acontecesse com meu futuro nos palcos por causa dessas pessoas desagradáveis, mal amadas e entediadas, posso afirmá-la com certeza de que nenhum deles sobreviveria por tempo o suficiente para me ver tomar Nova Iorque de um jacto. Não que eu seja vingativa, pois todos sabem que tenho um coração que não guarda mágoas, mas que ninguém aposte o meu futuro, porque posso garantir que eles não terão um." Parei de falar e olhei em seus olhos, que agora estavam infantes e brincalhões, me fazendo sorrir junto com eles. Sacudi a cabeça em discordância mais uma vez e tentei e me focar o suficiente para voltar ao assunto. "Enfim, minha mão está um pouco dolorida por ter batido em tantas caras de pau, mas creio que eu vá sobreviver. O que acha, doutora?" Procurei por seus olhos e consegui vê-los analisando a minha pergunta enquanto sua mão (a que não estava no meu rosto) segurava a minha e a olhava minuciosamente, seguindo o protocolo de um exame médico.

"Bem, senhorita Rachel, eu posso dizer que..."

"Pelo visto suas cordas vocais não foram danificadas, já podemos suspender a ambulância." A outra loira interrompeu minha namorada que só se deu ao trabalho de revirar os olhos. Não sei se pelo fato de ter sido interrompida ou se pelo senso de humor torto de minha cunhada, que já não nos olhava mais e caçava algo, percorrendo seus olhos por cada um dos ouriçados freqüentadores do bar.

"Eu me impressiono mais e mais a cada dia com a sua educação e seu bom senso, Meg. Realmente, não basta buscar brigas em bar e nos fazer entrar na pancadaria, agora você resolve vir de sarcasmo pra cima da gente. A idade está te fazendo mal." Minha namorada bufou, o que fez com que sua irmã voltasse seus olhos pueris e sorridentes para nós, provavelmente entendendo tudo como sendo um elogio. Ou optando por ignorar os comentários, não sei ao certo.

"Pra começar, quem começou a briga foi sua amiga ciumenta e eu posso dizer que gosto dela ainda mais por esse fator." Sua resposta foi feliz e leve e revirei os olhos, porque mais uma Santana em minha vida não fazia parte da minha futura autobiografia. "E pra fim de conversa, era pra você estar menos tensa agora que está namorando e fazendo sexo. Credo! Custa ter um pouco de senso de humor?" Eu tive que rir com o comentário daquela menina e aumentei as minhas gargalhadas ao ver minha loira encabulada e de cabeça abaixada, ao tempo que sua irmã balançava a cabeça ainda com seu sorriso marcante nos lábios. "Uma dica, maninha: transe mais e se estresse menos, dá rugas." Fechando com chave de ouro seus conselhos terapêuticos, ela se virou e deixou sua irmã tossindo engasgada e vermelha a ponto de entrar em combustão. E eu, como boa namorada que sou, dei leves tapas em suas costas e resolvi ajudá-la a recuperar o fôlego com uma mensagem de autoestima em seu ouvido:

"Você sabe que eu estou aqui para isso e não poderia concordar mais com a minha cunhada nesse quesito." Ignorei o acesso ainda mais freqüente de tosse, seu olhar reprovador e as gargalhadas de sua irmã. Ora essas, eu precisava ser honesta, não é? E se existe algo que Rachel Berry pode se orgulhar de ser é indubitavelmente sincera.

"E aí, tudo certo?" Me virei ao ouvir a pergunta de Meg ser endereçada a outra pessoa e me deparei com meu melhor amigo portando um de seus sorrisinhos ordinários e estralando os dedos enquanto caminhava em nossa direção. Sua resposta foi um curto balanço de cabeça, além de se jogar num dos bancos vazios no bar e ao lado de Quinn, virando um copo de sabe o céu qual bebida.

"Tudo em cima. Nós conseguimos expulsá-los e ameaçá-los com a polícia, caso resolvessem reportar isso em tribunal." Soltando o ar de seus pulmões, a loira mais velha puxou uma das cadeiras vagas na mesa da frente (já que as pessoas se dividiram entre: se assustar e correr pelas suas vidas, fugindo e gritando para as montanhas como bichos acuados ou se levantar e apartar a briga, ajudando-nos a expulsar aqueles maus elementos. E esses últimos sim nos foram úteis.) e sentou-se, apoiando um dos pés no banco de Noah e cruzando as pernas, fora de nossa linha de visão, já que estávamos em bancos mais altos, no balcão. Quero dizer, meu melhor amigo e minha namorada estavam sentados neles, eu estava na frente dela e era abraçada carinhosamente pela cintura. Todos relaxamos por um segundo e Meg aproveitou para acender um cigarro e chamar alguém para nos servir enquanto Noah foi procurar pela garrafa de uísque e ver se ela ainda tinha sobrevivido à destruição que aconteceu ali.

"Por que eu ainda deixo você e a Katie entrarem aqui? O prejuízo que vocês me dão numa visita de um dia não consegue ser quitado nem com todo o tempo que vocês ficam sem aparecer." Joe se aproximou, sentou-se ao lado da loira justiceira e chamou alguma de suas garçonetes para nos servir, ou servi-los, o que fosse. A dita loira simplesmente rolou os olhos tragando seu veneno e senti minha namorada ficar mais tensa e me abraçar com mais força. Antes que pudesse me virar e perguntá-la o porquê de sua súbita mudança de comportamento, a prostituta safada que tinha arrastado suas asas de galinha mestiça pra ela mais cedo se materializou ali, com um sorriso desgraçado em sua boca sem vergonha e lançando-o para a minha mulher! Essa vagabunda! Ela não perde por esperar.

"Como você deve ter percebido, velho, a culpa foi daquela rampeira desclassificada que chegou valsando, nos ameaçando e invadindo nosso espaço, nós apenas nos defendemos." Meg disse sorrindo ao ver meu melhor amigo voltar e se sentar na cadeira que estava ocupando há pouco. Ou melhor, ao ver que sua amada garrafa de álcool ainda estava sã e salva. O dono do bar, sem a menor cerimônia, pegou a amada de minha cunhada e só apontou um copo para a vassoura descabelada pegar para eles e a inútil fez, o que me deu tempo de empurrar meu corpo ainda mais firmemente no da minha namorada e abraçar os seus braços antes que a puta destruidora de lares voltasse. E eu posso até não ter olhos nas costas, mas poderia jurar com toda a certeza que minha loira estava sorrindo feliz ao apoiar sua cabeça em meu pescoço.

"Claro, claro, como eu poderia duvidar disso?" Joe disse ao segurar o copo da mão de espantalho daquela bisca e acenando com a cabeça em agradecimento não sei pelo que, já que a vadia não estava fazendo mais do que o trabalho dela. Servindo seu copo, o de Meg e o de Noah, ele continuou. "O único problema é que muitas pessoas sempre tem culpa por começarem uma confusão com vocês. E quando eu digo que muitas pessoas estão erradas, eu friso no 'muitas'. O mundo todo está errado no que se trata de vocês duas, aparentemente." O homem completou e tomou uma golada de sua bebida, sendo logo seguido pelos outros dois. A filha da puta ofereceu um copo para a minha namorada que só se deu ao trabalho de negar com um leve aceno de cabeça e tive que cerrar os punhos para me segurar e não quebrar aquela garrafa em sua cara de pau, assim como seu pescoço de girafa.

"Exatamente. Agora você entende o que eu passei esses anos todos tentando ensiná-lo a injustiça da vida. E eu digo mais, esse mundo está todo errado, sabia? Como que pode uma dadeira daquela sair do buraco do inferno para vir aqui nos incomodar? Até parece que nós fizemos algo a ela..." Minha cunhada mal terminou de expressar sua revolta e todos olhamos incrédulos para ela, que ficou surpresa. "O que foi com vocês? Eu não tive nada a ver com isso! Ora essas, a menina move uma ação contra a minha melhor amiga e, diga-se de passagem, com um péssimo argumento e sem a menor base jurídica, o que quer dizer que ela só queria chamar atenção e difamar a minha cliente. Depois disso, ainda aparece aqui se sentindo a rainha da cocada preta e de repente eu que estou errada e sou desaforada? Vocês só podem estar me sacaneando!" Meg terminou seu discurso com raiva e virou o seu copo, enchendo-o em seguida e olhando irritada para todos nós enquanto tragava o seu cigarro.

"Não tem ninguém aqui te culpando, Fabray, só disse que vocês não são as pessoas mais queridas do planeta." Joe completou com calma e voltou a bebericar seu copo e nós três só observávamos atentos aquela conversa estranha. Nós não, Noah e Quinn, porque eu estava ocupada demais furando a cabeça impermeável da safada, que nem se deu ao trabalho de esconder que sua piranhice não tinha limites e olhava minha garota com uma vontade que só não era maior que a minha vontade de matá-la.

"Esse é o eufemismo do ano." A loira comentou sorrindo leve e fazendo com que o dono do recinto revirasse seus olhos. "Além do mais, nós duas consumimos mais do que se juntarmos todos esses sovinos que freqüentam essa merda de bar. Então, não reclame ou mudaremos de quartel general." Em um tom ameaçador que, presumo eu, deve fazer qualquer pessoa tremer em um tribunal, Meg fechou sua ameaça velada, sorrindo vitoriosa e bebendo seu uísque. De mãos levantadas, o homem entrou na brincadeira e resolveu deixar o clima da mesa mais leve.

"Longe de mim, Fabray! Eu rezo diariamente pelo fígado de vocês e para que Deus os conserve nesse funcionamento quase inumano, justamente porque me preocupo com as duas." A resposta da loira foi revirar os olhos e bufar algo, despertando a seriedade do senhor. "Não venha de deboche pra cima de mim, Margareth Fabray! Eu não sou o seu pai e me preocupo contigo." Essa frase provocou uma nova onde de tensão no ar e fez as duas irmãs olharem ao mesmo tempo para ele, quase que magicamente. "É isso mesmo! Ou você acha que se eu não me importasse vocês estariam aqui hoje? Acham que eu não teria colocado uma ordem contra as duas, ou teria chutado-as do bar e qualquer coisa do tipo? Mas não, ao invés disso, aqui estão vocês, mesmo depois de eu abrir mão de metade da minha clientela para comprar cada uma das brigas que vocês já arrumaram e eu sei que você sabe que eu não falo só sobre hoje, estou comentando sobre cada uma das confusões que seguiram as duas até aqui e de como essa sempre foi a segunda casa e de como eu fui o segundo, ou talvez até o primeiro, pai quando precisavam. E nunca, nenhuma das vezes eu sequer alterei meu tom de voz com as duas e sei que já me presenciaram fazendo isso com outros clientes daqui. Então não venha com essa pra cima de mim, mocinha! Ou eu não teria levado a Kay lá para o quartinho com o furacão de namorada que ela arrumou para que as duas não entrassem num buraco mais fundo ainda." Ao final do discurso, todos estávamos boquiabertos com o amor que aquele homem nutria pelas duas encrenqueiras de nosso grupo. "Falando nisso, diga a ela para não expor esse relacionamento por aí." Com uma invejável pausa dramática, ele só se deu ao trabalho de bebericar seu uísque e se levantar lentamente. Assim que Meg abriu a boca para perguntá-lo o motivo, ele nos emendou. "Aquela vigarista quer destruir a nossa vocalista e quem tem olhos vê que aquela força da natureza que a Kay namora é menor de idade e você, como advogada, sabe que pedofilia é um dos raros e poucos crimes inafiançáveis na maioria dos estados desse país e foi o que Jay comentou que a ouviu falando algo com pedofilia. Então, faça o que é certo, Meg, porque você está aqui pra isso. E conte comigo para proteger a retaguarda de vocês." Terminando de falar, Joe deixou seu copo em cima da mesa e a loira mais rebelde já tinha lágrimas nos olhos e apagou o seu cigarro, saltando de sua cadeira e agarrando o pescoço daquele homem que já podíamos considerar mais um amigo nessa jornada. E cada aliado era especial e precioso, ainda mais alguém que se importava tanto com o bem-estar das duas para começo de conversa. Chorando no ombro do dono do bar, minha cunhada falou baixo sobre coisas enquanto era ninada por aquele senhor bondoso, que só sorria e acariciava suas costas, dizendo que tudo ficaria bem. Com um beijo na testa, os dois se separaram e Meg emendou.

"Você sabe que eu te amo e te considero meu pai, não é, Joe?" A advogada perguntou sorrindo leve e secando os olhos com as mangas compridas de sua camisa branca de tecido fino e capuz. Sua resposta foi um aceno curto e leve de cabeça e um sorriso iluminado e orgulhoso como o de um pai sempre deveria ser.

"Mas não pense que vai começar a comprar fiado aqui, menina." De braços cruzados e olhos revirantes, a endereçada loira se jogou na cadeira e reassumiu sua antiga posição de pernas cruzadas, recebendo um beijo na cabeça e um aperto no ombro do Joe. "Samantha, venha comigo. É feio encarar a mulher dos outros." Hahaha. Toma, vadia! Até que enfim alguém estava do meu lado e tinha percebido as intenções negras e maquiavélicas dessa esponja de aço. Bem feito, vaca, vai vendo como o bem sempre vence o mal! A dita cadela ameaçou se defender (como se nós fôssemos cegos, aff), mas o nosso salvador simplesmente puxou-a pelo braço e falou algo em seu ouvido que fez com que ela abaixasse sua cabeça oca e concordasse com o que quer que tenha sido. Chupa essa, galinha! Rá! Vendo aquela mal comida ir embora com o rabinho entre as pernas, me ajeitei na cadeira e estiquei os ombros, em minha usual pose desafiadora de vencedora.

"Você tá me assustando com esse sorriso, Rach, credo!" Noah comentou e eu ignorei-o, o meu dia estava começando a ficar melhor naquele minuto e nem os seus comentários sarcásticos e de humor negro acabariam com isso.

"Minha nossa, o que nós vamos dizer pra Kay?" Em outro mundo, Meg me fez lembrar que era nosso dever acabar com o relacionamento e com a felicidade da minha melhor amiga com a latina e só de pensar nisso meu coração voltou a se entristecer. Era fato que eu nunca tinha visto nenhuma das duas assim, tão felizes. Tudo bem, a Santana parecia sempre bem relaxada depois de me jogar raspadinhas, mas eu não me lembro de ter visto algum sorriso sincero seu. Exceto quando vencemos as regionais do ano passado, mas isso durou o exato minuto de ela olhar para a Brittany e vê-la com o Artie. Pois é, por mais que eu nunca tenha sido amiga dela, me partia o coração vê-la com os olhos tão ocos e rasos d'água, que ela escondia no segundo seguinte, obviamente. E obviamente também ela não pode saber disso, espero que ninguém aqui conte, ou eu vou virar cinzas de uma fênix que nasceu para brilhar e conquistar multidões. E a Katie... Bem, depois do que a assassina descarada da sua irmã fez e daquele relacionamento horroroso com a Mischa, nós conversamos algumas vezes e ela continuava sendo a minha melhor amiga (eu acredito que nós não perdemos melhores amigos, podemos nos afastar, brigar, mas eles sempre estarão presentes quando quer que precisemos. Okay, me chamem de sonhadora, mas amizade é exatamente, é o amor eterno e 'amar é nunca ter que pedir perdão'*.), mas ela já não tinha mais relacionamentos saudáveis (ou de qualquer tipo, pra início de conversa, já que sexo não é relacionamento), ou seu brilho usual nos olhos (e isso ficou muito claro nas vezes que nos encontramos depois disso) e eu sei que ela sempre foi o tipo de garota que sonha em casar, então aquilo fez mais mal a ela do eu poderia imaginar. Não que a Santana pense em casar, ou não sei... "Ela vai ficar arrasada quando souber que não vai mais poder sair com a Santana como namorada. Minha nossa, não quero nem ver... E se ela voltar a se pegar com aquelas putas? Eu não tenho mais saúde pra essa merda toda de processos, noites em claro ouvindo mulheres chorando por ela e me xingando por ser sua advogada. Puta que pariu, alguém me salva!" Meg gritou e apoiou a cabeça nas mãos. E ela está certa, nós como amigos delas não podemos deixar isso acontecer, não agora que elas tinham se encontrado.

"Nós temos que impedir isso! Elas se encontraram e não podemos deixar que se separem. Além do mais, tem que haver alguma opção..." Eu disse e todos pareceram concordar e pensar em saídas plausíveis para essa situação horrível em que nossas amigas se meteram. Isso até minha namorada levantar a cabeça.

"Meg, você conhece ou já pegou casos na vara criminal?" Em um rompante, todos olhamos juntos e depressa para o rosto da Quinn, que parecia particularmente séria. Inclusive sua irmã foi pega de surpresa pela pergunta e, antes de respondê-la, resolveu observá-la para tentar adivinhar de onde vinha essa curiosidade repentina.

"Peguei sim, Nine, não tenho visto muitos porque o escritório não confiava em mim ou, como dizem, no meu 'excesso de escrúpulos' para defender criminosos, mas fatalmente terei que pegar um ou outro, já que eles não possuem tantos advogados assim. Por quê?" Ouvindo a resposta de sua irmã, minha loira assentiu com a cabeça.

"Porque a S. vai precisar de um bom advogado quando ouvir isso e resolver mover mundos e fundos para matar essa desgraçada." Qualquer pessoa que ouvisse esse papo, acharia que aquilo era tudo uma grande e infantil brincadeira. Mas nós sabíamos melhor. E, ouvindo isso, a justiceira de nosso grupo sorriu assustadoramente e assentiu com a cabeça depressa e várias vezes.

"Pois ela pode contar comigo como comparsa, cúmplice, coveira e advogada. Aquela arrombada cretina não vai nem saber de onde veio o tiro." Minha namorada balançou a cabeça, sorrindo em concordância, sua irmã sorriu orgulhosa, assim como Noah que esticou a mão e os dois se cumprimentaram (incrível foi a mudança da relação desses dois, de detestável para amigável e isso era realmente bom de se ver) e eu... Bem, eu engoli em seco porque sabia que aquilo era muito provável de acontecer e, sabendo de nossa sorte torta, era um plano bom demais para acabar bem...

...

Suspirei relaxada no abraço da minha cheirosa e desventurada namorada, porque aquele azar que ela tinha só não era maior que o meu. Mas pensando nisso, nada na vida barrava o mau agouro que os astros tinham armado para mim antes mesmo de eu nascer e agora era que ele estava mesmo se aprimorando em técnicas ainda mais desgraçadas para foder de uma vez por todas com o meu juízo sem a menor discrição. E tomar no rabo quem diz que inferno astral dura só um mês antes do aniversário (mesmo que o meu seja em exatos trinta dias, já sou acompanhada por essa sucessão de infelicidades desde antes de começar a chutar o couro da puta adúltera da minha mãe), essa porra tá toda errada há tempo demais. E posso dizer que, até onde eu sei, a prostituta de luxo morava na casa rosa da Barbie traficante em Malibu ou na casa do caralho e, pra ela cruzar essa porra de país todo só para me azucrinar o juízo e ainda vir atrás da minha mulher com aquela cara ensebada... Só podia ser a merda da minha vida isso, não tinha explicação para outra coisa. Bem, e tinha que ser um revés pior que o destino de sofrimento eterno de Judas que, no auge do seu azar, a única coisa que ele conseguiu catar foi a vaca herege, doida de pedra e anticristã da Gaga. Realmente, aquele ali sentou numa piroca grossa, grande, endurecida em titânio e salpicada com areia, porque vou te contar... Mas tirando o fato de eu ter olhos e bom senso, não podia me orgulhar de mais coisas por aí. Só que agora, bem, eu tenho uma namorada e tudo mais...

"Um dólar pelos seus pensamentos." A dita cuja me fez voltar a realidade com um sorriso e uma pergunta dos tempos em que eu ainda podia bater nos outros sem ser processada (bons tempos que não voltam mais...) e resolvi pensar em minha resposta e mirei bem o seu rosto. Não qual era o seu grau de loucura, mas creio que assim como os danos causados pela voz incansável da boca tagarela de Berry, não tinha limites. Porque uma pessoa tem que ser muito perturbada para estar presa num quarto escuro, sabe Deus qual maníaco nos jogou aqui (vai que aquela merda que a loira revoltada falou de jogos provocou a fúria do velho sádico e ele cismou em aparecer e nos colocar em uma de suas muitas armadilhas de mau gosto para que nos fodêssemos até a nossa morte, que seria lenta e dolorosa e acabaria esmigalhando cada um dos ossos e terminações nervosas do nosso corpo até que fiquemos inertes e mongolóides assim como o Finnconvivível? Que porra de fim desgraçado do inferno não seria esse? Não quero nem pensar muito nisso ou acabarei queimando meu cérebro.), depois de uma briga com a arrombada sem critério de sua ex e sendo que ela ainda tinha a boca cortada porque resolveu me proteger de uma das nadadeiras daquela piranha da terra, que acabou acertando-a. Não, 'normal' não era um traço da personalidade de Katherine Spencer. Definitivamente. "Hum, deixe-me adivinhar, essa super pensativa cabecinha que você tem está viajando e fazendo ligações pessimistas entre os fatos, acertei?" Ora, mas namorar essa menina era pior do que pegar o Charles Xavier. Mas por que porras esse povo não vai ler bula de remédio ao invés de ficar xeretando a cabeça dos outros? Tomar no cu, viu? Num é possível que eu não tenha um minuto de descanso sem ter que me preocupar com os processos que a rapariga mais vagabunda que chinelo falsificado tinha mandado pra cima dela e eu ainda tinha que lidar com o fato de, possivelmente, ter que namorar uma menina sem formação acadêmica, já que a noiva de Chuck ainda meteu a faculdade da minha louca no meio e ela tem que voltar para se defender na corte acadêmica ou ser jubilada da faculd... Meu santo inferno! Eu tinha que optar entre enxotá-la para salvar seu futuro como embaixadora da ONU no lugar da boqueteira da Jolie, ou segurá-la aqui para protegê-la de voltar e correr o risco de encontrar com a aquela pombagira das sete encruzilhadas do buraco do diabo por lá e tudo isso graças a sua falta de amor-próprio e por sua promiscuidade de sair dormindo com todas as bucetas que tinham pernas e...

"Quando você vai voltar pra Cleveland?" Resolvi perguntar antes que minha fúria assumisse o nível dez na escala Richter e eu acabasse atacando-a e submetendo-a a infinitas formas de torturas até descobrir por quais caralhos alados ela comeu qualquer coisa que passasse em sua frente e não me comia logo. Mas que porra! Judas tá é sofrendo muito pouco perto do que eu sofro, porque não é possível que todas as outras mulheres sejam melhores que meu saboroso e quente corpo latino, ainda mais quando eu sei fazer coisas na cama que até...

"Eu não vou." Oi? Peraí, eu ouvi isso mesmo? Essa menina só pode estar drogada, não tem explicação pra isso. Alguém diluiu uma droga nova e poderosa em sua bebida e desde então ela está assim, mais viciada em narcóticos e fora da realidade que a própria Alice que, não satisfeita em piranhar só naquele mundo rosa e gay com cartas de baralho sapatanescas e gatos risonhos e assustadores, ainda vai fazer sacanagem no mundo dos espelhos porque sofria do mesmo problema que o Narciso e queria mesmo era se injetar e se comer até morrer, ou de overdose ou de over-orgasmo, ou sei lá se essa merda existe mesmo. Se bem que, diferente de mim, ela pelo menos teria um... "Vou ficar por aqui mesmo." A doida resolveu continuar no seu barato solitário.

"Não, não vai." Disse rápido e cortando aquele assunto porque alguma de nós duas tinha que ser a mais madura naquela conversa.

"Sim, eu vou ficar." Mas é um cacete duro mesmo! Quando nós resolvemos tomar as atitudes certas, as pessoas sempre empacam e atrasam nossas vidas. Te contar, viu? Me afastei dela e saí de seu abraço para olhá-la com força e mostrá-la com meus olhos de aço que ela não tinha uma opção. Tudo bem, ela não é burra pelo que sei e está muito bem de vida até, só que não será por minha causa que ela vai abrir mão de seu futuro como psiquiatra de Hollywood.

"Você vai e não tem mais discussão." Ela teve a audácia de me revirar os olhos! Vocês acreditam nisso? Porque não, isso não pode estar acontecendo e ela deve estar me confundindo com alguma de suas garotas de programa. E isso está errado, muito errado!

"Santana, eu estou te dizendo que não vou e ponto. Simples assim. Agora volta aqui e vamos fazer coisas melhores." Não e não! Não seria sua frase de duplo sentido e nem sua piscadela insinuante que me tirariam da minha missão e ela saberia disso! Vê se pode, ela achar que só pelo fato de estar propondo certas... "Eu estou com saudades de você."... coisas, falando com essa voz macia no meu ouvido e me enlaçando a cintura com seus braços que eu cairia nessa. Nem com o meu corpo virando lava e meu cérebro virando gelatina, ou minha respiração ficando falhada e entrecortada. Mesmo com meu coração pulando mais do que bruxa na fogueira santa e minhas pernas tremendo estarem se aproximando lentamente dela, ou de seu hálito ser de uísque com hortelã e me deixar vendo navios e bem... É, ela resolveu me beijar tão lentamente que senti meus órgãos pararem em apreensão (não literalmente, claro) e foi passando a mão lentamente em minha barriga por dentro da minha blusa, enquanto eu estava mais estagnada que o Finnsustentável e não sabia nem se ainda estava respirando. O que era isso que ela fazia comigo, Deus do céu? Era como se nós estivéssemos fazendo amor só com um beijo, de tão lento e sensual que ele era... e cadê meu corpo que não está me obedecendo? Mas que porra de timing de satanás pra ele resolver ficar paraplégico, hein? Não importa, nada disso importa porque ela resolveu colocar a língua na minha boca (e eu não tive coragem de negá-la porque sempre fui uma pessoa muito bacana) e eu vi estrelas, meteoros, espaçonaves de Star Wars e mais o que pudesse cortar o céu. Santo inferno! Onde essa menina aprendeu a beijar assim? Ela era, sem sombra de dúvidas, o melhor beijo que já tive em toda a minha vida e meu corpo concordava em gênero e número com isso, porque pelo modo que ele estava tremendo, mataria até o Michael J. Fox de inveja. E talvez eu estivesse gemendo porque ela era boa assim, ao ponto de me deixar derretendo e fazer meu coração cantar qualquer música imbecil e me deixar nas nuvens, ou o que quer que seja. Isso até ela apoiar a sua mão livre (porque a outra estava me provocando em meu abdômen) em meu rosto e se afastar um pouco, me olhando. Sei disso mesmo sem abrir os olhos, porque se eu visse aquele olhar que ela me lançou no carro mais uma vez e ela viesse com um 'vamos esperar até haver paz no Oriente Médio antes de fazer sexo para que saibam que é melhor fazer amor e não guerra', ou qualquer diabo parecido, eu tenho certeza que acabaria violentando-a ali mesmo, naquele chão mais sujo que a boca faladora da traveca marginal.

"P-por que?" Não sei o que foi isso, mas acho que tive uma isquemia com esse beijo pecaminoso dela e essa tinha sido uma das seqüelas que meu cérebro sofreu. Porque não sei de onde eu tirei isso. Mesmo. Até que ouvi e senti seu suspiro ainda em meu rosto. Era fato de que ela tinha lido meus pensamentos (mesmo quando nem eu sabia quais eram) e era em situações como essa que o fato de ela ser uma bisbilhoteira de mentes vinha a calhar.

"Porque eu não vou te deixar." Sua resposta me fez abrir os olhos e olhei-a seriamente e ela (adivinhem?) me sorria em retorno e passava a ponta de seu indicador pelo meu rosto, ressuscitando os adormecidos calafrios que eu tentava controlar. Suspirei fundo e de olhos fechados, porque esses hormônios precisam saber quem está no controle e esse alguém sou eu! Até que ela me puxou pelo braço e me colocou em seu colo, com uma força que deixaria o Hulk verde de inveja e me fez pensar em algumas posições e modos que podemos tentar, talvez até algo do kama sutra, assim que ela largar o celibato e... "Eu não vou a lugar algum sem você." Esse sussurro em meu ouvido só não foi pior que o beijo que o seguiu em meu pescoço e foi quando eu percebi que não, eu não tinha controle nem sobre os meus hormônios, porque quem tinha era ela. Mas como não sou mulher de desistir de uma batalha, me aprumei em cima do seu corpo quente (e imagino o quão macio ele não deve ser sem estar sendo aprisionado por esse tanto de roupas... droga! Pensamento errado...) e lutei com o meu autocontrole.

