Capítulo 7

Mika

- Certo, o que está acontecendo? - foi a primeira coisa que perguntei assim que orbitamos na biblioteca da Escola de Magia, chamando a atenção da velha bibliotecária que lá tinha e que somente nos deu um aceno positivo de cabeça em cumprimento, nos reconhecendo de várias visitas prévias. Eiri nada me respondeu, somente se soltou da mão que segurava o seu braço e foi até um corredor formado por estantes, me obrigando a segui-lo.

- Nada importante. - ele deu de ombros e eu tive vontade de gritar, lembrando a tempo que estávamos em uma biblioteca e se a minha memória não falhasse, a bibliotecária tinha a mania de proferir azarações bem capciosas em cima daqueles que quebrassem o silêncio sagrado do local.

- Eiri – aproximei-me dele quando o vi parar em frente a uma estante na seção de criaturas mágicas, mais especificamente dragões. - você me chamou com tanta urgência e informou que Tatsuha estava em perigo, então eu suponho que você tenha tido uma visão. - o vi puxar um grosso tomo, o abrindo no índice e percorrendo com os dedos os títulos feitos em letras rebuscadas.

- Sim, mas... - hesitou e percebi que estava prestes a obter respostas. - É curioso. Eu tive uma visão do Tatsuha sendo atacado, sendo... - hesitou mais uma vez e eu já tive ideia de qual havia sido a visão dele.

- Mas não aconteceu e é isso que importa.

- Não aconteceu... ainda.

- O quê?

- A visão não incluía bolas de fogo. Incluía o demônio atrás do Sakuma e uma adaga. - engoli em seco, recuando um passo e dando uma negativa com a cabeça. Eu nunca fui com a cara daquele tapado do Sakuma, pois as atitudes infantis dele sempre me irritaram e só o tolero porque ele é amigo do Tohma. Mas se protegê-lo, salvá-lo, implica na perda do meu irmão caçula, prefiro deixá-lo à mercê de quem quer que fosse que o estivesse perseguindo. - E outra coisa... Você por um acaso viu em que momento Tatsuha escapou do ataque?

Pisquei abobalhadamente, pensando no que Eiri disse, e a minha resposta era não. Eu lembro de estar cercada por demônios, lembro de Tatsuha caído contra a estante e de dois demônios flamejando e armando as bolas para soltar em cima dele. Então lembro de ter gritado em desespero e então tudo ficar lento até que, no segundo seguinte, Tatsuha encontrava-se fora da linha de tiro e de volta a ativa, pois explodiu os demônios em um piscar de olhos e tudo se encerrou. Mas o que ocorreu neste meio tempo, não fazia ideia. Havia um lapso na minha memória, como se o próprio tempo tivesse parado para nós e continuado para ele.

- Os poderes de Tatsuha não funcionam conosco. - declarei, porque esta era a única explicação lógica que eu poderia ter.

- Exatamente. Mas os de Ryuichi sim.

- Como?

- Quando Tatsuha nos mostrou a árvore genealógica da família Sakuma, eu lembrei de algo que pesquisei para um trabalho de história quando ainda estudava aqui. - nisto Eiri abriu o velho tomo em uma página amarelada pelo tempo onde na mesma havia a imagem de um dragão sob o título de "Dragões Shíguãng", o mesmo nome do clã de Sakuma. - Se o meu mandarim não estiver arranhado, Shíguãng significa tempo em chinês. Literalmente tempo. Horas, minutos, segundos, anos. Os Shíguãng tinham como poder o controle sobre o tempo e os boatos diziam que por causa disto possuíam o segredo da imortalidade, mas nunca foi provado. Se o que está atrás de Sakuma for o que Tatsuha disse, um Caçador, e pelo que consta na árvore Ryuichi é o último da raça, então o demônio está prestes a alcançar o seu intento.

Fiz uma expressão confusa, não compreendendo onde ele queria chegar com aquele explicação. O CDF da família sempre foi Eiri, aficionado por livros tanto educativos quanto literários, por isso não foi surpresa alguma quando ele decidiu ser escritor.

- Caçadores matam os clãs dos dragões porque somente os extinguindo conseguirão os seus poderes, mas para isto ocorrer o dragão tem que estar amadurecido. - mais uma expressão confusa. História e mitologia não foram os meus fortes na época de escola, pois eu era uma garota mais de ação. Feitiços e poções eram mais o meu ramo, assim como combates diretos e demonologia. - Se Ryuichi libertou os próprios poderes somente agora, ele pode ser considerado ainda um filhote, com muito o que aprender, e para o Caçador isso não tem vantagem alguma.

