Uma continuação que escrevi para a fic Ripples, da autora Yellow Flash, que traduzi para o português.

Pra quem não conhece, aconselho sua leitura primeiro

Espero que gostem!

dai86


Ciúmes num romance é como sal na comida. Uma pitada pode realçar o sabor, mas em exagero pode estragar o deleite, e, sob certas circunstâncias, pode representar risco de morte.

- Maya Angelou


Capítulo 1

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Sasuke relaxou contra o tronco da árvore, fechando os olhos diante da sensação da brisa contra o suor em seu rosto. Depois de anos treinando com Orochimaru, não era qualquer exercício que conseguia fazê-lo suar, mas ter seu chakra selado realmente tendia a dificultar um pouco as coisas. Para um shinobi era quase como ser privado de um de seus sentidos.

Suigetsu por sua vez parecia bem esgotado pra alguém que lutou contra um shinobi sem chakra. Mas ninguém duvidaria que Sasuke, ainda que sem chakra, era um oponente extremamente difícil.

E, ao que parece, Tsunade também tinha consciência disso, a julgar pelas assinaturas de chakra que Suigetsu podia sentir nas proximidades.

Estirado na grama, o homem de cabelos branco tomou mais um gole de sua garrafa d'água. "Keh! Quando é que eles vão nos liberar das babás? Já faz meses! Ei, Sasuke, não te incomoda essas sombras te seguindo o dia inteiro?"

"Hn," Sasuke levantou os ombros quase imperceptivelmente parecendo não se importar. Levando-se em consideração que até pouco tempo atrás ele era um nukenin, e que admitiu abertamente à Hokage ter tido intenções sérias de atacar Konoha – sem contar o fato de ter assassinado todos os membros do Conselho (ainda que com consentimento de Tsunade) –, ter seus passos vigiados pela ANBU parecia uma medida razoável, até mesmo branda.

A falta de reação do companheiro arrancou uma risada de Suigetsu. "Cara, quem te viu, quem te vê. Nunca imaginei que você ficaria tão calmo com o chakra selado e sob vigilância constante. A princesa deve estar te deixando muito feliz pra você não se importar com toda essa palhaçada."

Apesar de não esboçar nenhuma reação, algo na expressão de Sasuke deve ter entregado seu contentamento diante da lembrança de cabelos rosa e olhos verdes, porque Suigetsu riu ainda mais alto antes de anunciar que Uchiha Sasuke estava oficialmente 'encoleirado'.

Ignorando o olhar estreitado do moreno, Suigetsu continuou com a 'sessão provocação'. "Mas é melhor você ficar esperto. Pelo o que percebi a princesa é muito popular por aqui."

Depois de tomar outro gole d'água, ele percebeu que Sasuke o encarava como se esperasse uma explicação pelo comentário irritante. Lançando aquele típico sorriso malicioso, continuou a provocar o amigo. "Você não reparou como os homens olham pra ela por aqui? E não tô falando só daqueles olhares pervertidos que ela recebia quando estávamos viajando. São esses olhares melosos do tipo 'quero casar com você e ser pai do seus filhos'." Suigetsu soltou uma risada de escárnio. "O tipo que aquele maluco de macacão verde sempre tem estampado no rosto quando vê a princesa."

Sasuke sabia exatamente do que Suigetsu falava. Ele, mais do que ninguém percebia esses olhares, e fazia questão de retribuir com seu olhar que transmitia uma mensagem alta e clara - 'continuem olhando assim pra ela e garantam uma morte prematura. '

Sakura simplesmente revirava os olhos diante do comportamento possessivo de Sasuke. 'Paranóico', foi como ela lhe chamou. Honestamente, a atitude da garota era profundamente irritante. Ela parecia ignorante do evidente efeito que tinha sobre a população masculina da vila. E essa ingenuidade toda apenas parecia torná-la ainda mais atrativa aos olhos desses imbecis.

"As pessoas só estão sendo gentis, Sasuke. Eu já cuidei ou tratei de amigos ou familiares de praticamente todo mundo por aqui, e eles gostam de demonstrar gratidão." O Uchiha já conhecia de cor todas as explicações que ela dava para os sorrisos, acenos e presentinhos constantes que recebia. 'Gratidão,... sei.'

Mas ao menos ele podia sentir uma pequena satisfação no fato desse assédio parecer ter diminuído consideravelmente desde que o relacionamento deles se tornou público. Mas era um pequeno consolo, considerando que os olhares persistiam, só que de forma velada.