"Eu posso ir com você." Porque naquele minuto, eu iria até o inferno à pé e descalça para arder naquela chama escrota que incendeia mais pecadores do que carnaval no Brasil. Ouvindo minha proposta (in)decente, ela me sorriu e beijou meu nariz, negando com a cabeça. Começou a outra a fazer doce, mas é uma maré de azar que afundaria até a arca de Noé, viu? Vou te contar... "Você precisa terminar a faculdade, Katie, só falta um ano pra..."

"Eu preciso de você, Santana." Sério! Alguém processe essa menina porque o que ela está fazendo comigo é crime sem fiança e sem perdão. Ainda mais passando o dedo pelo meu antebraço...

"E-e-eu posso ir contigo." Era o que me faltava, ficar gaga depois de velha. E ela ainda riu da minha cara, essa abusada! Entretanto, ela pareceu pensar por um segundo e, sem nem piscar, balançou sua cabeça dura e retornou a sua posição de Miss teimosia. Ah, vai entender as mulheres, viu?

"Eu aprecio muito a sua preocupação, mas vou ficar aqui contigo. Eu preciso te proteger, lembra?" Foi de um sorriso tão grande que eu me senti mais protegida que a Whitney Houston em 'O guarda-costas', isso até me lembrar que minha altruísta namorada seria mais uma estatística sem terceiro grau e eu não admitiria isso, não por minha causa.

"Pois saiba você que eu não namorarei uma pessoa sem terceiro grau, vai contra os meus princípios!" Falei e cruzei os braços e ela revirou os olhos antes de me puxar para me debruçar sobre o seu corpo.

"Pois saiba você que eu já tenho diploma em filosofia, Santana. Ah sim, eu te disse isso dia desses." Porra! Isso invalidava meus argumentos. Merda! Ora essas, mas é claro! Como minha mente genial demorou tanto tempo para pensar nisso?

"E você acha que isso nos dará qual futuro, Katherine? Dar aulas não enche barriga de ninguém e viver de teorias macabras também não! Porque pense bem nisso, eu não quero sair de casa e morar numa cabana vivendo de luz e amor, eu não nasci pra isso!" Revirei os olhos para tentar deixar minha mentira mais verídica. Verdade seja dita, eu viveria com ela mesmo sem diploma, sem casa e sem comida e isso era tudo o que mais me assustava na vida. Além do mais, eu não precisava contar isso, não é? Bem, eu acho que mais uma vez ela leu a minha mente, porque sua gargalhada cortou aquele muquifo como uma sinfonia e ela me abraçou feliz. Diabo de vida injusta! Nem mentir mais eu tenho o direito.

"Quer ter um futuro comigo, é, Santana?" Mas quanta audácia! Era óbvio que essa prepotente só ouviria essa parte, claro! Pelo menos ela não tinha entrado nos meus pensamentos dessa vez... Não sei o que é pior, se é saber que não tenho mais privacidade nem em minha própria mente ou se é namorar uma pessoa tão arrogante e cheia de si como ela que presume coisas sobre mim e ainda se acha mais certa que o Buda. Bufei de raiva.

"Ora, claro que não! Foi uma hipótese na qual pensei e já descartei." Virei o rosto para ver se assim eu conseguia mantê-la fora da minha cabeça e esconder a verdade, pelo menos uma vez.

"Entendo..." Foi o que disse e puxou o meu rosto para me enganar com aquela velha tirada de 'quero te olhar nos olhos', quando eu sabia que a verdade por trás dessa palhaçada e o objetivo suas ações era o de ler meus pensamentos mais uma vez. Bom, que fosse, virei meu rosto mesmo assim, já que ela me segurava com tanta delicadeza. E, estranhamente, o seu olhar era sério (no mínimo ela farejou a minha mentira e agora estava de cara comigo. Boa, Santana, mais uma dentro!), mas sua mão ainda acariciava o meu rosto. "Santana, a vida não é justa." Rá! Ela estava mesmo me falando de injustiças? Ela jurava? Será que não tinha lido a minha mente esse tempo todo? "Não, eu falo sério agora. Você quer saber o meu futuro profissional?" Que maravilha não é saber que se está namorando o Nostradamus, não é? Será que ela conseguia prever o meu também? Porque qualquer faísca ajudaria a acender minha lâmpada da criatividade, já que eu estou mais perdida nesse assunto do que surdo-mudo em mercado de peixe. "Bem, não é nada difícil de adivinhar, então vamos lá. Eu já sou a presidente das empresas do capitão e sou há mais de dois anos, mesmo quando ainda estava começando a cursar economia, então, você já pode presumir que o império ficará para mim, não é?" Certo, isso fazia sentido, mas qual pai deixa uma empresa na mão de uma filha com menos de vinte anos? Isso só pode ser absurdo. Que familiazinha do cu riscado que ela tinha, hein? De repente, sua seriedade se transformou em um sorriso, um dos brincalhões e já previa que ela ia implicar comigo. Acho que esse poder de ler as pessoas se passa por osmose, ou por saliva, não sei. "Pois então, nós não viveremos de luz numa cabana, Santana. Quanto a isso, você pode ficar tranqüila. E, como eu estava vendo hoje na bolsa de valores, as nossas ações voltaram a subir, o que faz muita diferença pros negócios. Mas mesmo com o déficit que te disse no outro dia, eu ainda poderia te comprar toda a cidade de Lima e mais boa parte do mercado imobiliário de Ohio, além de adquirir os grandes bancos do país. E, ainda assim, nos pagar uma viagem para a lua, na lua de mel. O que acha?" Puta que pariu! Quem é o pai dessa menina? O Bill Gates? Ou quem sabe era o Rei Midas? Porque se na minha vida tudo vira azar, na dela, tudo vira dinheiro, então nada mais certo do que uma pessoa sair transformando tudo em ouro por onde passava para conseguir comprar qualquer coisa sob o sol, né? Ou talvez ela fosse filha do Tio Patinhas... Mas que caralho! Onde esse povo arrumou tanto dinheiro? Vendo o meu desespero por estar namorando a senhora do crime, ela resolveu rir e continuar. "É, o capitão é o terceiro homem mais rico do mundo e eu ainda tenho os prêmios em dinheiro que recebi dos torneios de tênis então..."

"Vocês trabalham com tráfico de órgãos ou o quê?" Perguntei só pra garantir, porque ouvi o povo dizendo por aí que isso dá um dinheiro forte. Sujo e forte. Ela gargalhou, obviamente. Por que ainda me dou ao trabalho?

"Não, não é com isso. Bem, comecemos do ponto de partida." Revirei os olhos. Esse povo curte um pleonasmo com força mesmo, nossa senhora! "A família do capitão sempre teve muito dinheiro, desde onde conheço a árvore genealógica deles. Não sei se te disse, mas ele tem esse apelido por ter sido capitão de lacrosse por muitos anos de sua vida e, lá na Inglaterra, esse era o esporte mais bem pago na época. Bom, eu sei que isso não faz muita diferença, mas ele é irlandês e foi seguir carreira esportiva na Inglaterra e lá conheceu a Bizzy, que também é da Irlanda, mas eu sou inglesa assim como a Stacey e só vim pra cá quando eu tinha dez anos e a Stacey ficou num colégio interno por aqui e nos víamos só nas férias. Enfim, voltando ao assunto, somado o seu nome e seu título de nobreza inglês, ele já seria uma figurinha carimbada entre os bailes nobres e ricos. Mas, se contarmos com a empresa que meu avô deixou pra ele e é uma das mais fortes fabricantes de TI para a Microsoft e para a Apple, nós temos um título, um status e uma companhia em ascensão. Agora, somando tudo isso ao que a família Forbes ofereceu a Bizzy na forma de um banco que presta serviço ao FMI, nós temos o Império FS, que fabrica tecnologia a partir da própria matéria-prima, tem como mercado as duas maiores redes tecnológicas do mundo e regula a economia comprando e vendendo ações e oferecendo empréstimos com juros exorbitantes. Sendo assim, nós temos a melhor e mais completa fusão da história da economia. E a melhor parte é: apesar de tanto poder comercial, não é uma das empresas mais visadas, já que as duas mantiveram suas respectivas razões sociais e, apesar de entrarem juntas no mercado, cada uma interfere no seu ramo. Basicamente isso." Não sei se foi o fato de ela me explicar tudo aquilo como se fosse algo tão comum quanto comprar pão, ou se era por ela considerar aquilo uma trivialidade, ou se pelo fato de eu ter os piores e mais ricos sogros que o mundo já conheceu desde os parentes de Romeu e Julieta, mas eu estava de boca aberta. Literalmente. Ah sim, sem contar que eu namorava uma menina que poderia simplesmente nadar em dinheiro e não faria falta alguma... "E, sinceramente, eu mexo com ações e com mercado desde quando saí do tênis, então um canudo não vai me somar ou subtrair. Já que não é como se eu pudesse ser demitida da empresa depois de ter 80% das ações... O pior que pode nos acontecer, é ela falir, mas isso é mais improvável que o mundo acabar agora, porque mesmo que caia o valor do dólar, nós trabalhamos com todas as moedas mais fortes do mundo e, além disso, a tecnologia está para ficar, não é? O que mantém o mercado do nosso grupo. Enfim... Ei! Santana! Isso não quer dizer nada, okay? Eu me formei em filosofia porque pretendo lecionar mesmo e não mexer com esse povo pelo resto da minha vida." Quando viu que eu estava mais pálida que os inimigos mortos e imaginários da Berry, ela completou para dar um ar de plebéia.

"Eu... não imaginava..." Nem imaginava que fosse tão incapaz de juntar palavras e formar frases... Até o Finnfértil deve estar sentindo inveja de mim a essa hora.

"Não tem problema, não é como se eu saísse contando isso por aí." Ela disse fazendo graça e achando estar num programa humorístico de baixo calão. "Além do mais, eu vou me resolver com a reitora da Harvard e ped..."

"Você não vai comê-la também, não é? Porque não pense que virá pra cima de mim com isso de 'foi para o nosso bem' que não cola, Katherine. Na puta que pariu que você vai me fazer isso!" Interrompi seus planos sórdidos com a velha ameixa murcha para deixar bem claro que não aceito esse tipo de filosofia de vida, mulher minha não vai sair pagando dívidas com o corpo por aí, a menos que queira perder cada um de seus membros. Ora, era só o que me faltava. A saliente respirou fundo e encostou sua cabeça balançante e sem vergonha na parede, provavelmente tendo que bolar outro plano para essa merda, já que ela só faria isso depois de passar por cima do meu corpo morto!

"Eu não sei se me ofendo com seu comentário, ou se me divirto com seu ciúme." De uma audácia sem tamanho, essa menina ainda resolveu me dizer como se eu estivesse errada! Ora, era tudo que eu precisava nessa vida mesmo. "Enfim, eu estava dizendo que vou ligar para a reitora e pedir toda a minha papelada, meu histórico e inclusive a certidão da minha família de membros do grupo de financiadores de Harvard. O que vai fazer com que a faculdade perca alguns bilhões em doações por ano. E, pelas minhas notas e por ser a melhor de todo o curso, afinal, eu tenho que colocar aquilo em prática diariamente, não é mérito meu. Enfim, com todo o meu histórico, eu posso muito bem me transferir para outras faculdades, já que recebi diversos convites. Ela ficaria sem o dinheiro e eu seria uma das poucas a conseguir ser jubilada de lá. O que não é de todo mau, já que estava pensando em dar uma parada por esse ano e depois eu resolvia onde terminaria o curso." Seu discurso presidencial me fez perceber que essa menina era, além de rica, muito da cabeçuda, o que é uma boa mudança em meu histórico de amebas (e não estou falando da Brittany. Certo que ela funciona de um modo diferente, mas sei que ela nunca foi burra, só não tem tanta capacidade de concentração e ainda era bem sensível para perceber as coisas) e isso era uma soma. A primeira em muito tempo. "O que acha?" Sorrindo para mim, eu suspirei e sorri pra ela de volta. Se ela queria me esperar terminar o ensino médio para irmos juntas dominar o mundo, quem seria eu para negá-la?

"Eu só não sabia que você tinha tanto dinheiro e influência assim." Foi o que disse e fui sincera. Certo que o dinheiro compra as pessoas, mas pelo visto, ela poderia comprar boa parte da população e escravizá-los até instaurar uma nova monarquia mundial e dominar o mundo com pulso de ferro. E eu seria a primeira-dama mais deliciosa e bem vestida que esse povo medíocre já viu (fatalmente, a tal da Carla Bruni seria a primeira a morrer. E isso eu não chamo de assassinato, sim de controle sobre a concorrência).

"É, eu sei. E eu não tenho influência, isso é coisa dos sobrenomes. Mas pela parte do dinheiro, é por isso que as pessoas sempre querem me processar e tirar tudo quanto mais podem e coisas do gênero." Ela me respondeu com calma e certa paciência, ainda com as mãos no meu rosto. Até uma pergunta me bater de repente.

"Inclusive a piranha?" Ela sabia de quem estávamos falando, né? Ora essas, claro que sabia! Só poderia ser... É, ou não... É, contando com a legião de meretrizes que ela já trepou, poderia facilmente ser qualquer uma de...

"Principalmente ela. Por que você acha que o treinador dela foi atrás de mim?" Ah, mas que pistoleira golpista e de araque! E eu devo ter feito uma cara de desgosto tão desgostosa quanto aquela hija de la puta, sei disso pelo seu balanço negativo de cabeça e seu sorriso leve. Novamente, lá estava ela se fodendo e rindo. Louca. "Exatamente. Só que, bem, eles até me tiraram dinheiro, mas nada relacionado ao grupo. Foi o que eu ganhei mesmo, com os campeonatos e coisas do tipo. Acho que essa é a maior revolta dela..." Se encostando na parede e balançando a cabeça, ela ria das armações desgraçadas que aquele ebó não evoluído jogou para cima dela. Estão vendo só? Doida. Doida varrida.

"Pensei que ela te quisesse de volta. Pelo que a puta disse hoje sobre você querendo-a de volta..." Isso não era ciúmes, apenas uma certa curiosidade. Quem pode me julgar, não é mesmo?

"Não, não. Até acredito que ela tenha gostado mesmo de mim, mas isso aí é pelo dinheiro, Santana. Pelo dinheiro e por ela não saber perder. Nunca soube." Antes de terminar de traçar a personalidade distorcida da sem caráter interesseira, ela já estava me puxando pelo braço e encostei-me ao seu peito, suspirando.

"Bom, ela não vai ter nenhum dos dois. Nem você e nem seu dinheiro." E nem dentes, se depender de mim. Ela sorriu e beijou a minha testa carinhosamente e acariciou minhas costas. Eu não entendo como pode existir uma pessoa que te faça tão bem e tão de repente. Eu me sentia realmente em casa com ela, mesmo que morássemos num casebre (pois é, eu fui sincera ali), desde que fôssemos só nós duas.

"Não vai mesmo." Foi um sussurro em meus cabelos e não pude deixar de perceber as batidas que meu coração dava por isso tudo. Não só pela atração que eu sentia por ela, mas também pelo fato de me sentir protegida, por mais forasteira que seja essa sensação, já que não me recordo bem de quando foi a última vez que me senti assim. E por ela não me pressionar, não me fazer perguntas, não me colocar contra a parede e não me exigir saber sobre a minha vida e sobre os meus sentimentos. Não, o que nós tínhamos era uma troca, ela me falava sobre as coisas sem me incitar a fazer o mesmo e eu o fazia, justamente por isso. Engraçado pensar nisso, pensar que eu não funciono e nunca funcionei sob pressão, ou coisa do tipo. Quero dizer, a menos que seja pressão física, do seu corpo no meu e... Dios mio! Mas o que eu faço com esse calor todo? Sambei desconfortável em seu colo e, claro!, ela sorriu porque leu a minha mente mais uma vez. Estou dizendo que a vida é um ciclo! Ela lê a minha mente e ri e depois sorri mais e se mete nos meus pensamentos de novo... Adivinhem o sorriso? Sim, o de mais cedo e eu realmente espero que ela tenha muito dinheiro para comprar sua vaga no céu, porque com essa atitude, é melhor ela ir preparando o cooler com cervejas porque a eternidade será baixa e quente para uma certa Katie Spencer. Pelo menos, ela vai se encontrar lá embaixo com sua família de tranca-ruas, porque ô gentinha mais desumana era aquela. Sem o menor rodeio, ela passou a mão pelo meu ombro e eu precisei cortar aquilo (porque existe um nível de frustração que eu consigo agüentar sem ter que dar tiros ou socos nos outros e ela não colaborava nem por um segundo com isso) antes que eu tivesse que dar com a cara na parede até me aliviar (no caso, esquecer) e falei a primeira coisa que surgiu em minha mente naquele momento.

"Eu tenho um irmão. Mais velho." Sua expressão era algo que variava entre susto e incredulidade e o pior é que nem eu posso julgá-la, já que não sei por quais caralhos de asas tinha dito aquilo. Bem, infelizmente, o que me restava era explicar. "Eu sei, você deve estar me achando a pessoa mais mentirosa da Terra, logo depois do Pinóquio, mas é que..." Sua resposta foi acariciar o meu rosto e balançar a cabeça.

"Nada, tem muito político vindo na sua frente. Além da Stacey, tem o Hudson também. Ah sim e a..." Cerrei os olhos pra ela, porque se fosse pra ouvir o nome do resto da população mundial, era só me avisar que eu hibernava como a descansada da Bela Adormecida e conversávamos em outro século. "E, como eu ia dizendo, obviamente eu não vou te julgar e sou toda ouvidos, namorada." Foi seu sorridente e com certo tom de culpado comentário e revirei os olhos. Essas pessoas com esse senso de humor deslocado são casos a serem estudados. Puxando os meus braços, resolvi me aconchegar em seu colo contra todo o meu bom senso e falar logo dessa porcaria.

"Na verdade, eu tinha um irmão mais velho e, antes que faça essa sua cara, não, ele não morreu. O nome dele é Marcus e ele é seis anos mais velho que eu. Por muito tempo, meu pai viveu com a dúvida sobre ser ou não o pai dele, sabe? Não só por ele ser completamente diferente da gente fisicamente, mas pela sua personalidade e pelo modo que ele e a vadia mancomunavam juntos. Isso eu só percebi bem depois, mas apesar de tudo o Mark era legal e nós brincávamos de coisas legais. O sonho dele sempre foi ser piloto de corrida e, por isso, ele me ensinou a dirigir bem cedo, só pra me ganhar no volante. Grande babaca." Revirei os olhos e ela riu. E se nós juntássemos nossas famílias, daria um reality show com um teor de horror e sadismo sem limites, onde o maior prêmio seria a sobrevivência, no estilo daquela série Survivor, ou coisa parecida. Que merda não são os parentes? "Enfim, ele era esse tipo de imbecil, irmão mais velho e me ensinou a xingar e a brigar na escola também, porque ele dizia que não estaria sempre por perto para me defender. E, bem, como podemos ver, essa é a verdade que prevaleceu." Depois disso, dei uma parada e resolvi aproveitar suas mãos em meus cabelos só por um segundo, antes de continuar. "Até que ele começou a ficar doente de repente e precisou ser internado. E foi o que aconteceu, ele ficou no hospital por um bom tempo até descobrirmos que ele tinha leucemia e precisaria de tratamento e de doação de medula. Aquilo, obviamente, acabou conosco e a mocréia ficou ainda mais perturbada com a notícia. E bem, depois de eu ter feito todos os exames e ter encarado aquela agulha horrorosa que mais parece um tubo de ensaio, eu não era compatível com ele. E foi assim que descobrimos que a safada da minha mãe tinha pulado a cerca e ele não era filho do meu pai. Claro que qualquer pessoa que o visse, branco transparente, russo e de olhos claros poderia ter previsto isso, mas o choque foi muito grande. De todo modo, ainda assim meu pai ficou com aquela meretriz e continuou tratando-o. Não sei exatamente como, mas ele melhorou o suficiente para me escrever uma carta de despedida e me pedir desculpas por tudo e por ter escondido isso de nós, disse que sempre me consideraria sua irmã, mas não podia viver com o peso na consciência de ter destruído a nossa família, o que é uma grande balela, já que a filha das trevas fez isso sozinha ao arreganhar suas pernas que são mais abertas que portas de igreja e dar para todos que tivessem algo balançando para ela. E bem, nós nunca mais nos vimos porque ela o carregou embora, quando fugiu para o raio que o parta com seu judeu sem vergonha também. Isso faz alguns anos e não faço a menor idéia se ele está vivo ou morto a essa hora. Pronto, é isso." Não sei se foi seu abraço apertado e caloroso, ou se foi o fato de finalmente contar isso a alguém, mas me senti incrivelmente mais leve, como se tivesse tirado um caminhão das minhas costas (é, piada pronta) e, sem dizer nada, ela apenas me ninou como uma criança desmamada e continuou afagando meus cabelos. Só nesse momento que percebi que estava chorando, por suas palavras de auto-ajuda e que não significariam nada, não se fossem ditas por outra pessoa. Mas e de um estranho modo, eu acreditei em cada uma delas e acreditei que 'tudo ficaria bem', mesmo sem saber o que era o 'tudo' e o que poderia 'ficar bem'. Assim, eu descobri que ela conseguia me dar paz e, até se ela quisesse mentir, eu acreditaria**. Pois é, esse negócio de sentimentos tá mais feio do que eu imaginava...

"Nós podemos achá-lo se você quiser. O que acha, bebê?" Demorei longos segundos para processar sua pergunta por dois motivos: o primeiro, eu realmente fiquei repetindo o seu vocativo na minha cabeça e cheguei a conclusão de que ele não era tão imbecil quanto a Fabgay e seu bicho de pelúcia faziam parecer. E o segundo porque eu nunca tinha pensado nisso, será que eu queria revê-lo? E como seria caso isso acontecesse? Será que ele voltaria a ser meu irmão mais velho ou nos trataríamos como estranhos? Era doloroso pensar nisso, pensar que o seu melhor amigo virou nada para você do dia para noite. Ou pior, pensar que você foi esquecida pelo seu irmão... E eu tenho que pensar no meu pai também, ele já passou por desgraças suficientes me criando sozinha depois de aquela peste de mulher macumbeira fugir montada em uma vassoura e não sei como ele lidaria com isso...

"Eu não sei..." Foi minha resposta baixa e sincera.

"Tudo bem, não precisa saber agora, você pode pensar nisso com calma e analisaremos as nossas opções, que tal?" Eu tinha parado de chorar já, mas sua voz continuava calma e serena e suas mãos ainda acariciavam minhas costas e meus cabelos e só me dei ao trabalho de assentir com a cabeça. Nós tínhamos tempo ainda, não é?

"Eu não sei o que o meu pai pode achar..." Ela balançou a cabeça, aparentemente entendendo tudo, mais uma vez, como ela sempre fazia. E eu nem sabia o que eu estava sentindo, mas talvez, se eu perguntasse, ela poderia me dizer, não é?

"Você e seu pai parecem se dar muito bem." Acho que ela estava sorrindo, se não por ela rir mais do que uma hiena, pelo tom de sua voz. Provavelmente eu estava certa.

"Uhum. Ele é um cara legal e me criou sozinho. Sempre fazíamos as coisas nós dois, depois que a bagaceira levou o Mark embora." Comentei e levantei o rosto para olhá-la mais uma vez. E lá estava ela, sorrindo de novo (acho que isso está repetitivo até para vocês, mas a culpa não é minha de namorar a mulher mais feliz do mundo, de verdade), o que me fez pensar por um segundo em coisas como futuro, ou relacionamento e jantares em família (por sorte, eu nem teria que expulsar minha sogra de casa, já que aquela filha da puta não se importa o suficiente com a filha pra saber se ela está se prostituindo e pegando AIDS ou se arrumou alguém e fugiu para o Alasca. Vaca.) e, claro, a flambada galinha ao molho pardo não seria convidada. Só se ela quisesse perder os dentes de sua boca amaldiçoada ou ver seu pico pegar fogo como a tocha olímpica. Mas não sei, talvez a Katie se desse bem com o velho... "Ele é inteligente, sabe? É um homem bom e é médico, só que não desses que a gente vê na tevê que não tem tempo nem para pagar as contas de casa. Não, ele sempre teve tempo para mim." Dito isso, ela me riu ainda mais aberto e passou os dedos pelos contornos do meu rosto. "Hum, não sei, mas acho que vocês se dariam bem ou sei lá..." Não que eu estivesse convidando-a a fazer parte da família, claro que não! Pareceu isso? Merda! Abri os olhos e, me deparando com sua felicidade maior que a de... De alguma pessoa feliz dos contos de fadas, porque desconheço tal sentimento. Enfim, vendo-a, percebi que era isso que ela tinha entendido mesmo e eu estava fodida. No mau sentido, mais uma vez.

"Eu vou adorar conhecê-lo, Santana." Balancei a cabeça porque não tive coração de retirar aquilo que ela entendeu como um convite. E o que eu ia fazer? Nunca levei ninguém em casa e, por mais que ele tivesse percebido tudo sobre a Britt, eu apresentei-a só como minha amiga. O que eu faço agora? "Bom, resta saber se ele vai gostar de mim..." Percebendo meu nervosismo, ela completou e eu revirei os olhos. Era só o que me faltava, essa menina vir se fazer de insegura.

"Falsa modéstia não cai bem em você, namorada." Foi a vez de ela revirar os olhos pra mim e eu balancei a cabeça, se ela achava que estava me enganando, ela estava redondamente errada.

"Não é falsa modéstia, Santana. Só que, digamos que eu não faça muito sucesso com pais e mães..." Mas é claro! Quais pais vão gostar de saber que suas filhas treparam com uma mulher que não se dignou nem a decorar os nomes de seus bibelôs? Realmente, eu não posso culpá-los. Tirando o fato de que ainda não tínhamos feito sexo... Argh! Preciso falar pra ela que se ela está pensando em casar virgem, pode ir tirando o cavalinho da chuva que a única coisa virgem em mim é o signo e não vou esperar até o casamento para transarmos. Ah, ela está muito enganada!

"Pelo que você fez com as filhas deles..." Alguém precisa ser sincera e esse alguém sempre acaba sendo eu.

"Por isso não farei nada contigo até casarmos." Como é?

"Como é? Você só pode estar me sacaneando! Isso não é sério! Katherine Spencer, não ouse você pensar em algo como isso porque..."Antes de terminar minha frase, ela estava me beijando como uma criança traquina e ria porque sabia que estava fazendo algo errado e muito errado em me deixar na seca.

"Eu vou adorar conhecê-lo, Santana. Mesmo. Primeiro porque ele é o seu pai e segundo porque sei o quanto ele e o fato de querer me apresentá-lo são importantes pra você." Blá blá blá. Lendo a mente dos outros é fácil ser charmosa e apaixonante, não acham? Assim, até eu digo o que qualquer menina precisa ouvir.

"Mas você não estava falando sério sobre esperar até o casamento, né? Porque não é como se ele fosse saber disso se fizéssemos e..." Ao que eu disse isso ela me gargalhou mais do que era humanamente possível e me puxou para encostar minha cabeça em seu ombro mais uma vez. Como sempre, ignorando as minhas dúvidas sobre essa vida bandida que levamos.