- Entretanto Ryuichi não parece disposto a aprender. - argumentei. Sakuma estava mais disposto a esquecer e continuar com a vida fútil que levava, acrescentando mais um ponto na lista do porquê eu não gostar dele. Queria atitude mais infantil do que essa? Mesmo que ele não estivesse falando feito um retardado e carregando aquele coelho com ele para cima e para baixo, ainda sim todos os pitis que ele deu até agora eram apenas uma prova de sua imaturidade.

- Mas ele pode ser obrigado. Os poderes de Tatsuha não funcionam conosco, logo, suponho que Ryuichi, em um momento de desespero, libertou o próprio poder por acidente. Entretanto, o poder dele parece não funcionar em Tatsuha, visto que o mesmo estava se mexendo quando o tempo voltou ao normal.

- E daí? Talvez a similaridade entre os poderes deles torne Tatsuha imune.

- Ou pior. - Eiri virou o livro na minha direção, me mostrando o que mais havia nele sobre esses dragões que estavam nos dando tanta dor de cabeça, e eu gelei quando li a passagem sobre eles.

- Impossível. - murmurei, apavorada somente com a possibilidade.

- Possível. O Caçador esteve no ataque, logo, se ele viu o nosso irmão não ser afetado pelos poderes de Ryuichi...

- Ele também sabe a verdade. - rosnei entre dentes só de pensar na possibilidade. - Quer saber? Esqueça o Caçador! Eu mesma vou extinguir aquele cantor de meia boca por ousar colocar a nossa família em risco.

- Mika... - Eiri rolou os olhos em divertimento. - a nossa família está sempre em risco e gostando ou não da ideia, Ryuichi ainda é um inocente.

- Desde quando você criou consciência? Se dependesse de você, deixaria Ryuichi queimar no próprio fogo. - ele me deu um sorriso de escárnio.

- Eu sei. Mas eu quero salvá-lo só para depois ter o prazer de chutar o traseiro dele. Por que só você tem que ficar com toda a diversão? - ele fez um bico que eu não via há anos e esquecendo de onde estávamos, gargalhei.

Esta família inteira precisava de terapia.

Ryuichi

- Tatsuha? - chamei, tentando fazer a minha voz se sobrepor a pequena explosão que a adição de mais um ingrediente à poção borbulhante no fogão causou.

- Sim? - o garoto me respondeu sem nem ao menos desviar o olhar da substância viscosa que soltava uma fumaça esbranquiçada e um odor nada agradável.

- Eu queria me desculpar. - falei e isto foi o suficiente para chamar a atenção dele, pois Tatsuha ergueu a cabeça, parando de mexer a poção, e me mirou com as sobrancelhas franzidas. - Sobre mais cedo. Sobre as minhas perguntas sobre as barreiras e a sua mãe. É que eu tenho essa curiosidade nata que às vezes chega a ser inconveniente.

- Sem problemas. Não é culpa sua e não é como se você fosse adivinhar. - deu de ombros, recolhendo de dentro de um pote algumas ervas que ele foi despedaçando e colocando os farelos pouco a pouco na poção. - Quero dizer, eu também poderia não ter falado nada. Já superei, sabe? Cinco anos depois e um incidente com um grupo de Fúrias me fez ter menos pesadelos à noite, mas confesso que às vezes me sinto culpado e... - e ele continuou a tagarelar, o que para mim era uma graça. Aparentemente Tatsuha tinha a mania de falar desenfreadamente quando estava sem graça ou tenha sido pego de surpresa em algum assunto. Mudar de assunto era a tática que ele usava quando desconfortável.

- Mesmo assim, - o interrompi antes que ele falasse mais do que realmente quisesse dizer. - me desculpe.

- Não foi nada. - ele deu de ombros novamente, agora adicionando uma raiz de cor vermelho beterraba à poção que borbulhou mais intensamente.

- Também queria agradecer. - os olhos escuros voltaram-se para a minha pessoa, curiosos e avaliadores, e eu me senti incomodado diante da intensidade do olhar dele. - Sei que não fui bem receptivo... - desviei o olhar, sem jeito, recolhendo uma jarra de sobre a mesa e avaliando o conteúdo da mesma com falso interesse, apenas para não me ver sob o olhar de Tatsuha.