"Mas acho que se depender da princesa, você pode ficar tranqüilo. Seja lá por que razão, ela parece só ter olhos pra você. Vai entender..." apesar do tom de provocação de Suigetsu, o comentário tinha a clara intenção de apaziguar seu companheiro, o que realmente não era do feitio dele. Sasuke olhou desconfiado, como se aguardasse o bote de um predador.

"Se bem que tenho que admitir, você é mais boa pinta que o ex-namorado dela... não que eu entenda dessas coisas, é claro."

E eis o golpe baixo. É claro que apesar do tom indiferente, Suigetsu sabia exatamente o impacto que este pequeno comentário causaria. Sasuke ignorou completamente a intenção maliciosa do amigo diante da surpresa da informação até agora desconhecida.

Sakura tinha um ex-namorado?

"O que você disse?" ele perguntou num tom baixo e grave.

Ainda fingindo desinteresse, o outro homem terminou de tomar outro gole d'água. "Huh?"

"Ex-namorado?" Sasuke repetiu a palavra sem transparecer a irritação e impaciência que sentia.

"Ah, isso?" Suigetsu deu uma risada nervosa. "Pois é. Também fiquei surpreso quando ouvi. Parece que a princesa namorou um jounin um tempo atrás. Um tal de Kaito²."

Sasuke levantou uma sobrancelha. 'Um jounin?' Sasuke desconhecia qualquer jounin de idade próxima à deles além do Hyuuga e do Nara. E esse namoro aconteceu há quanto tempo? Mais importante... por quanto tempo?

Sasuke observou o ninja de cabelos branco imaginando onde ele teria ouvido tal informação. Poderia se tratar de boatos. Poderia ser um desses imbecis que ficam rodeando ela como urubus naquele maldito hospital. Certamente Sakura lhe diria se tivesse um ex-namorado andando pela vila, não?

"Teme!" O grito estridente lhe arrancou de seus pensamentos.

Naruto atravessava o campo de treinamento, acompanhado de Sai e Juugo que vinham caminhando num passo mais moderado.

Alcançando o local onde os dois shinobi permaneciam sentados na grama protegidos do sol da tarde, Naruto saudou ambos com seu habitual comportamento hiperativo, completamente inabalado pela tradicional apatia de Sasuke. Suigetsu ao menos retribuiu com um leve aceno da cabeça, ainda que permanecesse estirado na grama.

"Ei, o que vocês estão fazendo?"

"Descansando. Estávamos treinando até agora pouco." Suigetsu respondeu a pergunta do loiro.

Sai e Juugo alcançaram o grupo, cumprimentando os dois ninjas na grama.

"Viemos chamar vocês pra ir com a gente até o onsen¹. O clima tá perfeito pra relaxar na água quente, e nesse horário geralmente não tem ninguém por lá, vamos ter o onsen só pra gente," Naruto explicou animado.

"Ei, até que não é má idéia," Suigetsu ergueu o tronco, apoiando os braços nos joelhos dobrados. "Tô precisando relaxar os músculos depois desse treinamento."

Sasuke torceu o nariz. Passar o fim de tarde num onsen com esses quatro não lhe parecia um programa muito atrativo. Sem contar que ele tinha outras prioridades no momento, como descobrir se esse tal de Kaito realmente era ex-namorado da Sakura.

"Ah, não faz essa cara de desgosto, Teme! Vamos aproveitar que a Sakura-chan não tá na vila pra fazer um programa só de homens."

Sasuke lançou um olhar sério para o loiro. "Como assim, ela não está na vila?"

Naruto percebeu que havia dito a coisa errada e coçou atrás da cabeça, soltando uma risada forçada. "Ah, ela não te disse, ne? Então, hum... ela saiu numa missão ontem e-"

"Numa missão? Sozinha?" O moreno grunhiu nervoso. Aquela garota era maluca? Ou simplesmente suicida? Com aquele insano do Madara solto por aí, aquela imbecil simplesmente sai passeando por aí? O incidente com Danzou já havia deixado bem óbvio que o Akatsuki tinha uma rixa pessoal com a médica. E a Hokage permitiu isso? Aquela velha só podia estar senil.