"Eu estava falando sério sobre a parte do casamento, mas não sobre a parte de esperar até que ele aconteça, melhor assim?" Claro que meu coração daria pulos e saltos mortais quando fosse enganado por essas belas palavras, esse abraço quente, esse sorriso sincero e esses olhos grandes, verdes e vulneráveis. Estava tudo no script, tô dizendo a vocês! Com minha boca se abrindo e se fechando como um peixe morrendo com falta de ar, ela simplesmente colocou seu indicador nela e me impediu de esticar ainda mais a minha vergonha a níveis nunca conhecidos pelo homem e por isso, eu fiquei quase agradecida (teria ficado mais se a culpa disso tudo não tivesse sido dela). E o que eu diria a ela, de todo modo? 'Eu aceito. Vamos ser gays e felizes como o casamento da Madonna com sua antiga esposa Gay Ritchie'? Quero dizer, eu pensava mesmo em me casar com ela? Ora essas, eu era muito nova para assumir esse tipo de compromisso, não? Sim, eu era nova demais, mas talvez eu quisesse e... Para a minha sorte, antes que eu aceitasse um pedido e um futuro que não tinham sido propostos, a porta se abriu e senti os braços da Katie me apertando e me colando em seu corpo, me escondendo enquanto ela se preparava para levantar e me proteger de quem quer que fosse como a minha sailor moon gay faria em meus sonhos. Mas antes de se colocar em pé, a figura acendeu a luz e quase nos cegou. Diabo desgraçado.

"Ah, graças a Deus vocês estão comportadas, conviver com a Q. e a Rach me deixou com medo de fazer surpresas." Rindo como um paspalho, era óbvio que a empata-foda da vez seria a delicada Bela ex-Fera. Que viadinho nefasto era esse marginal.

"Noah, tudo bem com vocês lá embaixo?" Claro que essa era a minha namorada preocupada com aqueles encrenqueiros que não resistiam a uma baixaria. Só ela mesmo para se interessar no bem-estar desses caça-fantasmas mais lesados que os três patetas. Beyoncé balançou sua cabeça tosada em concordância e riu, mostrando seus dentes podres.

"Estamos bem sim, que tal se juntarem a nós lá embaixo? Estamos pensando em fazer um concurso de canto, o que acha?" Uma merda escrota! Claro que na minha vida, tudo acabava em música, porque se acabasse em pizza, eu teria algum prazer para me fazer feliz. Só que, fatalmente, 'felicidade' não estava no meu dicionário. Porra de vida miserável e azarada, viu?

"É uma boa idéia, o que acha, Santana?" Revirei os olhos pra sua pergunta porque, ou ela não tinha lido os meus pensamentos, ou resolveu ignorá-los daquela vez. Ou não me conhecia bem o suficiente para saber que eu preferiria cair num buraco sem fim a passar o resto do meu dia cantarolando com esses sem noção. Ah sim, claro que ela não voltaria a me chamar de nomes carinhosos com essa invejosa plastificada estacionada como um dois de paus segurando a porta. Ô sorte de revés!

"Eu terei que ouvir mesmo..." Não sei se ela interpretou aquilo como um 'sim' ou se só gostava de ver a minha infelicidade, porque tão logo ouviu, me abriu um sorriso e me motivou a me levantar, me oferecendo a mão, que peguei a contragosto. A sorridente mulher biônica ainda estava se pendurando na parede como uma macaca chita e revirei os olhos, saindo de mãos dadas com a outra miss sorriso. Ela podia rir porque me namorava e ainda era rica, mas aquele empecilho humano estava rindo de quê? A última coisa que ele beijou foi o chão e sei que ele rompeu as barreiras da pobreza e virou um caso de caridade, então, acho que perdi o memorando para tanta risadinha aqui.

"Vocês estão muito risonhos pra quem não tem motivo nenhum pra ser feliz." Teve o efeito desejado, eles perceberam que não estavam no dentista e fecharam suas bocas antes que alguma mosca voasse em suas goelas.

"Eu tenho você." Foi sussurrado no meu ouvido e seguido por um beijo na minha testa e uma piscadela discreta (essa menina realmente precisa ensinar algumas coisas a Juno e ao hobbit, ela sim é um bom exemplo de discrição). E confesso que aquela frase fez meu coração esquentar e senti calafrios pela espinha e algumas coisas voando no meu estômago. Nada de mais, provavelmente é o fato de que ele deve estar se autodigerindo por não ver coisa alguma há tanto... Ela me sorriu meiga mais uma vez e abaixei a cabeça.

Eu estava apaixonada por ela. E isso era pior do que participar como cobaia de jogos sujos do velho que deveria começar a jogar biriba ao invés de fazer sadismo com a vida alheia. Eu estava apaixonada por ela e estava feliz e isso, de onde eu venho, não quer dizer coisa boa.

...

"Hey, baby, saudade de você!" Minha loira me disse e me virei em sua frente olhando-a. Como sempre, ela estava linda, mesmo estando casual porque essa menina não conseguiria ser menos que maravilhosa nem se quisesse. Vestindo uma calça jeans clara e levemente rasgada, um all star branco e uma blusa vermelha de mangas curtas com um escrito de 'I found somebody to love' (que eu achei incrivelmente romântica e estilosa) por cima de uma blusa branca de mangas compridas e com seus cabelos levemente desalinhados. Suspirei fundo e joguei meus braços em torno do pescoço da minha garota e abracei-a como pretendo fazer pelo resto da minha vida.

"Engraçado, porque também estou mais do que sentindo sua falta logo de volta." Com sua gargalhada que alegrava cada uma de suas células, ela me abraçou apertado e beijou minha testa.

"Sorte minha."

"Sorte nossa." Falei me afastando um pouco para olhá-la nos olhos e beijei rapidamente a sua boca rosada e sorridente.

"O amor é lindo." Me virei ao ouvir meu melhor amigo sorrindo e se aproximando com Santana e Katie em seus calcanhares. Minha melhor amiga sorria e me piscava, de mãos dadas com a sua namorada (?) e essa visão me pesou o estômago, porque eu sabia que teria que terminar com a melhor coisa que havia acontecido na vida das duas, depois de terem me conhecido (afinal, foi por intermédio de mim que elas também se conheceram e se apaixonaram). Isso seria tão doloroso para elas quanto seria para todos nós e eu sinceramente não queria que nada disso acontecesse com qualquer uma das duas.

"Enjoativo." Revirei os olhos para Santana e sua falta de sentimentalismo (se eu não a conhecesse tão bem, diria que ela não tem um coração, mas como eu sabia da sua personalidade, era óbvio que aquilo era mais um de seus modos de se autoproteger) e eles se encaminharam para a mesa em nossa frente, sentaram-se e relaxaram.

"Pronto, está tudo pronto pro nosso show de hoje, Kay. Já falei com o Joe e ele comentou que os músicos estão aqui para pegar os instrumentos e disse que foi atrás deles ameaçá-los a sentarem seus rabos logo naquele palco." Minha cunhada chegou ventando e se jogou em uma das cadeiras vagas na mesa que ocupavam. Isso foi até Noah engrenar no nosso concurso.

"Rach, vamos cantar juntos?" Perguntou me sorrindo e bebendo mais uma vez com a Meg. Eu realmente espero que ele tenha resistência pra bebida porque é como dizem, passarinho que anda com morcego, acorda de cabeça pra baixo. E pelos genes Fabrays junto com o histórico da Meg, aquela competição de quem tem um fígado mais total flex estava no papo pra ela. Enfim, apenas sorri para ele e ouvi minha namorada resmungar baixo algo do tipo 'competição imbecil'. Olhei para os seus dentes trincados que ela tentou transformar em um sorriso e não pude deixar de rir ainda mais. Essa menina com ciúmes era uma graça.

"Meu amor, é só um dueto, você sabe que a minha parceira pra todas as coisas sempre será você. E olha que eu tenho coisas melhores em mente..." Sussurrei no seu ouvido porque encarar as piadinhas de Santana mais uma vez não era a minha melhor opção. Ouvindo minha frase, primeiro ela ficou vermelha e depois assentiu com a cabeça, sorrindo sinceramente dessa vez.

"Acho bom mesmo. E ai de você se resolver mudar de dupla e..."

"Você nunca vai correr esse risco comigo, baby, fique tranqüila." Afirmei com toda a sinceridade que tinha em mim e pude vê-la arquear sua sobrancelha em sua muda marca registrada, se preparando para me responder algo.

"Ai, minha diabetes." Antes de minha namorada compartilhar o que quer que se passasse em sua cabeça, Santana (obviamente, sempre seria ela) interrompeu. Resolvi ignorá-la e continuei olhando minha loira e esperando por seu aval. Não que eu precisasse, claro, mas não queria que brigássemos por uma coisa tão pequena quanto essa. E, caso isso fosse realmente importante pra ela, eu mudaria de dupla. Isso não quer dizer que eu estou amarrada, longe de mim, só que eu me preocupo com seus sentimentos. Só isso. Vendo seu balanço positivo de cabeça, dei-lhe meu melhor sorriso e pude vê-la me devolvendo um igual e na mesma intensidade.

"Obrigada, meu amor." Dito isso, beijei seu rosto e me virei para meu melhor amigo. "Vamos lá, Noah, vamos discutir nosso repertório mais ali na frente para que ninguém roube nossas idéias." Encarei a Santana e a Meg depois de dizer isso e me virei com meu parceiro de canto para conversarmos em algum lugar distante dos ouvidos dessas pessoas. Entendendo meu recado, Noah só deu de ombros e gesticulou como um cavalheiro para que eu passasse na frente e me seguiu logo atrás.

"Olha lá o que você vai olhar, Puck, ou eu furo seus olhos!" Quinn gritou enraivecida e ciumenta, o que me fez rir e fez o garoto em questão só se dar ao trabalho de levantar os braços em um sinal de rendição.

"Ora, hobbit, como se nós fôssemos mesmo roubar suas músicas tão velhas quanto o seu guardarroupa." Vocês devem presumir quem disse isso, não é? Enfim, ignorei os comentários maldosos da latina e caminhei com meu melhor amigo para um pouco mais distante, porém ainda no balcão.

"Então, superstar, o que tem em mente?" Ele quebrou o silêncio enquanto nos pedia duas vodcas e aceitei tão somente por estar com sede.

"Bem, punk, ainda não pensei muito bem nisso e temos algumas boas opções que são clássicas, mas nada muito antigo e tenho certe..."

"Meu Deus, meu Deus! Ela tá aqui! Ela tá aqui!" Claro que eu seria interrompida por ele mais uma vez. Afinal de contas, como diria o Mick Jagger, hábitos antigos demoram a morrer. Mas confesso que olhei em volta alarmada, com medo de ele estar falando da Mischa ou da vagabunda piromaníaca da sua ex. "Não olha, Rach!" Quando olhei em volta para ver se avistava cabelos de fogo ou algum loiro pálido e sem graça, ele simplesmente me puxou pelo braço e me virou em sua direção com uma expressão de surpresa e medo. Mas o que era isso?

"Que foi isso, Noah? Está falando de quem?" Perguntei ainda olhando em seu rosto e tentando avistar algo ou alguma coisa de rabo de olho, sabe-se lá de quem ele estava falando e...

"A menina do carro, daquele dia..." De que ele estava falando?

"A Lindsay Lohan?" Não pude evitar a piada e ele só me revirou os olhos.

"Não, espertinha, a que destruiu o meu carro quando eu estava voltando da cobertura da Stacey e me deu uma carona até a sua casa, naquele dia do barraco com os fantasmas e tudo mais." Hum, mas e daí que a tal menina estava ali?

"Isso é ótimo, Noah, qual delas é a sua amiga?" Me virei para observar um grupo de mulheres estacionadas em uma mesa e com poses que evidenciavam muito bem suas baixas figuras e bagaceiras pessoas. Aff, ele não muda essa atração perigosa por mulheres rampeiras (sua rara exceção foi a minha namorada. E eu, obviamente. Ah sim, a Santana e a Britt também não eram desse tipo, sem contar com a Lauren, que era mais assustadora do que receber uma ligação da Samara... Enfim, algumas se salvavam, mas vocês entenderam o ponto, não é?), depois não sabe por que seus relacionamentos com esses tipinhos de ga...

"Nenhuma delas. Ela é aquela que está com os garotos da banda." Virei-me na direção dos meninos até ser repreendida por seu apelo ríspido. "Não olhe agora, ela vai perceber." Revirei os olhos, como os homens conseguem ser tão idiotas?

"Quando eu puder olh..."

"Agora pode olhar. É a ruivinha." Sendo interrompida mais uma vez, optei por não rechaçá-lo ou repreendê-lo por tamanha falta de educação e de cavalheirismo e fiz o que me sugeria. Não por eu ser curiosa, obviamente, mas uma menina para deixá-lo assim, nervoso, suando e tremendo depois de muito tempo, no mínimo era um ser mágico e de outra realidade. Minha santa Barbra! Será que ele se apaixonou por uma morta? Porque uma pessoa para deixá-lo assim não pode ser desse mundo, ou então ela... "Anda, Rach, olha logo!" Revirei os olhos mais uma vez e resolvi acabar com as minhas dúvidas sobre ele estar apaixonado por uma garota de carne e osso ou... Bem, ou não. E avistei a garota dos seus sonhos parada perto de rapazes mais velhos. Então, sua postura não era dada como a das outras meninas, não, longe disso, ela aparentava estar bem inserida no grupo e não ter nenhuma segunda intenção com qualquer um deles. O que me veio em mente agora, será que ela é lésbica também? Oh, será que meu pobre meu melhor amigo se apaixonou mais uma vez por uma menina que gosta do mesmo que ele? É muito azar para uma pessoa só, tadinho. Se bem que... Não, ela não fazia o tipo gay e posso dizer isso porque tenho um gaydar bem apurado, ela parecia meio... familiarizada. Sim, essa era a palavra certa. Como estava de costas, pude ver seus cabelos ruivos um pouco mais puxados para o cobre que os da piranha assassina, essa menina sim era ruiva de verdade. Suas roupas eram descoladas, calça jeans escura, botas de salto alto também escuras e, quando ela virou, pude avistar uma camisa preta lisa e de mangas curtas, em gola 'v'. Sua pele era bem alva e pálida, o que pode corroborar com a idéia de ela já ter ido dessa para uma outra qualquer, isso se não fosse o fato de ela encostar e conversar com pessoas que eu sabia que eram vivas. Ah sim, e pelo fato de ela não ter a lividez mórbida que acompanha esses mal aventurados. De relance, pude ver que ela tinha os olhos claros, mas antes que pudesse adivinhar qual era a cor deles, Noah se jogou na minha frente, me sorrindo como um maníaco. "Então, o que achou dela? É bonita, não é?" Balancei a cabeça em concordância porque sim, ela era realmente bonita e aparentava ser simpática também. Vendo a expressão do meu melhor amigo, sorri sincera para ele.

"Então, Noah, qual é o nome dela?" Ao ouvir minha pergunta, seu sorriso virou uma carranca e ele sambou em suas pernas, visivelmente desconfortável. "O que foi, Noah?"

"Eu, er... Eu não perguntei o nome dela e tudo mais..." Minha vontade foi de revirar os olhos ou gritar em sua cara perguntando o porquê disso, mas me contive e ele emendou sua explicação. "Eu estava nervoso, tinha acabado de bater de carro e estava preocupado com vocês e com os fantasmas por lá. Não tive tempo..." A culpa em sua expressão me fez simpatizar com a história, ainda mais sabendo que ele estava preocupado com o bem-estar de todas nós. E era agora a hora de Rachel Berry agradecê-lo por isso e ajudá-lo nessa missão.

"Nós podemos fazer isso agora, Noah, vamos lá!" Tentei puxá-lo pela manga comprida de sua camisa xadrez de botão. Porque, apesar de ainda estarmos no verão, esse era um daqueles dias em que bate uma frente fria e o tempo muda, até chover e o sol voltar a nos escaldar.

"Não!" Seu chamado me assustou por um minuto e ele limpou a garganta, até continuar. "Quero dizer, como vamos fazer isso?"

"Perguntando é a melhor opção. Ou podemos investigar por aí." Ele revirou os olhos para minhas sugestões, mas o que eu podia fazer? Quem estava parecendo uma noiva em seu casamento era ele.

"Muito engraçada, Rach. Não é tão simples assim." Sua resposta foi séria como se essa fosse a maior das verdades absolutas.

"Como não seria?" Perguntei sinceramente curiosa, porque nem eu conseguiria pensar em algum modo de isso dar errado.

"Pois bem, o que eu digo para ela? 'Olá, você por aqui?', ou algo do tipo 'se lembra de mim? O idiota pra quem você deu uma carona no outro dia...'. Eu não sei o que fazer, Rach..." Esses homens encantados conseguem parecer tão estúpidos.

"Eu acho que a primeira opção é melhor. É prático, simples e direto. Não tem como ela não gostar ou ser fria com esse tipo de aproximação. Além do mais, não é como se você estivesse indo pedi-la em namoro, é?" Brinquei e ele só me revirou os olhos e bufou.

"Andar com sapatões não me faz bem..."

"Como?" Tive que colocar as mãos nas cadeiras e bater o pé para provar o meu ponto de vista. Ora, mas que absurdo era esse? Misoginia em pleno século XXI e ainda pelo meu melhor amigo? Pois ele ouviria uma boa lição. "Veja bem, Noah, o fato de termos uma orientação sexual diferente da comum não quer dizer que..."

"O que eu faço?" Mais uma vez me interrompendo e ignorando minhas sábias palavras, ele resolveu marchar de um lado para o outro a ponto de fazer um buraco no chão e suspirei, que grande sorte não era a minha? "Eu quis dizer como que a gente se aproxima dela? Eu levo alguma bebida? Ou não sei, ofereço algo? E se eu levar uma bebida, qual seria?" Ainda perneando como um atleta em treinamento, ele ia me jogando perguntas sem nexo algum e numa velocidade que só me deixava ouvir parte de seus questionamentos. Resolvi parar logo com essa palhaçada e segurei-o pelo braço, puxando-o para me encarar.

"Pode parar por um minuto, pelo talento de Barbra?" Disse em tom reprovador e ele logo olhou para a menina, procurando saber se ela tinha ouvido o nosso papo. Quando percebeu que não e que ela ainda estava alheia ao que acontecia, sossegou e se virou para mim com uma cara de 'o que é?' que costumamos dizer para as mães. Ou, no meu caso, para os pais. "Credo, Noah! Vamos nos acalmar. Não é nenhum bicho de sete cabeças isso. Sente-se aí." Antes de terminar minha sugestão, eu empurrei-o em um dos bancos vagos do balcão e parei em sua frente. "Certo, eu acho uma boa pedida levar uma bebida." Sua resposta foi assentir com a cabeça e, pelo modo que me ouvia com uma rara atenção (exato, em tantos anos de amizade, eu nunca o vi assim, tão absorto. E eu poderia me aproveitar disso e passar o meu sermão de mais cedo, sobre a importância da identidade e do gênero) que, por um momento, até suspeitei que fosse tirar uma caderneta do bolso e começar a anotar minhas sugestões.

"Certo, mas qual?" Como assim 'qual'? Que tipo de pergunta era essa?

"Sei lá, Noah, qualquer uma!"

"Claro que qualquer uma não serve, Rach! Por exemplo, eu conheço garotas que bebem cerveja, mas não bebem nada quente, ou vice-versa. E os vinhos? Será que ela bebe? Porque a Lauren odiava vinhos e dizia que preferia beber sangue de boi de canudo a uma taça de vinho tinto." Controlei o embrulho em meu estômago ao ouvir aquela história. E fica a pergunta mais uma vez, como ele conseguiu ficar com essa menina? Acho que não consegui evitar fazer uma careta, porque tão logo ele completou. "É, eu sei, também achei nojento, mas entendeu o meu ponto?" Assenti com a cabeça porque senti medo de abrir a boca e vomitar as tripas fora por ter ouvido tanta sujeira e crueldade vinda de quem veio, mas como soube que isso de botar os bofes pra fora estragaria nosso disfarce, me segurei o máximo que pude. "Enfim, qual bebida vocês mulheres gostam?" Olhei em seus olhos para tentar descobrir se aquilo era sincero, ou se ele só estava tirando onda com a minha cara e, para a minha surpresa, ele estava falando sério. Antes que pudesse teorizar as probabilidades e preferências femininas por certo tipo de bebida, uma pessoa se aproximou de nós com um cigarro em uma mão e um copo cheio de uísque na outra e se sentou em um dos bancos vazios.

"Hobbie, Puck. E aí, terminaram de discutir a nossa tortura de hoje?" Santana falou e ficou nos olhando, de mim para ele e assim sucessivamente. Revirei os olhos e cruzei os braços, virando o rosto. Eu era uma diva e uma futura estrela, as pessoas tem que se sentir presenteadas ao me ouvir cantar, ainda mais gratuitamente, porque num futuro próximo e quando eu for o nome mais cotado dos tablados nova iorquinos, elas pagarão uma pequena fortuna por essa experiência única. "Que foi com vocês dois? Estão mais estranhos que o de costume."

"A menina está ali..." Noah respondeu baixo antes que pudesse perguntá-la sobre minha melhor amiga e por qual motivo elas não estavam juntas, ao invés de ela estar me açoitando.

"Oh, a sua princesa? Quem é ela, cadê?" De um modo esquisito, ela pareceu sinceramente feliz e por um curto segundo eu me lembrei de que ela não é tão má assim sempre.

"Aquela ali com os caras da banda. A ruiva." Ele falou e apontou discretamente com a cabeça enquanto nossa companhia latina analisava a menina em questão. De cima para baixo, ela observou cada mínimo detalhe com direito a mão no queixo e tudo, enquanto meu melhor amigo se balançava em pé, com as mãos nos bolsos e mastigando a boca em sinal de nervosismo.

"Hum, gostosinha, Puck." Dito isso, ela cumprimentou-o quando descansou o cigarro nos lábios e os dois sorriram em cumplicidade. Depois de pegar seu cigarro novamente entre os dedos, abraçou meus ombros e se aproximou de mim, ainda encarando a ruiva. "O que achou dela, hobbie? Boazinha, né?" A latina em questão perguntou me piscando e foi assim que entendi seu plano de irritá-lo e fazê-lo tomar uma atitude. Noah revirou os olhos e bufou, se sentando no banco ao lado de Santana.

"Pois é, muito boazinha ela..." Disse em segredo para ela, entrando de cabeça no plano e assentindo brevemente, pegando meu copo de vodca para desespero do meu melhor amigo.

"Ei! Dá pra vocês pararem com isso? Eu estou bem aqui, okay? Mas que porra de falta de respeito." Foi o que disse nos apartando.

"Ih, ta com pulga na cueca, marginal? Estamos apenas te parabenizando. Até porque, nós não seremos concorrência pros seus planos maléficos, então pode tirar a calcinha da bunda que estamos aqui pra ajudá-lo." Santana respondeu meiga e sentando mais uma vez e tragando seu cigarro. Por um momento, até duvidei da possibilidade de ela estar bêbada, porque, venhamos e convenhamos, aquela atitude era tudo, menos normal. Até que percebi que ela estava assim, mais leve, desde quando se acertou com a Katie. E eu ficava sinceramente feliz por elas, mas ao me lembrar do que elas enfrentariam, me entristeci mais uma vez e procurei abanar esses pensamentos pra longe.

"Pois veja você, Santana, o Noah aqui não sabe qual drink oferecê-la." Apoiei uma mão no balcão ao lado da latina e beberiquei levemente minha vodca, enquanto implicávamos com ele.

"Ora, não é bem assim..." Com um olhar reprovador, ele tentou se explicar, mas a latina só ergueu sua mão para impedi-lo de continuar.

"Tsc, tsc. E isso vindo de um cara que embebedou uma católica virgem para engravidá-la quer dizer algo..."

"Ei! Eu já me arrependi por isso, okay? Foi completamente errado e eu não sei mais como me desculpar com a Quinn." Sua voz estava visivelmente triste e alterada e por um momento, até senti certa culpa por deixá-lo assim. Nós não estamos aqui para julgar as atitudes dos outros e, como minha própria namorada já me disse, eles haviam se entendido e, por mais que ele tenha agido como um imbecil, ela também não o impediu. Enfim, águas passadas que não movem mais o moinho.

"Que seja. Vamos ao que interessa, ou seja, a ruivinha bonitinha ali." Santana disse sorrindo só para vê-lo se irritando.

"Ei! O que eu já disse sobre isso?" Como uma criança mimada, ele respondeu irado e a latina em questão só levantou os braços sarcasticamente, claro.

"Certo, certo. Qual é o problema aqui?" Ouvi sua pergunta enquanto me aproximava do balcão para pedir mais uma dose. "Wow, hobbie! Segura aí! Peça dois porque seria deselegante da minha parte deixá-la bebendo sozinha." Virei-me e assenti com a cabeça pra ela, entregando-lhe seu copo e ouvindo um baixo 'valeu'. Lembrem-me de agradecer a minha melhor amiga por essa mudança repentina no comportamento da Santana, porque eu aposto que tinha dedo dela nisso.

"Bem, qual bebida eu ofereço a ela?" Ele perguntou passando a mão em seu pescoço, numa das suas manias de menino, de quando ficava nervoso. Assim que a menina endereçada abriu a boca para respondê-lo, eu me aproximei dela e disse baixo, para que ele não ouvisse.

"Não diga 'qualquer uma', ele vai ficar sentido e dirá que nem todas as mulheres são iguais ou bebem sem peso na consciência." Ao dar minha sugestão, me afastei e vi Noah me olhando com raiva e Santana sorrindo como uma lua nova em minha direção.

"Que viadinho." Ignorando completamente a revolta do meu melhor amigo, ela simplesmente completou para mim.

"Argh! Malditas sapatões alcoólatras que não ajudam os amigos." Depois de sua mensagem, ele se virou e começou a marchar na direção da menina. Foi quando nos olhamos e percebi que o nosso plano para fazê-lo virar homem e ir atrás da menina tinha sido um sucesso. Em um curto balanço de cabeça, nos viramos na direção dele e comentamos juntas:

"Caipirinha, duas folhas de hortelã, duas colheres de açúcar e duas pedras de gelo." Quando percebemos que tínhamos dito a mesma frase, nos olhamos e começamos a rir. Noah, ao ouvir nosso conselho, se virou fazendo uma mesura do teatro e nos deu uma piscada, voltando a seguir seu rumo atrás da menina. Suspirei e sentei na cadeira que ele tinha deixado vaga.

"Por que a hortelã?" Perguntei sinceramente curiosa.

"Bom, ela me parece ser do estilo aventureira, mas não é uma apreciadora de álcool como nós. Acho que fica mais fraco e mais suave pra ela." Concordei com a cabeça e me virei, com meu copo em mãos. "E você, por que falou da hortelã?" Me perguntou antes de tragar seu cigarro. Olhei-a de relance e suspirei, até colocar meus olhos na dita menina e em meu melhor amigo, que estava de costas para ela, esperando a bebida e ajeitando o seu (nulo) cabelo (não me perguntem por que um careca estaria alisando a cabeça, porque também não sei).

"Ah, ele acharia muito comum se eu sugerisse uma caipirinha qualquer, depois ia entrar em parafuso me perguntando 'cachaça, vodca ou saquê?' e a hortelã deu um toque excêntrico e singular, como se fosse sob medida, entende?" No final da minha explicação, olhei-a e ela só ria balançando a cabeça. "Você beberia aquilo?" Perguntei curiosa porque parei pra pensar nisso por um segundo.

"Nah, já bebi muita coisa pior." Sua resposta foi trivial, como se aquilo acontecesse diariamente. "E você?"

"Também. Acho que experimentar é bom, né?" Respondi sinceramente.

"Sapatas alcoólatras." Gargalhamos as duas quando ela imitou a voz de Noah e nos acusou de algo que poderia até ser verdade, mas era do arco da velha demais para pensarmos nisso. Arfando e quando nossas gargalhadas diminuíram, me virei para ela e uma idéia acendeu em minha cabeça.

"Ei, Santana, o que acha de ajudarmos ele?" Seu sorriso ordinário foi tão mau e destemido que eu até sentiria medo, se não soubesse melhor.

"E até que você não é assim tão má, hobbie. Vamos lá porque ele precisa de uma força feminina." Sua resposta foi rir comigo e nós duas saltamos do banco com nossos copos em punho e seguimos o rumo de onde eles estavam e avistamos Noah rindo sem graça, com uma mão no bolso e outra no pescoço, em sua usual pose fora de eixo. Sorte dele que estávamos indo em seu resgate, afinal, qual é a graça de se namorar (a menina mais linda do mundo) se não se pode ajudar um amigo em necessidade?

Como diria a música, é pra isso que servem os amigos.

...

