Toy Boys and Tankards

Autora: Mila B.

Beta: Cora Coralina.

Ship: Sirius/Rosmerta.

Nota: Longfic escrita para o VII Challenge de Casais Inusitados do fórum Marauder's Map.


Capítulo Um

Como todo final de semana em que havia visitas a Hogsmeade, o Três Vassouras encontrava-se repleto de alunos excitados e um tanto barulhentos, praticamente todos agarrados à boa e velha cerveja amanteigada como se aquela fosse a melhor bebida do mundo – o que, na opinião de Rosmerta, era uma grande verdade.

Mas o local só ficava barulhento de verdade quando eles chegavam. Passando o pano por uma das mesas antes de rapidamente anotar os pedidos de um pequeno grupo de garotas, Rosmerta pôde dizer exatamente o momento em que os quatro garotos mais baderneiros que já tivera a má sorte de ter como clientes entraram no bar. E não conseguiu reprimir um sorriso de canto de lábio ao ouvir Sirius Black discutindo alto algo com Remus Lupin sobre a grande necessidade de bebidas alcoólicas serem permitidas em Hogwarts. Remus pacientemente argumentava que Sirius merecera a última detenção por ter contrabandeado Firewhisky para dentro da escola e que lhe aplicaria uma ainda pior caso o encontrasse com uma garrafa novamente.

"Isso não é coisa que se faça com os amigos, Remus! Seu melhor e mais perfeito amigo! Só porque virou Monitor-Chefe, agora age como se nunca tivesse aprontado algumas." Sirius exclamou espalhafatoso e claramente indignado. Acostumado com os exageros quase teatrais do amigo, principalmente quando entravam no Três Vassouras, Remus apenas abanou uma mão, como se espantasse uma mosca inconveniente.

"Foi tudo planejado por Dumbledore, desde o quinto ano. Não! Desde que entramos no colégio. Aquele velhote é terrível." Disse James, enquanto os quatro se sentavam em uma das mesas.

"Assim que ele pôs os olhos em você, soube que estava diante do elo mais fraco." Sirius lamentou, apoiando-se ao encosto da cadeira de maneira displicente, só faltando-lhe tirar as botinas e esticar os pés sobre a mesa. Remus ergueu uma das sobrancelhas, encarando o amigo como quem não concorda nem um pouco com o que está ouvindo. James sorriu de lado, maroto.

"Não, não. Você está se esquecendo do Peter. Mas Peter não serviria como monitor – provavelmente morreria de medo de andar sozinho de noite pelo castelo. Merda, Peter, como foi parar na Grifinória?" James exaltou-se ao final, como se fosse um insulto ter alguém como o garoto gorducho com cara de rato na casa dos leões.

Peter fungou, dando de ombros.

"E você vem me perguntar isso sete anos depois da seleção?" O garoto perguntou desacertado. Sirius gargalhou e deu uma palmada um tanto forte demais nas costas de Peter, que quase se engasgou com a própria saliva.

"Verdade, Peter! Sete anos. Nossa! Não acredito que estamos no nosso sétimo ano, e que daqui a pouco estaremos formados..." Sirius deixou a frase morrer, pois todos eles sabiam o que os esperava após a formatura. Os rumores sobre a ascensão de Voldemort eram cada dia mais recorrentes, e ao menos Sirius e James já haviam concordado em, assim que terminassem a escola, se juntarem à Ordem de Dumbledore e lutarem ao lado dele na guerra.

Remus abriu a boca para falar algo, provavelmente uma de suas frases estóicas e profundas, mas naquele exato momento Rosmerta parou perto da mesa, uma mão no quadril bem modelado pelo vestido em estilo germânico que usava – seu modelo preferido, que ganhara de uma tia que morava por aqueles lados.

"O que vai ser para vocês, garotos?" Perguntou a jovem, segurando o bloquinho. Ela sentiu vontade de rir ao ver os quatro sorrirem de maneira meio boba. Rosmerta era linda. Tinha cabelos negros lisos, mas volumosos até um pouco depois dos ombros, lábios carnudos e avermelhados, e bonitos olhos escuros cheio de um brilho próprio, esperto e malicioso.

"Eu gostaria de um beijo, se possível." Sirius Black se pronunciou, sentado meio de lado na cadeira e olhando para a dona do estabelecimento com um sorriso que provavelmente julgava charmoso. E de fato era bastante charmoso, mas não para Rosmerta, que o via apenas como um garoto que não podia ser levado a sério. Ela revirou os olhos, um sorrisinho brincando no canto da boca.

"Algo que esteja no cardápio, Black." Retrucou, balançando a cabeça e posicionando o bloquinho para anotar os pedidos. Sirius fez um beicinho descontente. Há uns três anos que ele tentava arrancar mais de Rosmerta do que os sorrisinhos divertidos e olhares descrentes, mas ela nunca o levava a sério. Não que ele não fizesse por merecer, todavia. Era apenas divertido flertar com a moça, sempre tão determinada a não dar-lhe a vitória, ainda que flertasse também em retorno, como em uma brincadeira sem fim.