Sasuke podia admitir que às vezes tinha um comportamento paranóico, mas Madara não era um inimigo com o qual se podia relaxar. Não descartava nem mesmo a possibilidade de haverem espiões rondando Konoha, ou mesmo infiltrados na vila. Não sentia que Sakura estivesse completamente segura mesmo entre os muros da aldeia, quanto mais passeando por aí como se não tivesse a cabeça a prêmio.

Olhos azuis observavam atentamente o rosto do Uchiha, praticamente lendo seus pensamentos a cada milímetro que seus lábios se contorciam em irritação. Naruto achou melhor acalmar o moreno o quanto antes. "Ne, Teme. Era uma missão rápida numa vila aqui perto. E o Kakashi sensei foi escoltando ela. Totalmente seguro, pode acreditar!"

A menção de seu antigo sensei a acompanhando o acalmou um pouco. Kakashi era um dos poucos shinobis nos quais ele tinha plena confiança.

Ainda assim, o fato dela nem mesmo ter se dado ao trabalho de informá-lo dessa missão o irritava até o último fio de cabelo. Provavelmente quis evitar a discussão certa que teriam. É claro que ele iria discutir – como poderia ficar calado diante das sandices da namorada?

Namorada... a palavra ainda soava estranha pra ele, mas não de uma forma desagradável, apenas... incerta. No fundo, não queria admitir que se sentia magoado por ela esconder as coisas dele. Admitir isso era um sinal de fraqueza, e por mais que confiasse em Sakura, não se sentia confortável numa posição tão vulnerável.

Ela certamente não tinha nenhum pudor em confidenciar tudo pra Naruto. Compreensível, considerando o quão próximo se tornaram durante esses anos que-

Abruptamente, uma epifania atingiu Sasuke em cheio.

Sakura contava quase tudo pro amigo loiro. Se ele quisesse saber de algo pessoal do passado da rosada, a única pessoa que saberia mais do que Naruto seria Ino, mas Sasuke não queria chegar a medidas tão drásticas – podia praticamente imaginar a tortura que seria pedir a Ino qualquer informação.

Naruto deu um pulo pra trás quando o Uchiha se ergueu inesperadamente e começou a caminhar em direção à saída do campo de treinamento. "Vamos."

O Jinchuuriki piscou surpreso. "Sério? Você vai com a gente pro onsen? Fácil assim?"

"Hn," o moreno assentiu sem se virar, continuando seu caminho.

"Hahaha," Naruto riu nervoso, "achei que você ia exigir um pouco mais de persuasão, Teme."

Naruto correu excitado atrás do amigo. "Você não vai se arrepender," assegurou, colocando um dos braços sobre os ombros de Sasuke, que por sua vez grunhiu de leve. Ele estava se arrependendo.

Passando pela rua principal que levava à torre da Hokage, um comentário de Juugo chamou a atenção dos outros homens. "Aquele não é o Kakashi-san?"

Naruto e Sasuke se viraram para a direção que Juugo indicava e puderam ver claramente uma cabeleira branca escondida atrás de um familiar livro laranja. O jounin caminhava distraidamente pela rua lendo seu livro indiscreto.

Naruto gritou pelo sensei, chamando a atenção de quase todos que passavam na área, mas Kakashi continuou seu caminho sem levantar os olhos do livro. "Droga, acho que ele não me ouviu," Naruto resmungou.

Sasuke duvidava que o antigo sensei não tivesse ouvido os berros do loiro - mais provavelmente preferiu simplesmente ignorá-los. Ele mesmo já havia feito isso várias vezes quando pressentia que o amigo planejava algo que testaria os limites de sua paciência.

"Ne, Teme. Se o Kakashi sensei tá por aqui, quer dizer que a Sakura-chan também já voltou da missão. Onde será que ela tá?"

"Em casa provavelmente," o Uchiha respondeu despreocupado. Kakashi carregava uma mochila e parecia ter acabado de voltar de missão. Provavelmente estava indo se reportar pra Hokage depois de ter dispensado Sakura. Conhecendo os hábitos da médica, devia ter ido direto pra casa tomar um banho.

Ele iria vê-la mais tarde, depois de conseguir extrair algumas informações importantes de Naruto. Antecipando a conversa que teria com Sakura, Sasuke queria conseguir o máximo de informações possíveis antes de confrontá-la sobre o suposto ex-namorado.

O loiro, por sua vez, seguiu o caminho ao lado do amigo sem discutir. Haviam planejado uma tarde ociosa no onsen só entre amigos – poderiam chamar Sakura pra jantar com eles no Ichiraku depois.