Ainda olhando a musculosa halterofilista de academia de puteiro, eu e Berry nos entreolhamos rindo de sua penosa figura no que se tratava de relações com pessoas do mesmo sexo. Mas que gente burra dos diabos! Aquela siliconizada pessoa em transformação não tinha capacidade nem de perguntar a porra do nome de sua cara-metade e lá ela estava, rindo como se sua vida fosse boa. É demais pra mim, tudo isso. Olhei mais uma vez para o playmobil vestido ao meu lado e foi quando vi seu sorriso cheio de dentes em sua boca sempre cheia de palavras que soube que tinha arrumado uma comparsa para tentar fazer a vida da macabra ratazana de laboratório menos miserável. Balançando sua cabeça de martelo, a nanica formiga atômica tomou a frente de nossa missão impossível e rumou na direção daquele prego humano.

O pobre diabo estava 'urubuservando' de rabo de olho a menina de cabelos catchup e se apresentando para os outros abutres que cercavam a carniça que ele queria pra ele, como sempre, num ato de burrice que desafiava todos os níveis de estupidez que já foram catalogados em toda a criação do mundo. Sua princesa estava de braços cruzados vendo toda aquela vergonha humana nos aterrorizando mais uma vez com tamanha incapacidade de parecer normal. Nos entreolhando mais uma vez, claro que a pouca perna não perderia a oportunidade de falar como se sua boca não tivesse fundo, então, resolveu se apresentar para a inocente Charizard (sim, eu gostava de Pokémon e quero ver alguém dizer algo torto para mim), alheia ao seu futuro negro ao lado daquele urubu depenado e plastificado.

"Olá, é um prazer conhecê-la, meu nome é Rachel Berry e essa é a Santana." Apontando seu dedo podre para mim, o hobbie nos apresentou. Claro, não parou por ali, mesmo com todas as minhas rezas, pedidos e promessas aos céus, ela continuou vociferando palavras com sua língua desenfreada. "É um prazer conhecê-la, nós somos amigas do Noah. E ele falou bastante bem de você." Quando viu que suas vítimas já estavam entorpecidas por sua voz inebriante Syndel (exato! Eu tenho muita cultura e Mortal Kombat faz parte disso) resolveu se calar e dar-lhes chance de revidar antes de aplicar-lhes um fatality.

"Rach, San! Vocês aqui!" Não, estamos na casa do caralho. Sim, ele estava mancomunando com Finnfértil para juntos entrarem para o livro dos recordes por quebrarem todos os níveis de ignorância já existentes. "Bem, vocês já se apresentaram, né?" Não, nós estávamos ali discutindo arte e a importância do movimento simbolista como espelho de uma sociedade que curtia mesmo era emburacar no ópio e ler as teorias furadas da mona enrustida do Freud que, pensando em sua autobiografia, dividiu os estágios de sua vida entre colocar na boca e na bunda. Mas que porra essa anta achava que a gente estava fazendo ali?

"Você não vai apresentar-me a elas?" Não sei por que, mas o sotaque dessa menina se parecia bastante com o da Katie, estranho... Enfim, mas mais estranha ainda foi a cara desfigurada do bobo da corte se abrindo em um sorriso amarelo e ficando vermelho, para fazer cosplay de sinal de trânsito, já que sua blusa tinha sido verde algum dia, até adquirir aquela cor de burro quando foge por nunca ter sido lavada, assim como sua boca.

"Er, essa é a..." Eu e Berry olhamos pra ele com certa curiosidade, mas toda a sua capacidade de formar palavras tinha evaporado no ar, assim como o meu bom senso ao aceitar ser vista com essas pessoas. A menina, sentindo pena da empregada doméstica do Drácula, interveio na salvação de sua alma tão condenada quanto sua reputação.

"Muito prazer, meu nome é Marissa Archibald." A ruiva pequena sereia se apresentou, tirando o peso das costas frágeis da outra dama encabulada. "É bom conhecê-las. Principalmente você, Rachel, seu namorado falou muito de você." A rosada menina ruiva disse para a mini Streisand e eu tive que gargalhar, assim que a marginalizada fez uma careta em sua cara pobre. Obviamente, o enfeite de geladeira não deixaria isso barato para os ouvidos do cavalo de fogo. Ou seja, falou até babar, com sua arma secreta.

"Ah não, Marissa, nós não namoramos. Muito pelo contrário, o Noah é o meu melhor amigo há muitos anos..." Eu deixei-a falando e fui buscar uma bebida. Pedi logo duas, porque imaginei que ela fosse ficar com o bico seco depois de exercitar tanto sua língua quilométrica. Respirei fundo e um rapaz me serviu duas vodcas com duas pedras de gelo. Como estava me sentindo educada hoje, assenti com a cabeça em sua direção como forma de agradecimento e virei para me juntar ao resto do discurso de Berry. E eu, como sempre, estava certa, pois cheguei e ainda pude ouvir boa parte. "... e aquela morena de olhos verdes sentada entre minha cunhada e minha namorada, é a Katie, nossa melhor amiga há alguns anos e namorada da Santana aqu..." Em sua ânsia de falar como se o mundo fosse acabar em silêncio, Berry olhou para os lados me procurando e só completou sua frase quando me achou e me sorriu. "... essa aqui." Olhei para a assustada menina cujos cabelos estavam até vermelhos de vergonha por ter ouvido um discurso tão grande e distinto, que até senti algo parecido com pena de sua figura. Sendo assim, quando a incansável rata ligeirinha ameaçou começar outro show de stand up, dei-lhe o drink para ver se ela ocupava sua boca falastrona com algo e nos dava alguns segundos para respirar. Bem, como ela se orgulhava de (falar para caralho fingindo) ser educada, meu tiro saiu pela culatra. "Nossa, Santana! Muito obrigada pela bebida! Eu não esperava isso de você, mas é bom saber que depois de tantos anos de desavenças, nós possamos começar de novo e em uma..."

"Tá certo, hobbie, tem nada não." Cortei sua leitura porque não podia cortar sua língua, ou o seu sapatão macho ia tomar veneno e morrer porque não seria mais estuprada por aquela língua que dava voltas no muro de Berlim. "Você namora qual deles, Men-Marissa?" Foi difícil, mas com muita força de vontade eu consegui cuspir o nome daquela menina.

"Ah, nenhum deles." Ela respondeu olhando para os caras que, se não eram seus namorados, eram seus cafetões, tenho certeza. "Aquele ali, meio barbado e com os cabelos castanhos meio acobreados é o meu irmão, Jake. O loiro que está ao lado dele é o Liam Ward, meu primo e o moreno de olhos escuros ali é o Tyler McAvoy, cunhado do meu primo." Penélope charmosa apresentou os outros competidores da corrida maluca e assentimos com a cabeça, Berry, eu e a esquecida transgênero. Percebendo que sua posição de autopreservação poderia ser confundida por segregação e preconceito com a nossa musa mulher de ferro, a ruiva do carro envenenado virou para a trava e riu de sua cara defeituosa, dizendo. "Não sei o que é, mas hoje você está diferente, estranho." Alguém me corrija se eu estiver errada, mas aquilo ali era um pleonasmo vicioso que assustaria até aquela analfa com quem ela estava lidando. Não que fosse uma mentira, obviamente. Já que aquele estranho era esquisito mesmo, ou sei lá que diabo de palavra ela usou no final. E a dita cuja em questão, passou sua mão de onça em sua cabeça podada e oca e sorriu, porque percebeu que ele não era o único que assassinava a gramática por ter um cérebro de amendoim, que só não barrava a cabeça de vento do Finnexpressivo. Aparentemente, sua alma-gêmea tinha também o Teco do seu Tico, ou seja, a outra parte de cérebro que ele, na pressa de nascer, além de não ter dado tempo para Deus escolher seu sexo, também veio sem. A musical cigarra Berry ficou de boca aberta com aquele papo mais estranho que as conversas do Sr. Bucha com seu filho renegado Finncrédulo. Quando se deu por satisfeita com sua pausa dramática que já estava mais no 'stop' do que na interrupção, a avermelhada maçã do Éden continuou. "Ah sim, hoje você está vestido." A mulher nada maravilha, ouvindo isso, ficou cabisbaixa e tristonha. Mas que porra, hein? Vendo que o mundo perderia mais um peso morto, já que a miss-serável ia se matar assim que chegasse em casa e ouvisse seu cd do Simple Plan, a sem coração resolveu acrescentar porque ela não quer carregar o peso pesadíssimo da culpa da morte daquele modelo de remédios para bicheiras de pêlo em eqüinos, ou seja, animais do seu porte. "E você também tem um nome e uma barba hoje." Olhei para a sorridente mulher de malandro e lá estava ela alisando seu pescoço de girafa e vermelha como o cabelo de seu príncipe. Me virei para Berry e, acreditem ou não, ela estava revirando os olhos para a incapacidade humana que é a operada de nosso grupo. Me acenando com a cabeça, resolvi fugir dali antes que aquela conversa danificasse o meu cérebro. Ou seja, dei breves 'tchau's' e zarpei antes de ouvir suas respostas.

"Bem, Marissa, se você nos der licença, o Noah e eu precisamos nos apresentar porque estamos em um concurso de canto. Mas foi um prazer conhecê-la." Pude ouvir o hobbie falando para a moranguinho e puxando a apaixonada colombina para tentar lhe dar uma idéia de como conquistar a motorizada power ranger vermelha. Pois é, a pintora de rodapé não era tão má assim. E aquela nefasta criatura da escuridão precisaria de toda a ajuda possível.

Tomara que a Berry consiga colocar algo (tipo um cérebro) dentro de sua cabeça.

...

"Quinn, você vai fazer um trio conosco?" Fui pega de surpresa pela pergunta contente e interessada da Katie. E, pela primeira vez desde quando comecei a namorar a Rach, meus pensamentos não estavam perdidos com ela. Não, ali eu estava olhando minha melhor amiga de canto de olho para depois tinha me virado para sua sorridente namorada. Que situação escrota era aquela. Eu nem imagino o que elas irão passar, ou o que a S. vai fazer quando ouvir isso... "Costumam dizer que 'quem cala, consente', mas algo me diz que o caso não é esse agora, certo?" A morena continuou e me perguntou, ainda sorrindo leve e só balancei a cabeça em negativa, no que ela assentiu com a sua.

"Eu já passei pela minha vergonha do dia, agora é a vez de vocês." Completei porque de um modo estranho, eu não gostava de ver aquela menina triste. Pois é, acho que eu estava passando a considerá-la da minha família já. Ainda mais pela amizade que ela tinha com a minha irmã, eram muitos anos aturando a Meg e ela provavelmente merecia um prêmio. Peraí, quantos anos será que eram exatamente? "Vocês duas se conhecem há quanto tempo?" Perguntei mais pra ela do que pra minha irmã, já que a segunda estava viajando em sua cabeça maníaca e não me responderia nada por vontade própria naquele momento (digo 'não por vontade própria' porque ela só se pronunciaria se eu atirasse uma pergunta torta pra ela, assim tenho certeza de que ouviria, já que sua cabeça só trabalha sob pressão).

"Hum, deixe-me ver, Quinn..." Katie pareceu pensar por um momento e olhar para a cara da minha irmã por um tempo, até fazer uma careta e balançar a cabeça, coisa que me fez sorrir. "Há onze anos. Por quê?" Depois me perguntou sinceramente curiosa.

"Ah, não é nada. Mas vocês são amigas há muito tempo e eu me pergunto como eu não a conheci e coisas do tipo." Respondi honestamente e peguei o meu copo de suco de abacaxi (pois é, eles precisam ter fígado e alguém precisa ter responsabilidade para levá-los pra casa. E eu era a azarada da vez) para bebericá-lo. Meg então saiu de seu transe e as duas gargalharam juntas como se aquilo fosse alguma piada interna sem graça com a minha cara.

"Eu te disse que vocês eram igualmente lerdas e estranhas." Minha irmã respondeu entre acessos de riso para sua melhor amiga e eu e a morena reviramos os olhos (quando ela parou de rir).

"Qual é a graça? Por que eu sou lerda?" Perguntei com raiva e de braços cruzados. Se eu tivesse um cigarro em mãos ou uma bebida forte como aquelas duas, tenho certeza de que soaria mais ameaçadora. Só que o máximo que consegui foi parecer uma criança contrariada, coisa que fez minha irmã rir ainda mais e se entreolhar com a Katie brevemente, que deu um curto e quase imperceptível aceno negativo com a cabeça.

"Nada não, Nine. Estava pensando em outra coisa aqui." Minha irmã respondeu com um sorriso pendurado no rosto e revirando seu copo, brincando com o gelo de seu uísque. Revirei os olhos.

"E nós somos as estranhas ainda..." Bufei e bebi meu suco, para o deleite da Katie, não me perguntem por qual motivo que eu não sei. Meg olhou para frente e respirou fundo, perdida. Segui sua linha de visão porque aquilo só acontecia quando ela abria mão de algo pelo qual estava lutando e vi minha namorada e a S. se aproximando de uma menina que estava conversando com o Puck. O que estava acontecendo?

"Diga o que houve, Meg." Katie perguntou me surpreendendo, ela realmente conhecia a minha irmã muito bem. Voltei a observá-las e Meg encolheu os ombros numa pose derrotada enquanto sua melhor amiga encostava-se no banco e cruzava os braços. "Você sabe que essa pose sua me assusta mais do que qualquer outra coisa, então diga logo o que foi que..."

"Você e a Santana precisam terminar." Interrompendo a menina e dizendo sem o mínimo tato, minha irmã conseguiu nos deixar caladas na mesa. Até levantar seus olhos e olhar triste para a outra menina que só assentiu com a cabeça.

"A Mischa?" Katie perguntou e bebericou seu uísque, olhando para o seu copo. Meg balançou positivamente a cabeça e suspirou,

"Ela vai processá-la por pedofilia, Kay, e nós sabemos que sua latina é menor de idade." Com pesar, ela comentou e abaixou a cabeça. Eu me mantive olhando para a menina endereçada e tentando ler suas expressões, nada leves agora, mas com um certo ar de sombras. "E eu sinto muito por não poder fazer nada, você sabe como a lei é restrita quanto a isso, não é? E eu sei que alguns estados tem mais jogo de cintura, mas ela pode simplesmente abrir o processo num desses estados super religiosos e escrotos e você vai responder pelas leis dele, entende?" Katie só assentiu com a cabeça mais uma vez e sorriu triste. "É em momentos como esses que eu odeio a justiça. Porra! Será que eles não entendem nada nunca?" Terminando sua frase, minha irmã socou a mesa e sua melhor amiga só segurou a sua mão carinhosamente, apesar de tudo.

"É, me fale você sobre a lei." Ela comentou olhando Santana com um ar de adeus que me doeu o coração. Por isso resolvi intervir. Ora essas, era a felicidade da minha melhor que estava em jogo e não há a menor dúvida de que essa felicidade tem nome e sobrenome e um certo histórico com muitas mulheres.

"Ela vai fazer dezoito anos mês que vem." Comentei e a atenção das duas se voltou pra mim. "Vocês não precisam terminar, podem só namorar escondido até ela ser maior de idade." Terminei meu discurso vitoriosa pelo que vi nos olhares das duas, minha irmã me sorria orgulhosa e a Katie me sorria feliz e agradecida. "E quem é lerda aqui, hein?" Virei meu suco e bati na mesa, me dirigindo a minha irmã, que levantou os braços se rendendo.

"Wow! Essa é a minha Nine! Grande garota!" Meg comentou e bagunçou o meu cabelo como se tivesse parabenizando um cachorro e bufei de raiva. Não é por sermos irmãs mais novas que merecemos ser tratadas com tanta falta de respeito. Ignorando o fato de ter despertado minha fúria, a loira se virou para Katie e só comentou algo que nos fez gelar em nossas cadeiras. "Mas o que a gente faz com a Santana até lá? Isso não vai impedi-la de querer matar a piranha e nem de querer matar a Katie." Bem, essa era uma boa pergunta e só nos entreolhamos. Até a namorada da minha melhor amiga dar de ombros. "Bem, nós podemos deixar que ela mate a bisca e, como ela é menor de idade mesmo, nós entraremos com um recurso e a tiraremos da cadeia em alguns meses. Depois, eu posso voltar a tribunal e tentar limpar a ficha dela com um contra-argumento no caso de..."

"Não, isso não é uma opção, Meg! Mas que mania essa!" Katie cortou-a com raiva (uma coisa que nem achei ser possível) antes de saber do desfecho de sua proposta.

"Ora, Kay, é vitória-vitória pra todo mundo! Ou você acha que seu La Niña vai ficar chateado com esse veredicto? Ela vai é adorar assim que saber do meu maravi..."

"Você não vai falar absolutamente nada pra ela. Deus! Você quer destruir todo o futuro da menina por um erro meu, Meg? Isso é egoísmo demais e eu não vou te deixar fazer esse tipo de coisa com a carreira dela. Ela merece uma chance, okay?" A morena falou revoltada e se levantando da mesa, fazendo minha irmã suspirar em derrota mais uma vez.

"Eu sei, mas eu só queria..."

"Me proteger." Minha irmã balançou a cabeça positivamente e a Katie bebeu o último gole do seu drink antes de continuar. "Eu sei, Meg, e eu serei eternamente grata a você por tudo que você já me fez, em todos esses anos e por ser a minha melhor amiga também. Mas eu estou aqui pra proteger a Santana, mesmo que seja de mim. Então, essa não é uma opção, sinto muito." Dito isso, ela se virou e acenou para a S., sinalizando que ia pegar mais bebida e sorrindo triste. "Ela está vindo. Por favor, Meg, por mim, não dê essa opção a ela." Foi a última coisa que disse antes de rumar para o balcão.

"Mas que situação filha da puta!" Minha irmã comentou batendo na mesa e abaixando a cabeça. Suspirei pesarosa por tudo o que estava acontecendo ali

"Quem é filha da puta?" Santana chegou rindo na nossa mesa, sentando-se numa das cadeiras e roubando um cigarro de sua, em breve, ex-namorada. "Pois se preparem que mais um casal lésbico se formou e o marginal arrumou uma nova vítima para intoxicá-la com sua boca suja. Além disso, o hobbie vai cantar com aquele estrupício daqui a pouco e antes disso vai rolar um daqueles discursos infinitos sobre amizade e..."

"Você não pode ficar com a Katie." Sério. Dessa vez, eu fuzilei a minha irmã com os olhos. Porque puta que pariu! Mas que falta de tato é essa que ela tem? E a minha amiga estava tão leve e em um humor tão bom... Precisava ter sido assim? Ter sido hoje?

"Como é?" Ajeitando-se na cadeira, a S. desafiou a Meg a saber de toda a história. E bem, ela contou e, seguindo com o pedido da Katie, ela não sugeriu que minha melhor amiga fosse passar uma boa temporada no xilindró. Apenas disse a minha versão sobre esperar mais um mês, comentou e explicou a legislação e disse que esse era um dos poucos crimes que mandariam a Katie diretamente pra cadeia. E explicou numa paciência da qual até desconfiei. Assim como desconfiei da calma que a latina aparentava ter até assentir com a cabeça e levantar da mesa. "O que a Katherine disse sobre isso?" Foi sua única pergunta ao postar-se de pé, ao lado da cadeira que tinha ocupado há pouco tempo.

"Nada." Meg respondeu e suspirou, abaixando a cabeça e olhando para seu copo. Aquilo aparentemente despertou a raiva de minha melhor amiga (por um motivo que desconheço) e nesse espírito, ela encheu um copo com o resto do conteúdo da garrafa, virou metade e o encheu mais uma vez. Ou tentou, já que a garrafa estava mais seca que o Saara.

"Ótimo!" Pegando seu copo cheio, ela nos deu as costas e ameaçou andar, até que eu chamei-a. Ou quase isso.

"S., ela provavelmente quer conversar sobre isso com você e saber da sua opinião." Meg me olhou e eu respirei fundo porque sabia o tipo de resposta que sairia de sua boca e sabia que, menos do que o fato de eu gostar ou não, a Katie não merecia o que estava pra vir.

"Muito bem. Porque eu tenho um copo cheio de opinião para dividir com ela." Foi a última coisa que disse antes de sair ventando e marchando na direção de sua namorada, ou ex, ou o que for.

"Ela vai fazer o que eu acho que ela vai fazer?" Meg me perguntou e só assenti com a cabeça. "Nossa! Não sei se sinto raiva da condescendência da minha amiga ou passo a admirar a paciência de Jó que ela tem, porque vou te contar!" Concordei mais uma vez com minha irmã.

É, eu tinha escolhido admirar aquela menina.

...

Parei de beber ao sentir alguém parar atrás de mim e, sem dúvida alguma, essa pessoa era a Santana. Não precisei me virar e apenas suspirei, porque eu já sabia que ia ouvir algo sobre isso tudo e não seria bom. Resolvi virar meu drink e suspirei fundo mais uma vez, deixando o copo no balcão e me virando. Mal abri os olhos e já os fechei novamente porque, seja lá o que tinha no copo que ela estava bebendo, foi parar no meu rosto e meus olhos arderam como uma peste. Abri a boca para saber qual foi o motivo atual de sua fúria e assim descobri que aquele era o uísque quinze anos da Meg, talvez ela fosse ficar irritada, ou não, já que ela bem poderia rir da minha cara. Enfim, por sorte aquilo não manchava (porque já tive algumas experiências iguais a essa e nada é pior que vinho e cerveja para a roupa. O primeiro porque mancha e o segundo porque não sai facilmente.), então passei as mangas da minha blusa nos meus olhos para tentar abri-los. Depois de algum esforço, consegui limpá-los e mirei no furacão latino em minha frente, que só se deu ao trabalho de levantar o braço em uma mensagem de que iria falar.

"Qual é o veredicto, Spencer? Vamos terminar?" Arqueei as sobrancelhas para ela em uma muda pergunta. Certo, eu já lavei o rosto (por assim dizer) com muitos tipos de bebida, mas sempre tomei esses banhos pela mesma questão: não ligar, não aparecer, não decorar nomes e coisas do tipo. Mas aquela tinha sido a primeira copada que levei sem ao menos ter terminado, ou feito qualquer uma das coisas que costumava antes. Suspirei fundo e ela cruzou os braços e bateu o pé. Minha nossa! Mas que menina complicada!

"Você podia ter perguntado antes e me dado um banho depois, de acordo com a resposta. Acho que seria mais justo, não?" Perguntei revirando os olhos. É como se os pais batessem nos filhos antes de eles aprontarem, para depois perguntarem como foi o dia deles. É cada uma. Obviamente, esse tinha sido o comentário errado, já que, por um segundo, eu agradeci aos céus por não ter mais bebida que fosse em cima do balcão, ou eu ia virar um coquetel de álcool.

"Não, isso é para você pensar muito bem na resposta que vai me dar, Katherine, muito bem." Viram só? Exatamente a minha teoria dos pais batendo primeiro e perguntando depois. Encostei-me novamente no balcão e cruzei os braços, fitando-a.

"E por que você não me fala a sua resposta primeiro?" Perguntei para ela, que não fazia nada além de me furar com os olhos. Até começar a marchar, se aproximando e parando com raiva na minha frente.

"Porque você nem se deu ao trabalho de me informar isso. Então, presumo eu, que conversar só é bom quando você quer e não quando a gente precisa." Respirei fundo porque, bem, ela tinha um ponto de vista e eu deveria mesmo ter falado com ela, seria o certo a ser feito. Mas eu estava exausta de tentar pensar em alguma possibilidade de fazer a gente dar certo sem ter que assustá-la com isso e de tentar protegê-la de todas as coisas que estariam por vir. Porque, justamente, eu não achei saída alguma e acabei piorando as coisas. "Então, vai ser mulher o suficiente pra me responder pelo menos? Ou vai correr também? Porque eu estou cansada, Katherine, muito cansada de pessoas indo embora. Então, se for assim, vá logo de uma vez." Assenti com a cabeça e me pus de pé, respirando fundo. Quando ameacei ir, vi a tristeza e a decepção bem expostas em seu rosto, mas foram logo encobertas por seu sorriso sarcástico. "Por que eu ainda acredito nas..." Antes que ela terminasse de reclamar da vida como tinha o hábito, eu beijei-a depressa e empurrei-a no balcão, me forçando em cima dela. Claro, ela lutou contra o beijo como eu bem esperava, mas tão logo coloquei a mão em sua cintura, ela deixou de me empurrar e passou a me puxar pela gravata... O próximo passo foi sentá-la num dos bancos do balcão e cobrir seu corpo com o meu, enquanto nos beijávamos como se não nos víssemos há muito tempo. E não é como se eu estivesse orgulhosa do que estávamos fazendo (embora eu estivesse mesmo), mas o bar estava com luz baixa e não era como se aquilo fosse evoluir a ponto de ficar fora de controle. Não, claro que não. Mesmo quando ela tinha um beijo que mexia com todas as minhas estruturas e que acalentava o meu coração e nem se eu me sentisse completa só ao seu lado. E, apesar de ela estar tirando o meu colete e desabotoando os últimos botões da minha blusa, eu sei que tudo estava sob controle. Até com a minha mão no alto de sua coxa e por dentro do seu short, tudo estava mais do que normal. Nem quando não nos desgrudamos nem para respirar e fazíamos isso durante o beijo (sério! Onde eu arrumaria outra garota dessas? Que me beijasse com tanta vontade que ressuscitava toda a sorte de sentimentos que eu tinha enterrado há tanto tempo? Nunca, em lugar algum eu acharia alguém que me fizesse viver como ela, que me fizesse querer transgredir, querer ser qualquer coisa, que me fizesse acordar e dormir em paz e transformasse a minha vida em uma completa aventura, trocando todas as coisas de lugar e me fizesse sentir como se eu tivesse toda a vida pela frente ainda.). Por essas e outras que eu não poderia deixá-la. E nem deixar de beijá-la, aparentemente. Já que, mesmo com minha blusa já toda aberta e com a minha mão não mais no alto da sua coxa, mas dentro do seu short e por cima da sua calcinha e com suas pernas apertadas em minha cintura e suas mãos arranhando minhas costas... Ainda estava tudo sob controle. "Puta que pariu!" Para mim, mas não para o Joe. Que resolveu rir enquanto eu limpava o rosto mais uma vez, depois de outro banho de álcool.

"Cortesia da Meg. E do resto dos clientes, porque acho que vocês estão podem até se salvar do processo por pedofilia, mas vai ser mais complicado burlar o fato de quererem que eu expulse as duas por transgressão da paz." Revirei os olhos, ele tinha nos jogado uma dose dupla de vodca e eu estava com medo de acender um cigarro e virar uma fogueira ambulante, no estilo Tocha Humana e ele ainda vinha comentar sobre processos? Que coisa. Minha namorada, obviamente, reclamou.

"Mas essas porras desses clientes tem que arrumar o que fazer. Que fogo no rabo desse povo." Sem suas pernas em volta da minha cintura e sem suas unhas me arranhando, ela estava passando as mãos no rosto e me olhando toda vermelha, provavelmente estava tão quente quanto eu e agora, para completar, estava uma arara da vida. Afastei-me um pouco e sorri pra ela, que olhava em volta e via que boa parte da clientela estava nos olhando. "O que foi? Vocês não tem mais o que fazer? Mas que gente desocupada da porra!" Continuei rindo até sentir minha um vento frio na minha barriga e no meu sutiã, que me fizeram me lembrar de que: primeiro, eu ainda estava ensopada de álcool e com a blusa toda aberta; segundo, eu iria ouvir por isso, já que na cabeça mais paranóica do estado de Ohio, eu estaria me exibindo para as pessoas. "Está rindo do que, Spencer? Acha bonito esse povo todo nos olhando? Ah sim, porque, no mínimo, tem mais gente para admirar a sua incansável beleza, não é? Pois fique aí e pense bem nas suas atitudes! Não estou com paciência para conversarmos." Dito isso, ela simplesmente me empurrou e foi andando.

"Você arrumou uma força da natureza, hein, Kay?" A voz do Joe me fez me virar e olhá-lo ao invés de, bem, de ver as costas (ou outras partes) da minha namorada. Assenti com a cabeça e olhei para a minha blusa molhada e aberta e comecei a fechá-la. "Sorte sua que a blusa não é branca." Cerrei o cenho para ele que optou por não me responder.

