Para clarificar todos os que não leram Usque in Sempiternum, Sienna é a filha de Rose e de Scorpius.


Nem todos os bonecos são de porcelana, plástico ou tecido…

A casa estava estranhamente em silêncio e se não fossem as pequenas luzes mágicas do enorme pinheiro de Natal a brilharem para além das janelas, dir-se-ia que estava vazia. Isto é, até que um ruído fez todos os habitantes suspirarem.

- Avó! – ecoou uma voz de criança por toda a casa, a plenos pulmões.

- Que é? – retorquiram simultaneamente duas vozes femininas, num tom exasperado.

- A mãe e o pai já chegaram? – perguntou a criança, ainda invisível aos olhos das duas mulheres de meia idade. Estas estavam atarefadas, na sumptuosa cozinha, a preparar inúmeras refeições. A mesa a meio da divisão, já estava quase coberta por inúmeros bolos, tortas, mousses, pudins e outras delicias que deixavam qualquer um que lá entrasse a salivar.

- Não, Sienna, desde a última vez que perguntaste, há cinco minutos, ainda não regressaram! – respondeu a mulher de cabelo castanho, ao ver a neta surgir por detrás da ombreira da porta. Esta tinha cabelo ruivo e liso, que lhe chegava à cintura e que actualmente estava preso em duas tranças. Olhava para tarte de maçã com um olhar ávido, mas nem isso a distraiu das suas intenções.

- Mas avó Hermione, eles saíram há séculos para irem buscar a minha prenda… - queixou-se a menina, agarrando a cintura da avó e enterrando a face contra o seu avental.

Hermione trocou um olhar com a outra mulher e ambas suspiraram. Felizmente a menina não entendia exactamente o que se passava, ou estaria muito mais ansiosa pelo regresso dos progenitores.

- Avó Astoria, podes ir buscá-los? – tentou a menina novamente, e para horror das duas mulheres, viram os seus olhos começar a brilhar intensamente, devido às lágrimas.

- Pronto, querida – disse Hermione, enquanto lhe fazia festas no cabelo e Astoria se apressava a ir buscar um chocolate quente. Levaram a menina de regresso à sala, onde fotografias desta, acompanhada por dois adultos de cabelo contrastante, compunham grande parte das superfícies.

- Albus, pensei que te tinhas comprometido a cuidar dela! – ralhou Hermione, ao ver o sobrinho esparramado no sofá. Este olhou-a, envergonhado, e balbuciou algo sobre também ter um bebé para cuidar. Os olhos de Hermione suavizaram-se, ao ver o pequeno embrulho ao lado do rapaz, onde uma criança de cabelo negro dormia profundamente – Onde está a Annie? – perguntou ela, olhando em redor.

- Foi buscar um outro cobertor, aparentemente a Elizabeth não está suficientemente envolvida em tecidos grossos – comentou ele, sarcasticamente.

- Sim, mas depois és tu que te queixas por teres de te levantar durante a noite para lhe dares a poção anti-gripante – resmungou uma mulher de cabelo castanho, que entrara na sala, com um cobertor azul nas mãos.

- Ora, tu sabes que me adoras – respondeu Albus, com um sorriso preguiçoso, ao que a mulher respondeu com um som irónico.

Annie rodeava a criança com o cobertor, enquanto Sienna se aproximava timidamente de Albus. Ao chegar ao seu lado, trepou para o sofá e enroscou-se contra o seu braço.

- Tio Al, quando é que os meus pais voltam? – perguntou Sienna, puxando insistentemente pela manga de Albus. Este olhou-a, atrapalhado, e gaguejando um pouco, olhou para a mulher em busca de apoio.

- Eles estão um bocadinho atrasados, porque a tua prenda de Natal é muito especial, por isso vai demorar um bocadinho mais de tempo a ficar pronta! – disse-lhe Annie, sorrindo, enquanto terminava de arranjar a sua criança naquilo que julgava ser um embrulho aceitável.

- Onde está o avô Draco e o avô Ron? – voltou a questionar Sienna, com os pequenos olhos muito abertos na direcção da tia.

- Foram tratar da tua prenda também. Como é tão especial foram precisas quatro pessoas! – exclamou Annie, entusiasmada. Sentia que o seu sorriso soava a falso, mas não queria que a menina ficasse mais ansiosa do que aparentemente já estava.

Sienna olhou-a fixamente, mas encolhendo os ombros e dando-se por satisfeita, dirigiu-se ao quarto, nos andares superiores. Atrás de si, pôde ouvir-se um suspiro colectivo.

No entanto, apesar da criança parecer ter-se dado por satisfeita, a sua curiosidade natural deixou-a com a cabeça à roda, a imaginar o que poderia levar tanto tempo a preparar.