O caminho até o local não era longo, cerca de vinte minutos, e até que de certa forma agradável. O grupo seguia por uma trilha de terra batida coberta de pedriscos conversando distraidamente. A vegetação que ladeava a trilha filtrava o sol, fazendo manchas de luz dançarem sobre eles. Sasuke podia escutar ao fundo a conversa dos companheiros que seguiam alguns passos atrás, apesar de Naruto continuar a falar constantemente ao seu lado.

Os ninjas pareciam discutir sobre seus planos para o futuro próximo. Suigetsu falava em partir nas próximas semanas, buscando concretizar seus planos de coletar as espadas dos sete espadachins da névoa. Até convidou Juugo pra acompanhá-lo, mas este disse que preferia permanecer na vila até que o tratamento de Sakura lhe possibilitasse um controle maior sobre seus surtos.

Sasuke suspeitava que Juugo recusaria a oferta de qualquer maneira – o enorme shinobi parecia ter se apegado a sua rotina tranqüila em Konoha rapidamente. De fato, ele parecia mais feliz do que nunca, tratando sua condição de verdade, fazendo novos amigos, vivendo um dia a dia de coisas simples.

No passado, Sasuke teria olhado com desdém uma vida assim, mas agora... Agora esse tipo de existência parecia cheia de atrativos nos quais nunca havia pensado. Depois do vazio deixado pela concretização de sua vingança, ele ansiava por algo pra preencher os buracos deixados em sua vida. Mais de uma vez se pegou imaginando sua casa, tão fria e silenciosa, se enchendo de vida com a presença de pessoas próximas a ele.

Gostava de imaginar uma mulher de cabelos rosa e olhos verdes andando em roupas confortáveis pela casa falando de coisas triviais como compras no mercado e enchendo seu lar de vida novamente.

Se reunir com os amigos, discutir bobagens, dividir pequenos segredos e intimidades com Sakura – coisas que ele nunca imaginou querer – tudo lhe parecia tão encantador agora.

E quem sabe um dia poderiam encher aquela casa tão silenciosa com risadas de crianças.

Seu peito parecia se encher diante desse pensamento.

Sacudindo a cabeça de leve pra retornar ao presente, ele voltou a atenção para o loiro que caminhava ao seu lado. Ele falava animadamente sobre algumas técnicas novas que queria lhe mostrar quando treinassem juntos. Lembrando de suas reais intenções quando aceitou o convite para ir ao onsen, Sasuke decidiu perguntar sobre o que Suigetsu havia lhe dito. "Ei, Dobe,"

Naruto interrompeu seu falatório animado pra encarar o amigo com curiosidade. Algo em seu tom de voz chamou sua atenção. "Você conhece um sujeito chamado Kaito?"

O cenho franzido se transformou num olhar de compreensão e então numa expressão de pânico reprimido. Sasuke praticamente pôde discernir cada processo mental correndo pela cabeça do loiro através dos movimentos faciais. "Err,... não tenho certeza," o loiro tentou disfarçar sua surpresa, "conheço poucos jounins. Por que pergunta?"

Sasuke apertou os olhos. Era óbvio que Naruto tentava esconder algo dele, e uma pergunta tão trivial só poderia causar essa reação se o que Suigetsu havia lhe dito não fosse um boato afinal de contas. "Eu nunca disse que ele era um jounin, nem mesmo falei que era um shinobi," Sasuke disse ao lançar um olhar acusador sobre o amigo.

Era quase patético assistir o loiro gaguejando, tentando encontrar uma desculpa – qualquer desculpa – para o deslize. Cansado da situação ridícula, o Uchiha cortou com um tom afiado. "Então, ele mesmo foi namorado da Sakura."

Naruto arregalou os olhos de forma quase cômica enquanto sacudia as mãos num gesto defensivo. A cena seria engraçada não fosse pelo olhar assassino do moreno. "Na-não é bem assim, Teme. Namoro é uma palavra forte demais. Err... eles só saíram algumas vezes. Nada sério."

A discussão parecia ter atraído a atenção dos outros companheiros, pois eles puderam logo ouvir a voz de Suigetsu carregada com um humor sádico. "Hahaha, você achou que eu tivesse inventado aquilo? Mas afinal, qual é o problema da princesa ter tido um namorado? Você é o titular agora – devia estar satisfeito -, o outro cara é que deve tá mordido de ciúmes."

