Disclaimer: Gravitation pertence a Maki Murakami e Charmed aos seus respectivos criadores.


CHARMED

Prólogo

Ryuichi

Eu tinha que admitir que para mim a situação era completamente surreal. Os incensos, as pessoas, os monges com os seus cânticos enquanto eu me encontrava ajoelhado em frente a moldura com uma foto em preto e branco de uma bela mulher que sorria docemente para mim. Ao meu lado, de rabo de olho, podia ver que meu amigo de toda a vida me acompanhava e tentava me oferecer consolo. Do lado de fora do templo eu podia ouvir o burburinho das pessoas, dos paparazzi e repórteres frenéticos em saber mais uma fofoca do seu astro preferido e raiva tomou conta do meu ser, raiva pela falta de consideração deles ao não perceberem que hoje, especialmente hoje, eu não tinha humor algum para entretê-los. Para ser aquele que sempre sorria em frente as câmeras e que sempre tinha uma coisa engraçadinha e em tom infantil para dizer.

Hoje eu não era o Ryuichi Sakuma que todos eles conheciam. Eu era apenas o Ryuichi, aquele que a mulher na foto conheceu, aquele que a mulher na foto criou.

Preciso dizer que o conceito de morte não me era estranho. Minha mãe morreu jovem, em um tempo em que eu ainda não tinha nem consciência o suficiente para saber que a bela mulher que costumava sorrir para mim debruçada sobre o meu berço era a minha mãe. Meu pai, este não está morto, apenas "desaparecido" por assim dizer, pois partiu assim que o funeral terminou e nunca mais deu notícia, então era como se estivesse morto para mim. Mas, mesmo assim, ainda era doloroso.

A minha avó, a mulher sorridente na foto, foi quem me criou. Ela que esteve ao meu lado, ela que esteve em cada reunião de pais, em cada festividade de escola, que me incentivou a cada dia a seguir os meus sonhos musicais e a ser eu mesmo. E não importava que ela fosse um pouco esquisita, com suas frases misteriosas e o seu apego ao exoterismo comum na cultura ocidental. Não importava que em vez de me ensinar a cozinhar bolos, como boas avós faziam, ela me ensinou a lutar, algo sobre o pai dela ter sido um velho mestre de kung fu na China. Também não importava que ela sempre me dizia para nunca chorar em vão, que nem sempre lágrimas resolviam os problemas, ações resolviam os problemas. E não importava que meus colegas de classe riam dela quando a mesma vinha me buscar na escola com um carro da época da segunda guerra enfeitado de badulaques, sinos e panos coloridos.

Que diferença fazia? Ao menos ela sempre esteve lá. Foi para ela que eu dediquei o meu álbum de estreia e tantos outros que vieram. Era para ela que eu sorria a receber cada novo prêmio por meu trabalho.

Ela era, apesar do que já ouvi muitos falarem para mim, minha fã número um.

E agora ela estava morta.

Suspirei, sentindo uma mão pousar em meu ombro e me virei para ver Tohma ao meu lado, indicando com um gesto de cabeça que a cerimônia havia se encerrado e que era hora de receber os cumprimentos dos convidados. O deixei me ajudar a levantar do chão e a me guiar para o local onde em fila cada um foi passando na minha frente e me oferecendo os pêsames pela perda. Alguns rostos familiares, outros nem tanto assim. Muitos da mesma idade de minha avó, outros surpreendentemente jovens, prestando respeito as cinzas dela como se a mesma fosse um ser sagrado.

- Ryuichi Sakuma. - minha atenção fixou-se na Sra. Mihara, velha amiga de minha avó e que compartilhava a mesma paixão que ela pelo sobrenatural. - Veja você, olha como cresceu. Sua avó tinha tanto orgulho. - ela pegou em minhas mãos e as apertou com uma força anormal para alguém daquela idade, enquanto as suas palavras faziam um bolo entalar em minha garganta e as lágrimas que eu segurei durante toda a cerimônia, aquelas que a minha avó me ensinou a não desperdiçar, rolaram pelo meu rosto sem o meu consentimento. - E tantas expectativas. - franzi as sobrancelhas. Minha avó tinha expectativas sobre a minha pessoa? Difícil de acreditar, pois ela sempre me incentivou a ser o que eu queria ser e nunca me forçou a fazer nada que não fosse contra a minha vontade. - Lembre-se – o aperto em minha mão ficou dolorido e me surpreendi quando ela me puxou, me obrigando a me inclinar para sussurrar em meu ouvido: - a morte é apenas mais um passo e não o fim. - e com isto me soltou, afastando-se com um sorriso complacente e indo até a urna onde estava os restos mortais da minha avó e prestando respeito a mesma.

- Você entendeu o que ela quis dizer? - virei-me para Tohma com uma expressão indagadora e o mesmo deu levemente de ombros.

- Não. - respondeu e eu tive a sensação de que ele mentia. Assim como tive a sensação de que logo descobriria o porquê.