di[e]ce © Naked Ape.


Geralmente, quando têm a opção, as pessoas preferem ter alguém ao seu lado no ato final, seja por medo de encontrar nada além do nada do outro lado ou apenas para tornar a experiência um pouco menos solitária. Não tive essa escolha, de dizer ou não quem deveria estar do meu lado no fim.

"Vou alcançar você daqui a pouco," ele disse, logo antes que fosse embora, e eu já podia até sentir o gosto salgado das lágrimas na ponta da língua. Ele estava me deixando. De novo. Quis vomitar. Sal e dor e uma infinidade de sentimentos que ora pulsava com uma intensidade excruciante dentro de mim, ora ia embora e fazia com que me sentisse oco.

Antes que o sabor do sangue chegasse à minha boca e eu perdesse a consciência de vez, enxerguei aquele rosto, que era tão parecido com o meu, mas envolto por cabelos loiros impecavelmente arrumados. Algo nos olhos de Haruki estava estranho e desconhecido para mim, mas não tive tempo de definir exatamente o quê.

A sensação de morrer, ao contrário do que muitos pensam, não é boa nem é ruim. É a sensação do nada, apenas. Nada de sons, sabores, cores, aflições, cheiros dos instantes anteriores ao derradeiro. O corte da lâmina cravada em meu peito, que fez o sangue quente sair (contrastando muito com o frio que senti e que me fez tremer violentamente), já não dói mais.

Quando dei por mim, não estava entendendo mais nada. Deveria ter morrido, não? Assim sendo, o que estava fazendo vivo e deitado numa cama de hospital? E ainda por cima, sem qualquer evidência física do ataque que – até onde eu sabia – tinha tirado minha vida? Era uma situação completamente ridícula.

Não bastasse quase todas as pessoas com quem eu costumava passar meus dias estarem mortas ou desaparecidas, Haruki não estava em lugar algum. E aparentemente, eu teria de matá-lo para pôr um fim a esse jogo ridículo de matar ou morrer no qual nós dois fomos impiedosamente envolvidos. Não, eu jamais poderia fazer isso. Nunca seria capaz de ceifar a vida daquele que me fizera companhia durante tantos anos.

Não me importava o número de vezes em que eu teria de morrer até que fosse a hora certa – mesmo porque Haruki também não me mataria, certo? –, mas eu queria que ele vivesse. Mesmo que todas as evidências da minha vida e da dele tivessem sido completamente apagadas e nós dois nunca tivéssemos existido para o resto do mundo.

Afinal, somente um rei poderia matar outro rei. E eu, definitivamente, não iria matá-lo. Certo?


[N/A] Não faço a menor idéia, de novo.
Comecei a ler esse mangá há mais de um ano e nunca terminei. Estava fuçando uns cadernos velhos e achei essa fic. E só.

Reviews? ;)