- Ah! – exclamou ela, quando uma ideia lhe veio à mente como um relâmpago. Teria o seu pai finalmente ultrapassado todos os medos e decidira comprar-lhe a nova vassoura Lightning 3000? Que se erguia no chão a uma distância de quatro metros? Sienna não entendia bem quanto seriam quatro metros, mas parecia-lhe uma enormidade… quase se podia imaginar a voar pelos campos e a combater todos os dragões e os feiticeiros maus que se atrevessem a magoar os seus pais! Tornar-se-ia a heroína do mundo mágico, tal como a feiticeira Harmony, que com os seus dois fiéis amigos libertara o mundo de um terrível feiticeiro, montados num dragão roubado! Sim, ela seria como essa mulher de quem o seu avô Ron lhe contava histórias antes de adormecer! Começando a treinar os seus ataques contra inimigos imaginários, que a faziam saltar por cima da cama e dos peluches espalhados pelo quarto, nem deu pelas horas a passarem.

Quando finalmente escureceu e Sienna se sentiu cansada de tanto pular e correr, voltou a descer as escadas, encontrando a sala muito mais preenchida do que quando subira.

- Aqui está a minha Malfoy favorita! – berrou James, agarrando-a por baixo dos braços e fazendo-a saltar no ar. Em seu redor dois gémeos de cabelo castanho corriam à volta das suas pernas.

- Olá Sienna – cumprimentou uma mulher que tentava acalmar os dois rapazes e dirigindo-se a estes, perguntou-lhes – O que devem dizer, meninos?

- 'lá Si! – papaguearam os rapazes, com sorrisos idênticos.

- Olá tia Jenny! – exclamou Sienna e saltando dos braços de James, agarrou nas mãos dos dois rapazes e levou-os para se sentarem ao lado da enorme varanda, a observarem milhares de flocos de neve a cair.

- Miúda, vem ajudar o tio a comer esta mousse deliciosa! – chamou uma voz masculina, por trás das costas das três crianças. Sienna virou-se e com os olhos a brilhar correu para o seu tio Hugo, que exibia uma enorme taça com recheio castanho.

- Hugo! – ralhou uma mulher de cabelo loiro revolto e com um ar despachado. Arrancou-lhe a taça das mãos, ignorando o seu ar desiludido e caminhou de volta à cozinha.

- Ainda dizem que as mulheres são mais fáceis de lidar do que os dragões – comentou ele em surdina, no entanto, aparentemente a mulher ouviu-o, pois virou-se com um olhar furioso, que o fez gemer como um rato a quem pisaram a cauda. Nem mesmo a sua protuberante barriga lhe adoçava a expressão naquele momento.

- Onde está a Elise? – perguntou Lily, que auxiliava Astoria a levitar os inúmeros pratos de comida em direcção à mesa.

- Foi com o Ron e o Draco buscá-los – explicou Astoria, enquanto se certificava que os pratos estavam todos alinhados.

As orelhas de Sienna arrebitaram, ao ouvir a nova informação. Era sabido que a sua tia Elise era uma brilhante jogadora de Quidditch, de certeza que fora ela a convencer o seu pai a comprar-lhe a vassoura.

- Ela queria era ser a primeira a ver, mas não foi capaz de suplantar a tia Hermione – comentou Lily – Nunca ninguém é…

- Eu ouvi isso! – advertiu a voz de Hermione, vinda da porta da sala. Também esta se dedicava a levitar mais pratos com comida.

- É verdade – retorquiu Lily – Não sei como, mas és sempre a primeira a chegar. Até parece que adivinhas o futuro… - Hermione lançou-lhe uma expressão negra ao ouvir as suas últimas palavras, pelo que Lily sorriu, arrependida.

- Sou apenas uma pessoa atenta aos sinais… - respondeu misteriosamente Hermione, piscando um olho a Annie, que corou. Albus olhou para ela, curiosamente, mas esta nem reparou na expressão do marido, enquanto observava Hermione a caminhar de um lado para o outro.

Aos poucos e poucos, os restantes membros da família foram chegando, trazendo mais crianças para partilharem do espaço de brincadeira de Sienna. Esta contava-lhes sobre as aventuras que teria a defender a sua casa, em cima da sua fantástica vassoura, e estas observavam-na, extasiadas, enquanto ela representava com os braços todas as acrobacias futuras.

Finalmente, quando o relógio da sala tocou as nove horas, Sienna começou a olhar para os inúmeros adultos que estavam em redor da sala. Levantou-se do círculo das crianças e marchou com passadas pesadas para o centro da sala. Abrindo a boca e inspirando o máximo de ar possível, deu um grito que fez todos darem um salto. Olharam-na, preocupados com a causa daquele berro e piscando os olhos inocentemente, Sienna olhou para estes e perguntou docemente, se bem que numa voz que parecia pertencer a alguém mais velho:

- Será que alguém pode finalmente dizer onde estão os meus pais? – completando o quadro com as pequenas mãos a agarrarem as ancas, numa incrível representação da sua bisavó Molly.

