Capítulo 6

Tatsuha

Quando dizemos a uma pessoa que ela é um Dragão, ao menos esperamos duas reações: uma gargalhada incrédula e a acusação de que estávamos malucos, ou então xingamentos por termos ofendido o pobre coitado visto que dragão em algumas culturas era sinônimo de ser feio de doer. Mas Ryuichi, ele simplesmente piscou, girou sobre os pés e se mandou do sótão, dando pouco tempo para nós reagirmos. Mika em instantes orbitou para poder pará-lo e Eiri e eu trocamos olhares antes de corremos porta afora atrás do cantor cuja mania de fugir ao ouvir alguma verdade estava se tornando irritantemente rotineira.

- Você nem me deixou terminar de dizer o que eu ia dizer. - falei enquanto o seguia escada abaixo.

- Para mim já chega! Demônios querendo me matar, isso eu entendo. Bruxos e magia, também aguento. - Ryuichi parou de supetão em uma plataforma de ligação entre um vão e outro da escada, me fazendo parar bruscamente também e Eiri trombar em minhas costas, quase me derrubando. - Mas dragão? Isso já é demais! Eu tenho uma carreira, eu tenho fãs. O que eles vão achar quando descobrirem o que eu sou?

- Nada. - Eiri falou por cima do meu ombro. - Não é como se você fosse sair espalhando o seu segredinhoescamoso por aí. - Mika e eu soltamos uma risada muito mal disfarçada por um acesso de tosse e recebemos uma mirada contrariada de Ryuichi que resolveu, a esta altura do campeonato, bancar a estrela afetada.

- Quer saber, vocês não entendem! Vocês cresceram neste mundo, para vocês é normal demônios surgindo a torto e a direito, bolas de fogo, criaturas sobrenaturais, mas eu, eu até dois dias atrás somente achava que a minha avó era excêntrica, nada mais. - desabafou e não pude lhe tirar a razão. Apesar de todos os altos e baixos pelos quais passamos por causa da magia, Mika, Eiri e eu estávamos acostumados com este mundo desde bebês, para nós este era o nosso normal. - Eu só quero ter a minha vida de volta, sem ter medo de que aquela coisa venha me atacar de novo. - resmungou, girando para terminar de descer as escadas.

- E você pode. - soltei em um surto de inspiração, o fazendo parar no último degrau e me olhar curioso. - Nos ajude a descobrir quem é aquele demônio, o que ele quer, e você pode ter a sua vida de volta.

- Como, posso saber? - Ryuichi me mirou desconfiado, até mesmo meus irmãos me olharam desconfiados, mas eu sabia o que estava jogando e não jogaria para perder.

- Eu analisei o feitiço na contra capa do livro da sua avó e o mesmo se refere a um feitiço de convocação de poderes. Aquele demônio? Ele é um Caçador de Dragões que detecta os mesmos pelos seus poderes. Provavelmente para te proteger a sua avó selou a sua magia que você mesmo libertou por acidente depois da morte dela. Nos ajude a extinguir este demônio e nós selaremos a sua magia de novo, o tornando uma pessoa normal. Se quiser, podemos até apagar a sua memória sobre o acontecido. - minutos de silêncio se passaram depois do meu discurso, com Ryuichi me encarando e ponderando a minha proposta.

- As memórias não sei, são coisas delicadas. Mas selar a magia, não sou contra a ideia. - disse por fim e eu assenti positivamente com a cabeça.

- Bem, então se você não se importa, vamos ao trabalho. - encostei no corrimão da escada, fazendo um gesto e indicando caminho acima na direção do sótão, onde todos os itens dos quais iríamos precisar se encontravam, e Ryuichi aceitou a deixa de pronto, passando por Eiri e eu e desaparecendo em uma curva do corredor.

- Se eu bem me lembro dos meus anos na Escola de Magia, Dragões são criaturas míticas poderosas cujo nível de magia é muito mais complexo e elevado do que de bruxos, por isso são caçados de maneira tão brutal. - meu irmão, senhoras e senhores, o Livro das Sombras ambulante. - Não creio que nossos poderes serão o suficiente para refazer o que a avó dele fez.