"Uma manteiga acerveijada para mim." Disse James, descontraído, arrancando uma risada de todos na mesa, inclusive de Rosmerta, que soltou um suspiro falsamente cansado e anotou o pedido. Todos eles pediram o mesmo – ou quase o mesmo –, à exceção de Peter, que pediu também por um pastelão de rins.

Rosmerta assentiu e se afastou, a forma como seu vestido sacudia-se conforme andava sendo observada com atenção principalmente por Sirius Black. Aquele remelexo era mesmo um perigo, Sirius pensou, apoiando o cotovelo na mesa e soltando um suspiro comprido e exagerado.

"Acho que Padfoot adora uma mulher mais velha." Remus beliscou, com um ar calculadamente distraído.

"Ele busca pela maturidade que lhe falta. O problema é que elas nunca se interessam muito por ele." James cantarolou, como sempre com uma réplica na ponta da língua, antes de sorrir largamente, com um ar inocente, quando Sirius lançou-lhe um olhar mortal.

"Mas Rosmerta tem só vinte e três anos! Não a considero velha!" Peter resfolegou na cadeira, perdendo a piada, no mesmo instante em que Sirius se levantava e caminhava até o balcão, os olhos ainda pregados na moça e um sorriso cafajeste no rosto. Se gostava ou não de mulheres mais velhas, não sabia, só sabia que Rosmerta era o pecado em forma de gente.

E Sirius adorava um bom pecado.


"Então você levou uma detenção por causa do Firewhisky que lhe vendi," Rosmerta balançou a cabeça, com um ar repreensivo, como se Sirius houvesse caído em seu conceito. "Você já foi melhor, Black." Sirius se eriçou, debruçando-se mais contra o balcão, enquanto Rosmerta servia mais algumas canecas de cerveja amanteigada e as empurrava para um dos garçons do estabelecimento.

"Se eu soubesse que Remus viraria a casaca, ninguém teria descoberto e eu teria conseguido." Sirius afirmou veementemente, quase desesperado por convencer a moça. Ela claramente estava duvidando de suas habilidades, e nada poderia desgostá-lo mais. O valor de um Black, ou melhor, de um Sirius Black, jamais deveria ser posto em cheque.

"Mas é claro que Remus teria que denunciá-lo, homem! Ele é Monitor-Chefe! Você queria o quê? Que ele ficasse quieto enquanto você pregava mais uma com o Snape?" Rosmerta perguntou meio irônica, meio divertida, ambas as mãos no quadril que como sempre estava empinado mais para o lado direito, uma delas segurando o paninho branco com o qual estivera limpando o balcão.

Sirius umedeceu os lábios, dando uma espiada não muito discreta nas curvas generosas dela, antes de focar os olhos prata nas duas contas dos olhos dela, que se pareciam com duas pequenas pedras de ônix de tão escuras.

"Observe." Sirius disse apenas, virando-se meio de lado, apenas um dos braços apoiado no balcão. Ele procurou por algo no Três Vassouras e, quando encontrou, um sorriso maldoso desenhou-se em seus lábios finos e um pouco rachados pelo frio da estação. Discretamente, Sirius tirou a varinha das vestes e mirou para uma garrafa de Firewhisky que estava perto da mesa onde Severus Snape estava, junto com outros dois sonserinos. Um feitiço de desilusão e um muito jeitoso Wingardium Leviosa depois e Snivellus bebia com gosto uma caneca cheia de cerveja amanteigada alcoólica que Sirius cuidara para deixar com o mesmo gosto. "Uma pena que hoje é sábado. Adoraria vê-lo bêbado, mas ainda tentando manter a pose de morcego durante as aulas." Ele lamentou, pois fora isso que tentara fazer antes que Remus o visse se vangloriar de seu plano para James.

Os olhos de Rosmerta brilharam com malícia.

"Bem, parece que você conseguiu se redimir um pouco." Rosmerta riu quando Snape soltou um soluço, após virar a caneca de uma única vez. Sirius balançou sugestivamente as sobrancelhas, mas a moça apenas jogou a toalhinha que segurava no rosto dele. "Mas não foi como o combinado, então nada feito."

A ideia viera depois que Snape agira de maneira grosseira com Rosmerta na última visita a Hogsmeade, o que deixara tanto a moça quanto Sirius bastante indignados. Depois disso, Sirius dissera que iria dar uma lição em Snivellus e para isso pediu uma garrafa de Firewhisky "para fins educacionais", garantira, após contar seu plano, que teria sido um sucesso bastante engraçado se Remus não fosse um grande estraga-prazeres. Contudo, Sirius não era idiota e, em troca da pequena vingança em nome de Rosmerta, pedira que ela aceitasse sair com ele em um encontro.

Rosmerta aceitara rindo, pois, apesar de novamente não levar o garoto muito a sério, achou que seria interessante ter um encontro com ele. Sirius possuía um ar displicente e sensual que a instigava a continuar aquela brincadeira.

