Último capítulo.

Boa leitura.

Capítulo 8

O céu estava sombrio para si. Podia sentir a ira de seus superiores em sua pele, por mais que tivesse retornado ao plano espiritual. Quando chegou à sala visada, as portas se abriram para si e, depois de entrar, fechou-se com violência atrás de si.

Enquanto isso, Alfred abria a porta para o japonês. Sorrindo amplamente, abraçou-o forte.

- Que bom que veio, Kiku! Tenho jogos novos, vamos entrar! E temos hambúrgueres e muito refrigerante para uma tarde muito animada, yahoo!

Sem esperar, ficou atrás do menor e o empurrou para dentro.

- Arthur.

- Sim, Senhor? – mostrando obediência, ajoelhou-se, já sabendo o que viria pela frente.

- Você conhece o "livre-arbítrio"?

- Certamente.

- Estivemos o observando...

- Eu sei que errei.

- Reconhecer o erro não irá ajudá-lo agora. Já sabíamos que isso aconteceria.

- O quê? Então... por que me deixaram ir?

- Antes... Alfred, tem algo que quero te entregar desde a viagem...

Alfred sentiu um aperto no peito ao ouvir falar daquela excursão, mas manteve o sorriso. Era sua tarde de reconciliação – não ia deixar um motivo tão bobo quanto seu egocentrismo estragá-la.

- O que é?

Kiku retirou uma pequena caixa do bolso do casaco, estendendo ao americano, que logo a abriu. Tinha uma miniatura engraçada lá dentro, de madeira, arredondada e vermelha; fazendo uma expressão agradecida, mas de quem não tinha entendido muito. Rindo discretamente por ter percebido aquilo, o japonês explicou:

- É o boneco daruma. Você pinta um olho e faz um desejo. Quando ele se realizar, você pinta o outro.

- Oh! Vou fazer isso agora!

- Queria ver até onde levaria essa situação. Mas foi até bom: assim aprenderá o seu lugar.

- Mas...

- Sem "mas". Foi escolha sua. Teve sua possibilidade de escolha e escolheu. Não se pode mudar o que já foi feito.

Arthur abaixou a cabeça, resignado.

Passando a tarde juntos daquele jeito, nem parecia que se distanciaram tanto nos últimos meses. Os olhos castanhos observavam o estadunidense de esguelha e pensava que realmente sentia falta dele. Acabou desconcentrando-se do jogo de luta, perdendo, mas não tinha importância. O que realmente importava era que Alfred e ele voltaram a conversar normalmente.

- O que foi? – Os olhos azuis piscaram duas vezes. – Tem algo no meu rosto?

- Ah! Não, não. Só senti falta de passar o tempo com você.

Alfred não se aguentou, coçando a bochecha e sorrindo sem graça, abaixando ligeiramente a cabeça. Ele não deveria falar aquelas coisas com aquele sorriso tão fofo!

- Também senti sua falta!

E passou o braço pelos ombros do menor, trazendo-o para perto.

- Creio que sabe que há uma punição para seus atos.

O anjo assentiu, esperando com obediência a sentença. Sabia: tinha de aprender uma lição. Nunca fora um guardião muito bom para Kiku... Sempre ou errava as flechas ou escolhia mal o alvo, fazendo-o sofrer sem necessidade.

- Nós nos reunimos e decidimos que sua punição será ficar longe de Kiku Honda.

Foi inevitável que os verdes mirassem o seu superior. Até poderia discutir, porém... Ainda tinha noção de seu lugar. Merecia aquilo.

- Kiku...

- Ahn?

- O que é isso no seu pescoço?

Sem rodeios, Alfred perguntou. Estava lhe incomodando aquela marca na pele alva. O nipônico riu sem graça, puxando o capuz da blusa que usava para tentar esconder.

- N-não é nada...

Mas o rapaz não se contentava com essa resposta. Sem aviso prévio, pulou sobre o oriental, fazendo ambos irem ao chão e tentando retirar a gola do seu caminho. Quando conseguiu, gelou. Aquilo era definitivamente um chupão! Segurou com certa força os ombros do menor, o tom normalmente brincalhão ficando sério.

- O que ele fez com você?

- Você tem até o final da tarde para se despedir. E é só.

Com um estalo, eles desapareceram em fumaça. Arthur simplesmente deixou o peso cair sobre os joelhos.

Kiku se encolheu, envergonhado. Não conseguia responder, era como se estivesse sob o controle de uma força maior... Desviou o olhar, envergonhado. Alfred suspirou, inclinando-se e escondendo a face no ombro do menor.

- Ele realmente te roubou de mim, então...?

- Anh...?

Levou os orbes para o canto dos olhos, buscando fitar a face do americano.

