Por muito tempo, hematomas foram os únicos sinais de vida. A pele branca e de repente fria estava salpicada deles, feito flores raras. O peito tremeu com o esforço da respiração. Ele observava de perto cada particularidade da jovem. Seu plantão já havia chegado ao fim, mas não importava. Tinha sido cativado pelas circunstâncias.

A face dela ficou tensa por um instante curto. Ela devia estar sofrendo um sono conturbado, desprovida de forças para se debater. Ele a julgava forte só por ter sobrevivido.

Tinha sido um acidente terrível, grave. O cavalo pisou nela algumas vezes depois de derrubá-la. As marcas da ferradura pintaram de preto e azul a cútis pálida. Ela desmaiou com a queda e não acordara desde então. Entretanto, se o repouso a incomodava, trazia o alivio para os demais que ela não entrara em coma.

Ela franziu a testa e respirou debilmente. Os aparelhos davam avisos sonoros da instabilidade de seu coração. Ela queria acordar.

Heero não sabia então como dar-lhe a noticia.

A perna esquerda, mais castigada pelo animal, não tinha mais conserto.

_Leve o tempo que precisar. Não tenha pressa. –ele murmurou, pensativo.

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Porque tinha de passar por tal tormento cíclico, não sabia. Era como se fosse conduzida, sem energias para resistir. Tudo começava bem, todas às vezes, bem como terminava mal. O gramado cheirando orvalho farfalhava com o vento. O céu tinha um tom delicado de azul, luminoso de um modo leitoso, onírico, confortável. Da primeira vez que pôs o pé no estribo, o cavalo era branco e brilhante. As cores mudavam a cada reinício. Ela cavalgava sem sela, habilidosa, agarrando-se somente as crinas. Da primeira vez, foi uma cobra que assustou a montaria. O cavalo a jogava para frente e depois deixava as patas cair em seu corpo, pesadas e brutais. Ela gritava com toda a força de seu pulmão, mas não saia voz qualquer. O cenário já mudara para uma noite de tempestade atroz e ela era absorvida por um fosse sem fundo em vertiginosa queda.

Exaustivo. O baque da queda a sobressaltava cada vez e a deixava ansiosa e paralisada, por mais que soubesse que o cavalo a iria acertar.

Chegou um momento em que ela não queria mais subir no cavalo, contudo uma voz e seu rosto embaçado, que ela não reconhecia, a obrigava, chamando-a de longe, incentivando-a que viesse rápido.

O cavalo a derrubava com mais dureza cada vez, diante da cobra, do fogo espontâneo, da árvore que caía, do lobo, do relâmpago – perigos vários rompiam a manhã de sol acalentador com a qual ela iniciava a jornada. O relincho argentino beliscava seus ouvidos e ela não conseguia gritar.

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Ela devia estar sentido dores, muitas dores. Depois de doze horas, decidiram que diminuindo a dose do analgésico, ela teria mais estímulos para despertar. Fora do mundo que ela habitava no sono reparador, as pessoas que a queriam bem viviam seu próprio pesadelo. Heero acompanhava a família aflita, os amigos se apoiarem com palavras na sala de espera, abatidos. Tinham aberto mão da esperança, estranhamente, embora o único dano certo tivesse sido a perna, quebrada em três lugares.

Já era o meio da madrugada, ele tinha tomado um café horrível na sala de descanso e voltado para vê-la. Olhou o prontuário, debaixo da luz baixa no corredor antes de entrar. Nada havia mudado em seu quadro. Ele não a podia tocar, mas seus olhos a percorriam possuídos por algo próximo ao carinho. Não entendia porque ela o fascinava tanto. Sentia nela a força de atração do olho do furacão. Como ela seria? Quem ela seria? Seu corpo estático de bela adormecida o intrigava. Sentou-se na banqueta esquecida ali depois do horário de visitas e pôs-se a vigiá-la. Pacientemente, iria esperar ela acordar.

_Eu… quero te conhecer. –e admitiu a si mesmo com relutância, sua voz superando todos os bipes do monitor cardíaco.

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O cavalo parecia enlouquecido, cegado. Ela, sempre muda e desesperada. Os golpes das patas ficavam mais doloridos a cada sonho. Chorava, perturbada, exausta do disco riscado de seu subconsciente. Ele queria lhe mostrar algo, comunicar a realidade do mundo exterior, e criara para ela o pesadelo mais desgastante do mundo – imaginário ou não.

Quando caía e acertava o chão, tentava gritar em vão, não demorava muito e tudo se apagava. Por um tempo, descansava das visões.

Às vezes, um vulto misterioso fazia uma aparição. Era na verdade, só uma voz. Esta a motivava a perseguir aquele sonho, sentia como se aquela voz fosse seu destino.

Daquela vez, ela montava Peacemillion. O cavalo sacudia um pouco com o peso dela. Ela se ajeitou na sela, empunhou as rédeas e deu o sinal, começando um trotado descontraído. Conforme a cavalgada prosseguia, incitou mais velocidade e o animal deixou-se levar pelo vento. Ela sorria, o sol banhando seu rosto com calor carinhoso.

Surgiu então o obstáculo, dessa vez ela não estava esperando, o pesadelo começara só ali. O vulto surgiu na frente de Peacemillion, que bruscamente interrompendo a corrida, a deixou cair e a pisoteou sem perceber. Ela encheu o peito de ar e tentou se arrastar, mas era tarde demais. As pernas estavam fracas e a cabeça, confusa. Gritou.