"Mas, Rô, admita! Independente do meu fracasso, você está louquinha para sair comigo!" Sirius afirmou de forma arrogante, tirando o pano do rosto, passando as mãos pelos cabelos negros cuidadosamente cortados e estufando o peito com pompa. "Você não precisa se esforçar tanto para manter suas mãos longe de mim, sabe?"

"Black, alguém já lhe disse que você tem um ego maior do que o globo?" Ela perguntou, pegando uma bandeja pela abertura na parede entre o bar e a cozinha e então saindo de trás do balcão para levá-la até umas das mesas, enquanto Sirius parecia pensar no assunto. "Pode parecer loucura para você, mas você não faz o meu tipo." Rosmerta completou, com seu sorrisinho provocante no canto dos lábios.

O queixo de Sirius caiu e ele pulou da banqueta onde estivera sentado, pondo-se a seguir a moça pelo bar, até mesmo perdendo a cena em que Snape, tonto, tentava se levantar e tropeçava nos próprios pés, dado seu grau de incredulidade frente à afirmação de Rosmerta. Como assim ele não fazia o tipo de alguém – ainda mais quando esse alguém era uma das mulheres mais bonitas que ele conhecia? Não, ela só poderia estar mentindo para provocá-lo.

"Você não pode estar falando sério. Eu vejo a maneira como você me olha." Sirius disse, seguindo-a como um cachorrinho amestrado, quase arrastando as mesas e cadeiras com ele – como diabos Rosmerta conseguia desviar-se desses obstáculos com tanta facilidade e graça?

"É? E o que você vê?" Perguntou Rosmerta, achando graça do tom presunçoso do garoto. Parou em uma das mesas para recolher os copos sujos e pratos usados e levá-los para a cozinha, e Sirius aproveitou a parada mais demorada para apoiar as mãos sobre a mesa e encará-la com um sorriso enviesado. Rosmerta ergueu uma sobrancelha, encarando-o de volta, com um friozinho na barriga.

Sirius era bonito, apesar de ainda guardar alguns traços infantis no rosto bem feito, afinal, ainda nem completara dezessete anos. Mas o jeito cafajeste estava ali, independente da idade, e Rosmerta sempre tivera um abismo com homens pouco confiáveis – conquistadores baratos, como costumava chamá-los. Ainda se lembrava de sua primeira decepção amorosa com um deles, em seus tempos em Hogwarts. Passara dias chorando quando ele a largou depois que aceitou ir além dos beijinhos inocentes, mas não se arrependia. Fora bom enquanto durara e lhe dera experiência. Ainda que soubesse ter Sirius mais pose do que atitudes que comprovassem sua fama de 'galinha', não era algo que anulasse o charme do garoto.

"Seus mais profundos desejos." Sirius disse com um ar misterioso e sombrio, que causou uma gargalhada em Rosmerta. Ela terminou de limpar a mesa e voltou para o bar.

"Você não existe." Falou, exasperada. "Mas espero que isso não seja verdade, ou terei que matá-lo." Brincou de volta, indo para trás do balcão, apoiando os braços sobre o mesmo e inclinando-se para frente, olhando para o garoto que se inclinara também, deixando seus rostos bastante próximos.

"É mesmo? Escondendo tantas coisas condenáveis assim dentro dessa linda cabecinha?" Sirius voltou a balançar sugestivamente as sobrancelhas, cheio de malícia. Rosmerta assoprou uma mecha negra que caía sobre um de seus olhos, ignorando o fato de Sirius desviar os olhos cinzentos para seus lábios cheios e então para seu decote simples do vestido que deixava os ombros brancos desnudos. A pele da moça tinha uma palidez saudável, à exceção das maçãs do rosto que estavam sempre naturalmente coradas, como se constantemente envergonhada, apesar de que vergonha era algo que até mesmo lhe faltava.

"Você nem imagina."

"Alguma envolvendo um jovem e garboso adulto, alto e de cabelos negros, com o melhor sorriso da Grã-Bretanha?" Ele sorriu até quase mostrar todos os dentes, e Rosmerta não pôde impedir-se de compará-lo com uma criança prestes a ganhar um doce. Riu de leve, desencostando-se do balcão.

"Por que você não tenta descobrir sozinho?" Perguntou, piscando um olho, e deixando Sirius levemente aturdido. Ela acabara de dar-lhe carta branca para tentar algo mais? "Seus amigos estão te esperando." Ela avisou, indicando os três garotos que acenavam perto da entrada para que ele se apressasse.

"Acho que vou fazer isso." Disse Sirius, dando de ombros antes de se levantar. Rosmerta cruzou os braços sobre o peito enquanto observava o garoto se afastar, olhando por cima do ombro algumas vezes – quase tropeçando em uma mesa no caminho – antes de sair do Três Vassouras com os amigos.


Nota da Autora: Casal inusitado, hein? hahaha! Nem sei se alguém vai ler, mas eu adorei escrever essa fanfic, e adoraria saber se alguém vai acompanhar. A fic tem seis capítulos mais o epílogo, já escritos, e agradeço a Cora pela betagem linda. :D