- Eu entendo. Eu reparei tarde demais. Deveria ter cuidado de você melhor... – Ergueu o corpo, ainda sentado sobre o menor, tocando-lhe a face gentilmente, deslizando as pontas dos dedos sobre a mesma. Somente quando chegou ao queixo que o segurou com força. – Não suporto pensar que ele te tocou desse jeito.

Os olhos castanhos ficaram marejados. Não por medo ou dor e sim arrependimento.

- D-desculpe... Não sei o que me deu, eu... Eu só fiz... Acho que estava fora de mim...

Aquilo foi um golpe em Arthur. O pior era não poder dizer o contrário. Doía, mas era verdade. Tinha enganado o nipônico da pior forma possível, porque, lá no fundo, mesmo que não admitisse... Era claro quem ele amava. Aqueles olhos escuros sempre visaram uma única pessoa – e não era o seu protetor.

- Ele te enfeitiçou mesmo, não? Não peça desculpas, Kiku. Eu entendi... Não chore, please. Não suportaria ver suas lágrimas mais uma vez.

O japonês concordou, deixando o corpo ser levantado pelo estadunidense e retribuindo o abraço com o máximo de força que conseguiu, apertando a camisa dele sob os dedos. "Está trêmulo", pensou Alfred.

- Calma... Desculpe não ter cuidado direito de você. Prometo que... Não vou deixar nada mais te fazer mal.

E tomou a face do menor, puxando-a e selando-lhe os lábios. Não interessava se não era o primeiro a tocá-los, podia sentir a sinceridade de Kiku passando por seus poros. Não iria brigar com ele: tudo bem, não deveria ter se entregado tão fácil a alguém, mas Arthur deveria ter seus truques. Ele era mais velho, mais experiente – fazia algum sentido.

Não tinha pressa, não sentia urgência.

O japonês até pensava estar fazendo errado, tinha de falar com Arthur antes e terminar o que tinham – mesmo que não fosse oficial, já que nunca houve um pedido - mas não conseguia parar. Não conseguia sentir que estava errado. Parecia tão certo, tão necessário! Não seria um pecado tão grande, seria? Silenciosamente, pediu perdão. Iria se entregar àquele sentimento estranho.

As mãos de Alfred não eram muito habilidosas, nem confiantes como a de Arthur, porém, não tinha por que compará-los. Cada um era cada um. Só sabia que amava aqueles toques, a pele queimava a cada centímetro beijado ou tocado. Mesmo no chão, não estava frio, pois o corpo do maior sobre si o aquecia.

- Alfred, eu...

- Shh... Você se sentiu sozinho, né? – Separou-se para fitá-lo, sorrindo compreensivo. – Minha culpa. Não precisa dizer mais nada!

Sentia-se uma criança. Quis chorar, dessa vez de felicidade, mas o maior não deixou. Antes que qualquer lágrima se derramasse, o americano utilizou-se dos polegares para enxugá-las.

- Sorria, nah?

Riu sinceramente, abraçando-se ao outro. Assentiu com a face e não precisaram falar mais nada. Beijaram-se de um modo que tudo foi dito, enquanto as roupas ficavam frouxas com alguma dificuldade, mas no final conseguiram se livrar das peças incômodas. Por mais que aquelas marcas lhe dessem muito ciúmes – e admitia ser ciúme – Alfred tentava as ignorar. Kiku levou as mãos até as hastes dos óculos do outro, retirando-os sob uma exclamação de surpresa.

- Você não vai precisar deles...

O loiro concordou, esperando que o japonês tirasse da reta seus óculos para voltar a beijá-lo. As línguas se enlaçaram demorada e intensamente, em um beijo profundo. Quebrando-o, deslizou pelo queixo, mordendo-o e indo ao pescoço, dando atenção à região. Mordiscou e sugou a pele, beijando para diminuir a ardência que soube que o nipônico sentiu quando ele estalou os lábios e apertou-lhe as costas.

Mas não conseguia se conter. Desceu pelo tórax e alcançou um dos mamilos. Lambeu-o demoradamente, adorando ouvir o som que arrancava dos lábios finos, dando atenção ao outro com o polegar, rodeando-lhe, sentindo que ficavam rijos com o toque. O corpo abaixo de si aos poucos demonstrava excitação, arqueando-se e investindo-se contra si insinuante, fazendo com que as regiões íntimas se roçassem sob o tecido fino da última peça que restava.

O estadunidense soltou um murmúrio sôfrego, não se aguentando mais, deslizando as mãos pelas laterais do quadril do menor e retirando aquela última peça. Seu último fio de sanidade o fazia tomar cuidado, não queria assustar ao japonês – em seu interior, preferia acreditar que era a primeira vez de Kiku, mesmo que o corpo marcado lhe esfregasse a verdade na cara.

