Arcane

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Ele não quis aceitar quando Naruko o convidou para sair. Não é nada como namorados, é apenas para conversarmos...sobre Menma. E quando ela pronunciou o nome da amiga, Yadomi a viu piscar com força, como se apenas o nome dela já trouxesse memórias dolorosas. Mesmo assim, ele não planejava comparecer ao encontro, seria estranho demais e ele simplesmente não saberia o que dizer.

No dia marcado, ele apenas saiu de casa para dar uma volta e respirar ar fresco outonal, e seus pés o levaram ao parque que eles frequentavam quando eram menores. Quando Yadomi deu por si, Naruko já estava acenando discretamente para ele. Droga. Seu orgulho era muito grande para admitir que ele nunca deixaria a amiga esperando em vão.

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Eles não trocavam palavras. Aquela estação era um tanto sem cor, e Yadomi achava que isso contribuía para que eles estivessem tão fechados. Era como se o silêncio fosse um elemento constante entre eles, que os rondava junto de suas sombras e que não se cansava nunca.

Naruko fitava o chão, balançando os pés para um lado e para o outro, tentando seriamente ser sensata e escolher com cuidado as próximas palavras. Mas eram tantas e tão fortes as coisas que ela pensava em dizer, que apenas nada dizia, recuando para o silêncio toda vez que formulava uma ou duas frases. Yadomi, do contrário, realmente não queria dizer nada. Ou talvez quisesse, mas lhe faltavam as forças. Ou talvez essa só fosse a sua desculpa preferida.

Ele não aguentou, contudo, a pressão do momento. Ele sentia a respiração pesada da amiga ao seu lado e entendeu como se ele fosse o culpado disso. Precisava dizer algo, então. Ao menos para tentar demonstrar a Anaru que ela podia dizer o que estava pensando e que não havia necessidade de subtrair todas as palavras que enchiam sua boca.

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"Ela faz falta para todos nós."

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Ele nunca fora muito bom com as palavras.

Naruko tentou sorrir. Mas Jintan parecia tão distante, mesmo não fisicamente, que talvez não tenha visto. Mas ela estava agradecida, mesmo assim. Ele notara o desconforto em que ela estava e gentilmente tentou abrandá-lo da maneira que podia. Ele era um líder ainda, e um bom líder.

Yadomi suspirou. Ao longe, ele observava uma frágil cerejeira quase desfolhada, com as poucas remanescentes bem afastadas umas das outras. Ele as contou; precisamente seis. Ele suspirou novamente, sobre todas as coincidências aterradores que lhe aconteciam.

São as coisas que nós não dizemos que ficam entre nós, ela pensou. E certamente havia muitas coisas não ditas, pois ela mal conseguia reconhecer entre eles a amizade que tinham um pelo outro como antes. É possível que este sentimento tivesse ficado trancado no passado, quando tudo era mais simples e o céu estava a um pulo de distância.

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E é possível também que estivesse tudo nas entrelinhas. Tudo amarrado às coisas que eles silenciavam no decorrer dos anos e aos encontros que não existiam mais. Eles ficaram presos numa forma de não-dizer, mas ainda sentiam tudo o que ficava subentendido. Era como se suas vidas fossem metáforas veladas.

Subitamente, Naruko cruzou a distância que os separava e segurou a mão de Yadomi. Ele se assustou por um momento, mas depois pareceu entender. Eles eram dois que não falavam muito bem por palavras.

Uma das folhas caiu da árvore e flutuou levemente até pousar no chão.

Ela só queria vê-los juntos.


I'm going to read between the lines
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