Naruto quase suspirou aliviado quando o olhar homicida do amigo passou a mirar Suigetsu. Quase, pois o clima pesado era quase palpável. Só um retardado emocional não perceberia isso.

É claro, nesse instante ele lembrou que Sai estava presente.

"Eu li que a maioria dos homens são muito possessivos com suas mulheres, mesmo em relação a antigos relacionamentos, e têm uma necessidade quase fisiológica de demonstrar dominância. É como um cão urinando pra marcar território," Sai explicou numa voz indiferente, parecendo ignorar qualquer problema com suas observações.

Exceto por Sasuke – que por incrível que parece, conseguiu parecer ainda mais homicida – todos encaravam Sai boquiabertos. Estavam prontos pra ver o artista cair morto a qualquer segundo agora. 'Suicida, esse idiota só pode ser suicida!' era o pensamento que ecoava na cabeça de Naruto. Ele viu o dedo de Sasuke coçando pra puxar a espada, e a expressão inocente de Sai só parecia piorar a situação.

Tentando evitar um banho de sangue, Naruto se colocou entre os dois shinobi, dando uma risada estranha, quase beirando a histeria nervosa. "Hahaha, ele não tá falando sério, Teme," disse pra Sasuke, e imediatamente se virou pra Sai num sussurro nervoso. "Quer morrer? Cala a boca, imbecil!"

A inaptidão do artista em lidar com emoções impediu que ele percebesse a gravidade da situação. Assim, ele continuou despreocupado, "só estava fazendo uma observação imparcial e honesta. Não entendo é por quevocê está mentindo, Pintinho."

"PÁRA DE ME CHAMAR ASSIM!"

Agora era Juugo que tentava apartar a briga ao impedir que Naruto estrangulasse Sai, o que não era muito difícil considerando seu tamanho. Naruto simplesmente sacudia os braços tentando alcançar o pescoço do outro homem.

"Como assim mentindo?" A voz grave de Sasuke interrompeu a gritaria do loiro.

Sai levou um segundo pra perceber que o Uchiha falava com ele, mas assim que se deu conta, tratou logo de respondê-lo. "Eu me lembro da Feiosa ter apresentado aquele homem como namorado, foi essa palavra que ela usou, não?" ele olhou pra Naruto e apoiou o queixo entre o polegar e o indicador num gesto pensativo. "Eles saíram mais do que algumas vezes. Se me lembro bem, eles mantiveram um relacionamento por um longo tempo, vários meses pelo menos."

Naruto levou uma mão à testa num gesto ao mesmo tempo exasperado e horrorizado.

O segundo de surpresa na expressão de Sasuke logo se transformou numa carranca de raiva. Quando ele deu meia-volta e começou a caminhar de volta pela trilha, Naruto ficou alardeado.

"Teme! Aonde você vai?" Ele correu na frente do amigo e bloqueou seu caminho. "O onsen é logo ali," o loiro apontou pra um portal de madeira logo à frente. "Vamos lá! Não deixa uma bobagem dessas estragar nossa diversão," ele pediu.

O Uchiha simplesmente o encarou com um olhar seco. "Perdi a vontade."

Conforme Sasuke tentou dar a volta em Naruto, este bloqueou seu caminho novamente. "Eu sei aonde você está indo - você quer tirar satisfação com a Sakura-chan! Pára pra pensar – até eu sei que isso não vai terminar bem."

Sasuke se deteve surpreso por Naruto ter deduzido tão rápido suas intenções. Seu comportamento era assim tão previsível? Ele se virou para encarar os outros, e, pelas diferentes expressões de reprovação nos rostos deles, sim, era óbvio aonde ele pretendia ir.

"Vamos relaxar no onsen. Você esfria a cabeça e eu te explico as coisas com calma. Depois, se quiser, você pode procurar a Sakura-chan e conversar com ela como uma pessoa civilizada, ao invés de um cretino insano." O loiro pousou a mão no ombro do amigo num gesto amigável, tentando aplacar sua raiva.

Mas isso irritou Sasuke ainda mais, pois precisava engolir uma realidade – Naruto tinha razão. E as raras vezes em que era obrigado a admitir isso sentia como se fosse uma facada em seu orgulho. Sim, estava agindo como um idiota, mas por um motivo totalmente justificável. Sakura tinha um ex-namorado... um ex-namorado do qual ela nunca se importou em lhe informar. Ele podia entender que ela não lhe dissesse nada durante o tempo em que a arrastou por aí contra sua vontade, mas depois que retornaram pra Konoha... depois de assumirem um relacionamento...