"Por quê?" Resolvi voltar a trabalhar na blusa, na gravata e no colete, era muita coisa pra ajeitar...

"Bem, porque ela diria que a culpa é sua por ficar desfilando com roupas transparentes por aí, querendo chamar ainda mais atenção." Uma risada dele seguiu esse comentário e sorri também. Definitivamente, eu ouviria aquilo ou coisa pior. Terminei de abotoar minha blusa e olhei em dúvida pra gravata, ela me daria tanto trabalho até arrumá-la novamente... "Vem cá, eu dou um nó pra você." Revirando os olhos, ele se dispôs a me ajudar e sorri agradecida, me aproximando dele. "Ai, ai, minha criança! Quem diria que um dia eu estaria enlaçando sua gravata em um dia tão especial como hoje? Estou me sentindo tão orgulhoso de você." Revirei os olhos para o seu excesso de drama (acho que ele, o Brandon e a minha amizade com a Rach explicam o fato de eu ser tão paciente com a Santana. Ou é outro motivo, mas prefiro não pensar nele.) e ajeitei minha camisa para ajudá-lo.

"Joe, isso é uma tarde com amigos, não é o dia do meu casamento." Expliquei rindo enquanto ele me dava guardanapos para limpar o rosto. Balançando seu indicador em negativa, ele resolveu fechar meu colete também, só para continuar lacrimejando lágrimas de crocodilo depois de quase me afogar em vodca.

"Pode não ser, mas já sabemos quem será a sua esposa." Arregalei os olhos para ele porque, bem... Eu já tinha pensado nisso, confesso, mas era um passo maior que as pernas para se dar assim, com tão pouco tempo de relacionamento. "Você sempre teve uma queda por ela e você sabe que nada me escapa, nada. E eu nunca erro!" Balancei a cabeça, eu mereço um lugar no céu por aturá-lo junto com a Meg, disso estou certa. "Agora pode ir atrás da sua mulher." Ele era gay. Isso explica o fato de ter me mandado beijos no ar. Ou isso, ou ele realmente gostava de me envergonhar, desde nossos tempos de colégio e...

"Ei! Como assim eu sempre tive uma queda por ela, Joe? O que você usou?" Perguntei me virando bruscamente e olhando-o com curiosidade, que só fez um sinal de pouco caso com as mãos e deu de ombros.

"Ora, eu sei de tudo!" Cruzei os braços e encarei-o com força pra que ele soube que não, aquilo ali não bastava. Se ajeitando no balcão e se aproximando em segredo, ele continuou. "Eu tenho ouvidos, Kay." Ah sim, isso explica tudo! Agora as coisas fazem sentido! "Hum, vejamos, 'você sabe que eu adoro a Quinn, não é? E nós nos damos muito bem, é como se nós pudéssemos conversar sobre qualquer coisa, é bem diferente da minha relação com a Stay. Enfim. Só que tem uma amiga dela que me olha engraçado, Meg. Sempre que estamos estudando juntos, eu, a Quinn e o Rey, ela fica me encarando. A morena, é, mas deve ser coisa da minha cabeça, já que a Quinn me falou que ela me acha nerd e esquisita... '. Isso te lembra alguma coisa, Kay?" Eu tive que voltar a me sentar num dos bancos porque de repente minhas pernas ficaram bambas e eu fique nervosa e...

"Onde você viu isso?"

"Ah, você e a Meg tinham mania de conversar por bilhetinho, lembra? Pois é, vocês ficaram bêbadas numa das vezes que a Meg e o Riley terminaram e aquela fofocada toda de vocês jovens..." Eu olhei para baixo e olhei pra minhas roupas, suspirei fundo e voltei a olhá-lo. "O que foi, criança?"

"Será que eu já gostava dela, Joe?" Sem me responder, ele só me deu um copo de bebida e se apoiou no balcão. "Quero dizer, quando ela souber disso, provavelmente vai rir da minha cara e tudo mais, porque eu era bem esquisita mesmo." Suspirei e aceitei o copo que ele me oferecia. É, eu sei, nunca aceitar bebidas de estranhos, mas nesse caso, eu posso confiar no que ele me oferece, mas não bebo o que me a Bizzy me serve. Porque família é quem nós quisermos que seja, pelo menos pra mim.

"Não acho. Afinal de contas, você era a campeã de xadrez, de matemática, que ganhou prêmio com experiências físicas e não precisou se aplicar pra nenhuma faculdade e, ainda assim, foi convidada para todas as melhores, não só do país, você sabe disso. Ora essas, você sempre teve o seu charme." Rá! Eu tive que rir dessa dele.

"Ela estava com a Brittany, vai ver as duas é que devem estar juntas. Quero dizer, ela sempre esteve com ela, então tem um motivo pra isso, não é?" Falei e bebi um pouco daquele drink que queimava todo o meu corpo. "Mas que coisa é essa?"

"Saquê, vodca e rum, uísque e abacaxi com hortelã. O especial da casa." Ah sim, e a sobremesa pra esse quitute particular é uma maravilhosa noite de glicose na veia. "As coisas acontecem com um propósito, Katie, a Santana não está com a Brittany agora. Não me olhe com essa cara, menina, eu sei que elas podem voltar a ficar juntas, como sei que você morreu e está aqui ficando bêbada ao invés de dar motivos ao seu furacão para ficar contigo. Eu também sei que sou um velho charmoso." Recebi uma piscada depois desse discurso e balancei a cabeça em desacordo.

"É, eu sei, mas sabe quando você acha que alguém poderia fazer outra pessoa mais feliz do que você?" Ele suspirou e assentiu com a cabeça. "Pois é, eu só quero que ela seja feliz e, venhamos e convenhamos, Joe, eu não tenho muito a oferecer a não ser dinheiro e problemas. Então, isso não é justo."

"Com isso eu concordo. Porque eu só tenho problemas e dívidas a oferecer, você ainda está melhor." Concordei com a cabeça, porque é verdade, tudo sempre pode ficar pior. "Você a deixaria ir caso ela escolhesse outra pessoa que fosse?" Assenti com a cabeça novamente, que tipo de pergunta era essa? Estranho como ele só, o velho resolveu me sorrir doce, como se estivesse em débito comigo ou coisa tão estranha quanto. "Então aproveite enquanto ela está te escolhendo, Katie, não se remoa pelo amanhã. E pode ter certeza de que você é melhor do que a maioria das pessoas que eu conheço." Respirei fundo e devolvi meu copo a ele, que voltou cheio para o meu delírio. Literalmente.

"E se eu realmente me apaixonar e mudar de idéia? E não saber mais abrir mão? Ou não querer?" Porque isso pode acontecer com qualquer um, né? Quero dizer, prevenir é melhor do que remediar. Aquele homem (e tenho certeza de que se ele não fosse gay, ele estaria querendo me levar pra cama. Ou de um motel, ou da hemodiálise, porque não sei se meu organismo agüenta esse tranco com essa bomba de bebidas todas juntas. A Meg sempre foi a mais sangue-frio de todas nesse sentido. Deve ser o gene do cretino.) estava me sorrindo novamente e eu devia ter rompido as barreiras do 'na mão do palhaço' e devia estar é 'montada na garupa do Bozo', ou me encaminhando 'pra maca da Mafalda', porque pra ele rir assim, tão aberto pra mim, eu só poderia estar louquíssima.

"Isso vai fazer você arrumar algum motivo pelo qual viver, Katie. Isso é ser uma pessoa, fazer questão de coisas e lutar por elas, não entregá-las assim, de bandeja." Concordei com a cabeça porque eu só iria me envergonhar caso falasse algo. Ou será que eu estava falando? "Toma, isso é uma coca e agora você vai voltar pra sua mesa e vai atrás da dona encrenca antes que ela venha tirar satisfações comigo. Além do mais, você e a Meg me dão muito trabalho pra ficarem ganhando drinks assim." Acho que eu concordei mais e talvez eu tenha sorrido, digo isso porque ele estava rindo pra mim. Enfim, me virei e fui caminhando para a mesa e tomando a outra bebida. Que bom, essa não tinha álcool, ou eu nem sei o que seria de mim.

"Senta logo esse rabo aí, Spencer, minha cunhada vai cantar." Meg me puxou pela manga da minha camisa e me jogou na cadeira. Olhei em volta da mesa e Quinn sorria doce para mim, como fez a maior parte dos anos, pelo menos quando me conheceu da primeira vez e Santana... Bem, ela não estava olhando no meu rosto e resmungava algo em espanhol que, se não me engano era 'maldito bar, maldita bebida, malditas pessoas', mas posso estar errada, já que nunca fui tão boa em espanhol quanto em italiano, francês, mandarim, latim e alemão. Falando nisso, por que eu fui estudar todas essas línguas se eu ia arrumar uma namorada latina? Mas que coisa! Era pra ter estudado espanhol ao invés de todo o resto, elas não me servem agora. Se bem que o espanhol veio do latim, então eu posso ter uma chance ainda... Hum, será que eu falo com ela? Não em espanhol, obviamente, porque vou acabar me envergonhando mais ainda e ela vai me detestar. "Mas que porra de cara é essa, Kay? Tá teorizando o que aí?" Meg me interrompeu e abri a boca para respondê-la.

"Teor aí só se for o de álcool onde ela se afundou." É, isso é um não. Bem, okay, continuo bebendo a minha bebida com gás, ou o que seja. Isso até uma mão me puxar de lado e me sussurrar no ouvido.

"Ela está com ciúme de você. Finja que estamos conversando algo interessante e você vai ver que ela vai praguejar bastante como uma louca." Quinn me falou isso e não entendi qual era o ponto em ver Santana praguejar como um marinheiro bêbado, mas estava cansada e fiquei por ali mesmo. "Sabe, você é bacana, Katie, eu quero que você fique com ela. Acho que vocês se fazem bem." Dizendo isso, ela começou a rir e eu resolvi rir também, só pra acompanhá-la e porque eu devo ter perdido algo engraçado. "Opa, agora as coisas vão ficar feias pra você. Mas veja pelo lado bom, ela vai parar de te ignorar." Não entendi absolutamente nada e me afastei até sentir uma perna no meu colo e uma mão puxando o nó da minha gravata e me ajeitando na mesa. Certo, a Quinn estava certa e a Santana estava se encaminhando para jogar sua outra perna em cima de mim. Por isso, olhei para ela e sorri agradecida, recebendo uma piscada de volta. Isso é sinal para falar com a amiga dela, certo? Bem, eu acho que sim. Então, me virei e ameacei abrir a boca para puxar um assunto.

"Nunca estive tão ansiosa para uma apresentação da Berry na vida." Terminando sua frase, ela rachou um copo batendo-o na mesa. E tanto a Meg quanto a sua irmã me olharam com certa reprovação (minha amiga, se é que posso chamá-la assim) e medo (a Quinn). Certo, não era hora de falar. Mas se eu soubesse espanhol poderia estar falando... Merda! Tenho que entrar logo numa aula de espanhol. Será que a Brittany sabe espanhol? Droga, aposto que sabe! Deve ser tipo um requisito para ficar com essa latina. E eu estava bem atrás... é. Melhor ouvir a Rach mesmo.

Será que a Rach sabe espanhol?

...

Depois de rir observando por algum tempo as interações entre a S. e a Katie (a Santana porque estava puta da cara e isso era óbvio e Katie porque, não sei, ela ainda estava alta e ficava escrevendo na mesa, falando sozinha ou olhando para a Santana com um 'sinto muito' estampado na testa. A S., obviamente, não dava o braço a torcer porque nunca vi ser tão orgulhosa, mas ficava olhando em volta e seguindo os olhos da sua namorada pra ver se ela encarava alguém por muito tempo ou vice-versa e a olhava de canto de olho. E a Katie, bem, minha irmã estava certa quando disse que ela era devagar, porque sinceramente, se ela pegasse qualquer um dos olhares apaixonados lançados pela S., ela teria a mais absoluta certeza de que minha melhor amiga estava mais do que arriada nos quatro pneus por ela. Só que, é claro, não é como se a latina do nosso grupo desse bandeira e, com a quantidade de porradas que ela deu na mesa, aposto que sua namorada estava com medo de olhá-la e tomar um soco na boca. Certo, vocês devem estar achando que eu sou voyer ou que sou má amiga, mas tenho certeza de que se vocês estivessem no meu lugar, estariam fazendo o mesmo. Era tudo muito engraçado pra deixar passar, ainda mais conhecendo a minha braço direito e sua subjetividade.) e ver o olhar que minha irmã dava para sua melhor amiga e depois me sussurrava algo (coisa que me fazia esticar o pescoço e tentar ler o que ela estava escrevendo na toalha de mesa; coisa que fazia Santana fazer o mesmo e esbarrar na menina e fingir inocência e eu revirava os olhos. Bom, tenho quase certeza de que ela conjugou os verbos principais do latim em vários tempos e depois mudou alguns sufixos e prefixos transformando-os ora em italiano, ora em francês e ora em espanhol. Isso tudo enquanto falava baixo alguma regra sozinha. É, aquela menina realmente era mais do que inteligente, até eu tive que admitir.), rindo de toda a situação.

"Que porra, Kay?" Meg interrompeu-a quando ela ia começar a conjugar o verbo amar nas três línguas, repetindo o script. E vi que, não só eu fiquei de cara com isso (afinal de contas, ia vir a calhar com a minha namorada, não é? Impressioná-la nunca é demais), mas minha melhor amiga também bufou de raiva e praguejou baixo quando percebeu que ela não ia continuar (tudo isso, ainda olhando de canto de olho para a menina) seu passatempo, já que a Katie voltou os olhos pra minha irmã. "Qual é a da sua arte aí?" Fumando, ela esticou os olhos para ver.

"Nada de mais, só conjugando verbos." Katie respondeu e voltou a segurar sua caneta.

"Em latim, francês, italiano e espanhol? Nossa companhia está ruim assim?" Suspirando, a melhor amiga da minha irmã voltou a olhá-la e contemplou o que responderia.

"Os verbos estão em latim, a língua que deu origem ao italiano, espanhol, francês e português. Só estou testando umas teorias." Katie respondeu chupando sua segunda latinha de refrigerante.

"Na boa, você precisa de sexo. Ou de uma chapa da cabeça. O que vier primeiro." Minha irmã falou e Santana voltou a resmungar baixo, enquanto sua namorada só revirava os olhos e seguia sua teoria em silêncio. "Mas que porra que esse povo tá demorando tanto? Credo! É pra hoje ainda!" Meg resolveu tragar seu cigarro e reclamar fumando. Santana se juntou a ela no fumo e na reclamação e me virei para Katie, que parecia pensar enquanto analisava suas conjugações anteriores. Me aproximei dela e resolvi falar em segredo no seu ouvido.

"O que houve com a teoria?" Perguntei pra ela e ela se virou para mim e para a mesa. Analisando a minha pergunta e tudo que estava escrito, ela voltou seus olhos para Santana e para Meg que, juntas, levariam o Buda a cometer um crime de tanto que praguejavam. Ela se abaixou e falou ainda mais baixo no meu ouvido.

"Eu estou tentando entender a diferença entre o 'amor' no espanhol e nas outras línguas, sabe? Porque é um dos poucos verbos que sofre sérias variações em cada fala e eu não sei o motivo. Mas também nunca fui a melhor aluna do mundo em interpretar gramática, então..." Foi quando me bateu o que ela estava tentando fazer.

"Por que espanhol?" Embaraçada, ela se virou para saber se minha melhor amiga estava prestando atenção na gente e no nosso papo. Óbvio que estava, mas como ela e a Meg tornaram a reclamar, a Katie se convenceu de que não, sua namorada latina não era tão bisbilhoteira quanto parecia (exceto que sim, ela era).

"A Brittany sabe espanhol?" Foi sua pergunta inocente e todas nós ouvimos, isso eu sei pelos sorrisos que demos (inclusive Satan). "Porque é meio complicado de aprender e eu achei que por eu saber latim, italiano e francês, ia achar o ponto onde eles se encontram, entende? Mas não é tão simples assim..." Assenti com a cabeça e olhei para minha melhor que estava rindo como se tivesse descoberto a cura para o câncer. Gente mais lerda que não assume as coisas. Resolvi repensar em minhas opções e menti, só para ter certeza de que Santana estava de olho.

"Ah, a Britt é ótima em espanhol, sabe? Ela manda super bem..." Eu teria até sentido pena da Katie e de sua carinha de cachorro abandonado se isso não tivesse me dado a prova de que precisava sobre a S.

"Não, ela não sabe!" Santana disse e todas olhamos pra ela.

"Quem não sabe o quê?" Perguntei fingindo inocência.

"Ora não seja falsa, Quinn, você acabou de dizer que a Britt sabe espanhol quando todo mundo do McKinley sabe que isso não é verdade! Não seja mentirosa." Em sua usual pose de bitch, ela se entregou sem notar e sua namorada só me olhou em interrogação. Até eu piscar pra ela e sua ficha cair. Amigos são para essas coisas, não é? Bem, o sorriso agradecido que recebi da Katie valeu mais que os dardos que a Santana me lançou com os olhos (isso é provar do próprio veneno) e me sentei relaxada em minha cadeira, esperando minha diva tomar o palco como seu de direito. Katie fez o mesmo e largou a caneta e a S., em sua ânsia de tirar as pernas do colo de sua namorada, bateu com o pé na mesa e virou a lata de refrigerante da menina, que ficou olhando para o chão por tanto tempo que até achei que ela fosse fazer a lata flutuar, no melhor estilo X-men. Minha irmã me deu um sorriso e piscou, levantando os dois polegares em sinal de positivo. E eu, bem, eu dei de ombros porque eu sou Quinn Fabray e sou boa desse jeito!

"Mas por que isso tá demorando tanto?" Santana tentou mudar de assunto e disfarçar seu ciúme e sua curiosidade que não conheciam limites. Pois que fosse, aquela foi a cartada e nos fez voltarmos a mesa. Meg ainda estava bebendo (e que Deus tenha misericórdia dos seus órgãos!), eu estava no meu suco de goiaba (decidi mudar o disco, era realmente chato ter que ficar bebendo a mesma coisa sempre), a S. virava copos de vodca com uma fúria animal e tenho certeza de que isso não acabará bem e a Katie tinha largado seu refrigerante (já que sua dama tinha derrubado sua última lata com tamanha delicadeza) e estava riscando com sua caneta na mesa. Quando se deu por satisfeita, só me entregou-a e olhou para a tolha, que agora além de adornada por verbos em diversas línguas, tinha duas cruzes de jogo da velha. Sorri pra ela e segui seu conselho, abrindo o jogo com um 'xis'. Santana e Meg ficaram se entreolhando como se nós duas estivéssemos loucas, mas nada comentaram. Sendo assim, repassei a caneta para ela e ela seguiu o jogo com um 'zero'. Continuamos nossa diversão até o negócio ficar sério e nos obrigar a calcular nossos movimentos (sim, isso é coisa de gente vadia e sem o que fazer, mas eu realmente gostava de jogar desde nova). E, foi nesse momento que a voz da minha namorada cortou o ambiente (e eu nem imagino como senti tanta falta dela) e a Katie largou a caneta para prestarmos atenção.

"Boa noite, queridos e queridas! Meu nome é Rachel Berry e esse é o meu melhor amigo, Noah Puckerman. É um prazer estar aqui com vocês e poder cantar para vocês. Eu realmente espero que estejam se divertindo aqui e que gostem de nossa apresentação. Eu dedico-a especialmente a minha namorada Quinn Fabray, porque todos precisamos de motivação para seguir, não é mesmo? Também gostaria de endereçá-la as nossas amigas Santana Lopez, Katie Spencer e Meg Fabray. Vamos ver se vocês conseguem nos bater!" Acho que eu ouvi Santana resmungar algo como 'já estou arrependida', mas ignorei-a e resolvi focar na voz da minha namorada, que só naquele momento eu pude me dar conta do quanto eu sentia saudades de poder ouvi-la cantar. Virando-se para a banda, ela pegou o microfone no centro do palco e terminou sua introdução. "Dito isso, espero que gostem!" E os arranjos começaram a cortar o ambiente.

"I've been living with a shadow overhead
(eu tenho vivido com uma sombra sobre minha cabeça)
I've been sleeping with a cloud above my bed
(eu tenho dormido com uma nuvem em cima da minha cama)
I've been lonely for so long

(eu tenho me sentindo sozinha por tanto tempo)
Trapped in the past, I just can't seem to move on

(presa ao passado, eu não pareço não conseguir seguir)"

Minha namorada abriu a canção com sua voz doce e melódica, mas confesso que não entendi o porquê da melodia. Claro, a música era super bonitinha e de uma dessas comédias românticas que terminamos falando 'ah's' e 'oh's' e torcendo pelo casal principal. Só queria saber por que ela escolheu justamente essa canção para sua dupla com o Puckerman. Não entendi absolutamente nada, será que ela estava querendo alguma segunda chance com ele? Cerrei os olhos e olhei-a com força, ela não podia estar fazendo isso comigo ali, com aqueles estranhos olhando e depois de eu ter me envergonhado e cantado aquela música boba e apaixonada, isso não era justo. Quando terminou sua parte, ela me olhou com um dos meus sorrisos que esse criminoso nunca teria e me piscou levemente, acenando doce com sua mão que não segurava o microfone. Melhor mesmo que ela saiba que eu estou de olhos bem abertos e prestando rara atenção nessa amizadezinha saliente deles, acho bom assim.

"I've been hiding all my hopes and dreams away
(eu tenho escondido todas as minhas esperanças e sonhos em um lugar distante)
Just in case I ever need 'em again someday

(no caso de eu poder precisar deles um dia novamente)
I've been setting aside time

(eu tenho reservado um tempo)
To clear a little space in the corners of my mind

(para limpar algum espaço no fundo da minha cabeça)"

O outro cantou sem desafinar e é o mais perto que chegarei de um elogio a sua bagaceira e desrespeitosa figura, já que no minuto seguinte, ele estava rodeando a minha namorada e segurou sua mão, rodando-a no centro daquele palco. Não sei por que ela estava de tanta risadinha pra esse idiota, porque tudo que ele fazia, eu tenho certeza de que poderia fazer ainda melhor. A menos que ela esteja repensando o fato de estarmos namorando e... Deus, alguém me ajude! De repente, o ar ficou mais rarefeito e tenho certeza de que estava me encaminhando para uma das crises de pânico que tinha na minha infância só de pensar nisso. Será mesmo que ela poderia trocar tudo o que fizemos e passamos juntas por esse animal? Eu não podia acreditar nisso! Me levantei e fui me aproximando do balcão para pedir uma bebida alcoólica. Nem ferrando que eu ia ver essa baixaria sóbria! Que as leis de trânsito fossem todas juntas para o quinto dos infernos! Eu precisava de um drink e teria um, pronto. Sem nem mesmo escolher o que mandaria para dentro, a menina de mais cedo (Samantha, ou o que seja) apareceu e encheu um copo na minha frente de uma garrafa que presumo que tenha sido vodca. Sorrindo e se insinuando, eu simplesmente revirei os olhos pra sua falta de respeito e semancol. Ora essas, ela não tinha percebido que eu estava namorando? Sendo assim, resolvi voltar a olhar a minha namorada.

"All I wanna do is find a way back into love
(tudo o que quero é achar um caminho de volta para o amor)
I can't make it through without a way back into love

(eu não conseguirei seguir sem um caminho de volta para o amor)"

Não mais me olhando e agora fitando aquela cara idiota desse lerdo, eles estavam cantando juntos como um casal de pombinhos perdidos na Lagoa Azul e o que quer que essa esquisita tenha me dado ameaçou voltar ao ver aquela cena. Falando nela, virei minha cabeça e voltei a observá-la. Certo, ela era estranha e nunca se compararia a minha namorada. A Rachel, eu quis dizer, porque nem sei se ela ainda estava me namorando ao olhar com tanto carinho pra esse retardado. Enfim, o sorriso dela não era feio, mas também não era bonito. Pronto, isso resumia aquela menina: passável. E era o que eu usaria pra fazer ciúmes nessa desalmada namorada que eu tinha. Por isso, sorri brevemente para a tal e pude vê-la ficando vermelha como um tomate. Mas que gente estúpida é essa? Credo! Não podem ver uma pessoa sorrindo que ficam assim, lesadas? E o fato de ela ficar com vergonha (não sei de que, já que ela não teve nenhuma ao me cantar na frente da Rach) nunca chegaria perto do modo adorável que minha namorada ficava quando eu a deixava embaraçada. Suspirei fundo e me virei a tempo de ver a Rachel não mais rodeando a aura maligna daquele criminoso, mas me olhando com muito amor e carinho (provavelmente alheia a toda estupidez que tinha se passado pela minha cabeça. Ora essas, vamos lá! Como eu poderia fazer ciúmes nela com uma menina tão aquém? Além do mais, era sujo brincar com os sentimentos dos outros sem a menor pena e vontade de fazê-los acontecer. E isso eu juro para vocês, alguém pode furar meus olhos e arrancar todos os meus membros antes que eu pense em trair a minha pequena diva.) e me afastei daquela safada antes que ela resolvesse falar algo. Vamos lá, foi só um sorriso! Eu não disse nem 'oi'! Que fosse, agora eu precisa conter os estragos e, com isso em mente, desci o balcão e me encostei na parede perto do palco com minha bebida em uma das mão e de braços cruzados.

"I've been watching but the stars refuse to shine
(eu tenho observado, mas as estrelas se recusam a brilhar)
I've been searching but I just don't see the signs

(eu tenho procurado, mas eu simplesmente não vejo os sinais)
I know that it's out there

(eu sei que está por aí)
There's got to be something for my soul somewhere

(tem que haver algo para a minha alma em algum lugar)"

Cantando essa parte, minha pequena foi descendo do palco e caminhando em minha direção até me mandar um beijo com as mãos e me apontar, dedicando aquela estrofe para mim. Nesse momento, esqueci da minha crise anterior e só apontei para os dizeres da minha blusa (eu ganhei-a na última sexta, de inimigo oculto da Santana, claro, assim que livrei mais uma vez do estúpido do Finn – que estava com a minha namorada na época – e ela me disse com a seguinte frase: 'agora você aprendeu que é melhor estar sozinha que mal acompanhada. E eu não sei, mas algo me diz que você ainda vai usar essa camisa com a Berry.'. Estávamos fazendo nosso rito de fim de escola – muito embora nós tenhamos adiantado bastante a comemoração – e trocávamos presentes bobos, nós três. Na verdade, nos dávamos presentes entre nós mesmo. Eu, que estava bebendo um milk shake, me engasguei e ela só se deu ao trabalho de revirar os olhos e de puxar outro assunto, como se aquilo tivesse sido tudo fruto da minha imaginação. Naquele minuto, eu tive a completa certeza de que não importa o quanto nos bicássemos de vez em quando, a S. sempre seria a minha melhor amiga e estaria ao meu lado para qualquer coisa.), rindo como uma drogada e apontando para ela, logo depois de mandar um beijos, que ela pegou no ar e levou ao coração.

"I've been looking for someone to shed some light
(eu tenho procurado por alguém para me emitir alguma luz)
Not somebody just to get me through the night

(não por qualquer pessoa para só passar a noite)
I could use some direction

(eu poderia usar de alguma direção)
And I'm open to your suggestions

(e estou aberto as suas sugestões)"

O marginal cantou olhando para sua vítima de cabelos ruivos meio acobreados e a tal pareceu gostar e revirar os olhos. Bem, ela era muito mais bonita que a Lauren, não que isso seja muito, porque eu realmente não gostava dela e não era só por seu tamanho de hipopótamo. Enfim, a guria pareceu ter personalidade e, vendo que suas tentativas de parecer galante mais uma vez tinham ido por água abaixo, ele também desceu os degraus e se aproximou da dita cuja, segurando sua mão e rodopiando-a. Coisa que fez boa parte do bar sorrir.