- Eu sei, mas ele não sabe e por enquanto teremos que usar isto se quisermos a ajuda dele.

- Tsc Tatsuha, mentindo para um Inocente. - Eiri sorriu de canto de boca. - Estou orgulhoso.

- É... crescer com vocês estragou a minha moral. E por falar em vocês... O que vieram fazer aqui? - indaguei. Não era sempre que Mika e Eiri paravam para uma visita, na verdade eles vinham somente quando tinha algum demônio para extinguir que necessitava do Poder dos Três para tal feito.

Os dois trocaram olhares e por um momento me senti excluído. Mika e Eiri pareciam ter um grande entendimento entre si somente ao se encararem, como se o poder de um deles fosse a telepatia e usasse o mesmo para me manter de fora das conversas "adultas". Ao menos era essa a desculpa usada quando eu era criança e os dois faziam isto e depois não me diziam o que estava acontecendo.

- Eiri e eu iremos à Escola de Magia. - Mika declarou por fim, depois de ficar encarando Eiri por enervantes segundos sem dizer nada. - Talvez tenha algo sobre o demônio lá. - e subiu os lances de escada até chegar ao degrau onde Eiri estava estacionado, tocando com a mão o antebraço dele.

- Mas eu já usei os livros de lá...

- Livros que eram do papai, suponho. - ela me interrompeu e eu assenti com a cabeça. - Provavelmente estão desatualizados ou não têm o que procuramos, a biblioteca de lá, ou até mesmo alguns professores, poderão nos fornecer alguma resposta. - e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a mais, ela orbitou com Eiri para a escola.

Mirei escada acima, a que levava para os andares superiores e consequentemente para o sótão, e inspirei profundamente. Estava na hora de enfrentar a fera, com o perdão do trocadilho, e nunca pensei que um demônio vingativo fosse fazer o que anos como fã devotado e sendo cunhado de Tohma não conseguiram: me colocar perto de Ryuichi Sakuma.

Ryuichi

O sótão estava uma bagunça, foi a primeira coisa que pensei quando entrei no mesmo e vi móveis quebrados, livros espalhados e cinzas cobrindo os tapetes que enfeitavam o chão de madeira polida. E por ironia não pude deixar de pensar que o local a minha volta se assemelhava a minha vida no momento: como se um furacão tivesse passado na mesma e deixado para trás somente estragos.

Suspirei, recolhendo alguns livros do chão para tentar por alguma ordem no lugar, e talvez com alguma alusão de por ordem no meu mundo particular, e me sentei no tablado que ficava atrás do pedestal onde o livro que me protegeu do ataque se encontrava. Pela enésima vez desde que tudo isto começou, desejei que a minha avó estivesse comigo, me guiando, me dando respostas, e por minutos pensei que agora que eu sabia que magia realmente existia o meu pedido seria atendido, que ela surgiria na minha frente com aquele sorriso cálido e me abraçaria dizendo que tudo ficaria bem.

Mas isto não aconteceu. O que aconteceu foi da brisa de final de tarde entrar pela janela entreaberta e soprar para longe um punhado de cinzas. Fechei os olhos, imaginando que talvez aquela fosse a resposta dela para as minhas preces e me contentando com esta doce ilusão. Segundos depois reabri os olhos, os mirando nos livros que estavam em meu colo, observando com interesse as suas capas e títulos.

GuiadeCriaturasMágicas, um deles dizia e eu o folheei, vendo que nele continha dados detalhados de todas as criaturas que para mim, há algum tempo atrás, não passavam de folclore mas que segundo este exemplar eram bem vivas. Outro livro era de árvores genealógicas mágicas, o mesmo que Tatsuha me mostrou e que possuía a árvore da minha família. Rapidamente encontrei a página que o garoto marcou com esta informação, a lendo vagarosamente, ainda incrédulo sobre o que eu descobri dos meus antepassados. Com um estalo fechei o volume, pois ainda não estava pronto para absorver por completo esta verdade.