- Normal. Nem todos são receptivos quando descobrem sobre magia. Se a sua reação tivesse sido diferente, aí sim eu me preocuparia.

- Sim, mas isto não é desculpa para agir como uma criança mimada e egoísta.

- Verdade. - o mirei indignado. Ele deveria discordar do meu ato de auto depreciação, não concordar. Mas quando o vi com aquele sorriso que estava se tornando familiar para mim, não pude ficar irritado por muito tempo. - Aliás, curiosidade: onde está o Kumaguro?

- Como?

- Onde está Kumaguro e aquele Ryuichi Sakuma que todos veem na TV?

- Está em casa, junto com o Kumaguro. - ri diante da expressão confusa dele. - O Ryuichi infantil, criança, brincalhão, é um personagem somente, um que eu criei para poder fazer coisas sem ser severamente criticado. Minha avó sempre me ensinou a ser eu mesmo e o meu eu consta em ser irresponsável quando desejar, gritar e brincar como uma criança sem ter medo das consequências. O problema é que sendo famoso como sou, agir dessa maneira com certeza geraria críticas...

- Então você age dessa maneira constantemente, assim as pessoas não iriam contestá-lo como fariam se você agisse normalmente e de vez em quando desse a louca.

- Sim, mas "dar a louca", como você diz, às vezes cansa. Às vezes eu gosto também de um pouco de tranquilidade, de agir de acordo com a minha idade, de ser levado a sério. - ele assentiu com a cabeça, compreendendo a minha explicação, e dando de ombros em seguida.

- É, faz sentido. - e adicionou mais uma erva na poção, cujo borbulhar sendo agora o único som preenchendo a cozinha. Permaneci o observando trabalhar, vendo como ele media com precisão o que precisava ser colocado na dita poção e mexia a mesma no tempo certo, com as sobrancelhas franzidas em concentração pelo trabalho que fazia.

- Tatsuha?

- Hum? - respondeu em um tom distante, mais interessado no borbulho e fumaça que saíam da panela.

- Você está sangrando. - ele ergueu a cabeça em um estalo e eu apontei para a minha própria testa, indicando à ele onde era o tal sangramento, e o vi levar as pontas dos dedos até o supercílio ferido, fazendo uma careta ao tocar o machucado. Sem pensar muito, fui até uma toalha de mão que estava pendurada sobre a pia e a peguei, a molhando um pouco e dando a volta pela área do fogão, parando ao lado dele e pressionando delicadamente o pano úmido contra o ferimento.

Pude sentir quando o corpo todo dele retesou diante do meu toque ao mesmo tempo em que os expressivos olhos castanhos recaíram sobre a minha pessoa com um brilho de curiosidade neles.

- Você nem percebeu o machucado. - sussurrei, com a sensação de que se falasse em um tom mais alto, o que quer que estivesse acontecendo entre nós neste momento seria quebrado.

- Já estou acostumado. - me respondeu no mesmo tom, não movendo um músculo enquanto eu limpava o seu ferimento.

- Não deveria. - senti um aperto no coração ao imaginar quantos ferimentos ele já ganhou nesta vida, quantas batalhas já enfrentou, quantas vezes ficou tão perto da morte. Ele deveria ter o quê? Dezesseis, dezessete anos? Era uma idade muito nova para ter visto tanta coisa ruim neste mundo.

Minha respiração prendeu na garganta quando percebi que ele me olhava como se quisesse me desvendar, sem aquele brilho de fã nos orbes escuros, mas sim com a simples curiosidade de alguém que acabou de me conhecer e estava interessado em saber mais sobre mim. Agora o meu coração deu um pulo no peito diante da possibilidade e novamente borboletas pareceram revoar em meu estômago.

- Parece que o sangue já tinha secado. - falei, somente para ter um assunto pois o silêncio e a mirada penetrante de Tatsuha estavam me deixando sem jeito. Retirei a toalha de cima do ferimento, na intenção de lavá-la, mas antes que pudesse me afastar por completo em um gesto rápido ele segurou o meu pulso, o que fez o meu coração bater ainda mais enlouquecido em meu peito.

- Obrigado. - murmurou com um meio sorriso e eu pude ter certeza de que o meu sangue estava acumulando, neste momento, em minhas bochechas.

O som de um suave tilintar e o reflexo azulado nos orbes escuros que eu não conseguia parar de mirar me fez perceber, alguns segundos tardios, que não éramos mais só nós dois naquela cozinha.

