"Princess and Paladin Challenge 2012"

#1 - Gelo/Neve


Globo de neve

Não se lembrava de mais nenhum dia sem neve. O inverno não queria passar. O último verão de sua vida fora anos atrás – quantos? Dois, três? Esquecera-se de contar. Sua memória se tornava tão branca quanto o gelo que se acumulava na soleira da porta.

Estava sempre tão frio, mas por que não estaria? Ele partiu e levou consigo o calor de seus braços. De caso pensado, se afastou, arrancando dela a única alegria pela qual vivia. Seu corpo quedava álgido, cada vez mais como uma morta. A neve não cessava, nem dentro, nem fora de casa. O vento ciciava ríspido, os galhos negros se curvando à sua potência.

Era como se tivessem acabado de sacudir o globo de neve no qual vinha vivendo.

Estava presa dentro daquela dor. Contudo, estava dentro dela igualmente de caso pensado. Não sabia se recuperar, cada minuto que passara longe dele enregelara suas emoções e não era capaz de olhar com afeição para mais ninguém, nem para seu reflexo no espelho.

Paralisada sentimentalmente por aquele vazio, experimentava uma dor que julgava mais adequada que abrir mão das lembranças, mesmos das piores delas. E não queria confortações.

Correndo, escapou para aquele lugar que só eles conheciam. Fez o percurso tentando acreditar que o chão tocado por seus pés não ia se desfazer. Sua respiração oscilante e pesada projetava exalações no ar, deixando vazar o restinho de força que dentro de si estava guardada, em último caso. Agora não via mais porque preservá-la. Tocou sua própria face, em uma última tentativa de se controlar. Como esquecera as luvas, suas mãos endureciam. Olhou a volta, inesperadamente surpreendida com o que via. Mesmo ali, tudo havia se tornado abandonado e gelado, corrompido em intensidade imensurável pelo estado de espírito trágico que açoitava o seu âmago. E o grande lago azul petrificado mimetizava o olhar dele. Os carvalhos majestosos, desgalhados, pareciam lamentar pacientemente a ausência dele.

Desaparecido em combate – nem todo o silêncio existente poderia evitar que, em sua cabeça, ela escutasse vez após vez o anúncio melancólico do rapaz sóbrio à sua porta, fardado formalmente, exibindo um luto formal. Simultaneamente, o outro rapaz olhou para baixo solenemente e não disse nada, as mãos unidas na frente do corpo. Aquela imagem se gravara em sua mente como que por ponta de diamante.

Se quisesse, ali poderia gritar de protesto. Entretanto, a paz cândida que tomava conta do local, fazendo-o sacro, forçava-a a se emudecer profundamente e a fina aragem cortante que dominava completamente a atmosfera tocava seu rosto, apagando qualquer traço remanescente de calor de sua pele bem como as marcas que ele deixara quando a tocara pela última vez.

Respirar doía. Abandonou o peso do corpo e devagar aterrissou na terra forrada de gelo, as pernas dobrando-se como que feitas de pano.

Ele prometera voltar, não prometera? Será que sabia que não seria capaz de cumprir?

Na ideia dele, nunca houvera meios de falhar.

Faria alguma diferença tê-lo apoiado naquela decisão?

Às vezes pensava que quem desaparecera em combate fora ela. Lutara contra o remorso de não ter aproveitado mais a presença dele. Lutara contra a solidão depois de sua partida. Lutara com a negatividade que sempre a assegurou que aquele era o fim certo de suas vidas. Nessa luta toda, perdeu-se sozinha, esqueceu-se de quem era aos poucos, dia após dia, a cada derrota, a cada vitória, soterrando-se sem falta sob a neve que agora preenchia também seu peito.

Sua vista corria pelas linhas mal traçadas das cartas e pela única fotografia que ele lhe enviara – estava parado, junto ao tanque, farda de deserto, um lenço árabe sujo de poeira envolto no pescoço, irreconhecível – e tentava chorar, mas não conseguia.

Devia tê-lo impedido. Mesmo que fosse tarde demais, se o tivesse chocado com alguma notícia falsa, nem que precisasse explicar-se depois, nem que o magoasse, qualquer mal temporário seria melhor de suportar se tivesse garantido a presença perene dele ali. Deste modo seu coração não teria se tornado um bloco de gelo e sua existência não teria sido aprisionada dentro de um bibelô de mal gosto de loja de presente, dentro do qual se via eternamente sozinha.

Às vezes pensava que era melhor que ele tivesse morrido. Assim não tinha mais pelo que esperar. E não seria um grande alívio poder finalmente livrar-se daquele sofrimento para assumir um novo? Uma nova angústia distrairia, talvez até derretesse toda a água que a outra petrificou.

