Capítulo 9

Ryuichi

Uma semana foi o tempo que levou para eu ter um controle parcial dos meus poderes, para eu aprender mais sobre a magia, mais sobre a minha família. Uma semana dentro da rotina da casa dos Uesugi para perceber que mesmo com todas as peculiaridades, aquela família era como qualquer outra. Com problemas, mas unida e com rotinas comuns.

Tatsuha acordava cedo para cuidar das tarefas do templo, depois cozinhava uma café da manhã divino, com o perdão do trocadilho, pois aparentemente o garoto tinha talento na cozinha, e após embarreirar a casa com alguns cristais, ia para a escola. O pai dele havia retornado de Yokohama dois dias após a minha chegada ao templo, me dado um relance, rolado os olhos e soltado uma gargalhada quando o adolescente explicou para ele a situação.

- Ryuichi. - eu o ouvi murmurar uma vez. - Faz sentido. - e um dia após a sua chegada ele partiu de novo, pois aparentemente era palestrante em uma convenção de monges que estava percorrendo algumas cidades do país. À tarde, ao voltar da escola, Tatsuha me dava aulas sobre magia, me emprestava livros sobre dragões e pacientemente me ensinava como controlar os meus poderes enquanto preparava uma poção ou outra ou dedicava-se aos seus próprios estudos.

De noite vinha o jantar, pratos diferentes, variados, nem sempre seguindo a culinária japonesa, e eu tinha a sensação de que o adolescente parecia extremamente satisfeito de ter alguém para quem cozinhar.

E então, quando os nossos estômagos estavam cheios com boa comida, resolvíamos nos recolher sob uma grossa manta na varanda, observando os primeiros flocos de neve caírem enquanto Tatsuha fazia algum dever de escola. E eu não podia deixar de imaginar em o quão confortável toda aquela situação tornou-se para mim. Em quão doméstico aquele cenário era. Tohma às vezes dava o ar de sua graça, fosse por telefone, fosse trazido diretamente por Mika. Explicava que havia usado como desculpa para a imprensa a recente morte da minha avó para dizer que eu resolvi partir para um retiro espiritual e com isto mantinha a mídia afastada, assim como para me trazer meu violão já que nas horas em que passava sozinho na mansão não havia nada melhor para fazer do que compor.

- Tatsuha? - perguntei enquanto via os raios de luar refletindo nos cabelos negros, brincando com os fios como se dançasse sobre os mesmos.

- Hum? - ele me respondeu distraído, concentrado no livro que lia, alguma literatura escolhida para algum trabalho de escola.

- O que você quer ser quando crescer? - cruzei os braços sobre os meus joelhos encolhidos, deitando a cabeça sobre eles e observando fascinando os raios prateados da lua fazendo um jogo de luz e sombra no rosto do jovem.

- Grande. - respondeu sem nem ao menos desviar o olhar do livro e eu soltei uma baixa risada.

- Resposta errada. - provoquei e com isto o vi inspirar e expirar longamente, virando-se para me olhar com aqueles intensos orbes escuros.

- Eu não sei... - hesitou e eu pude perceber que ele estava mentindo. Ele sabia o que queria ser, apenas não estava certo se era uma boa ideia. - Não faz diferença mesmo, quando me formar irei assumir o controle do templo. - pisquei intensamente, surpreso diante desta nova faceta. Não sabia que Tatsuha era monge, nem sabia que ele estudava para isto. - É tradição de família. - continuou, voltando o olhar para o livro em seu colo. - O templo Uesugi está em nossa família há gerações, guardado pelas mais poderosas sacerdotisas, bruxas de nosso clã. Depois que tornou-se mortal, meu pai aderiu aos ensinamentos de nossa família, depois que minha mãe morreu, ele ficou incumbido de passar o mesmo para nós. Tecnicamente Mika deveria assumir o templo, mas ela se casou com um astro da música. Eiri era o sucessor em caso de impossibilidade da parte dela, mas largou tudo para ser escritor, então...

- Então o quê? - falei levemente irritado. - Você terá que jogar os seus sonhos fora para assumir a responsabilidade dos seus irmãos?