Descendo os lábios carinhosamente, encontrou a barriga, depositando ali pequenas mordidas, porém, não prosseguiu. Não tinha tanta coragem de fazer o que pensou, então, se apoiou nas mãos e voltou a ficar na altura da boca do oriental, beijando-o mais uma vez. Ao menos suas mãos estavam livres... Levou uma até o membro já ereto do moreno após se despir completamente, tomando uma das do outro para que ele também o tocasse. Auxiliando-o, ambos se tocaram até alcançar o prazer juntos, gemendo e rindo como se fosse a situação mais engraçada do mundo. Só estavam felizes.

Alfred se sentou, olhando com carinho para a face corada do menor. Era tão fofo! Aquela expressão inocente o seduzia, depois Kiku não poderia culpá-lo. A culpa era exclusivamente dele por ser tão cativante. Utilizando-se de sua força, o loiro ergueu o menor de modo que pudesse colocá-lo sentado em seu colo, o oriental apoiando os joelhos ao lado do corpo dele. Aproximou-se, desviando de um beijo no último instante, tocando-lhe os lábios com as pontas dos dedos e murmurando ao pé do ouvido do nipônico um "lamba", o que fez com que se arrepiasse.

Não era tão inocente assim. E queria poupar a dor do oriental – não era nenhum fetiche pervertido sobre ele sentir o próprio gosto, por mais que isso fosse sexy. Mesmo ofegante, Kiku obedeceu, segurando-lhe o pulso e firmando, colocando os dedos de Alfred na sua boca e lambendo e sugando com movimentos sugestivos; sendo agora a vez do americano estremecer.

Após sentir o local devidamente umedecido pela saliva, retirou-os da boca do japonês e elevou-lhe o quadril com o braço livre. Penetrou um dedo de cada vez até completar três, alargando a entrada para que não o machucasse. Era uma sensação incômoda e ligeiramente dolorosa, mas Kiku sabia que era para seu bem e gostava de ver Alfred tão preocupado com seu bem-estar. Ele era tão expansivo que parecia nem ligar para os outros... Mas, consigo ele era cuidadoso. Tanto que estava por cima, o que lhe dava algum controle sobre a situação.

Retirando os dedos do interior do menor ao senti-lo preparado, Alfred usou as mãos para auxiliá-lo, sentando-o lentamente sobre o próprio membro pulsante. Era só ter calma que conseguiria fazer tudo direito. Iniciou a penetração, gemendo ao sentir o local estreito, apertando as nádegas do menor. Dava até para fingir que era a primeira vez de ambos. Lentamente, se moveu até alcançar o fundo, sendo abraçado com força pelo japonês, o que entendeu como um incentivo a continuar – por mais que expressão do moreno se retorcesse em uma careta de dor.

Suspirando pesadamente, o asiático conseguiu erguer-se com a ajuda do estadunidense, jogando a cabeça para trás e gemendo cada vez mais alto à medida que se acostumava com as estocadas. Esqueceu-se de tudo. O vai-e-vem aos pouco se tornava mais rápido, as investidas fortes fazendo com que os gemidos tanto de Alfred quanto de Kiku se misturassem, assim como o suor dos corpos, inclusive chegaram juntos ao céu.

Agora sim as coisas pareciam certas.

x

- Alfred...

- Hmm... – remexeu-se, ajeitando o corpo sobre o do oriental. – O que foi?

- Melhor arrumarmos isso... – Corou, pensando na bagunça que fizeram. – Seus pais devem chegar logo, não? E s-se nos pegarem assim?

- Não vão... Foram para outra cidade a negócios.

- Ah...

Não se preocupou mais, fechando os olhos e relaxando. Assustou-se quando ouviu o seu toque do celular soar, tentando se levantar.

- Meu celular está tocando, Alfred...!

O maior continuou o agarrando, não deixando que se levantasse.

- Deixe tocar... Olha, até parou! Depois você vê.

Kiku suspirou. Ele não tinha jeito! Era mesmo uma criança mimada!

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Arthur não se sentia no direito de incomodar os dois. Não mais – já tinha atrapalhado demais, mas também não conseguiria partir sem falar com Kiku. Precisava se despedir e achava muito frio o fazer daquela maneira, até porque nem gostava daquele tal celular, mas tinha sido útil: uma única mensagem e tudo acabado. Uma partida gélida. Melhor assim. Depois de tudo que fizera, seria melhor que o oriental o odiasse.

Suspirou.

Esperava sinceramente que Kiku fosse feliz.

E assim desapareceu, só restando de si um aparelho telefônico abandonado na lata de lixo.

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- Kiiiku... – chamou com voz melosa.

- Hm?

- Quando você se apaixonou por mim?

Alfred apoiou o queixo no tórax do menor, fitando-o sob a luz do entardecer. O japonês desviou o olhar, envergonhado por aquela pergunta repentina. Mas não conseguia esconder nada quando aqueles orbes azuis o fitavam daquela maneira.