::::::

Se ele fechava os olhos, não tinha escapatória, era só nela que pensava. As noites muito silenciosas preocupavam mais. O vento nos seus ouvidos trazia consigo uma voz que sussurrava fantasmagórica qualquer coisa que ele quisesse entender. Erguia o rosto e via um sem número espantoso de estrelas, desejando que ela também as pudesse ver. Refletidas nos olhos azuis da moça, estas ficariam ainda mais espantosas e mais dignas de serem apreciadas.

Não era hora para arrependimentos, embora a última carta recebida tenha sido triste demais para que até mesmo ele ignorasse. Algumas linhas o faziam pensar quantas vezes ela refreou-se em escrever que o odiava. Nem os relatos mais corriqueiros se excetuavam em carregar agonia nas entrelinhas. E ela reclamava tanto do frio e da neve…

Não achava errado admitir fazê-la sofrer. Ao seu modo, ele sofria também e provavelmente muito mais intensamente. O fato de ter se afastado queimava como um ferimento infeccionado, gerando intensos arrepios de febre quando pensava quantos quilômetros os separavam. Não tinha ficado ileso a própria escolha, sua dificuldade era expor o quanto doía. E no vazio daquela sequidade desértica, apenas via a ausência de seu carinho maximizada. Confundia-se com o passar do tempo, nutrindo medo de não reconhecê-la quando se reencontrassem, temendo de repente não ser reconhecido.

Não considerava ser fraqueza admitir sentir muitas saudades dela. Tentava recordar-se se quando eles se despediram dois anos atrás a fizera saber que a amava sinceramente. E perguntava-se, caso tivesse lhe comunicado a altura, peso e comprimento de seu sentimento, se ela o teria aceitado, já que a guerra a ofendia e seu horror a impedira de ter ambições positivas e querer apoiá-lo. Tudo o que mais ardentemente queria era que ela acreditasse nele como ele mesmo fazia. Ninguém lhe roubaria a certeza de que jamais a frustraria, decepcionaria ou magoaria outra vez.

Viu uma estrela cair – ocorrência tão comum ali.

Não era hora para fraquejar. As noites muito silenciosas exigiam mais. Se fechava os olhos, era transportado para aquele lugar considerado secreto por que ninguém mais o conhecia como eles. As lembranças feitas lá deram ao bosque um caráter único que só os dois enxergavam. O idílio que estava encarcerado lá o iludia fácil. Se havia qualquer coisa preciosa de sua posse merecedora de preservação, eram aqueles momentos passados lá, que apesar de então parecerem tão pequeninos, sem falta resgatavam seu coração cada vez que recorria a eles.

A segurança de ter visto a verdadeira essência dela, os francos, únicos e mais puros sorrisos e lágrimas, entre aquelas majestosas árvores acalentavam mesmo ele que raramente se comovia. Toda a força de seus sentimentos foi revelada junto àquele lago sereno, por mais que, muitas vezes, acabasse guardando-os somente para si, infalivelmente se surpreendendo com o que era capaz de experimentar. E se não fosse ela, de fato, nunca experimentaria ou guardaria aquelas recordações com tanto cuidado ou veria a mesma beleza que aquele cenário, tão desigual ao que o rodeava agora, sem reservas ostentava. Quase a sentiu perto de si, roçando os lábios em seu rosto, dizendo seu nome. Mas era o vento, estava sendo enganado de novo pela saudade. Sorriu, coisa que raramente fazia.

Foi quando a primeira explosão foi ouvida seguida dos sons de alerta, dos novos estouros e das ordens bradadas – a ação era sempre a mesma, mas nunca como planejada.

Não era hora de desistir. Aquela podia ser a última batalha.

::::::

Ele foi embora no último dia de outono. Seu destino ao dar as costas para sua antiga realidade, que logo mergulharia-se na neve, era enfrentar um mar sem tamanho de seca e sol.

Ela abraçou os próprios ombros parada na varanda, somente esperando o momento em que ele daria seu primeiro passo para longe. Sentiu, como o vento, ele sair da casa e parar ao seu lado.

Preferia que se despedissem em melhores termos. Ficou encarando-a por algum tempo depois de colocar a mochila no chão.

Em seu coração, ele já era um soldado. Vestir a farda seria apenas uma consequência. Partia por sua escolha, unicamente sua, se ela respeitava, via-se obrigado a respeitar o modo como ela deplorava o que ele decidira.

_Não vai olhar para mim?

Ela estremeceu ao escutá-lo. Aquela voz! Por que ele não se manteve quieto, presente só como um fantasma? Seria mais fácil do que ter de ser assombrada por aquele som. Jamais iria esquecer cada palavra que ele dissesse em sua última conversa.