"All I wanna do is find a way back into love
(tudo o que quero é encontrar um caminho de volta pro amor)
I can't make it through without a way back into love

(eu não posso suportar sem um caminho de volta pro amor)
And if I open my heart again

(e se eu abrir meu coração novamente)
I guess I'm hoping you'll be there for me in the end

(eu acho que estou esperando que você esteja lá para mim no final)"

Dessa vez, eles não se olharam como um casalzinho de série adolescente e por isso eu agradeci aos céus. Não, ele estava fazendo uma serenata para a menina e minha namorada estava andando em minha direção, sorrindo e cantando enquanto eu já tinha largado o copo e batia palmas, empolgada. E tudo seguiu muito bem até a tal da descabelada parar atrás de mim e sussurrar algo em meu ouvido que não prestei atenção, mas gelei até a espinha vendo a expressão de desgosto no rosto da minha namorada e tive vontade de socar a cara dessa escrota até ela precisar de uma cirurgia plástica. Quando vi minha namorada me dar as costas, me virei com olhos de aço praquela sem vergonha e vi seus lábios se mexendo e comentando algo do tipo 'ainda prefiro você'. Filha de uma puta! Antes que pudesse pular aquele balcão e quebrar todas aquelas garrafas em sua cabeça oca, a voz pesarosa da minha garota cortou o ar e meu coração.

"There are moments when I don't know if it's real
(há momentos em não sei se isso é real)
Or if anybody feels the way I feel

(ou se mais alguém se sente do modo que me sinto)
I need inspiration

(eu preciso de inspiração)
Not just another negotiation

(não só mais uma negociação)"

Me olhando com raiva, ela silabou cada um dos versos e se voltou para Puck sorrindo um sorriso teatral. Puta que pariu! Maldito ciúme! O que é que fui fazer? Claro que aquele fofoqueiro percebeu sobre o que tudo aquilo se tratava no exato momento em que a viu e me olhou com desprezo, segurando sua mão e apertando-a. Quem deveria estar fazendo isso era eu! Só eu! Mas como sabia que estava errada e precisava bolar um plano para me tirar dessa sinuca de bico, resolvi parar de me culpar e começar a agir. Primeiro, saí de perto das asas daquela suja e voltei para a mesa onde estavam minha irmã, minha melhor amiga e sua namorada. Santana e Meg também me olhavam reprovadoras. Que porra? Todo mundo assistiu a isso mesmo? Revirei os olhos para as duas e me sentei ao lado da Katie (que ainda estava sendo ignorada por Santana, afinal, a culpa era toda dela por ter nascido quatro anos antes e por poder ser presa por pedofilia ao namorar minha amiga latina) e ela apertou meu ombro em sinal de apoio e falou baixo em meu ouvido, algo como 'não fique se remoendo tanto, só peça desculpas, seja sincera e diga que ela é e sempre será a única mulher para quem você terá olhos e sorrisos até o fim dos tempos'. Viram vocês como ela é uma boa pessoa? Muito melhor e mais compreensiva que minha irmã e Santana, por isso sorri meu sorriso agradecido e ela me respondeu com um balanço de cabeça, até completar com um 'ah, mas seja convincente, ou você irá dormir no sofá.' Cerrei meus olhos pra ela em sinal de que não havia entendido nada e ela só mexeu levemente a cabeça na direção da S., que bebia como um carro velho e fingia não estar prestando atenção na gente. Foi quando me bateu (e como eu demorei a perceber!) que minha namorada era justamente tão geniosa quanto a minha melhor amiga, ou seja, eu estava lascada. Engoli em seco e ela sorriu pra mim. 'Relaxa, Quinn, tem dois sofás na sala e eu te deixo escolher o mais confortável no caso de tudo dar errado pra você também.' Concordei com a cabeça porque eu não tinha outra opção e voltei meus olhos para o final da apresentação.

"All I wanna do is find a way back into love
(tudo o que quero é achar um caminho de volta pro amor)
I can't make it through without a way back into love

(eu não posso suportar sem achar um caminho de volta pro amor)
And if I open my heart to you

(e se eu abrir meu coração pra você)
I'm hoping you'll show me what to do

(eu estou esperando que você me mostre o que fazer)
And if you help me to start again

(e se você me ajudar a começar novamente)
You know that I'll be there for you in the end

(você sabe que estarei lá para você no final)"

Os dois ainda cantavam se olhando e ignorando o resto de nós mortais. Isto é, quando o Puck não estava olhando como uma pamonha para a menina e quando minha namorada não furava a vadia da garçonete com os olhos. Eu realmente estava na pior!

"All I wanna do is find a way back into love
(tudo o que quero é encontrar um caminho de volta pro amor)"

Ao terminarem a canção, os dois se abraçaram (por tempo demais, se me cabe dizer) e receberam palmas de pé de todos os freqüentadores do bar e fizeram suas mesuras de teatro. Aquele sem juízo ainda deu um beijo na mão da minha namorada enquanto se abaixava e fazia reverência a ela. Viado escroto! Achando que ia jogar seu charme vadio pra cima da minha garota! Também de pé, cruzei os braços assim que vi essa interação desnecessária entre os dois, mas (e pensando em sua vida sem objetivo) o marginal não veio escoltando minha namorada até a mesa e só me lançou um olhar torto antes de ir ficar com a outra menina azarada o suficiente por chamar sua atenção. Revirei os olhos, era o que eu merecia mesmo, a essa altura do campeonato, eu ainda tinha que ser rechaçada por esse menino. Suspirei ao ver minha namorada se aproximando da gente e me dirigi a ela.

"Foi ótima a apresentação, baby, eu..." Antes que pudesse completar a frase ou abraçá-la, ela me olhou com os olhos tão furiosos e cheios de mágoa que desejei a morte naquele exato minuto.

"Mesmo, Quinn, mesmo?" Sua pergunta foi sarcástica e para isso, engoli em seco. "Porque, de onde eu estava, pensei que a sua conversa com a galinha parecia bem melhor." Tentei andar até seu lado e abri a boca para me defender, mas ela só levantou uma mão, me impedindo de falar. "Não se explique ou fale coisa alguma, não estou com cabeça pra falar contigo. E eu é que deveria estar te parabenizando pela sua apresentação com aquela cadela, Quinn, já que você visivelmente não deu a mínima para o fato de eu estar cantando para você." Eu não precisaria dizer que aquilo me corroeu a alma e me pesou o coração de um modo que eu não saberia nem como explicar. E se ela terminasse comigo? De repente, meus olhos encheram d'água e se formou um nó em minha garganta. Que maravilha, lá estaria eu, chorando mais uma vez. Demais pra ser a rainha do gelo. "Eu vou lá fora esfriar a cabeça, depois conversamos." Ainda de braços cruzados, ela terminou sem nem me olhar. Só encheu seu copo e levou-o com um cigarro aceso, saindo pela porta do bar. Eu não sabia o que fazer, se morria, se corria atrás dela, se me deitava no chão e chorava, se batia naquela puta, se dava com minha cabeça burra naquela mesa, se...

"Conte até dez e vá atrás dela, Quinn. Quando nós gostamos de alguém, devemos ir atrás da pessoa. Além do mais, errar é humano. Bem, isso se você não quiser minha companhia no sofá." Katie interrompeu meus pensamentos e por isso fiquei grata a ela e bem, fiz como ela estava sugerindo e comecei a contar. Não pela sua companhia na sala, mas pela falta que me fazia a minha outra metade. Quando terminei, saí daquele bar como um foguete, rezando para que ela não tivesse fugido ou ido longe, mas se fosse esse o caso, eu estava com as chaves do carro da minha irmã e pronta para vasculhar cada uma das ruas de Lima atrás da minha linda e pequena diva. Pensando nisso, rumei na para a calçada e em sua direção, que estava na porta, fumando e bebendo sozinha.

Sem saber o que fazer, me aproximei lentamente como um cachorro arrependido e parei ao seu lado, torcendo para que ela quisesse minha companhia ou só que estivesse aberta para ouvir minhas muitas explicações.

"Eu posso?" Perguntei já me aproximando e ela não esboçou nenhuma atitude. Nem contra e nem a favor. Então preferi encarar aquilo como um 'sim' e andei ainda mais pra perto dela. "Olha, Rach, eu sinto muito, mas eu realmente não dei mole pra ela..."

"Mas que porra, Quinn? Você realmente precisava disso? Precisava ter feito aquilo?" Sua fúria foi tão súbita (ora essas, eu conheço bem a minha namorada e sei que o fato de ela chegar a usar palavras de baixo calão só poderia significar algo para mim: fodeu!) que eu congelei e grudei os pés naquela calçada. Não, eu nunca tinha visto aquela baixinha doce tão furiosa e não sabia nem o que sentir, medo, atração, raiva, atração. Argh! Será que meu cérebro está tão perturbado assim? A ponto de ficar preso em uma marcha só? Por sorte, ela não leu meus pensamentos, mas para meu azar, ela estava realmente enfurecida comigo e continuou. "Não é possível que você não possa me ver cantando com alguém, de verdade. Ou será que se esqueceu que essa será a minha carreira e que eu farei isso pelo resto da vida? Porque ainda te dá tempo de mudar de idéia, Quinn, se for para..."

"Não, não é pra ficar assim e isso não vai se repetir. Cruzes, Rach, eu nunca faria isso com você e com a sua carreira, você sabe o quanto os seus sonhos são importantes para mim." Precisei interrompê-la porque se eu ouvisse a sua sugestão, provavelmente choraria até amanhã e pediria perdão até ela me perdoar ou colocar uma ordem judicial contra mim para me manter afastada. Coisa que não funcionaria, obviamente. "Só que..." Suspirei.

"Só que?" Ela suspirou de volta.

"Eu sinto ciúmes de você com ele..." Falei baixo e rapidamente, mas sei que ela ouviu porque boa parte de seu acesso de ira tinha evanescido e sido substituído por algo que parecia insegurança. Será?

"E por que isso?" Não entendi o porquê da pergunta e fiquei olhando como uma cópia feminina do Finn, igualmente mongolóide. "Por ele ser o pai da..."

"Não! Isso não tem nada a ver com o que aconteceu entre mim e ele. Credo!" Cortei-a depressa porque só de pensar nessa hipótese meu estômago dava rodopios. Ela pareceu entender e se acalmar o suficiente para me perguntar controlada.

"Então qual é o motivo?" Seus olhos furavam os meus e abaixei a cabeça embaraçada por minhas ações e por meus sentimentos de ciúmes infundados. Quero dizer, eram infundados, certo?

"Porque vocês são melhores amigos e já namoraram e ele te conhece melhor que eu..." Disse ainda de cabeça abaixada e ela colocou um dedo no meu queixo, puxando meu rosto pra cima.

"Então era pra você ter a mais absoluta das certezas de que não haverá nada entre mim e o Noah enquanto vivermos. Primeiro, porque ele sempre soube que eu era apaixonada por você e segundo, porque nós tentamos e vimos que não deu certo. E eu não insisto em coisas que não dão certo. Okay, ignore o Finn." Ela completou revirando os olhos e eu sorri só um pouco. "Ele sempre vai ter as minhas lembranças de infância, Quinn, mas isso não quer dizer que não possamos construir outras, só eu e você. Você que..."

"Claro, Rach, é tudo que eu mais quero na vida!" Antes que ela me perguntasse, eu já estava balançando a cabeça e respondendo, o que fez com que ela desse um curto aceno com a sua e suspirasse mais uma vez.

"Eu não gostei daquilo." Ela comentou depois de um minuto que passamos em silêncio.

"Me desculpa, foi estúpido. Mas eu juro pelo que você quiser que eu nem falei qualquer coisa pra ela, só agradeci pela bebida." Expliquei depressa, olhando em seus olhos e segurando uma de suas mãos. Jogando o cigarro fora, ela aceitou me dar sua outra mão (já que ela tinha deixado o copo apoiado em cima do muro) e respirou fundo.

"O pior é que eu acredito, mas isso não me deixa com menos raiva." Me respondeu de olhos fechados e tentando se controlar enquanto eu assistia sua briga com as emoções passeando pelo seu rosto. Até que abriu os olhos. "Mas que menina mais vagabunda é aquela! Quem ela pensa que é para ficar se insinuando pra cima de você? E como você ainda deixa, Quinn, mas que diabo?"

"Eu não deixei! Eu juro, ela que me pegou de surpresa e eu nem ouvi o que quer que ela tenha dito e só me virei porque eu ia bater na cara sem vergonha dela. É a verdade, Rach, você precisa acreditar em mim!" Sim, eu já estava a ponto de me ajoelhar e implorar por seu perdão, ou de me oferecer para fazer qualquer coisa. Ela só concordou com a cabeça e bufou, pouco antes de me lançar um olhar torto.

"Eu estou com frio." Ela comentou baixo

"Quer entrar?" Eu até pensei em tirar minhas blusas e oferecê-las, mas acho que na situação em que estávamos, aquilo não seria um gesto bem compreendido. Sua resposta foi um balanço negativo de cabeça e assim que entendi o que ela queria, abracei-a apertado e suspirei em seus cabelos entre beijos. "Perdão, perdão, perdão..."

"Eu quero terminar essa nossa conversa em particular." Sua única resposta foi essa e balancei a cabeça depressa e várias vezes. "Você está com a chave do carro?"

"Estou sim, vamos pra lá que eu ligo a calefação." Comentei guiando-a pela mão e atravessando a rua, parando na frente do carro. Como eu estava de costas, perdi seu sorriso torto e só pude ouvir seu comentário de duplo sentido.

"Não acho que vamos precisar disso pro que tenho em mente..." Engolindo em seco, só balancei a cabeça como uma maníaca, com medo de dizer qualquer coisa e quebrar aquele momento. Ou com medo de estar interpretando as coisas de um modo errado. "Pois saiba você, Quinnie, que esse tipo de coisas não se faz. Ainda mais depois de ela ter me desafiado a roubar você de mim." Completou com um sorriso e traçando as costuras da minha blusa com a ponta dos dedos enquanto eu vencia a briga com a chave e a porta do carro.

"Não, Rach, ninguém nunca vai me roubar de você." Respondi já mais certa de mim porque aquele olhar e aquele sorriso, sim, me eram familiares e eu os amava de um modo indescritível. "Eu sou só sua, lembra? Que te disse hoje de manhã?" Sussurrei em seu ouvido e antes que eu pudesse me certificar de que ela tinha ouvido bem minha pergunta, seus braços me empurraram no banco de motorista e seu corpo se jogou em cima do meu tão logo me sentei.

"Não sei se lembro, acho que você vai ter que refrescar a minha memória." Se ajeitando em cima de mim e tirando a blusa, eu bati depressa a porta do carro e segui seus movimentos, copiando-a. Claro, eu estava com duas blusas e por isso demorei mais. Não por eu ser lerda e desajeitada como a Lopez costumava dizer. Não por isso. Acho... Isso explicava o fato de ela estar só de calcinha e sutiã quando ainda estava tentando me livrar daquele monte de roupas. Antes que pudesse me embriagar com sua beleza tão limpa e nua em cima do meu corpo e ao alcance das minhas mãos, ela já estava desabotoando a minha calça e brigando para abaixá-la, por isso, resolvi ajudá-la. "E você vai ter que me lembrar depressa." Foi o que sussurrou sedutoramente em meu ouvido enquanto ainda estava lutando para deixar meu jeans na altura do joelho. Deixei por isso mesmo e resolvei olhar em seus olhos negros e cheios de desejo. É, eu estava mais do que na palma da mão dessa menina...

"Com todo o prazer, senhorita Berry." Respondi com um sorriso igualmente torto e segurei-a com força pelos cabelos, puxando lentamente seu rosto na direção do meu.

"É com prazer mesmo que eu quero, blondie." Dito isso, ela me empurrou no banco e, com uma destreza que nunca vi igual, desabotoou meu sutiã antes que eu pudesse fechar minha boca aberta de peixe fisgado. "Nós estamos só conversando, então não podemos demorar, ou as pessoas podem desconfiar. E você sabe que aquele povo tem uma língua que não cabe na boca e eles adoram..." Resolvi beijá-la logo com pressa porque, conhecendo minha namorada como eu conhecia, aquele assunto iria até o dia seguinte. E, bem, nós podíamos estar fazendo coisas mais proveitosas com nossas línguas, não é? "Nossa, Quinn!" Quando nos separamos, ela disse sem ar e dei um sorriso orgulhoso para mim e para ela. Afinal de contas, era do meu beijo que ela estava falando e não de algum dos seus estúpidos ex-namorados. Resolvi usar o tempo a nosso favor e, enquanto nos beijávamos com pressa e desejo, coloquei minhas mãos em seu sutiã para desatá-lo, mas logo fui repreendida. "Não. Vai ser do meu jeito porque você precisa aprender uma lição." E foi assim que ela mesma tirou suas duas peças de lingerie e me olhou, arteira, nos olhos. "Talvez tenha uma música que diga o que vai se seguir agora, Fabray, você pode olhar, mas não pode tocar." Seu sorriso foi maquiavélico e eu senti vontade de chorar e implorar mais uma vez por seu perdão. Talvez meu desespero até tenha dado na cara, já que, junto com seu balanço negativo de cabeça, ela resolveu continuar. "Você realmente precisa aprender uma lição. E eu dito as regras aqui, entendidas?" Concordei depressa com a cabeça porque eu estava pegando fogo e ela toda nua e sentada no meu colo não estavam ajudando o meu estado deplorável. Ou melhor, só atrapalhavam. "Eu vou tirar a sua calcinha e vou cavalgar em você..." Sussurrado em meu ouvido, não pude evitar o meu gemido em resposta. "Mas a única coisa que suas mãos podem tocar são o meu rosto e o banco do carro. Fui clara?"

"Mas, Rach, eu preciso..." Tentei reverter toda a situação porque não existe tortura maior que aquela. O que ela estava fazendo era desumano.

"Você que sabe, Quinn, ou isso, ou eu faço sozinha e você pode voltar para o bar." Deus! Alguém tenha misericórdia de mim! Suspirei fundo. Guardar em minha mente 'nunca irritar Rachel Berry' e me lembrar de repetir isso como um mantra. "Então, qual vai ser?" Com uma sobrancelha arqueada, ela me perguntou séria e me desafiando. Diabo de situação filha da puta! Maldita garçonete descabelada! Concordei pesarosamente, afinal, não tinha muito entre o que escolher. "Boa menina! Agora me beije. E me beije como o último beijo, com força." Eu não estava amarrada como o maldito do Puckerman (o objetivo da vida desse estorvo era me desgraçar, porque isso não tem explicação, como ele consegue me atrapalhar a vida de tantos modos.) costuma me dizer, mas mesmo assim obedeci. Já que ela me pedia assim, tão... dominadora. Como eu poderia negar? E eu não seria uma boa namorada caso não cumprisse com isso, não é? Pois bem, nos beijamos e ela fez como havia prometido e tirou minha calcinha. Afastando minha mão de quando em vez se eu resolvesse ajudá-la em sua missão. E eu, revirando os olhos, deixei-a fazer como queria. Bem, talvez eu tivesse um pouco amarrada sim... "Hum, saudades disso..." Ela comentou no meu ouvido com sua voz rouca, baixa e sexy.

"Eu também, baby, eu também..." Não desse nosso método (e eu nunca mais vou deixá-la irritada comigo), mas do que estávamos fazendo em si. Quando me entreguei à minha sina de não poder tocá-la, agarrei o volante com força e resolvi cabular levemente o seu plano e prendê-la entre meus braços num meio abraço. Rá! Eu não sou tão boba assim.

"Me beija." Comecei a beijá-la e a grudar seu corpo no meu enquanto pedia por aquele volante não ser tão frágil de ser arrancado (porque com a força que eu estava fazendo, minha irmã teria um volante solto para treinar suas barbeiragens sem arriscar a vida de outras pessoas dirigindo um carro). E, bem, se ela disse que nós não precisaríamos de calefação para esquentar aquele carro, nada estaria mais certo do que isso. Pois, junto com os beijos que ficavam mais desesperados a cada segundo que se passava, ela começou a se mover em cima de mim e cumprir com a parte final do seu plano maquiavélico, me deixando a ver estrelas e gemendo na minha boca, sem deixar de me beijar com tesão. Eu, por mim, não demoraria muito, porque, de algum modo esquisito, o fato de ela estar mandona e dominadora já tinham me deixado em ponto de bala. Eu até me envergonharia disso, mas não agora. Definitivamente não agora. Talvez depois. Ah, não com ela mordendo minha orelha desse modo e cravando os dentes no meu pescoço com força (sim, eu terei a marca por algum tempo), me fazendo urrar. "Isso é para todo mundo saber a quem você pertence." Balancei a cabeça depressa em concordância, mesmo sabendo que ninguém precisaria ir tão longe, era só olharem para a minha cara de boba apaixonada que qualquer coisa com olhos saberia. Mas eu não podia negar que aquilo tudo estava me excitando e se ela quisesse riscar seu nome com navalha na minha testa, naquele momento, eu deixaria. É, talvez o criminoso estivesse certo sobre eu estar desvairadamente apaixonada ('amarrada' é uma palavra muito forte). Enfim. "Puxa o meu cabelo, Quinn..." Quem negaria um pedido (ordem) desses numa situação como a que nos encontrávamos? Ninguém em sã consciência, obviamente. Por isso, fiz como me era ordenado e seu gemido alto me valeria fazer aquilo outras mil vezes.

"Baby, você..." Tentei perguntar em seu ouvido, mas como vêem, não saiu coisa que o valesse. Eu estava por um fio, mas queria ela comigo, que fôssemos juntas. Independente da minha inabilidade de formar palavras ou pensamentos enquanto estávamos transando como se o mundo fosse acabar (ou como diria a Santana, como dois bichos no cio), ela conseguiu entender a minha pergunta e só mordeu os lábios e continuou cavalgando em mim ao mesmo tempo em que eu me mexia para que tivéssemos aquela fricção que estava me fazendo delirar. Não sei o que estava me enlouquecendo mais, se era o que fazíamos, se era sua postura, se era o fato de termos que agir depressa ou se eram seus olhos que estavam me devorando, abertos e furando os meus, enquanto ela me agarrava pelos cabelos de volta e passava um dos braços pelo meu pescoço, pressionando ainda mais seu corpo nu no meu. Eu não sei, mas sempre achei falsos os beijos de olhos abertos que vi nos filmes, só que não no nosso caso. Não, ali, naquele momento, estávamos nos prometendo, nos amando, nos dando prazer e nos conhecendo, tudo de olhos abertos (vocês nunca vão imaginar como é fazer sexo – porque não estávamos fazendo amor naquele carro – e beijar Rachel Berry vendo todas as suas emoções transbordando pelos seus olhos. É como uma supernova que nos suga para outra dimensão, que nos explode e nos reconstrói ao mesmo tempo. Era a sensação que me fazia sentir a garota mais especial do mundo, sempre aqueles olhos me consumindo e me desestruturando. Sempre ela.). Foi assim que soube que ela estava tão perto quanto eu e, me aproveitando de outra mordida sua em meu pescoço (do outro lado, porque sei que ela gosta de simetria), sussurrei gemendo em seu ouvido. "Eu mal posso esperar para te sentir gozar em cima de mim, baby." Com sua testa colada na minha, me olhando compenetradamente, urrando e gritando o meu nome, foi a vez de ela me obedecer e bem, gozar em cima de mim, coisa que me fez segui-la como se essa fosse a única reação que meu corpo poderia ter. E talvez fosse. Talvez o encanto que ela tinha sobre mim fosse grande a esse ponto. Talvez ela fosse tudo que eu precisasse para me saciar e encontrar paz.

"Nossa!" Sua frase sem fôlego me fez sorrir bobamente ao vê-la abrir os olhos lentamente e me sorrir doce, como se nada daquilo tivesse acontecido, nenhum sexo avassalador. Como se meu corpo não tivesse tremendo a ponto de me causar um ataque de epilepsia. Suspirei fundo e beijei seu nariz, envolvendo-a num abraço, no qual ela se aconchegou com a cabeça em meu ombro, passeando com seu polegar pelo meu pescoço. "Hum, acho que vai ficar marcado." Não precisei vê-la para saber que estava orgulhosa de si e revirei os olhos, sorrindo.

"Porque esse não era o seu objetivo..." Comentei afagando seus cabelos lindos e desalinhados. Sua gargalhada melódica e contagiante cortou o ar.

"Pois saiba você que não era. O meu objetivo era fazê-la gozar comigo, o que acabou de acontecer e isso..." Ela passou o dedo levemente na marca que tinha deixado no meu pescoço. "... foi um imprevisto pelo caminho." Eu tive que rir de sua explicação e abracei-a ainda mais apertado.

"Ah sim, porque de onde eu estava, pareceu bem mais do que um imprevisto, sabe?" Afastei um pouco minha cabeça para vê-la revirar os olhos. "Na verdade, pareceu que você estava bem certa e interessada no que estava fazendo." Foi a minha vez de rir e ela se afastou ainda mais, se apoiando no volante e cruzando os braços sobre os seios (e como eu sentia saudades deles! Deus! Isso é até um pecado).

"E a culpa é minha se eu tenho uma namorada que me faz perder o bom senso e agir como um animal movido a tesão?" Argh! Ela vai me matar, estou dizendo a vocês. Suspirei de olhos fechados. E, quando eu os abri, ela me olhava com um certo ar de maldade nos olhos. "Segundo round, blondie?" Sua sorridente pergunta me fez voltar a tremer e a ser possuída pelo calor. "Ah, esqueci, não podemos. Nós temos que voltar..." Sério! Isso que ela fazia com o meu corpo era crime!

"Você, Rachel Berry, ainda vai me matar!" Falei quando ela saiu de cima do meu colo e pulou no banco de passageiros, caçando suas peças de roupa e rindo de mim.

"É, mas o pior é que você gosta." Sua expressão era tão cheia de si que cruzei os braços porque ela realmente estava certa. Isso até uma maravilhosa idéia passar pela minha cabeça. Sorri comigo.

"Sabe do que eu gosto ainda mais?" Sussurrei em seu ouvido e segurei sua mão com seu sutiã, sua resposta foi um balanço negativo de cabeça. "Quando você está gozando e gritando o meu nome a plenos pulmões. Não existe música melhor do que essa, baby, nada se compara." Teve o efeito desejado e sua respiração ficou entrecortada, seus olhos se fecharam e ela virou lentamente o rosto em minha direção. Quando abriu seus olhos novamente, o desejo estava explícito em seu olhar e foi a minha vez de sorrir para mim. Bom, isso aconteceu até ela me empurrar pelos ombros e pular, ainda nua no banco de trás. E antes que eu pudesse presumir o que ela queria, sua voz me alarmou.

"Ligue o rádio, Quinn." Mesmo perdida com o seu pedido repentino, assim o fiz e qualquer música cortou o ar. Me virei para ela mais uma vez. "Está ouvindo essa canção?" Assenti com a cabeça. "Então venha aqui que vou ensiná-la a pegar ritmos de um modo muito mais prazeroso." Sua proposta indecente foi fechada com suas mãos me convidando para aquela aula de música. E quem seria eu para negar uma lição particular de uma certa diva Rachel Berry? Exato! Pulei naquele banco e em cima dela antes que me desse por mim. Realmente, aquele método era muito mais interessante, fácil e gostoso de pegar o ritmo de uma melodia.

Foi assim que eu aprendi. Ou melhor, fui ensinada pela minha namorada a dançar conforme a música. Se é que vocês me entendem...

...

"Eu ainda estou chateada contigo." Falei praquela autista que resolveu brincar de professora. Antes fosse realizando a minha fantasia sexual... argh! Que seja! Não vou pensar em sexo com Katherine Spencer e não farei sexo com ela também. Pronto! Decidi. Essa bêbada que fica falando com aquele velho sem vergonha e ainda o deixa abotoar a sua blusa, num papinho torto e muito do ultrapassado já. Ela me olhou com pesar e resolveu assentir com a cabeça. Simples assim. Agora a porra da situação não ia se resolver nem se o Messias voltasse numa prancha de surf e na crista de uma tsunami. É uma tristeza de vida, não? A Q. e o hobbie no mínimo estavam fazendo sexo por toda a população de Lima e lá estava eu, namorando uma menina das cavernas que escreve hieróglifos numa toalha vagabunda de mesa de boteco. É pra eu me foder mesmo, só pode ser. Digo, pra não foder mesmo. Que porra!