- Sakuma-san... - o tom complacente, aquele ao qual eu tinha me acostumado cada vez que fazia algo errado em nosso treino e Tatsuha vinha todo paciente me explicar novamente o que fazer, chegou aos meus ouvidos e me deixou ainda mais fulo.

- Posso te conhecer há pouco tempo, posso por um momento ter te considerado apenas mais um fã, mas não sou imbecil, sou observador. E eu observo que assumir as responsabilidades dos seus irmãos é o que você vem fazendo há anos.

- O quê? - voltou a me encarar com uma expressão confusa e agora que eu tinha começado a falar, não iria calar a boca tão cedo.

Isto era algo que eu tinha percebido recentemente e estava me incomodando há um tempo. Mika aparecia esporadicamente para dar um oi, mas nunca ficava tempo o suficiente para aceitar o chá que Tatsuha oferecia. Eiri, não me deixe começar com este, este nem ao menos ligava. E os livros, eu li nos livros que o famigerado Poder dos Três era assim chamado devido a união que deveria existir entre os três irmãos, união esta que era inexistente e me fazia pensar em como os tais Encantados ainda estavam de pé.

Tatsuha que estava me ajudando a controlar os meus poderes, quando deveria ser trabalho dos três, Tatsuha cuidava da casa, cuidava do templo, cuidava dos demônios, cuidava de tudo, quando deveria ser o contrário. Ele tinha dezessete anos. Onde estavam os adultos responsáveis que deveriam cuidar dele?

- Você está me ensinando, você cuida do templo, você cuida da casa, você caça os demônios. Em todo este tempo você tomou a liderança, você fez as pesquisas, você fez a poção para extinguir o Caçador, você, você, você! Os Encantados não são O Poder dos Três, é o Poder Único! - levantei irritado, arremessando a manta que cobria os meus ombros no chão. - E agora eu fico pensando se valeu realmente a pena me deixar envolver nessa loucura. Você mal tem tempo para viver, quanto mais manter viva outra pessoa! - frustrado, dei às costas para ele, ignorando os olhos largos e a expressão surpresa, e batendo os pés segui caminho para dentro da casa, parando no meio da sala e começando a perambular de um lado para o outro feito um animal enjaulado.

Diabos. O que, afinal, tinha me dado? Eu conhecia Tatsuha há poucos dias e estava tomando as dores dele quando o mesmo nem ao menos tinha ciência delas. Mas é que simplesmente me frustrava. Frustrava ver Mika e Eiri empenhados em seguirem com as suas vidas normalmente deixando tudo nas costas do garoto.

- Sakuma-san? - rangi os dentes. Ele não mais se referia a mim como Sakuma-sama, nem mesmo o brilho de adoração de fã surgia nos olhos escuros quando ele me olhava, o que era uma evolução, mas toda essa formalidade também me irritava.

- Me desculpe. - pedi, mesmo que não me sentisse culpado. Não foi uma mentira o que eu disse, mas ainda sim não deveria ter descontado esta frustração sobre ele. Afinal, o problema estava nas atitudes de Mika e Eiri, não nas de Tatsuha. Ele piscou para mim e me deu um sorriso fraco, dando de ombros.

- Não deveria. Você não mentiu. - agora foi a minha vez de olhá-lo surpreso. Então ele tinha ciência da situação. E por que não fazia nada para mudá-la? - Lembra que uma vez eu disse que nem sempre a magia nos favoreceu? - assenti positivamente com a cabeça.

Lembro desse discurso, um que ele me deu quando eu ainda estava mergulhado nas minhas atitudes infantis e egoístas, sobre como, às vezes, ele também desejava que a magia não fizesse parte de sua vida.

- Em Mika e Eiri esse desapontamento os afetou mais. Mika decepcionou-se com a magia quando não conseguiu usar a mesma para salvar a nossa avó, que morreu quando ela tinha oito anos, e depois a nossa mãe. Eiri decepcionou-se com a magia quando a mesma falhou em protegê-lo do Kitazawa. - Kitazawa, não conhecia a história a fundo, mas sabia alguma coisa ou outra do tempo em que consolei um Tohma extremamente culpado que entre alguns goles de álcool balbuciava coisas desconexas sobre como tinha destruído a inocência da criatura mais doce que tinha conhecido.