Ele iria esclarecer essa história com Sakura. Definitivamente eles iriam conversar sobre isso. E pra tanto, Sasuke precisava se armar com informações sobre esse suposto ex-namorado. Encarando o sorriso nervoso e idiota de Naruto, ele se desvencilhou da mão em seu ombro e caminhou com uma nuvem negra sobre a cabeça em direção ao portal do onsen. Passando por Sai teve que suprimir um ímpeto de acertá-lo com a espada. Não era possível que alguém fosse tão alheio a noções básicas de relações humanas – isso só podia ser pura provocação!

Conforme prometido, Naruto contou o que sabia sobre o tal de Kaito, o que não era muito. Ao que parece, a maior parte da ficha do sujeito era confidencial, o que geralmente indicava muitas missões diplomáticas, ou – mais provavelmente – ANBU.

A princípio Naruto ficou aborrecido com o namoro da colega. De certa forma, muito mais aborrecido por conta de Sasuke do que por ele mesmo. Sakura nunca fez segredo de sua paixão pelo Uchiha pra ninguém, muito menos pra Naruto. Assim, quando ela apresentou Kaito como seu namorado, era como se estivesse desistindo de Sasuke, e por conseqüência, desistindo do Time Sete.

No começo, o loiro fez de tudo pra médica desistir daquela idéia idiota, procurando defeitos no namorado, apontando problemas no relacionamento, deixando claro que aquilo estava afetando a equipe. Quando tudo falhou, ele apelou pra uma última cartada – Sasuke. "Você não pode desistir do Sasuke, Sakura-chan. Você nunca vai amar esse sujeito como ama o Teme!"

Naquele momento Sakura o encarou com o sorriso mais triste que já viu ela usar. "Eu sei," ela disse numa voz baixa e resignada, "mas eu tô cansada de me sentir infeliz o tempo todo."

Naruto a encarou surpreso. Ela havia desviado o olhar, mas continuou falando em voz baixa, "Não se preocupe, Naruto. Eu nunca vou desistir do Time Sete. Nós vamos trazer Sasuke de volta – juntos!" Então ela se virou pra ele e lhe lançou um sorriso brilhante e sincero, e, obviamente, doloroso.

E apesar de todos acreditarem que o ninja hiper-ativo não fosse exatamente perspicaz, Naruto compreendeu aquela situação melhor do que ninguém. Sakura não desistiria de seu companheiro de time, e também nunca conseguiria abrir mão de seu amor por ele, mas finalmente aceitou que jamais seria correspondida por Sasuke. E se outra pessoa podia remendar ao menos um pouco seu coração, ela aceitaria o que pudesse ter.

Depois daquele dia ele nunca mais disse outra palavra pra ela sobre o namoro.

Mas isso não queria dizer que não se preocupasse. Sabia muito pouco sobre o tal de Kaito. Ele podia ser um aproveitador. Que tipo de homem namora uma garota cinco anos mais nova sem segundas intenções? Intenções pervertidas.

O loiro buscou ajuda da única pessoa que podia entendê-lo – seu antigo sensei. Sabia que apesar de sua aparência indiferente ele se importava de verdade com seus antigos alunos. Pra sua surpresa, Kakashi já estava uns vinte passos a sua frente. Mais do que investigar Kaito, o jounin já havia conversado com o rapaz sobre Sakura, deixando claro que a garota era muito importante pra várias pessoas, e que magoá-la de qualquer forma que fosse não seria tolerado.

"Não se preocupe, Naruto. Ele é um bom sujeito – não vai magoá-la," seu sensei lhe garantiu, e ele acreditou. Kakashi não diria aquilo se não tivesse certeza.

Alguns meses mais tarde, foi Sakura quem magoou o namorado.

Enquanto se trocavam no vestiário, Naruto relatou pra Sasuke como um belo dia Sakura simplesmente anunciou o fim do namoro após uma manhã de treinamento. Ela havia rompido com Kaito, dizendo que não estava dando certo. Nenhum dos homens fez nenhum comentário – nem mesmo Sai –, mas ninguém deixou de notar que isso ocorreu logo depois daquele desastroso encontro onde Sasuke tentou matar seus antigos companheiros de time.