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O som foi tão alto e agonizante que a enfermeira na recepção conseguiu escutar, bem como as pessoas e pacientes que transitavam ali. O grito foi prolongado, agudo, repetido, uma expressão alarmante de um sofrimento insuportável.

Heero estava em seu consultório atendendo uma mãe com um garotinho que levara uma bolada de tênis no rosto e ficou intrigado pela movimentação do lado de fora, deixando a folha de raio-x sobre a mesa e indo até a porta.

Uma enfermeira vinha na sua direção justamente naquele momento.

_O que houve, Cathrine?

_Uma paciente no corredor 3. Pelo visto acordou do coma.

_A senhorita Darlian?

_Não sei…

Ele olhou para a mãe que pacientemente mantinha o menino de oito anos sentado na maca e suspirou:

_Sinto muito, senhora, surgiu uma emergência…

Ela assentiu, tirando o filho da maca.

Heero tentou não correr pelo corredor quando ouviu seu nome ser anunciado pelo sistema de som pela voz abafada da enfermeira-chefe.

_Doutor Yuy, corredor 3.

Ao alcançar o quarto, viu outro médico ajudando o enfermeiro a posicionar a moça na cama. Era fácil ver que ela tinha se levantado abruptamente, com todas as suas forças, porque seu rosto se contorcia de dor, seus olhos estavam sentidos e confusos, e os dois rapazes colocavam a sonda e os eletrodos no lugar.

_Heero, ela acabou de acordar. –o médico colega seu mencionou o óbvio, admirado, falando baixo, afastando-se da paciente enquanto o enfermeiro terminava de acomodá-la. –Ela soltou um grito tremendo, a ala toda entrou em pânico.

Heero assentiu, pouco surpreso. Por mais que não pudesse prever exatamente o que aconteceria, sempre soubera que algo incomum estaria presente no momento em que Relena despertasse. Ela tinha um sono agitado demais, perturbado demais para fazer uma transição simples entre as consciências.

_Levou 72 horas para ela voltar. –murmurou, anotando a hora no prontuário. Estava fazendo uma aproximação. –Você pode ir ver uma mãe no pronto atendimento? –e indagou, monótono, olhando o amigo com firmeza. O outro médico assentiu, enfiando as mãos nos bolsos do jaleco e olhou a moça uma última vez antes de partir.

O enfermeiro deu espaço para ele, falando pela última vez a moça que tudo ia ficar bem em uma voz suave. Relena ergueu os olhos aflitos e lacrimejantes para o jovem médico que aparecia e franziu a testa.

_Benvinda de volta, senhorita Darlian. –mesmo se tentasse, não soaria mais do que sério.

Ela arregalou os olhos e ficou parada. Soluçou umas duas vezes, a dor percorrendo todo seu sistema nervoso.

Ele olhou os aparelhos e fez mais anotações.

_Sinto muito não ter estado aqui quando acordou. –e estava realmente frustrado por ter perdido isso. Relanceou-a e percebendo o arrebatamento dela, interrompeu tudo o que fazia para perguntar e ouvi-la responder.

_Você está se sentindo bem?

O palor seguia, mas não mais absoluto. Toda a agitação trouxera cor para suas bochechas.

_Eu estou com muita dor, doutor… –e gemeu, fechando os olhos.

Ele assentiu. Terminou as anotações e pediu ao enfermeiro que trouxesse alguns medicamentos.

Heero sentou na cama ao lado dela e suspirou. Estava desperta, sim, mas quanto será permitiria que ele conhecesse dela?

_Senhorita Darlian, você esteve dormindo nos últimos três dias. Você sofreu um acidente grave. –explicou resumidamente. Pensava em como era um milagre ela ter mantido a mente intacta.

Ela abriu os olhos.

_Eu caí do cavalo. –comentou, quase sussurrante.

_Sim. Você se lembra? –ele assentiu, admirando os olhos azuis dela perderem-se no meio das olheiras violetas, e se interessou.

_Eu sonhei com isso o tempo todo… Eu caia e não conseguia gritar… –resmungou seu relato, cansada de verdade com tudo que se passara dentro e fora de sua mente. Ao mesmo tempo, um detalhe intrigante obrigava-a a pensar. Sentia que já tinha ouvido a voz dele, mas ainda não estava em condições de compreender completamente tudo o que ocorria. A dor também a distraía muito.

Heero fez novas anotações e ela o ficou assistindo.

_Eu acho que… ouvi sua voz nos sonhos. –e depois de um silêncio insistente, ela disse, um pouco baixo, embaraçada, surpresa com a conclusão.

Heero ergueu os olhos para ela, tirando-os de sua anotação, e dedicou-lhe um fito absorvente. Sabia que teriam muito que conversar, contudo, não estava certo de que ela seria capaz de absorver as informações naquele momento. Agora que ela acordara, outra vez não havia necessidade de pressa.

Ela prendeu também seu olhar ao dele, intrigada, esperando que ele falasse mais. A voz dele era a única boa lembrança dos seus sonhos ruins.


Penúltimo tema do desafio! Yay!

Continuo explorando um estilo experimental e continuo achando que não faço muito jus ao tema com os enredos que escolhi. Mas também não sei bem o que quero e ando meio cansada de exigir demais de mim. Estou gostando tanto de criar essas histórias breves e bem experimentais mesmo.

O último tema está muito difícil para mim e apesar de eu já estar escrevendo a resposta, não sei se vai causar o efeito certo.

Bem, até lá então!

Espero que gostem desse texto e não deixem de ler as respostas da minha amiga desafiante Miyavvi Kikumaru.

Beijos!