Dividida, ousava considerar que não podia despedir-se dele. Jamais poderia despedir-se o suficiente, jamais poderia abrir mão dele. Nunca concordaria com sua partida, mesmo se ele a provasse errada, mesmo se ele retornasse são e salvo para ela, ainda não aceitaria o que ele fez. Voluntariar-se para morrer – longe dela era entender isso! Patriotismo, nacionalismo – todos conceitos vãos que não a moviam.

Deslizou os olhos sob a linha de seus cílios, não movimentou a cabeça.

Ele só queria lutar porque era bom, genuinamente bom e puro, decidido que, para seguir fazendo o que era certo, precisava contribuir com sua força, com seu sangue e mesmo com sua vida para honrar os que se perderam e preservar os que restaram.

Meneou a cabeça, amargada por tal conclusão. Esfregou com descuido um de seus olhos para apagar uma lágrima.

Ele tocou-a no rosto, fazendo-a tremer um pouco, mas ele não notou, mexendo nos cabelos dela, tirando-os para o lado, descobrindo a maçã da face rosada. Não desconsiderava o quanto era duro para ela.

_Olhe para mim…

Os lábios dela vacilaram de tentar conter o choro. Só pioraria as coisas se desse para ele uma imagem tão ruim de se lembrar. Contudo, sempre fora muito difícil suprimir seus sentimentos. Era transparente demais para tanto.

Respirou fundo, apesar de uma vez só não ser suficiente.

Ele não tinha pressa. Conforme alisava o rosto dela, ela achegava-se mais e ele sabia que, no final, acabaria com ela enterrada em seu peito sem tê-lo fitado.

Tortura! Travava já seu próprio combate. Quem seria tão magnânima quanto ela no mundo, deixá-lo partir contra sua vontade?

Virou-se e atirou seu olhar na face dele, confusa e arrependida.

Ele usou as duas mãos para segurar o rosto dela.

_Não se preocupe, não queria que você se despedisse de mim com um sorriso. –assegurou, a voz sempre constante.

Ela assentiu, olhando para baixo. Mesmo assim, não choraria.

_Vai se atrasar. –acabou murmurando. Não aguentava mais! Era melhor terminar com aquilo.

Ao erguer a face outra vez, lançar o olhar de misericórdia, sentiu os lábios dele tocarem os seus com aquele calor tão familiar. Se a queria matar, porque não lhe esfaqueava com seu velho canivete? Certamente sofreria menos. Ao mesmo tempo, era fraca demais para rejeitar um último beijo.

Quanto tempo demoraria a que ele a pudesse beijar outra vez? E por que pensar nisso ali, só para estragar o momento? Ao passo que ela envolveu seu pescoço, teve certeza de que não havia melhor lugar para estar. Para fazer algo nobre, se ausentaria. O chamado da honra era o rugido do leão no seu peito, de repente seus ouvidos só captavam a este.

Quem quisesse, que o julgasse pelo que decidisse. Era arrogante. Quando escolhia, não voltava atrás – era seu defeito e qualidade.

A forma com que ela correspondia ao beijo e às mãos dele que apertaram sua cintura era uma angustiada, porque sabia que quando o soltasse, seria para perdê-lo. Para perdê-lo. Estava convencida de que o perdera, apesar de ele ainda estar ali. Odiava tanto a guerra, só esperava o mal dela. A guerra o tiraria de si; por vingança, a guerra o roubaria para si. Era só que sabia fazer.

Queria resmungar para ele não ir, abraçou-o apertado para ele não poder escapar, mas o que escutava rufando dentro do peito dele era um tambor de batalha.

Ele deu um passo para trás, apanhou a mochila, e, alisando o rosto dela, disse adeus.

No momento em que pisou para fora de casa, o inverno tomou seu lugar no mundo e no coração dela. Pouco a pouco, dia a dia, de nevasca em nevasca.

No momento em que ele partiu, ela também entrou em guerra. O inimigo contra que lutava era o desânimo. Encontrava-se no centro de um cerco inescapável, estacadas erguidas pela solidão. Mas estava desarmada e desprotegida, os movimentos presos pelo gelo e o âmago sendo completamente tomado por uma aragem invernal.

::::::

_O seu senso de dever vai me matar. –ela resmungou em lágrimas instantâneas, evitando olhá-lo, as duas mãos em punho junto à face para lembra-la de que era real.

Quanto a ele, a indiferença vestia-o como uma couraça. A imagem dela não o aprazia nem um pouco, mas a decisão tomada o fazia sentir que não era permitido ceder ao sofrimento, mesmo ao maior de todos. Entretanto, forçava-se a olhá-la concentradamente, querendo recolher cada detalhe da aparência dela para assegurar-se do que fazia. A forma impassível com que ele a assistia a afrontava:

_Essa guerra não é sua!