E nessas horas eu me perguntava se o meu amigo tinha escolhido o irmão Uesugi certo para desposar. Entretanto, a relação de Tohma e Mika era uma coisa que eu não contestava. Eles eram o casal mais estranho que eu já conheci e, ao mesmo tempo, mais perfeitos um para o outro.

- Você também me disse que estava lá quando a sua mãe morreu, por isso se sente culpado pela inexistência da barreira entorno do templo, por isso congelou durante aquele ataque. - tentei argumentar. Se Mika e Eiri tinham os seus traumas, Tatsuha não estava longe diante de tudo o que viveu.

- Sim, eu carrego algumas sequelas, mas já fiz as pazes com a magia.

- Como? - nisto ele riu.

- Quando você quase vira um demônio tende a reavaliar as suas perspectivas.

- Você quase virou um demônio? - arregalei os olhos surpreso e ele gargalhou diante da minha reação.

- Acredite. Nesta família, ter algum relacionamento íntimo com demônios ou quase virar um é corriqueiro. - ele deu um passo à frente, pegando a minha mão entre a sua e meu coração deu aquele pulo que estava se tornando familiar na presença de Tatsuha. - Eu agradeço a sua preocupação, mas já sou bem grandinho, okay? - assenti bestamente com a cabeça, a respiração em suspenso e todos os meus músculos congelados diante da proximidade dele. Proximidade esta que eu aumentei ao dar um passo para frente e quase colando os nossos corpos.

E então aquele momento retornou. Aquele segundo em que nossos olhares se prenderam um no outro e a nossa respiração ficou suspensa enquanto o tic e tac do relógio era a única coisa soando no silêncio da sala. Meu corpo inteiro comichou de antecipação e por um momento tolo eu pensei que ele iria me beijar. O clima, a situação pedia por um beijo, por mais ridícula que fosse essa ideia. Mas então Tatsuha piscou, como se acordando de um transe, e se afastou, soltando a minha mão como se a mesma tivesse lhe dado um choque.

- Eu... - hesitou, dando um pigarro como se quisesse recuperar a voz ou a coragem para falar. - Melhor terminar a minha lição. - e sem dizer mais nada deu as costas para mim, retornando para a varanda fria e me deixando com a sensação de que agi como um completo idiota bem no meio da sala.

Tatsuha

Certo, o que foi que aconteceu agora pouco? O que diabos aconteceu? Eu realmente iria beijar Ryuichi Sakuma? E ele ia deixar? Não! A noção disto acontecendo era no mínimo ridícula. Quero dizer, nós mal nos conhecíamos e até alguns dias atrás ele era um ídolo inalcançável e eu um fã fervoroso. Mas agora o fã não parecia tão apaixonado e o ídolo não parecia tão distante. Nesses últimos dias a convivência com Ryuichi me fez esquecer o véu de adoração que eu tinha sobre a sua pessoa e vê-lo somente como alguém normal, alguém divertido de se conviver, alguém com um grande talento para música e que coincidentemente era famoso por isso.

Mas não alguém a quem eu deveria beijar.

Primeiro que era errado, extremamente errado. Ryuichi era muito mais velho do que eu, mais vivido, mais experiente, mais escolado. Eu? Eu era um adolescente com complexos, traumas e uma impossibilidade absurda de se apegar. E ainda por cima um bruxo. Pertencente a um mundo que Sakuma não fazia a mínima questão de querer conhecer. E se alguma coisa acontecesse entre nós, que fim levaria? Quando o demônio estivesse extinto e os poderes de Ryuichi selado, o que nos prenderia um ao outro? Nada, absolutamente nada. Sem contar que Tohma com certeza arrancaria a minha cabeça ao achar que eu molestei o precioso amigo dele e eu não precisava de mais problemas na minha cola, muito obrigado.