Sasuke escutou os relatos do loiro com um nó na garganta – sabia que havia magoado Sakura no passado, mas nunca pensou que isso a tivesse afetado tanto durante esses anos em que esteve longe. Assim como ele, imaginou que a médica tivesse se focado em outros objetivos e deixado o passado pra trás. Não acreditou que as palavras de uma menina de doze anos pudessem ser levadas a sério.

O Uchiha refletiu sobre tudo isso enquanto seguia os outros homens para fora do vestiário, vestindo apenas uma toalha em volta da cintura. O clima não estava muito frio, mas era melhor entrar logo na água quente.

Da forma que o amigo descreveu o relacionamento de Sakura e o tal de Kaito, realmente não parecia ter sido nada sério ou significativo da parte dela, apenas uma maneira de lidar com desilusão, e por isso ele – ele, mais do que ninguém - não poderia censurá-la. Talvez estivesse mesmo fazendo tempestade num copo d'água.

Mas sabia de onde vinha esse comportamento exagerado – era insegurança. E para alguém orgulhoso como Sasuke, admitir insegurança, ainda que apenas pra si mesmo, era uma sensação amarga. Ele e Sakura haviam assumido um relacionamento sério, e obviamente gostavam um do outro, e muito.

Essa ligação que sentia com ela era algo poderoso, algo que nunca havia experimentado antes, algo único, e que não acreditava poder sentir por nenhuma outra pessoa. Imaginar que ela pudesse ter tido uma ligação assim com outra pessoa no passado...

De sua parte, Sasuke podia admitir que Sakura era a pessoa mais importante em sua vida, e depois de sua família, ninguém nunca fora tão importante pra ele. Tinha medo de usar a palavra amor. Era uma palavra reservada a coisas impossíveis, sempre fora de seu alcance, pois sentia que se as tocasse, desmanchariam no ar. Amor era uma palavra desconhecida e que o amedrontava, pois na sua cabeça, sempre a associou com perda. Afinal, havia perdido tudo o que já havia amado na vida.

Não. Não queria amar Sakura. Preferia dizer que gostava dela. Gostava muito. Intensamente. Profundamente. Infinitamente.

Mas, e quanto a Sakura? O que ela realmente sentia? Ela sempre foi uma mulher emotiva, que carregava o coração na mão, expondo seus sentimentos pra quem quisesse ver. Nunca teve medo de assumir suas paixões, seu medos, suas inseguranças. E era justamente isso que o incomodava tanto, pois mesmo sendo tão afetuosa, Sakura ainda parecia manter um pé atrás no relacionamento.

Mesmo depois de meses juntos, ela ainda não havia proferido as três palavras mágicas, e ele se sentia ridículo por precisar ouvi-las pra se sentir seguro. Mas não era a ausência das palavras em si que o deixava ansioso, mas o comportamento da médica. Eles saiam juntos, andavam de mãos dadas, e até se beijavam (de forma discreta) em público, como qualquer casal normal. O problema era que Sakura agia da mesma forma quando estavam sozinhos – sorria pra ele, segurava sua mão, o beijava,... mas nunca ia além disso.

Qualquer forma de contato mais íntimo era iniciado por ele... e interrompido por Sakura. Não é como se fosse um adolescente estúpido guiado por hormônios, mas sentia que estes deviam ser sinais de alerta num namoro. A médica parecia evitar ao máximo ficar a sós com ele onde... coisas podiam acontecer. Ele podia contar nos dedos de uma das mãos quantas vezes ela veio a sua casa sem Naruto. E mesmo semanas depois de ter se mudado da casa dos pais para morar sozinha num apartamento, ela sequer o havia convidado além da porta de entrada.

Talvez ela tivesse receio do que podia acontecer, visto que, nas poucas vezes em que estiveram a sós em locais mais privados, coisas quase aconteceram. Na realidade, até quando não estavam em lugares tão privados...

Sasuke se lembrou do incidente na floresta da área de treinamento. Uma luta amigável tomou uma intensidade inesperada – talvez ele ainda estivesse com o orgulho ferido por ter perdido aquela batalha na praia – e logo as coisas fugiram do controle. Um combate sem uso chakra terminou com ambos lutando no chão por dominância. E o que era puramente um treinamento ninja se tornou algo completamente diferente.