George levantou-se de onde estava, ao fundo da sala, e caminhou de mãos nos bolsos até chegar à menina. Todos o observavam, de respiração suspensa, e ao verem-no agachar-se e abrir a boca para falar, parecia que todos tinham ficado petrificados, à espera do que sairia dali.

- Querida, os teus pais estão… exactamente ali – concluiu George, apressadamente, ao ver a porta da sala abrir-se e entrarem cinco indivíduos.

Draco e Ron vinham à frente, caminhando o mais afastado possível um do outro; atrás vinha Elise com um sorriso e carregando uma sacola de viagem ao ombro e finalmente as duas pessoas pelas quais Sienna tinha ansiado todo o dia, que lhe sorriam abertamente. No entanto, antes de ela se poder aproximar dos pais, uma multidão de gente rodeou-os, conversando todos aos mesmo tempo e de forma entusiasmada.

Claro, pensou Sienna, querem todos ver a minha vassoura nova, realmente posso deixá-los vê-la, mas depois eu vou ser a primeira a voar nela!

- Que fazes aqui atrás, princesa? – perguntou Fred e pegando na menina, colocou-a sentada sobre os seus ombros. Esta ficava sobre a cabeça de todos os outros e através dos empurrões de Fred, conseguiu chegar até aos pais. Scorpius esticou os braços e a menina saltou para eles, rodeando-lhe o pescoço com os bracinhos.

- Onde está a minha prenda? – perguntou Sienna, num tom reprovador – Passei o dia todo à vossa espera, pensava que se tinham esquecido que era Natal…

- Aqui – disse simplesmente Scorpius, apontando para algo que até então lhe passara despercebido. Em cima do sofá estava um objecto, mas nem por sombras se tratava de uma vassoura, aliás na verdade tratava-se de…

- Isso é um boneco? – perguntou Sienna, observando o estranho ser e apressou-se a acrescentar – Os bonecos são chatos…

- Sim, mas este mexe-se, come e até… - começou George, mas foi imediatamente mandado calar por toda a família.

- Claro que não! Sienna, apresento-te o Lucas Orion Malfoy, o teu irmão – disse Scorpius, com um sorriso tão rasgado que parecia querer cegar todos com os seus dentes incrivelmente brancos.

Só então Sienna observou a sua mãe de alto a baixo, fixando-se num ponto em específico. Durante os últimos meses haviam-lhe dito que a enorme barriga que fora crescendo à sua mãe era devida a um bebé, um irmãozinho com que poderia brincar, mas como a criança não percebia como um bebé poderia caber dentro de um espaço tão pequeno, sem esmurrar o ar como ela via Elizabeth a fazer constantemente, julgara tratar-se do que ouvira o seu pai uma vez apelidar de mentira inocente: uma forma de não deixar a sua mãe triste por estar a ficar gorda. Mas agora Rose já não apresentava aquele enorme balão na parte da frente do seu corpo, estando tão elegante como Sienna sempre se recordara dela.

- Mas a Elizabeth é um bebé e não se parece com isso… - respondeu Sienna, observando o pequeno ser e procurando depois a prima com os olhos. Esta já suportava o seu peso nas duas pernas, sorria e proferia algumas palavras confusas, enquanto ria, abanando os caracóis negros, mas este bebé era minúsculo, tinha uns quantos fios de cabelo loiro, idênticos aos do seu pai e era tão rosado!

- Sim, mas a Elizabeth tem quase um ano e meio e o Lucas nasceu ontem à noite… - explicou Rose, numa voz doce. Sienna dirigiu os pequenos braços na sua direcção e o pai passou-a para o colo da mãe. Sienna lembrava-se de como os pais tinham estado apressados ao deitá-la, bastante mais cedo do que o normal e de como ao acordar de manhã, apenas as suas avós estavam em casa.

- Não estás contente por teres um irmãozinho? – perguntou Rose, preocupada e aproximou a filha do bebé. Este abriu os olhos e Sienna viu os seus olhos cinza-azulados duplicados na face do irmão. Enrugando a testa, como se estivesse a realizar um cálculo complexo, acabou por suspirar e responder à mãe num tom contrafeito.

- Até que é fofo, mas eu continuo a preferir uma Lightning 3000…


Pobre Sienna, nem todos temos o que queremos, mas apesar de toda a crise que o mundo anda a sofrer, quero desejar um excelente Natal a todos, assim como um próspero Ano Novo. Por favor, sejam felizes e se encontrarem o Scorpius Malfoy digam-lhe que quero falar com ele... :)