Magia? Isto eu até engolia. Gnomos, elfos, fadas e leprechaus, depois de um tempo tornava-se engraçado, divertido até, saber que eles existiam. Mas como diz o ditado: pimenta nos olhos dos outros é refresco. É divertido quando é a vida alheia, deixou de ser tão interessante quando tornou-se a minha vida.

Soltei mais um suspiro, agora lendo o título do último livro em meu colo:Magiaeseusmaispoderososrepresentantes. Arqueei as sobrancelhas e o abri a título de curiosidade. Havia capítulos sobre alguns feiticeiros que foram famosos na literatura, como Merlin e Morgana, e que, aparentemente, não eram tão fictícios assim. Tinha páginas sobre criaturas mágicas poderosas, tendo como seus mais destacados representantes unicórnios e, novamente a palavra que andava me atormentando, dragões. Mas foi ao chegar nas últimas páginas do livro que eu me surpreendi mais ainda.

- Os Encantados. - era o que título dizia, o que eu li em voz alta, e abaixo do mesmo havia uma imagem mais do que familiar. Uma imagem de três pessoas sentadas em um sofá e com variadas expressões voltadas na direção da pessoa que retratou aquela cena. O mais novo sorria abertamente, o do meio possuía um olhar sério e uma expressão de enfado e a mais velha sorria discretamente e se aquelas não fossem pessoas extremamente parecidas, só poderiam ser aqueles que eu conhecia, pois a imagem era um retrato fiel de Tatsuha, Eiri e Mika. Ainda fascinado com o que via, não pude deixar de ler o que estava escrito sob a foto.

- Os Encantados é o título dado aos três irmãos nascidos dentro da longa linhagem dos Watanabe, segundo a profecia realizada por sua primeira representante, Miaka Watanabe, de que os poderes de seu clã chegariam ao ápice com o nascimento destas crianças. Cada uma delas herdaria os poderes que Miaka possuiu e juntas seriam o Poder dos Três, tornando-se a força mágica mais poderosa de que se tenha conhecimento. - voltei o meu olhar para a foto, para o adolescente sorridente, o escritor sério e a mulher com o meio sorriso e pisquei incrédulo. Poder dos Três?

- Na magia o número três é poderoso. - dei um pulo de susto e ergui o olhar para mirar Tatsuha na porta do sótão. - E tudo que é mágico e vier em três é mais poderoso ainda. - ele veio na minha direção e retirou o livro do meu colo, o colocando sobre uma mesa de tampo arranhado.

- Os Encantados? - balbuciei.

- É um título ridículo, embora Mika ache charmoso, mas ela é mulher. Acho que Miaka não previu que o Poder dos Três teria homens no meio.

- Como? - Tatsuha sorriu diante da minha pergunta, não o mesmo sorriso aberto que estava na foto, mas foi o suficiente para eu perceber uma coisa: ele era bonito. Sim, eu não tinha vergonha de admitir que me interessava por homens, até porque já dei pinta demais com o jeito que ajo, então acredito que se fosse realmente confessar em público não surpreenderia mais ninguém. O problema que por mais velho que Tatsuha aparentasse ser, ele não era um homem feito. Quinze anos era o que nos separava, mas isto não me impediu de apreciar as suas feições.

Ele era parecido com os irmãos fisicamente, obviamente mais com Eiri do que com Mika, mas também tinha as suas peculiaridades. Os cabelos eram tão negros que contra a luz pareciam azulados e os olhos escuros variavam de um marrom café escuro para um tom mais claro. A pele não era pálida como a de Eiri, era um pouco mais moreno e o físico esguio ostentava de maneira perfeita o uniforme do colegial.

- A nossa família só gerou mulheres até o nascimento de Eiri, quebrando a tradição. Minha falecida avó quase teve um troço, pois era feminista aos extremos. - a voz suave e grossa, sem as oscilações comuns da puberdade, era outro atrativo e eu podia apostar que na escola o garoto também tinha o seu número considerável de fãs.

- E a minha família gosta de guardar segredos um do outro. Cada família com os seus problemas. - ele riu e algo pareceu estranhamente revoar dentro do meu estômago, algo que eu ignorei veementemente.