- Ei. - a voz de Mika me fez dar um pulo, me afastando de Tatsuha aos tropeços e indo até a pia, dando as costas para os recém-chegados para esconder o rubor em minhas bochechas e usando a toalha suja como desculpa para ignorar o que tinha acontecido e disfarçar o meu embaraço.

- Interrompemos alguma coisa? - o tom desconfiado e nada amigável de Eiri fez um arrepio desconfortável descer pela minha espinha, assim como pude sentir o olhar do escritor queimando em minha nuca, o que me fez esfregar com mais força a toalha sob o jato d'água para ocultar o "tum tum tum" do meu coração aos pulos.

- Descobriram alguma coisa? - a voz de Tatsuha estava aparentemente normal. E eu digo aparentemente porque podia perceber nas entrelinhas, na entonação da mesma, que o que aconteceu mais cedo, o que quer que tenha sido, o afetou tanto quanto afetou a mim.

Foi um momento simples, comigo sendo solicito ao limpar o ferimento dele e no segundo seguinte parecia que os nossos olhares estavam presos um no outro, como a cena de algum filme sentimentaloide. Algo que achava impossível acontecer na vida real. Mas aconteceu, e eu nem ao menos sei o porquê. Eu mal o conhecia, não sabia nada sobre ele exceto alguns pequenos fatos que fui descobrindo aqui e acolá, mas e os grandes fatos? Qual era a matéria favorita dele na escola? Seu passatempo favorito? Seu aniversário, quando era? Pequenos detalhes tolos que a cada minuto me incitavam ainda mais a querer sabê-los.

- Bem... - a voz de Eiri perdeu o tom desconfiado, mas eu ainda senti por alguns momentos o olhar dele queimando a minha nuca antes deste sumir. - Não há nada específico sobre o Caçador, apenas generalizado.

- Generalizado? - o tom intrigado de Tatsuha me vez virar para mirá-lo apoiado na bancada que abrigava o fogão enquanto a panela soltava pequenos vapores de fumaça contra o rosto dele, cujas sobrancelhas franzidas demonstravam o quanto ele não estava feliz com esta falta de informação. Pisquei bestamente, tentando compreender em que momento eu me tornei especialista em ler as expressões do adolescente.

- Caçadores são um clã treinado desde cedo para caçar... Dragões. - Mika fez um gesto largo na minha direção e a minha respiração prendeu na garganta.

Ainda não tinha me acostumado com essa novidade sobre a minha pessoa. Aliás, eu nem fazia ideia direito do que isto realmente significava. Tatsuha havia dito que eu era um dragão e o que vinha na minha cabeça eram enormes lagartos alados, mas não explicou o que isso implicava e o porquê de me quererem morto.

- Mas não havia uma identificação especifica do que está atrás do Ryuichi. Ou eles sucedem em seu intento ou morrem tentando. Mas uma coisa Eiri e eu concordamos... - Mika e Eiri trocaram olhares, como se estivessem conversando silenciosamente entre si somente com este gesto.

- Sakuma despertou os seus poderes agora – Eiri começou a dizer. - quando, supomos, ele tenha acidentalmente libertado um selo de família que a avó ou outra pessoa tenha colocado nele para mantê-lo longe do radar dos Caçadores. Logo, pela espécie, ele é considerado ainda um bebê, sem poderes amadurecidos. Então, acreditamos que os ataques constantes que ocorreram, todos na presença de Sakuma, é um treinamento forçado que o Caçador esteja dando à ele e...

- Espere um pouco. - Tatsuha ergueu uma mão, interrompendo o relato de Eiri. - Sakuma não estaria mais vulnerável agora, enquanto ainda é inexperiente? Por que, então, atiçar os poderes dele se o Caçador o quer morto e a maneira mais fácil de fazer isto é neste momento, enquanto ele – em um gesto de mão ele apontou para mim. - não faz ideia do que está fazendo. - Eiri suspirou, rolando os olhos e ficando em silêncio por alguns segundos, trocando outro olhar com Mika.