_E de quem é? –inexpressivo, ele indagou. Não queria se separar dela, entretanto, era incapaz de ensurdecer-se a convocação de sua honra. O agastava ficar imóvel ao passo que o mundo ruía.

_Não quero saber! –ela se ultrajava diante da tentativa dele de raciocinar consigo. Para ela, não fazia sentido nenhum ele se alistar.

_Alguém tem de lutá-la. –a resolução dele feria os ouvidos. Balançou a cabeça, sem vontades de se conformar.

_Você não! –e determinava, sua voz aguda de horror, seus olhos escancarados, como que vendo o futuro e vendo o pior.

O entorno era só luz e calor. Todas as árvores verdes brilhavam exibindo magníficas copas atravessadas pelas lâminas de luz solar, protetoramente abraçando o casal junto ao lago no qual o vento brincava criando graciosas rugas na superfície cristalina.

Ele deu um passo para perto, ela deu um passo para longe.

_Relena… –ele murmurou, tão calmo.

Ouvindo seu nome, foi acionada, e olhou para ele, cada vez mais confusa. Ele não mostrava o menor sinal de ansiedade. Será que não se importava em vê-la tão transtornada por uma escolha que ele fez sozinho?

_Você… não pensou em mim nenhum momento. –acusou, contristada.

Ele não replicou. Ela não decidia, porém, se ele concordava com ela, pois nem sempre o silêncio dele era anuência. Encarou os olhos dele, que eram estáticos, profundos e inexploráveis, azuis e escuros, vazios e intensos. Enfrentava uma parede de gelo que nem mesmo aquele verão poderia derreter.

Consultá-la ou não – não faria diferença. A reação, ele sabia, sempre seria aquela. Magoaria-a.

Ele deu um passo para perto. Ela ficou imóvel.

_Por que não confia em mim? –sussurrou com pouca gentileza.

O fato é que estava havendo uma guerra e isto não podia ser ignorado. Nem ela conseguiria viver muito tempo fingindo que nada acontecia. Ele queria lutar e só conseguia pensar nisso – a conquista da paz e a punição do mal surgiam como prioridade altruísta que o movia mesmo a tamanho sacrifício. Sua vida simples com ela era tudo que precisava, mas não podia levar aquela rotina adiante ciente de que muitas outras pessoas estavam privadas de algo tão essencial. Não podia ser egoísta a tal ponto.

Alisou a face dela, sentiu o calor, as lágrimas e o tremor. Não a repreenderia, entendia que ela achava o preço alto demais. Afinal, era a completa alegria dela que estava na mira. Provavelmente sentia-se abandonada, quem sabe sentia-se traída…

_É por você que vou lutar. –isto é, para viver em um futuro de plena paz ao seu lado. Ele acreditava que aquela batalha era capaz de trazer tanto.

Ela meneou a cabeça. Não acreditava nisso. Ponderava que, se ele se importasse com ela sinceramente, não iria. Nunca quis alguém disposto a lutar por ela. Não daquele jeito. Para ela, guerras nada solucionavam, só destruíam futuros dos dois lados da linha de batalha. Não eram sinais de coragem, só de prepotência. Preferia que ele fosse covarde.

_Só vou te perdoar se você voltar. –murmurou, incontidamente amarga, encostando a cabeça no peito dele, sem mais resistir ou saber como se comportar. Agarrada a camiseta dele, julgou que era melhor apenas chorar.

Embrulhando-a junto a si, ele sustentou sua mudez dúbia e dolorosa, sentindo-a arder colada em seu peito feito ele tivesse tomado uma fogueira nos braços.


Free talk

Começando muito bem o P² Challenge, começando muito bem o ano de 2012, cheio de tragédia, drama e angst! :hohohohohohohohohoho: Essa sou eu, a humilde autora.

É a primeira vez que participo de um desafio e estou um pouco nervosa. Se eu fizer alguma coisa errada, me alertem, por favor.

O primeiro tema, sugerido por moi, foi "gelo/neve". A ideia inicial era "gelo" apenas, contudo, não consegui me virar só com isso e tomei a liberdade de trocar por neve. Peço desculpas sinceras, Suss, se a alteração foi em cima da hora. -_-

Como é meu costume, estou aqui me lamentando: não acho que consegui me prender ao tema, talvez apenas passei raspando? Ah, e tive uma dificuldade grande para decidir um título. A ideia do globo de neve me pareceu muito brilhante, pena que eu não creio ter desenvolvido a contento. -_-²

Quem quer um final feliz, levante a mão. o/

Não!

Mwuahahahahahahahaha! :sai correndo de cena com ares de vilania:

Tá, parei, parei. -_-

O que me resta é esperar suas reviews!

Até breve, semana que vem já tem a próxima onesho do desafio e preciso começar a trabalhar nela. O tema está tão legal! :3

Beijos!

02.01.2012