- Pois é... - segundos de silêncio se seguiram, sendo interrompidos somente com o som do virar das páginas do livro que Tatsuha folheava. - Ryuichi... - dei um pulo de susto ao ouvir o meu nome ser chamado em um tom tão suave, ainda mais que ele me chamou de Ryuichi em vez de Sakuma-sama e eu tenho que confessar que gostei desta denominação e como ela soou na voz dele. - Sei que é difícil...

- Sabe mesmo? - o mirei desacreditado.

- Sim. Só porque cresci dentro da magia não quer dizer que ela sempre foi a minha favorecida. Às vezes ficamos irritados com ela, desapontados, e outras vezes apenas aceitamos que era para acontecer. E algumas vezes desejamos que ela não atrapalhasse a nossa vida, que fôssemos normais.

- Verdade? - continue,i ainda desacreditado.

- Acha mesmo que gostamos disto? - ele fez um gesto largo com o braço, indicando o sótão revirado. - Demônios atacando a torto e a direito, querendo fazer um nome no submundo como aquele que derrotou Os Encantados? Óbvio que não. Não posso trazer colegas de escola à minha casa por causa disto. Do que eu estou falando? Não tenho tempo de fazer amizades concretas porque estou muito ocupado dividindo a minha vida entre passar de ano e combater demônios.

- E por que eles atacam? Pelo que vi a casa de vocês fica dentro do terreno do templo, solo sagrado, que segundo a tradição deveria manter os demônios afastados. - comentei e pareceu ser a coisa errada a dizer, pois ele abaixou os olhos para o livro, fechando as mãos firmemente em um punho sobre as páginas amareladas e ficando calado novamente.

- Tem uma poção para extinguir aquele Caçador no Livro das Sombras. - disse por fim, mudando completamente de assunto.

- Tatsuha?

- Precisa ser abençoada pelo Poder dos Três e de um pedaço do Caçador em questão. Isso já temos, só falta alguns ingredientes.

- Tatsuha? - continuei chamando ao ver que ele estava começando a tagarelar de nervoso.

- Vamos pra cozinha? - ele fechou o livro em um estalo e o abraçou contra o peito, como se estivesse o usando como escudo, e passou por mim apressado.

- Tatsuha! - chamei em um tom mais firme e o garoto finalmente parou sob o batente da porta, soltando um longo suspiro que fez os seus ombros arriarem.

- Eu derrubei as barreiras do templo há cinco anos. - começou em uma voz quase sumida. - Demônios Kazi atacaram, conseguiram de alguma forma inverter a barreira a seu favor, bloqueando os meus chamados de ajuda para Mika. Só estávamos minha mãe e eu em casa. Quando você destrói um Kazi, são como hidras, dois mais aparecem no lugar. Minha mãe foi ferida, eu estava sozinho e ela me ordenou que eu derrubasse as barreiras, era a única maneira de pedir ajuda, enquanto segurava os demônios. - minha respiração ficou presa na garganta. Será que era por isso que ele congelou no ataque de mais cedo? O mesmo o lembrou do que aconteceu há cinco anos?

- E? Você conseguiu derrubar as barreiras, conseguiu ajuda? - perguntei, temendo a resposta.

- Bem, você está me vendo aqui, não está? - assenti com a cabeça, o que foi inútil, pois ele estava de costas para mim.

- Sim. - respondi.

- Mas está vendo a minha mãe? - não consegui dizer nada, porque a resposta era óbvia, pois lembro de Tohma comentando tempos atrás sobre o falecimento da Sra. Uesugi, só não disse a causa da morte. - Desde então nunca mais conseguimos colocar as barreiras no lugar. - deu de ombros, como se o que tivesse acabado de me contar fosse nada de mais.

- Tatsuha...

- Estou na cozinha fazendo a poção. - me cortou e saiu as pressas do sótão, me deixando para trás me sentindo culpado pela minha natureza irritantemente curiosa e pelo fato de que percebi o quão egoísta eu era. Cá estava eu reclamando da minha vida quando havia pessoas com problemas maiores ao meu redor. Pessoas que estavam dispostas a colocar a própria vida de lado, a própria vida em risco, por minha causa. Eu realmente era um grande idiota.