- O clã de Ryuichi - nisto a explicação veio da parte de Mika. - significa, literalmente, "Dragões do Tempo", dragões capazes de controlar o tempo. Horas, minutos, passado, presente, futuro. Ter um poder como esse é inimaginável. Um dragão deste clã com os seus poderes a plena capacidade é estrondoso. Eu conversei com os Anciões... - nisto Tatsuha e Eiri fizeram uma careta de desagrado e pude imaginar que quem quer que esses Anciões fossem, não eram as pessoas favoritas dos irmãos. - E eles concordam que o Caçador não vai desistir até Ryuichi despertar todos os seus poderes, assim será mais vantajoso capturá-lo. Assim como eles concordam quem é péssima ideia isto acontecer.

- Óbvio. - Tatsuha rolou os olhos em um gesto de escárnio. - E o que eles sugerem que nós façamos? Ir atrás do Caçador é caso perdido, pois eu já tentei todos os meios mágicos de localização possíveis e não consegui nada.

- Bem, teremos que esperar ele vir atrás de nós... - Mika deu de ombros. - ou mais especificamente, do Ryuichi.

- E enquanto isto faremos o quê? Ficaremos na cola de Sakuma-sama como sombras mágicas? - eu realmente não gostei do fato de que Tatsuha voltou a me chamar de Sakuma-sama ao invés de Ryuichi. Assim como não estava gostando do fato de que eles estavam discutindo a minha vida sem ouvir a minha opinião. Justamente eu que era o principal interessado no desenrolar dos acontecimentos.

- Ou... Sakuma pode ficar aqui e praticar os poderes dele enquanto aguardamos outro ataque do Caçador. - sugeriu Eiri e desta vez eu tive que intervir.

- Pensei que tivéssemos concordado que eu não iria me envolver com magia. - Tatsuha havia prometido que refaria o tal do selo e me deixaria viver a minha vida normalmente.

- Sim. Mas você concordou que isto aconteceria depois de nos ajudar a nos livrar desse demônio. - Eiri rebateu espertamente e eu ainda abri a boca para argumentar, mas não pude dizer nada. Ele estava certo, Tatsuha havia prometido selar os meus poderes depois que eu os ajudasse a extinguir o demônio e ele não especificou como seria essa ajuda, assim como eu também não ipus nenhum regra. - E para isto acontecer precisamos que você abrace a sua herança ancestral para assim atrairmos essa criatura para fora de sua toca.

- E como você sugere que eu faça isso? - franzi as sobrancelhas em desagrado, percebendo que estava entre a cruz e a espada. Aparentemente, o único meio de me livrar dessa loucura que era a magia era usando a mesma.

- Ficar aqui, deixar que o treinemos, assim quando o Caçador atacar estaremos todos preparados para ele. - Mika sugeriu e eu abri a boca para responder, quando um protesto chegou aos meus ouvidos.

- Não! - Tatsuha me surpreendeu com a sua negativa. Eu pensei que ele, sendo meu fã, seria o primeiro a agarrar a oportunidade de estar mais perto da minha pessoa. E confesso que a negação dele estranhamente me magoou. - E que desculpa usaremos para o fato de que o famoso Ryuichi Sakuma sumiu da mídia?

- Tohma dará um jeito nisso. - Mika deu de ombros de novo, sempre prática, e Tatsuha franziu o cenho, em completo desagrado.

- É uma ideia ridícula, arriscada e eu não aprovo. - completou o adolescente, o que o fez ganhar olhares confusos de seus irmãos. Até mesmo eu estava surpreso com tamanha relutância.

- Dois contra um irmãozinho. - Eiri rebateu, indicando a si próprio e a Mika. - A maioria vence e você perdeu. Então, sua opinião não conta. - com um bufo Tatsuha se afastou da bancada, pegando algo dentro de uma vasilha de plástico que eu vi, com uma careta de nojo, que era um pedaço da pele do Caçador. Com um resmungo ela arremessou a mesma contra a panela fumegante e uma explosão de fazer os ouvidos zumbirem e soltar ainda mais fumaça ecoou pela cozinha.

- Como sempre a minha opinião nunca conta mesmo. Faça como quiserem então, mas podem esquecer a minha ajuda. - e com isto ele deu as costas e saiu às pressas da cozinha como um furacão.

- O que foi aquilo? - perguntei embasbacado. Em um momento Tatsuha era um garoto todo sorrisos, sarcástico e com piadinhas matreiras na ponta da língua. No segundo seguinte agia todo ofendido por não ter as suas ideias ouvidas e como um adolescente rebelde sem nenhum motivo aparente.

- Não faço a mínima ideia. - Mika me respondeu, tão surpresa quanto eu. - Não faço a mínima ideia mesmo.