- Etto... Acho que desde a primeira vez que te vi. Me apaixonei por suas lágrimas, mas então pensei "ele é como o dia... Queria vê-lo sorrindo sempre".

- Hehehe. Cute.

- Não fale isso. Fofo não é um elogio próprio para um garoto.

- Desculpe.

Será que podia perguntar? Queria saber por que Alfred estava tão triste aquele dia, mas não sabia se teria tanta coragem.

- Sabe, naquele dia minha vida mudou. Eu estava triste porque levei um fora da garota que eu gostava e ela me deixou para ficar com outro. Então te vi – riu-se. – Pensei que eram parecidos, cabelos pretos, olhos escuros... Mas não. Eu estava enganado: você é a pessoa mais especial que já conheci – sorriu gentilmente, tocando a bochecha corada do outro, afagando-a. – Desculpe ter demorado a perceber. Fico feliz de não ter te perdido.

Só ele mesmo para fazer com que o nipônico se sentisse assim. Mas não estava tudo resolvido. Ligaria para Arthur e, se possível, marcaria uma conversa para essa noite ainda.

Pensando nisso, lembrou-se que seu celular tocara. Então, empurrou de leve o loiro para que saísse de cima de si e o pegasse de dentro do bolso da calça. Os orbes azuis fitaram-no interrogativamente, enquanto colocava os óculos, estranhando a expressão chocada do japonês.

- O que houve, Kiku? Aconteceu algo?

Sem dizer nada, estendeu ao maior o aparelho aberto em uma mensagem.

"Kiku, me desculpe, tive de voltar para a Inglaterra às pressas. Me perdoe por tudo e saiba que realmente te amei. E não se sinta culpado. Cuide-se."

Como remetente, estava o nome de Arthur.

- Mas o quê? Hey!

O menor já estava se vestindo.

- Preciso falar com ele.

- Tente ligar primeiro! Você nem sabe se ele ainda está aqui no país. Acalme-se!

Verdade. Precisava pensar e ser racional. Voltou a se sentar em frente ao estadunidense, discando o número. Tocou e tocou, caindo na caixa postal. Assim foi até que Kiku, tão controlado, perdesse a paciência.

- Ele não podia... ir embora assim!

O loiro o abraçou, aconchegando-o.

- Não se preocupe. Ele não vai te culpar por nada. Não estava escrito? "Não se culpe. E se cuida".

De algum modo, ouvindo aquilo, por um momento o nipônico pensou que Arthur parecia saber tudo que aconteceu naquela tarde – mesmo que no final fosse apenas impressão de Kiku. Todavia, refletir lhe dava um pouco de alívio, apesar de não diminuir a tristeza. Ele ainda era importante para si – especial. E, por mais que amasse Alfred, mesmo que Arthur tivesse errado consigo em algum ponto, isso não iria mudar.

x

Após as férias de inverno, não demorava muito a chegar à formatura. Cerimônia de encerramento do ano letivo, os veteranos eram liberados. A primavera chegava mais uma vez, mesmo que o vento frio ainda soprasse – era um ciclo eterno, no final.

Kiku lhe chamara para ver o tal hanami e, mesmo sem entender bem qual era a graça de ficar debaixo das cerejeiras vendo as flores desabrocharem, concordou. Era uma desculpa para sair com o nipônico e comer sua refeição caseira.

- E então? – Já estava satisfeito. – O que vamos fazer agora?

O moreno riu baixo. Que impaciência.

- Vou jogar nosso lixo fora – ergueu-se e pegou uma sacola, calçando os sapatos para sair de cima da toalha. – Pode ir juntando as coisas? Depois vemos o que fazemos.

- Yes!

Bateu uma continência, concordando e esperando que o japonês se afastasse para realizar a tarefa. Afastando-se, Kiku foi até uma lixeira, descartando tudo devidamente. Passou o dorso da mão pela testa, se perguntando se Alfred fazia tudo direitinho enquanto olhava para o céu azul e sentia os raios mornos acariciando-lhe a pele. Agora aquele cenário não parecia tão solitário assim.

Voltava para aonde o estadunidense o esperava, mas parou, virando-se para trás. Aquele sobretudo, aquele cabelo loiro bagunçado... Aquele homem parecia Arthur, mesmo que ele não se virasse para trás e não lhe mostrasse seu sorriso, fazendo com que fosse impossível confirmar.

Não conseguia se esquecer dele, então, ficou feliz. Ele conseguira ver as cerejeiras desabrochando... Mesmo que estivesse enganado, preferiu crer nisso.

Enxugando os olhos antes que uma lágrima caísse, balançou a cabeça. Tinham decidido seus caminhos e já vira que eram opostos. Sendo ou não sendo Arthur, ao menos acalmou-lhe o coração, podendo voltar para perto de Alfred sem peso na consciência ou ressentimentos.