Mas ainda sim, minhas bochechas quentes, minhas mãos trêmulas e o meu coração aos pulos me faziam querer dar meia volta e retornar àquela sala, para Sakuma, e puxá-lo contra o meu corpo e dar-lhe o beijo que ele estava esperando. O beijo que eu o vi querer refletido em seus olhos azuis. O beijo que eu era covarde demais em lhe dar. Até porque esta situação era ridícula. Tínhamos uma atração física que surgiu repentinamente e assim como apareceu ela iria sumir com a mesma velocidade. Não havia sentimentos neste meio. Logo, não havia o porquê de Ryuichi ter parecido tão desapontado quando eu dei meia volta e fui embora. Ou de eu me sentir desapontado por não ter seguido com os meus atos.

Deixei o meu corpo cair feito um peso morto no chão da varanda, soltando um longo suspiro exasperado. Era só o que me faltava: mais esta complicação para a minha vida que já estava longe de ser normal.

Passei os dedos por entre os cabelos, os desarrumando e desejando que alguma coisa, alguém, me ajudasse a entender o que estava acontecendo.

- Oras, oras, oras. - ergui a cabeça em um estalo quando ouvi a voz rouca e minha respiração prendeu na garganta ao ver o Caçador na minha frente. Em gestos rápidos, levantei do chão e não esperei que ele dissesse mais nada, somente ergui as mãos e disparei contra ele. Entretanto, os meus poderes foram inúteis, pois só o fizeram cambalear sobre os pés e recuar um passo. Mas não fazia diferença, continuei disparando, recuando a cada ataque enquanto o via tentar avançar mesmo sob a chuva de explosões que estava caindo sobre ele.

- Tatsuha o que...

- Ryuichi! Volte pra dentro da casa! - ordenei, dando um relance por cima do ombro ao ver Sakuma surgir na porta da varanda, e o meu sangue gelou nas veias quando o Caçador deu um sorriso macabro em nossa direção. Sacudi novamente as mãos, o acertando com outra explosão inútil.

- Por quanto tempo você acha que manterá isto? - provocou e em um gesto rápido convocou uma bola de energia, a disparando contra Ryuichi que arregalou os olhos ao ver a mesma indo em sua direção. Entretanto, como aconteceu da outra vez, em um gesto instintivo ele liberou o seu poder, fazendo a bola desacelerar lentamente até parar em pleno percurso. Por um momento senti orgulho dele, mas este momento passou quando vi o demônio desaparecer em um piscar de olhos e reaparecer na frente de Ryuichi.

- Não! - gritei alarmado, pois não podia permitir que ele o levasse, não iria falhar com Sakuma pois havia prometido ajudá-lo. O Caçador somente olhou por cima do ombro, dando outro daqueles sorrisos macabros, e com um gesto largo de mão esbofeteou um Ryuichi ainda surpreso pela aparição repentina dele, o lançando sobre a porta de madeira de acesso a varanda em um impacto que com certeza o deixaria todo dolorido.

- Ele ainda não está pronto, bruxo. Mas quando eu terminar com você, ele estará. - pisquei confuso. O quê? O que eu tinha a ver com isso? Foi o que me perguntei, incitando os meus pés a correrem para ajudar Ryuichi, mas em outro piscar o Caçador desapareceu e repareceu na minha frente e então a sensação de algo frio e pontiagudo afundando na carne da minha barriga tomou conta do meu ser.

- TATSUHA! - o grito angustiado de Sakuma chegou aos meus ouvidos, sobrepondo-se ao latejar do sangue que ecoava em minhas orelhas, e eu tentei dizer algo, mas as palavras ficaram presas na minha garganta ao mesmo tempo em que as minhas pernas vacilaram, não suportando mais o peso do meu corpo.

Por um momento pensei que iria me esborrachar no chão, mas então o Caçador estava na minha frente, me segurando com força pelo braço, com aquele mesmo sorriso que eu estava começando a detestar, e me puxando de encontro ao seu corpo que exalava um cheiro enjoativo de enxofre.

- Vamos ver quanto tempo você leva para salvá-lo dragãozinho. - a frase soou perto da minha orelha e carregada de deboche e entre a minha visão turva ainda pude ver um Ryuichi tentando se livrar dos fragmentos da porta, tentando erguer-se mas falhando, tentando me salvar mas não conseguindo. Porque no segundo seguinte, antes do meu mundo ficar escuro, eu pude sentir aquela desconfortável sensação de estar atravessando o espaço de um ponto a outro e só pude pensar que desta vez eu estava extremamente ferrado.