"Eu sinto muito, Santana." Sua voz cortou meus pensamentos de tratá-la amarrada no eletrochoque pra ver se seu cérebro resolvia colaborar comigo e funcionar para coisas práticas e não para questões insolúveis, porque para isso existiam os fodidos dos professores de matemática (sempre achei que uma pessoa tem que ser muito da perturbada pra passar o dia somando e dividindo quando a modernidade nos presenteou com a calculadora e o computador e o melhor, não recebem salário por mês e nem precisam conversar conosco. Mas cada maluco na sua psicose, já diria o Hitchcock). Pisquei algumas vezes quando percebi que sim, ela tinha voltado a si e esboçava sinais de melhora do seu letárgico estado vegetativo de anteriormente e diariamente vivido por Finnsípido. Virei-me para olhar a evolução de seu quadro e ver por meus próprios olhos, afinal de contas, pode muito bem ser a bebida me pregando peças. "Nós vamos namorar escondido ou o que for. Caso você queira, obviamente. Eu só não quero te perder..." A última parte foi sussurrada e a loira Madonna, que até então estava quieta, comentou antes que eu pudesse pensar numa resposta.

"Como se vocês conseguissem esconder algo depois do show que deram ainda agora." Katie olhou-a com raiva e eu também. Afinal, não é fácil ver essa menina dizendo que quer alguma coisa na vida, já que tudo pra ela sempre foi comprado com o dinheiro das almas que eles vendiam em ritos satânicos de bruxaria wicca. Que dizer, ela não disse que quer, ela falou que não quer me perder, não é? Enfim, tudo exemplifica a minha teoria e eu ganhei no final. De mãos pro alto, a bandida loira se levantou em rendição e foi até o balcão reclamando algo sobre não ter lugar no mundo ou em seu próprio carro e comentou alguma coisa do tipo que a bebida era a sua única amiga que nunca a deixava na mão. Não ouvi bem, estava ocupada demais olhando para a modelo e...

"O que foi, Santana? O que você me diz?" Ela me perguntou olhando para baixo e sem me fitar, o que me deu tempo de pensar em minha resposta. Por etapas: eu queria namorá-la? Sim ou não? Sim. Eu queria que todos soubessem disso? Sim ou não? Sim. Eu quero que ela seja presa por isso? Sim ou não? Sim. Quero dizer, não! Eu não quero que ela seja presa por minha causa, então...

"Bem, nós continuamos namorando." Namorar escondido tem um charme, não é? Não, não é. Amor bandido não dá certo desde os tempos de Romeu e Julieta e não vai ser hoje que ele vai passar a dar. Nossa! Como eu estava cansada de fazer isso. Logo agora que eu estava pronta para assumir um relacionamento sério com ela... Diabo de destino de azar é esse meu! A gente não pode encostar um segundo pra tomar fôlego que lá vem outra lambada, mas que horror! Bom, deixei de praguejar a minha vida sem sorte porque ela estava me sorrindo aquele sorriso ensolarado e eu... e eu só podia sorrir de volta. Aquela menina era tão perfeita que me doía o peito só de pensar que ela poderia estar sorrindo assim para outra pessoa, ou ficando embaraçada por algo que alguém diga futuramente... Não! Ela não podia porque era minha e de mais ninguém e todos saberão disso. Eventualmente. Assim que eu bolar um plano perfeito para ficarmos juntas sem mandá-la para a cadeia e sem que eu fique na seca por um mês (acho melhor me prenderem, porque de nada me vale a liberdade mesmo) e ainda cacetear aquela piranha descolorida de sua ex.

"Certo, namoraremos escondido então?" Dessa vez, sua pergunta foi direcionada a mim e ela me olhava nos olhos daquele modo. É, daquele jeito que te faz querer abaixar a cabeça por se sentir vulnerável e aberta demais. Pois sim, mas eu não abaixei porque eu sou Santana Lopez e não abaixo a cabeça pra ninguém e em hipótese nenhuma. Mas que perguntinha quebra clima dos infernos! Enfim, balancei a cabeça e enquanto pensava em sua pergunta, resolvi me mudar para um assento mais aconchegante (ou seja, em cima dela). Pensando nisso, ao invés de jogar só as minhas belas e torneadas pernas em seu colo como fiz mais cedo, acabei jogando meu corpo todo e bambeamos naquela cadeira (que, até onde eu sei, não era de balanço, mas era igualmente velha) e ela me segurou pela cintura e olhou para os lados como um deliquente juvenil roubando a bolsa de uma velha cega e com medo de ir em cana. Revirei os olhos. Depois do que ela fez comigo (aquilo foi um princípio de estupro! E eu só não gritei porque ela estava tampando a minha boca, porque se não fosse por isso, eu teria gritado... outras coisas. Muito mais interessantes...) no balcão, sentir medo das pessoas agora? Ora, faça-me o favor. "Santana, tem gente aqui." Olha que coisa interessante essa, não é? Porque eu nem tinha percebido que nós estávamos em boteco baixo clero e dividindo espaço com mais outros alcoólatras perdedores e cornos, pensei que estivéssemos juntas e sozinhas curtindo um sol em Beverly Hills em uma praia particular enquanto aproveitávamos aquela paisagem surreal para fazer algo mais físico e colocar em prática o tempo que esse maldito destino me atrasou a vida. Eu tô dizendo? Posso com um negócio desses? Não, não posso!

"Pois pra quem estava me comendo há menos de uma hora, essa é uma mudança em 180°, hein?" Claro que ela ficou envergonhada com suas atitudes de agora. Eu era uma pessoa quente e, alguém como eu não merecia ser tratada com frieza. Revirei os olhos para seu sorriso culpado porque eu desejava ardentemente que ela tivesse culpa sim, e por um motivo todos sabemos qual seria, mas como sempre não tenho sorte mesmo. Que seja! Ignorei o seu apelo para pararmos porque não perderia meu tempo com aquelas pessoas inúteis e que não fariam falta nem para suas próprias mães, com isso resolvi beijá-la lentamente até ter uma idéia divina! Parei o beijo abruptamente e ouvi seu lamúrio desgostoso. Revirei os olhos mais uma vez (essa menina além de me matar de frustração, vai me deixar vesga. Vocês estão vendo aí!) e saltei de seu colo, beijando sua boca rapidamente. "Vou cantar uma música e você vai gostar dela." Comentei e ela se levantou comigo

"Vou gostar porque não tenho escolha ou pelo fato de você me conhecer o suficiente e achar que ela combina conosco?" Ela estava viva, falante e passava bem. Sem me dar ao trabalho e ser atingida por sua crise existencial, continuei puxando-a pela mão e fomos andando de mãos dadas até onde estava a Meg.

"Bem, por qual motivo você vai gostar é um problema seu, desde que você goste." Tentei parecer ameaçadora, mas acho que perdi a minha pegada forte, ou seja, ela acabou sorrindo e achando que eu estava citando alguma poesia escrota do Finnperdoável, tão útil quanto suas músicas de corno ou sua figura assombrada. Enfim, deixei por isso mesmo porque eu estava em um bom humor estranho (vejam vocês como age a bebida). Beijei-a mais uma vez para garanti-la que não morreria e nem quebraria um braço ou uma perna escalando aquele palco (ora essas, se a Taylor Swift e o par perfeito para seu sapato 44 subiram lá e, infelizmente, não se quebraram, por que ia acontecer isso logo comigo? Certo que meu azar não poupa esforços, mas péra lá!). Quando consegui me livrar dela (porque eu tenho certeza de que a boca dessa mulher tem um ímã, não é possível um negócio desses), me virei sorrindo e caminhei pela minha estrada do sucesso e para ser ovacionada por aqueles pobres diabos.

"Santana!" Sua voz me fez virar em meus calcanhares (um movimento perigosíssimo, já que eu estava mais alta que um satélite) e quase tomei uma sopa escrota num verde anêmico de um casal de bichas horrendas. Credo! Foi por pouco que não perdi vida caindo naquele brejo venenoso! Olhei mais uma vez naquela arma letal de um perigo fora de série e que assustaria até o Chuck Norris antes de voltar meu olhar para ela, que só se deu ao trabalho de silabar 'namorada'. Revirei os olhos e dei uma caminhada atlética (andei rápido, mas não corri) e pulei em seu pescoço e ela me segurou pela cintura e me rodou, me dando um beijo que, somado a quantidade de bebida que eu ingeri, tinha me levado até as estrelas. Ao fundo, muito ao fundo mesmo, pude ouvir a loira demolidora - a mulher sem medo - conversando com aquele velho tarado. E só ouvi porque falavam sobre nós duas. Não sou bisbilhoteira, antes que pensem besteiras sobre mim por aí.

"Ainda bem que elas vão namorar escondido. Porque esses agarramentos quase me convenceram do contrário." A loira má disse invejosa e sem graça.

"Elas vão acabar se casando, espera só!" O velho do saco (murcho) disse em resposta e... Bem, e isso me fez pensar e me deu uma idéia.

"Ai!" A fresca da minha namorada reclamou quando esbarrei os dentes na sua boca (e talvez tivesse sido um corte e estivesse saindo sangue. O que posso fazer? Minhas epifanias não esperam para acontecer.) e isso é para vocês aprenderem a nunca beijar alguém sorrindo. A menos que vocês não gostem da tal pessoa, mas aí também não vão ter motivos para rir. Ou para beijar. Ou talvez tenham. De todo modo, fica a dica. "O que foi, Santana? Que aconteceu?" Bem, como eu já ouvi dizer que saliva fecha os cortes (talvez tenha sido um boato inventado pelo Drácula, vá saber), resolvi beijá-la um pouco e rir de minha idéia genial! Assustada por me ver tendo algum raro momento de paz, harmonia e felicidade depois de me juntar a esse desonroso grupo grotesco e narcótico, ela continuou. "Você está bem?" Assenti com a cabeça e beijei mais uma vez o seu machucado (o que posso fazer se sou uma garota boa de coração é que me importo com suas dores e pesares?) e talvez eu tenha chupado a sua boca (inocentemente, eu garanto), mas ela resolveu se afastar porque sentia medo de sua atração perigosa e ilimitada por minha pessoa. Entendi como era árdua a sua tarefa e resolvi compactuar com ela e ajudá-la nessa conquista. Até porque, eu tinha uma competição para vencer e uma menina para conquistar e o tempo não para! Me aprumei em caminho do palco e para minha serenata (novamente em minha marcha atlética porque, apesar de ter pressa, não sou pessoa pra ficar correndo por aí) como uma mulher em uma missão.

E, se eu estivesse disposta a tentar, a solução de todos os nossos problemas também estava ali.

...

Enquanto eu terminava de vestir minha blusa de frio (não era um suéter, antes que pensem que voltei ao meu antigo dilema), olhei para a loira ao meu lado, embolada com a quantidade de roupas que ela não sabia como vestir e sorri. Ela parecia tão adorável e virginal que até achei que as atividades que tínhamos acabado de engajar eram todas fruto da minha imaginação. Bem, resolvi ajudá-la, ou não sairíamos daquele carro hoje. Me sorrindo agradecida, vesti sua blusa branca antes e segurei sua camisa vermelha para que ela colocasse seus braços e se ajeitasse. Quando ficou pronta e satisfeita com o resultado, me deu seu sorriso meigo e um beijo na testa.

"Quem te vê agora, até duvida que você arrancou minhas roupas com tanta fúria." Revirei os olhos porque sou uma mulher justa e correta e nada naquele comentário corroborava com essas minhas qualidades.

"Na verdade, você se enrolou por um longo tempo enquanto quase rasgava suas roupas na pressa. E fez isso sozinha." Frisei bem o 'sozinha' para que ela soubesse que não, não adianta vir tentando me burlar porque eu tenho uma memória maravilhosa. Revirando os olhos, ela apenas se sentou e pulou para perto da porta do carro. Fui por imitá-la e fiquei do seu lado.

"Pronta?" Minha namorada me perguntou com uma mão na maçaneta e assenti com a cabeça.

"Quando é que Rachel Berry não está pronta?" Nunca, verdade seja dita.

"Não sei, mas viverei contigo por tempo o suficiente até descobrir." Me sorrindo abertamente, só me dei por concordar com sua afirmação e fui recompensada com um beijo doce e amoroso, daqueles que derretem a alma e o coração e não tem todo aquele apelo sexual dos beijos apaixonados. Suspirando, ela se afastou e ajeitou o meu cabelo. "Por mais que a gente se arrume, é como se tivéssemos escrito 'sexo' nas nossas testas." Ela comentou sorrindo.

"Pois é, nós nos afastamos chateadas e voltaremos sorrindo, acho que nem é tão difícil assim de adivinhar." Não é? Assentindo com a cabeça, ela continuou.

"Sobre isso, eu queria me desculpar profundamente contigo, baby. Eu sei que você e o Puck são melhores amigos há muito tempo e fico feliz por ele ser um bom amigo para você, juro que fico. E eu preciso controlar os meus ciúmes, não é?" Concordei com o que dizia.

"Precisa sim, Quinn, porque algum dia, as pessoas podem te interpretar erradamente e as coisas podem sair de controle de algum modo. Não sei, talvez alguém se aproveite do fato de você ter bebido e te agarre ou coisa parecida. E eu sei que perdôo a maioria das coisas, mas não é tudo." Ela abaixou a cabeça e assentiu, ainda olhando pra baixo.

"Isso nunca mais vai acontecer, Rach. Eu prometo que quando me sentir insegura, iremos conversar. Nós duas e só." Sorri para ela e levantei seu rosto segurando-a pelo queixo, até que voltasse a me olhar.

"É tudo o que eu te peço, blondie. Afinal de contas, não imagino como você pode se sentir insegura, mesmo sabendo que eu nunca, em hipótese alguma, te trocaria por outra pessoa."

"É, né? Melhor mesmo." Já mais leve, ela me sorriu aquele sorriso que faz a vida mais bonita e deixa o mundo cor de rosa, como em um daqueles romances antigos e dei-lhe uma cotovelada, para sua surpresa.

"Para quem não admitia nem que sentia ciúmes, essa é uma mudança e tanto." Revirando os olhos para mim, ela abriu a porta do carro e me deu um beijo rápido, pulando e me esperando sair em seguida.

"Vamos logo, baixinha, sabe Deus o que estão falando de nós." Nada como uma namorada romântica, não é mesmo, minha gente? Revirei os olhos e segurei sua mão, treinando minha saída com ela para os nossos futuros eventos no tapete vermelho quando, enfim, ganharei os prêmios pelo merecido reconhecimento do meu talento inconfundível. Me abraçando junto a ela, minha loira continuou. "Além do mais, eu estou preocupada com a Katie, a S. está super de cara com ela." Parei assustada em meus passos e olhei-a mais uma vez em surpresa. Eu tinha ouvido o que eu achava que tinha ouvido? Era isso mesmo? A Quinn estava preocupada com a minha melhor amiga (de quem ela não gostava) porque sua melhor amiga estava sendo o que costuma ser sempre? Minha nossa! Eu acho que perdi muita coisa ajudando o Noah a conquistar a Marissa mesmo...

"Como assim?" Vendo o real sentido da minha pergunta, ela se explicou, me puxando para voltarmos ao bar.

"Ah, a Katie é uma boa garota e a Santana... Bem, é a Santana." Muito boa a explicação e muito detalhada, vejam só? "Enfim, só acho que elas se fazem bem e queria que dessem certo." Balancei a cabeça em concordância, até uma dúvida me surgir em mente.

"Mas e a Britt? Você também é amiga dela, pensei que torcesse pelas duas..." Por mais que eu ame a minha melhor amiga, eu sei que a Santana tem uma história com a Brittany e sempre achei as duas muito bonitas juntas. Exceto quando elas brigavam, porque era preferível sentar e esperar o final do mundo a ver aquilo. Ou quando elas estavam apostando quem dormia com mais pessoas. Ou...

"Ei! Eu sei o que você está pensando nessa sua cabecinha cheia teorias aí. E te digo que não é isso. É óbvio que eu amo a B. e quero o melhor para ela sempre e estarei ao lado dela pelo resto dos meus dias. Mas nem sempre as coisas são o que parecem ser. Nem sempre nós acabamos com quem deveríamos estar pelos olhos dos outros. Quer ver um exemplo? Seria absolutamente esperável que eu terminasse com o Finn, já que, apesar de ele ter nascido sem cérebro, ele é aquele ideal de quarterbak, popular, meio bobo e até que passável. Ou até mesmo você terminar com ele, porque, além disso tudo, ele era o líder masculino que faria par contigo em uma dessas peças. Então, eu e ele poderíamos ser o típico casal de filmes adolescentes enquanto vocês dois seriam o casal dos romances melodramáticos, sempre sendo separados por uma líder de torcida má. No caso, eu." Ela me explicou rindo do que nosso destino poderia ter se tornado, caso fôssemos levar em conta o que os outros esperavam de nós e eu sorri encantada, nada como uma namorada inteligente, não é? "Então, é essa a minha visão sobre a S. com a B.. Claro que elas fariam um casal muito bonito, como fizeram sempre, em uma comédia..."

"Gay." Completei enquanto ela caçava palavras e seu sorriso agradecido me bastou.

"Exato, em uma comédia gay e todos torceriam por elas, para ficarem juntas no final. A menina doce e a... bem, e a Santana. Certo?" Assenti com a cabeça. "Mas as coisas mudam, as pessoas mudam e as necessidades também mudam, entende? Isso não muda o fato de que eu goste de cada uma das duas, mas eu conheço a San, Rach, e sei que, por mais que ela se encaixe no papel de protetora, ela nunca teve ninguém por ela e é bom que tenha. Eu acho que, no fundo, no fundo, ela sempre soube que a B. ficaria com ela até não ficar mais, por quaisquer que sejam os motivos. E acho que por isso mesmo que ela nunca assumiu nada e sempre saiu dormindo com todos por aí, porque ela tem trauma de gostar e de ser abandonada. Pensando nisso, do mesmo jeito que a B. é doce conosco e com você e com a S., ela trata a maioria das pessoas assim e isso não nos torna especiais, não nos passa nenhuma singularidade, mas faz dela especial e singular por ser bondosa assim, entende?" Assenti com a cabeça mais uma vez e minha loira cavalheira me puxou a cadeira para sentarmos numa mesa vazia. Olhando em volta, vi a latina em cima do palco, Meg e Katie no balcão conversando e Noah rindo e andando até nossa mesa e voltei meus olhos para a minha namorada. "E no fundo, nós só queremos ser especiais e amados pelo que somos e ter alguém pela gente. Sem máscaras, sem jogos e sem fingimentos." Com minhas mãos em seu rosto, beijei-a levemente e sorri.

"Como nós duas."

"Como nós duas." Ela me respondeu sorrindo e assentindo com a cabeça. Onde eu tirei a sorte grande de arrumar uma mulher como ela? Não sei. Só sei é que não vou rechaçar o meu destino.

"Bem, eu até comeria as duas, mas sou um cara comprometido." Revirei os olhos para o meu melhor amigo enquanto ele xingava por levar um soco merecido da minha namorada. "Credo, Quinn, eu estava brincando. Que horror!" Falou alisando sua injúria e então me caiu a ficha do que ele disse.

"Comprometido? Noah, você está namorando?" Perguntei depressa e batendo minhas mãos em felicidade. Suas feições traíam a calma que ele queria passar e levantei, abraçando-o.

"Opa, calma aí, superstar, não estou namorando ainda. Mas estamos quase lá. Ela é tão incrível."

"Parabéns para você e meus pêsames para ela." Minha namorada interrompeu o discurso feliz do meu melhor amigo com uma empolgação invejável.

"Er, bem, obrigado, Quinn, eu acho... Enfim, ela vai se transferir para o McKinley semana que vem, na segunda e vai tentar o Glee. Isso não é maneiro?" Concordei com a cabeça porque vê-lo feliz me deixava igualmente feliz. "E eu chamei-a para um encontro no sábado à noite e ela aceitou... Depois, acho que vou precisar da ajuda de vocês para arrumar um lugar legal para levá-la, pode ser?" Eu pulei de excitação e abracei-o pelo pescoço enquanto minha namorada dava de ombros.

"Claro, punk, pode contar conosco! Você vai conquistá-la em três tempos!" Nos cumprimentamos como nos tempos de criança e, ao fundo, ouvi um suspiro da Quinn que era parecido com 'azar o dela', mas deixei por isso mesmo. "Então, ela não vem aqui?" Me olhando embaraçado, ele negou com a cabeça.

"Não. Er, bem, na verdade, eu estou voltando lá que irei ensiná-la a tocar violão. Só vim aqui porque precisava dividir isso com a minha princesa judia!" Meio encabulado, culpado e feliz, eu abri meu sorriso mais que sincero para ele, porque sei que nós éramos e sempre seríamos importantes um para o outro. Tirando o fato de que os olhos da minha namorada estavam rodando na mesma velocidade de uma turbina de avião, tudo estava ótimo e nos abraçamos mais uma vez. "Obrigado pela ajuda, Rach." Ele sussurrou no meu ouvido.

"Melhores amigos são para isso."

Se afastando com um sorriso, nos cumprimentamos novamente e caímos na gargalhada (enquanto minha namorada resmungava algo parecido com 'então volta logo pra sua mulher e deixe a minha em paz', sempre com muita educação) e ele me piscou, antes de virar em seus calcanhares e seguir o conselho da minha loira ciumenta. Sorri para ela e, apesar de sua antiga e assassina postura, agora ela me olhava amorosa e pura felicidade. Mulheres, vai entendê-las.

"Vamos ver como a Tempestade vai terminar de enrolar a Kay aqui em seus dedos." Minha cunhada voltou com uma garrafa de vodca e mais alguns copos com gelo (e a essa hora, eu já entreguei aos céus sua saúde e o seu fígado, porque sinceramente, isso não é humanamente possível) e as duas se sentaram à mesa junto conosco.

"Como vocês duas estão, Katie? Ela falou contigo já?" Minha loira perguntou preocupada para minha melhor amiga que concordou com a cabeça e pegou um copo vazio, remexendo no gelo, até virar seus olhos para ela e suspirar.

"Bem, nós conversamos e acho que nos entendemos até, Quinn, obrigada por perguntar. Ela até me disse que ia cantar essa música para mim ou coisa parecida..." Ao terminar sua frase, todas na mesa gelamos e nos entreolhamos, deixando minha melhor amiga perdida. "O que foi?" Ela perguntou ainda olhando para mim e para Quinn e perdeu a outra loira ao seu lado enchendo seu copo. "Vocês acham que vai ser ruim, é isso? É melhor eu ir embora?" Levemente desesperada, Katie nos perguntou e minha namorada correu para convencê-la.

"Não, é claro que não. Eu realmente acho que ela vai cantar algo bacana." Foi a vez da morena em questão só arquear uma sobrancelha, fazendo com que minha loira sorrisse amarelo. Balançando a cabeça, ela voltou a olhar o seu copo, agora cheio de vodca e cerrou os olhos para Meg, que deu de ombros.

"Ora, Kay, eu acho que a Quinn está certa, mas vai que não é bem isso, né? Precisamos estar preparadas para tudo e, como dizem por aí, o seguro morreu de velho, não é mesmo? Além do mais, um copo a mais não vai te matar, credo! Eu estou bebendo desde cedo e ainda estou aqui." A dita loira sorriu orgulhosa e sua amiga virou os olhos, mas obedeceu-a, tomando um gole de sua bebida. "Agora sim, vamos ver o que virá!"

Como que por magia, Santana pegou o microfone e começou a apresentar-se e a introduzir sua canção.

"Meu nome é Santana Lopez e vocês já devem me conhecer. De todo modo, estou aqui para cantar para uma pessoa em especial." Olhando sua namorada, a latina terminou seu discurso e olhou a banda que, seguindo seu aceno se caça, começou a tocar. No exato momento, Quinn apertou a minha mão e olhamos para Katie, em dúvida do que sua namorada poderia lhe dedicar. Porque ninguém prevê uma tal de Santana Lopez. Numa balada bonitinha, a música não era das mais famosas, mas eu a reconhecia por tantos anos de estudos e, no mesmo momento que decifrei qual seria, olhei sorrindo para a minha namorada que soltou o ar dos seus pulmões e sorriu um pouco tímida e feliz por ver que sua melhor amiga não estava estragando tudo. Com o microfone em mãos, ela abriu os versos da canção.

"Everyone's changing, I stay the same
(todos estão mudando, eu continuo a mesma)
I'm a solo cello outside a chorus

(eu sou um solo de violoncelo fora do refrão)
I've got a secret,

(eu tenho um segredo)
It's time for me to tell it you've been keeping me warm

(é minha hora de dizer que você tem me mantido aquecida)"

Não sei o que poderia ter dado em nossa amiga latina, mas ela estava cantando com tanta felicidade que não nos contivemos e acompanhamos em palmas, volta e meia olhando para tentar decifrar as expressões de sua namorada. Coisa que não era difícil, já que o sorriso bobo colado no rosto da minha melhor amiga não sairia dali nem sob tortura. Ao reconhecer a música, até minha cunhada sorriu e bateu levemente nos ombros de sua melhor amiga e desarrumou os seus cabelos com as mãos, fazendo-a bufar de raiva e se levantar com seu copo na mão, indo em direção ao palco.

"To sweet beginnings and bitter endings
(para doces começos e finais amargos)
In coffee city, we borrowed heaven

(na cidade do café, nós pegamos o paraíso emprestado)
Don't give it back, I've never felt so wanted

(não dê pra trás, eu nunca me senti tão desejada)
Are you taking me home?

(você está me levando pra casa?)
You tell me you have to go...

(você me diz que precisa ir…)"

Levantei-me e puxei minha namorada comigo porque aquela música me deixava estranhamente mais animada, coisa com a qual ela pareceu não se importar e me acompanhou nas palmas, até puxar sua irmã pelo braço e desafiá-la a não fazer o mesmo (vejam vocês o poder de uma sobrancelha arqueada das mulheres Fabray, elas fazem milagres!), coisa que ela fez, mas sem deixar de revirar os olhos. Voltei a olhar o palco e Santana estava dominando-o com maestria enquanto olhava fixamente para uma Katie parada no balcão, de braços cruzados e de sorriso orgulhoso no rosto. A mesma que, ao ouvir o último verso da estrofe, balançou sua cabeça em discordância como se estivesse conversando com nossa amiga latina, fazendo-a sorrir ainda mais e levantar uma sobrancelha em sinal de interesse.

"In the heat of summer sunshine
(no calor do brilho do sol de verão)
I miss you like nobody else

(eu sinto a sua falta como ninguém mais sente)
In the heat of summer sunshine

(no calor do brilho do sol de verão)
I'll kiss you, and nobody needs to know

(eu vou beijá-la e ninguém precisa saber)"

Obviamente, nós rimos desse refrão porque se aquilo fosse algo, era mentira, já que essas duas se agarravam por todos os lugares e qualquer pessoa com olhos saberia que elas eram mais do que boas amigas. Sem deixar de sorrir, Katie se desencostou do balcão e caminhou ainda mais perto palco, parando em uma ou duas mesas de distância, ainda com seu copo na mão e sua outra mão no bolso. E bem, não só pela escolha de música da latina, sua apresentação estava maravilhosa por sua voz estar perfeita, tanto pelo seu alcance, por sua afinação, pela sua interpretação e por sua respiração estarem mais que corretas. Mas, principalmente, pela paixão que ela colocava em cada palavra singular, não apenas nos tocando, mas fazendo todo o bar se levantar e se juntar em palmas.

"Now that you've loved me there's no returning
(agora que você gostou de mim, não há como correr)
I keep comparing, you're always winning

(eu continuo comparando, você sempre está ganhando)
I try to be strong but you'll never be more wanted

(eu tento ser forte, mas você nunca será mais desejada)
Will you make me a home?

(você me dará um lar?)
Don't tell me you have to go...

(não me diga que precisa ir…)"

Tirando as palmas, os assobios e os gritos, todos prestavam rara atenção em sua apresentação e ela podia sentir isso, já que, além de cantar, resolveu interpretar a música e fazer expressões para minha melhor amiga, que sorria como se tivesse acabado de ficar rica. Bem, ela era rica, então... enfim! Como aquele casal já estava encaminhado, me virei para minha namorada e abracei-a, encostando minha cabeça em seu ombro sem deixar de prestar atenção naquele show. Noah estava lá na frente e era um dos mais empolgados clientes no bar, apontando para sua amiga cantora e gritando a segunda voz a plenos pulmões.