Um segundo ele estava lutando pra mantê-la presa no chão, tentando impedir que ela lhe acertasse outro golpe,... e no seguinte estavam aos beijos tirando aquelas incomodas peças de roupa do caminho. Ele a desejava tanto que chegava a ser uma dor física. Então não foi surpresa que ele tivesse soltado um gemido frustrado no momento em que Sakura interrompeu seus avanços quando estavam separados apenas por alguns poucos tecidos.

Mesmo contrariado, ele se virou e se vestiu, tomando alguns minutos pra se 'acalmar'. Sakura havia se desculpado repetidas vezes, e, mesmo frustrado, Sasuke não podia ficar nervoso com ela diante da situação. Ele sabia que havia momento e local apropriado pra aquilo – e certamente não era no chão de uma floresta, no meio de um treinamento.

Provavelmente, Sakura – assim como o próprio Sasuke – queria que a primeira vez deles fosse especial. Mas essa relutância dela em aceitar qualquer contato mais íntimo era o que o deixava tão inseguro – era como se ela não quisesse dar um passo tão significativo numa relação na qual não tinha plena confiança, e esse pensamento lhe doía mais que qualquer outra coisa.

Nunca havia pensado muito sobre o assunto no passado, tinha problemas mais importantes na época, como treinar, conseguir poder e vingar sua família. Mas agora que havia concretizado esse objetivo, e tinha Sakura em sua vida, não podia negar – sexo era um pensamento constante em sua mente.

Jamais revelaria isso pra ninguém, nem mesmo sob tortura, mas em certas ocasiões fora obrigado a resolver o problema 'por conta própria'. Resmungou pra si mesmo, irritado com a situação patética a que tinha chegado.

Se distraiu desses pensamentos quando ouviu Naruto saltar na água do onsen, gritando de forma ridícula como se fosse uma criança.

Idiota.

Os outros também logo entraram nas águas escaldantes, mas de forma mais ordeira.

Vindo por último, Sasuke se inclinou, mergulhando uma das pernas na água, quando ouviu a voz de Naruto. "Ah, desculpa! Não tinha notado que havia mais alguém aqui."

Entrando por completo na água, Sasuke notou que seus companheiros olhavam com curiosidade para a borda oposta, e se virou para aquela direção. Ao que parece, o onsen não estava assim tão vazio – havia um rapaz aproveitando a tranqüilidade do local. Isto é, até agora.

"Parece que interrompemos o momento de solidão do sujeito," veio o comentário de Suigetsu, e, ao mesmo tempo, Juugo e Naruto lançaram olhares apologéticos à figura na borda da piscina.

Ele estava a alguns metros de distância, e a névoa provocada pelo vapor d'água embaçava um pouco a visão, mas logo Sasuke se deu conta de que aquele rosto lhe era familiar.

Numa fração de segundo, Sasuke reconheceu o rapaz na borda oposta, que os encarava com olhos largos e nervosismo.

Ninguém negava que o Uchiha fosse uma pessoa intensa por natureza, mas geralmente era uma raiva contida e silenciosa, como uma aura densa que descia ao seu redor. Entretanto, neste momento, numa rara demonstração explosiva de raiva, ele rugiu a plenos pulmões.

"Que diabos você tá fazendo aqui?"


onsen¹ - termas de águas quentes. Todo japonês adora ir ao onsen ao ar livre. Quem não conhece é só digitar 'onsen' no google images.

Kaito² - sim, você que já leu Últimas Chances, de Lady-simplyme, conhece esse nome. É um pequeno tributo a essa fic muito legal. Pra quem não conhece, eu recomendo! (tá nos meus favoritos)


Ninguém tem tanto controle sobre sua felicidade como você mesmo; sendo assim, você tem o poder de mudar qualquer coisa sobre você ou sua vida que você queira mudar.

- Barbara de Angelis


Comecei a escrever esse epílogo quando tava traduzindo o capítulo 18 de Ripples, pois achei que vocês iriam sentir que faltou algo mais nessa fic. Bom, pelo menos eu fiquei com um gostinho de quero mais quando li a original.

Ainda nem comecei a escrever o capítulo 2, mas já tenho uma idéia na cabeça de como vai ser, masvou esperar pra ver a reação das leitoras. Por isso, não esqueçam de deixar reviews, ok? Comentários, sugestões, críticas... tudo é muito importante pra mim.

Ah, e como agora estou escrevendo ao invés de traduzir, os updates devem levar mais tempo,... sorry.

bjos!

dai86