"To sweet beginnings and bitter endings
(para começos doces e finais amargos)
In coffee city, we borrowed heaven

(na cidade do café, nós pegamos o paraíso emprestado)
Don't give it back

(não mude de idéia)
Winter is coming and I need to stay warm

(o inverno está vindo e eu preciso me manter aquecida)"

Contente pela expressão de paixão de sua namorada, Santana, que estava pouco se lixando para o que o resto do bar fazia ou deixava de fazer, se vaiavam ou aplaudiam (sim, ela só parava de olhar minha melhor amiga quando piscava), desceu as escadas no palco e foi se aproximando de sua garota lentamente e silabando cada palavra para que ela entendesse o real significado de sua serenata. Ao terminar sua estrofe, já frente a frente com a Katie, ela abaixou seu microfone e beijou a menina ali, na frente de todo mundo, para incendiar ainda mais a platéia (todos que nos ouvem cantar, viram fãs, essa é a lei da vida) e sorriu para a expressão de desafio que a surpresa menina usava antes de se virar e correr para o palco para terminar seu show.

"In the heat of summer sunshine
(no calor do brilho do sol de verão)
I miss you like nobody else

(eu sinto a sua falta como ninguém mais sente)
In the heat of summer sunshine

(no calor do brilho do sol de verão)
I kiss you, and nobody knows

(eu te beijo e ninguém sabe)"

Obviamente, Meg comentou algo 'ninguém sabe no Japão, mas isso é só uma questão de tempo. Porque antes do sol nascer aqui, eles já estarão comentando por lá' pra me fazer rir e sua irmã só revirou os olhos (quem diria que, bem lá no fundo, Quinn Fabray seria uma romântica?) e voltou a sorrir com a música. Assim como Noah, que batia na mesa e cantava com orgulho, sempre olhando a sua futura namorada. E ela, bem, ela sorria doce para ele e parecia estar se sentindo bem ao lado do meu melhor amigo. E eu estava completamente feliz, todos pareciam estar tão bem e a piranha descabaçada não estava mais olhando a minha namorada (eu sei porque estava vigiando-a bem de perto) e Quinn parecia estar vendo um filme romântico, tamanho era o seu orgulho que estava sentindo daquelas duas. Se virando para a banda no palco e motivando-os a acelerar o ritmo de sua música, Santana perdeu sua namorada caminhando lentamente até o palco, depois de deixar o seu copo descansando em uma mesa pelo caminho.

"In the heat of summer sunshine
(no calor do brilho do sol de verão)
I miss you like nobody else

(eu sinto a sua falta como ninguém mais sente)
In the heat of summer sunshine

(no calor do brilho do sol de verão)
I kiss you, and nobody needs to know

(eu te beijo e ninguém precisa saber)"

Virando-se para fechar sua melodia, a latina então deu de tampas com minha melhor amiga parada e sorridente em sua frente. Ao vê-la, simplesmente revirou os olhos (vai entender esse relacionamento delas...) empurrou-a e marchou mais a frente no palco, passando sua frente e cantando com força os últimos versos para nós, que ríamos daquilo tudo, mais por felicidade do que por acharmos graça em si. Ao som de palmas e batuques de mesa, ela encerrou sua apresentação e virou-se na direção de sua namorada antes mesmo de a banda fechar os acordes e, deixando o microfone descansando em cima de uma caixa de som, ela beijou a vida fora do corpo da minha melhor amiga e pulou no seu colo, no centro do palco e arrancou ainda mais palmas. Eu aproveitei e me virei em minha posição para beijar a minha namorada também, não como aquelas duas, mas num beijo leve e apaixonado que deixou sua irmã mais velha revirando os olhos. Ao receber o meu sorriso favorito, me virei para o palco e pude ver que a latina já estava com seus pés firmes no chão e de mãos dadas com Katie fazendo mesuras teatrais em agradecimento aos clientes que estavam ovacionando-a. Quando se deram por satisfeitas, Katie motivou-a a deixar o palco e ambas vieram caminhando em nossa direção com sorrisos indiscretos nos lábios. Depois de serem paradas e abraçadas calorosamente por Noah, que ainda cumprimentou Santana e deu um leve tapa em seus ombros fazendo com que a, inacreditavelmente feliz e bem-humorada, latina o cumprimentasse de volta e revirasse os olhos (afinal de contas, ela ainda era a mesma pessoa) até recuperar seu balanço e marchar até nossa mesa.

"Ainda bem que ninguém precisa saber, porque se precisassem, eu tenho até medo de imaginar o que vocês estariam fazendo ali em cima." Meg saudou-as antes que se sentassem e Santana abriu a boca para respondê-la, mas Katie tapou-a, nos poupando de uma série de xingamentos viciosos. "Tudo bem, eu deixo porque fico feliz pelas duas, só tomem cuidado, okay?" Mais calma e sorridente, minha cunhada retomou e a latina relaxou consideravelmente no abraço de minha amiga.

"Obrigada, Meg, pode deixar que eu vou tomar cuidado." Katie respondeu e sua amiga assentiu com a cabeça e ameaçou andar na direção do palco, nos deixando a ver navios. Até dar um tapa no ombro de sua melhor amiga e sorrir pra ela.

"Vamos lá, Kay, como nos velhos tempos!" Uma piscada seguiu esse comentário e ela resolveu rumar na frente, deixando sua melhor amiga receber a descarga de ciúme de sua namorada. Ou melhor, de frieza. Porque tão logo libertou Santana, a latina só arqueou uma sobrancelha em sua direção que não dizia nada além de 'que diabos?'. Suspirei, ia começar tudo de novo...

"Eu já te disse que te amo hoje?" Minha sorridente namorada me salvou de assistir aquele ringue de luta livres inspirado na Guerra Fria e balancei a cabeça em negativa, porque certas coisas nunca são demais. Com a mão no queixo, ela pareceu pensar e repensar, até se dar por vencida e dizer. "Bem, eu tenho quase certeza de ter dito, mas nunca faz mal ratificar, não é?" Assenti com a cabeça e ela me sorriu doce. "Porque eu te amo, Rach." Como pode uma pessoa conseguir te derreter com uma frase que você já ouviu ser dita por tantas pessoas? Até mesmo por ela, mas a reação era sempre a mesma, sempre com borboletas, coração acelerado, nó na garganta, respiração entrecortada, mãos suando e tudo mais o que possa acompanhar.

"Pra sempre?" Perguntei logo depois de murmurar um 'eu também te amo' em resposta.

"Para todo o sempre, baby." Ela me disse, linda, antes de me abraçar e beijar a minha testa.

"Amém." Santana completou a conversa rindo e se sentando na mesa ao lado de sua namorada enquanto era babá de um copo. Revirei os olhos com um sorriso e minha namorada bufou. "Q., você e o hobbie podem sair da frente porque vocês são insignificantes, mas não invisíveis." Eu gargalhei em resposta, o que impediu minha namorada de dar-lhe uma resposta atravessada. Mas acabamos obedecendo a seu meigo e delicado pedido e saímos de seu campo de visão, nos sentando nas cadeiras. "Então, eu fui maravilhosa ou perfeita?" Sua pergunta foi retórica, então nem nos demos ao trabalho de respondê-la, apenas nos entreolhamos e suspiramos. Porque as últimas duas apresentações de hoje trouxeram algo para nós, bom e ruim, na seqüência. A minha com o Noah, me deu uma bela de uma dor de cabeça com a Quinn e com a puta dadeira sem vergonha; a da Santana tinha nos trazido alegria e certa paz de espírito. E agora faltava a da Meg.

Bem, só restava torcer para que ela não trouxesse coisas tão desastrosas quanto a minha me trouxe, mas algo me dizia que isso seria só um desejo mesmo...

...

"Boa noite, minha gente! Quem vem a esse bar, com certeza me conhece porque sou uma das poucas freqüentadoras que o mantém funcionando, não é, Joe?" O endereçado homem só se pôs a revirar os olhos e sorrir. "Exatamente, não venha se fazendo de sonso porque eu gastei mais dinheiro aqui do que na minha faculdade. Então, nada mais justo do que tratar a sua melhor cliente com amor e carinho." Meg então piscou para o homem que arqueou uma sobrancelha em sua direção, mas nada disse. "Pois vejam vocês, depois de alguns anos, aqui estou de novo para cantar na parceria de uma desagradável amiga, Katie Spencer. Não, não batam palmas para ela porque ela não merece esse tipo de coisa." A loira disse piscando pra sua melhor amiga que se levantou e cruzou os braços, em uma postura séria. Sua namorada latina apenas balançou a cabeça vendo a interação entre as duas, assim como sua melhor amiga, Quinn. Rachel estava ocupada demais vendo seu amigo caminhar para a mesa e sentar-se com elas, cochichando algo sobre a Marissa e dizendo que ela estava louca para conhecer o 'grupo de mulheres que batiam em homens e dominavam o local'. Sua melhor amiga, obviamente, riu e deu-lhe aval para convidar sua futura namorada para uma noite de festa no 'especial Berry'. O menino, mesmo não sabendo do que se tratava (coisa que nem a própria anfitriã sabia), apenas sorriu e concordou num balanço de cabeça, afinal, o espírito era aquele, não era? "Mas o que se pode fazer? A gente tem que passar por certas coisas na vida e o meu karma tem nome, sobrenome e está demorando a pegar um microfone." A voz da loira cortou novamente toda a conversa e sua amiga, sabendo que era requerida, cochichou algo no ouvido de sua namorada (que revirou os olhos, mas isso também é um pleonasmo) e caminhou até o balcão, pedindo microfones para o dono do lugar. "Ótimo, agora podemos continuar. E preparem-se, porque é dia de rock, bebês!" Motivando a banda a começar os acordes, a loira nem esperou sua amiga subir ao palco e pôs se a cantar (depois de alguns segundos fitando o guitarrista que lhe parecia estranhamente familiar. Não dos tempos da escola, mas de qualquer outro lugar) ainda no ritmo e abrindo a música.

"Pressure, pushing down on me
(pressão, me puxando para baixo)
Pressing down on you, no man ask for
(te empurrando para baixo e ninguém pede por isso)
Under pressure that brings a building down
(sob a pressão que derruba um edifício inteiro)
Splits a family in two
(parte uma família ao meio)
Puts people on streets

(coloca pessoas na rua)"

Cantando com muita força e potência vocal, sua voz em nada parecia com a meiga voz de sua irmã mais nova e esse fato deixou todos os amigos boquiabertos. Exceto por sua dita irmã, que sabia e se recordava muito bem do quão boa sua loira era quando cantava, sendo apenas acompanhada por seu piano e pelo baixo de seu ex-namorado. Isso, entretanto, não impediu sua namorada de arregalar seus olhos e puxar as mangas de sua camisa, como quem pergunta 'é isso mesmo que estou ouvindo?', para a qual ela só se deu ao trabalho de assentir com a cabeça e sorrir. Afinal, sua irmã costumava ser líder do coral, então era esperado que ela tivesse conhecimento musical. Seu único problema e a maior questão para que ela fizesse a segunda voz na banda que dividia com sua melhor amiga, era a questão do álcool e do fumo, que a impediam de cantar continuamente, por isso, ela acabava cantando música ou outra. E, para piorar seu quadro, depois do fim de seu 'casamento', com ainda mais bebida e cigarro, ela acabou se afastando ainda mais do microfone principal. Coisa que aqui, de volta para sua casa e com sua família (de sangue ou consideração, como o Joe e a Katie), ela pretendia mudar. Falando em sua melhor amiga, a morena pegou um dos microfones sem fio disponíveis e o ligou, caminhando lentamente para o palco para, dessa vez, fazer a segunda voz.

"That's OK
(Tudo bem)"

Enquanto a loira cantava por sua vida, Katie incrementou a música com calma e suavidade.

"It's the terror of knowing what this world is about
(é o terror de saber a que ponto chegou o mundo)
I'm watching my good friends screaming
(estou vendo alguns bons amigos gritando)"

Nem Rachel Berry poderia falar que aquela música não tinha alma, porque, diferente das apresentações leves e das músicas doces que foram cantadas anteriormente, Meg estava lá em cima do palco dando uma corrida pelo dinheiro que colocaria a própria Janis Joplin em uma posição desconfortável, caso não se empenhasse nessa disputa. A loira cantou com força e garra olhando, ora para sua irmã, ora para sua melhor amiga, ora para o dono do bar – cujo falecido marido era um dos maiores fãs de Queen que o mundo já viu e a cliente loira sabia disso – que tinha os olhos lacrimejantes e ora para o guitarrista, que ela sabia que conhecia de algum lugar.

"( "Let me out!")
('Deixe-me sair!')"

Ainda com sua pose austera, sua melhor amiga completou, dessa vez, parando na frente do palco e cruzando os braços em seguida, desafiando sua melhor amiga a dar ainda mais de si e se libertar das correntes que a prendiam.

"Pray tomorrow takes me higher
(rezando para que o amanhã me leve além)"

Meg ,então, sorriu e seguiu com a música demonstrando o empenho e a fé que sua amiga a suplicava, mudamente, com os olhos.

"Chippin around, kick my brains around the floor
(dando pontapés por aí, chuto meu cérebro pelo chão)
These are the days it never rains but it pours
(esses são os dias que nunca chovem, mas transbordam)"

Já mais relaxada, a cantora bradou enquanto caminhava pelo palco e olhava brevemente para todos os clientes no bar, ainda com um sorriso nos lábios. Voltou seus olhos para o dono do botequim e, num aceno de mão, dedicou aquela estrofe a ele que, assim como ela, tinha levado a vida em diante, dia após dia, mesmo sem a sua pessoa ao seu lado, assim como ela, mais uma vez.

"People on streets
(pessoas na rua)
People on streets

(pessoas na rua)"

A mesa com seus amigos ainda observada sem pronunciar uma palavra que fosse e nem esboçar reação, mas ela estava ali para abrir a sua vida sem esperar nada em troca. Por isso, depois de uma breve troca de olhares com sua amiga, ela seguiu com cantando e dominando o palco, como sua cunhada sabia fazer bem.

"It's the terror of knowing what this world is about
(é o terror de saber a que ponto chegou o mundo)
I'm watching my good friends screaming
(estou vendo alguns bons amigos gritando)"

Mais uma vez e ainda mais forte, Meg cantou e esperou sua parceira de dueto completar sua estrofe. Coisa que ela fez enquanto dava a volta pela frente das mesas e se encaminhava para subir o palco.

"( "Let me out!")
('Deixe-me sair!')"

"Praying tomorrow will take me higher and higher and higher and higher
(rezando para que o amanhã me leve além e além e além e além)"

Olhando para a sua irmã e sorrindo, a loira continuou sua canção em sua homenagem, que sempre acreditava no amanhã e não tinha desistido de viver sua vida, mesmo depois de ter perdido sua filha.

"Turned away from it all like a blind man
(dei minhas costas para tudo isso como um cego)
Sat on a fence but it don't work out
(sentei-me num muro, mas isso não funcionou)
Keep coming up with love but it's so slashed and torn
(continuo seguindo com amor, mas ele está tão cortado e distorcido)
Why?

(por que?)"

Entrando por trás de sua melhor amiga, Katie subiu ao palco e acompanhou-a na estrofe, dando um ar mais melódico a voz mais forte da cantora. Olhando sua namorada latina, a menina só acenou com a cabeça pra que eles executassem o plano que haviam tramado. Santana, então, virou-se para seus amigos (ou karmas, como ela diria) e comunicou-os o que se seguiria. Para alegria de todos os presentes.

"Why?
(por que?)
Why can't we give ourselves one more chance?
(por que não podemos nos dar mais uma chance?)
Why can't we give love that one more chance
(por que não podemos dar ao amor aquela outra chance?)
Why can't we give love?
(por que não podemos dar amor?)
give love

(dar amor)
give love?

(dar amor)
give love

(dar amor)
give love

(dar amor)
give love?

(dar amor?)"

Meg continuou sua música sem nem ao menos perceber as trocas de olhares entre todos e cantou com tanta dor e empenho que o ar ficou suspenso. Para todo novo começo, era preciso um antigo fim e era aquilo que aquela apresentação estava significando para ela, esquecer o passado, os dramas e confusões e começar a vida novamente, ao lado de bons amigos. Isso explicava as lágrimas que a loira rebelde tinha nos olhos ao final de sua estrofe e que foram delicadamente enxugadas pelos dedos e sorriso de sua melhor amiga.

"Cause love's such an old fashioned word
(porque o amor é uma palavra tão antiquada)
And love dares you to care for the people on the edge of the night

(e ele nos desafia a nos importarmos com as pessoas no meio da noite)
And love dares you to change our way of
(e o amor nos desafia a mudar nosso modo de)
Caring about ourselves
(nos importarmos conosco)
This is our last dance
(essa é a nossa última dança)
This is our last dance

(essa é a nossa última dança)
This is ourselves

(esses somos nós)"

Ainda olhando para a menina se desfazendo em sua frente, Katie segurou seu queixo e lhe sorriu amorosamente cantando e segurando sua mão. Quando se deu por satisfeita ao ver um sorriso pequeno e sincero nos lábios de sua melhor amiga, a morena em questão a rodou pelo palco e segurou sua mão com força, mostrando apoio antes de deixá-la seguir com sua canção.

"Under pressure
(sob pressão)

Pushing down on me, pushing down on you

(me puxando para baixo, te puxando para baixo)
Under pressure that brings a building down

(sob a pressão que destrói um edifício inteiro)
Splits a family in two
(e parte uma família no meio)"

Coisa que a loira fez e, mais uma vez, chocou a todos com uma voz limpa e forte que alcançava notas que muitos cantores profissionais teriam dificuldade. Por estar cantando a estrofe unicamente para sua amiga, Meg não viu que o resto de seus amigos já estava cada um o seu próprio microfone e se encaminhava para o palco, para se juntar a elas.

"Under pressure
(sob pressão)"

Como estava no script, a cantora subiu ainda mais uma nota em seus gritos e apenas olhou em expectativa para sua amiga, que negava com a cabeça e olhava para depois dela, para a trupe que havia se formado e subia o palco para mostrarem que, mais uma vez, eles estariam juntos todos. Infelizmente, a inglesa não esticou os olhos longe o suficiente para a entrada do bar, ou ela saberia que eles teriam uma companhia desagradável e perigosa que escondia o rosto em um boné vermelho. Não, aquele momento era de comemoração e ela estava ocupada demais beijando a testa de sua melhor amiga, que se afastou depressa, com medo de interrompê-la e ver sua amiga errar o tempo de entrar na música. Mas bem, a loira não foi muito longe e acabou presa no meio abraço da morena.

"Cause love's such an old fashioned word
(porque o amor é uma palavra tão antiquada)
And love dares you to care for the people on the edge of the night

(e ele nos desafia a nos importarmos com as pessoas no meio da noite)
And love dares you to change our way of
(e o amor nos desafia a mudar nosso modo de)
Caring about ourselves
(nos importarmos conosco)
This is our last dance
(essa é a nossa última dança)
This is our last dance

(essa é a nossa última dança)
This is ourselves

(esses somos nós)"

Se afastando de sua amiga, Meg se virou e viu sua irmã subindo e trazendo todo o seu grupo de amigos consigo seguida por Rachel (o que também é um pleonasmo, já que elas nunca se separavam e vocês podem dizer), Santana e Noah dava o grave da música. Depois de receber um abraço apertado de sua irmã que, nem assim deixou de cantar, a loira então balançou a cabeça em descrença e deu um passo em frente, seguindo com suas partes e deixando seus amigos logo atrás, mostrando o apoio e o suporte de que ela precisava.

"Under pressure
(sob pressão)"

Ao que ouviram os gritos de libertação da loira, os jovens a fecharam em um semi círculo, com sua melhor amiga de um lado e sua irmã de outro. Todos cantando e com as mãos em seu ombro.

"Caring about ourselves
(nos importarmos conosco)
This is our last dance
(essa é a nossa última dança)
This is our last dance

(essa é a nossa última dança)
This is ourselves

(esses somos nós)"

Rachel tomou a frente da última estrofe e mudou o ar melódico imposto por sua melhor amiga, transformando a música em uma balada mais pesada, assim como a vocalista, enquanto os outros tratavam de harmonizar atrás. Olhando sua cunhada, Meg abraçou-a também e deixou que seus amigos terminassem aquela apresentação de tirar o fôlego por ela. Assim como eu falei, o show foi tão surreal que só depois de alguns segundos que a banda fechou a melodia que as pessoas saltaram em seus pés e bateram palmas por suas vidas, com um empenho visto em concertos de ópera e bandas famosas. Os amigos, absortos em tamanho carinho recebido, se abraçaram coletivamente (deixando a loira mais velha no meio, ou jogando-a no centro, pra ser mais verídica e sincera) e fizeram uma fila indiana olhando para a clientela que, por cinco vezes no mesmo dia, foi ao delírio. Ora por terem a sorte de presenciar bons números musicais e ora por se verem inseridos em barracos repentinos que, aparentemente, seguiam esses adolescentes. Ao terminarem suas mesuras sorridentes, todos respiraram aliviados e estavam prontos para voltar a sua mesa (não que eles tivessem algum lugar marcado, já que todos cirandavam sentando-se em bancos, cadeiras ou no chão – esse foi Noah – e faziam aquele restaurante parecer mais uma sala de estar do que um estabelecimento comercial) e seus aconchegos. O menino estava envergonhado e se entreolhando com a irmã do guitarrista, logo, não era difícil presumir aonde ele iria se sentar. Rachel e Quinn estavam abraçadas e com as mãos na cintura uma da outra, o que quer dizer que a noite terminaria com a diva sentada em cima da HBIC em algum lugar que não era tão importante assim. Katie e Santana ainda estavam no palco com Meg e aquele casal, sim, era difícil de prever onde terminariam e/ou fazendo o quê. Só que não naquela noite e não com a companhia de última hora.

"Katie! Há quanto tempo estou querendo te ver." Foi a voz grossa do rapaz de boné vermelho e roupa escura cortando o ambiente e fazendo todos se entreolharem. Exceto Santana, que cotovelou as costelas de sua namorada e lançou dardos com os olhos para aquele rapaz. Quando levantou a cabeça, foi que as duas amigas mais velhas descobriram de quem se travava e do porquê da visita repentina. "Hum, deixe-me ver... Há exatos quatro anos. Uma vida, não é?" O menino sorriu torto e o bar ficou calado. "Acho que temos assuntos não resolvidos." Sua frase foi sombria, mas o que mais assustou o grupo foi o fato de as duas meninas mais velhas estarem em estado de choque, como se estivessem vendo um fantasma, coisa que ele não era. Fatalmente.

"Como você sabia que eu estava aqui, Morgan?" Katie perguntou enquanto sinalizava com a cabeça para Joe fechar as saídas.

"Ora, Katie, eu tenho alguns bons contatos que tem entrada vip para tudo, sabia? E o que aconteceu com o 'Scott'? Não somos mais amigos, é isso?" O menino perguntou sarcástico e olhou firme para a garota. "Assim você parte o meu coração..." Completou em falsa tristeza e balançando a cabeça.

Como as coisas que mudam nossas vidas costumam acontecer, em menos de três segundos, o resto daquele encontro se desvendou. Sem saber que sua namorada ainda estava no palco, Katie contou que os clientes e barmans do restaurante iam conseguir pegá-lo, mas seu furacão latino foi mais rápido. Saindo de trás do corpo de sua namorada, Santana ameaçou marchar na direção do inconveniente rapaz. E é como acontece muitas vezes conosco e as coisas acabam escapando de nossos dedos, porque foi o que aconteceu, mesmo tentando puxar sua namorada, ela não pôde fazer isso a tempo.

Um disparo e o fim de tudo. Uma garota no chão e a outra também. Por motivos diferentes.

O barulho deixou o bar em silêncio e, resmungando por seu erro, o assassino fugiu pela porta da frente ao se aproveitar da surpresa que mortificou os outros homens encarregados de contê-lo e logo se jogou no carro que o esperava.

"Santana!" Katie gritou quando segurou sua namorada nos braços.

Noah correu pela porta e viu o bandido fugindo, atirando para trás e entrando em um carro. Sem pensar duas vezes, ele pegou um dos carros que estava estacionado na frente do bar (afinal de contas, roubo de automóveis já não era nem mais crime, era?) e fez ligação direta até conseguir colocar o carro na estrada e na cola do desgraçado. Porque ele tinha se atrasado mais uma vez e a culpa era dele novamente.

Rachel e Quinn também tiveram a mesma idéia. Exceto pelo crime, já que a loira estava com a chave do carro de sua irmã e tão logo seguiram Noah e o menino. Ciente de que ela precisava dirigir como nunca, a ex-líder de torcida também sentou o pé no acelerador enquanto sua namorada ligava para Brandon, para o hospital, para o pai da latina, para sua sogra, para a polícia, para o chat-amizade e mais qualquer número que cruzasse sua mente. Vendo sua namorada correr como uma profissional, a diva precisava se ocupar com algo antes que ligasse até para seus pais (o que faria com que ela ficasse órfã em plenos dezessete anos. Gays conseguem ser tão frescos...), mas logo descartou essa idéia e abriu o porta-luvas de sua cunhada, sem nem saber o que procurava exatamente. Talvez ela não quisesse uma arma prateada de calibre .38 (enquanto ela tentava relembrar os tempos em que jogava 007 com seu melhor amigo, porque o nome daquela arma estava na ponta da língua!) e, sem nem imaginar por qual motivo sua cunhada teria uma daquelas, ela resolveu engatilhá-la, assustando sua namorada. Estava carregada, então ela teria um pente para derrubar três pessoas (ela fez as contas e, como tinha visto o menino se lançar no banco traseiro, imaginou que o carro de fuga tivesse um co-piloto) e era o momento de fazer valer seus troféus no CoD (call of duty). Por isso, ela mirou se pendurando na janela aberta do carro. E se a diva havia contado a quantidade de pessoas e traçado uma estratégia de ataque, ela tinha se esquecido de contar com a metralhadora sendo descarregada em seu carro. O que foi uma infelicidade, já que ela sempre soube, desde nova, o quanto um erro pode custar.

"Eu preciso de uma ambulância, ligue pro 911!" Katie gritava desesperada para quem tivesse ouvidos e sua amiga foi a única que teve coragem o suficiente para obedecê-la. Mas ela sabia que não daria tempo. Um tiro no peito pode causar tanto estrago que a única salvação no momento era uma ambulância via vassoura voadora. Ou helicóptero. Por isso, largando as compressões que evitavam que sua namorada entrasse em fibrilação, ela se virou para sua melhor amiga. "Eu quero que você a mantenha aquecida e que cuide dela pra mim, Meg. Eu preciso que faça isso..." A loira, sentindo o desespero de sua melhor amiga, apenas assentiu com a cabeça e voltou a estancar o sangue. "Você precisa mantê-la viva, Meg, ou não vai adiantar nada. Nada... Eu sei que a bala já saiu, mas ela vai precisar de uma operação para fechar o buraco e conter os possíveis danos internos. Certo? Se lembre de dizer isso aos médicos, okay?" A loira mais uma vez concordou porque se sentiu impotente demais com toda a situação. E sabendo que sua melhor amiga ia receber uma proposta de casamento pela menina que tinha morrido embaixo de suas mãos, ela voltou a chorar. Por um motivo completamente diferente do de quando se emocionou ao cantar sobre recomeços, apesar de tudo. Antes de ir, Katie ainda se aproximou da latina e beijou sua testa. "Eu vou te achar e te trazer de volta, onde quer que você esteja, Santana. Eu te prometo. Só me espera, por favor, é só o que eu te peço."

Era para ser um novo começo, mas lá estava ela, rezando e pedindo pela vida de uma pessoa morta em seus braços. E estava sozinha de novo. Mas ela se prometeu que não faria isso com sua melhor amiga novamente. Por isso, diferente do Raffe, Santana ia viver nem que ela passasse o resto de sua vida estancando sangue e fazendo massagem cardíaca. Ela tinha um casamento para planejar (mesmo que sua amiga ainda não estivesse por dentro dos planos das duas, ela aceitaria. Isso era um fato.), afinal de contas, ela era a madrinha e ele precisava de uma das noivas para acontecer.

'I'm gonna close my body now.' - Madonna