#5 - Chuva


Em uma tarde de chuva

Zechs sentara-se a mesa, próximo da janela, e dedicou-se a assistir a cena que passava lá fora.

O dia estava cinzento, a luz do sol tocava a terra vinda de direção desconhecida. Relena dobrara os joelhos e sentara-se como pôde em cima dos calcanhares e sorria quase como sempre fazia, embora tivesse se esforçado em fabricar uma dose extra de meiguice para dirigir ao filhote que brincava com ela.

_Foi uma boa ideia comprar o cachorro para ela. –Noin aproximou-se e sentou oposto a Zechs, colocando na frente dele uma xícara de café fresco.

Ele sorriu distante e assentiu.

O animalzinho fazia festa para a garota quase o tempo todo, como se nunca se cansasse de mostrar o quanto a presença dela era importante.

Nos últimos três meses, ela estivera com ele no jardim sempre que se sentira disposta a sair. Especialmente na última semana, sua energia parecia ter alcançado um pico e ela tinha passado bastante tempo distraindo-se com as inocentes reinações de Brownie. Qualquer coisa havia lhe dado a predileção de morder as calças da menina e nisso os dois gastavam muito tempo até ela decidir tapeá-lo com a bolinha ou seduzi-lo com algum petisco. Brownie estava sempre pronto para qualquer novidade.

Relena sentia-se confortável com o animal e, quando ele dormia, tinha gosto em afagar o pelo castanho quase negro que o labradorzinho ostentava. Ele usava um casaco tão macio que, quietinho colo dela, não parecia nada diferente de um bichinho de pelúcia. Apanhando uma das patinhas na mão, ela aproveitava enquanto eram pequenas, macias e delicadas e brincava com os dedinhos redondinhos. Dali a pouco, a pegada dele seria como de lobos, mas por ora, tinha tamanho suficiente para se encaixarem na palma de sua mão.

Era bom encontrar algo no que pensar. Mantinha o espírito leve e as lembranças infelizes longe de si. Compensava um pouco o afeto que fora interrompido, cuja fonte fora destruída e perdida para sempre.

_Brownie vai contribuir para a recuperação dela. –Noin arrazoou, falando serena e pensativamente.

_Realmente espero que sim. –com desânimo mal disfarçado, ele expressou.

Uma nova vida talvez mostrasse a ela porque ainda valia a pena seguir adiante com alegria.

Noin observou a face dele e tocou-lhe a mão por sobre a mesa, transmitindo apoio por meio do gesto.

Poucos estão preparados para sentir a dor maior, não porque são fracos, mas porque normalmente, nunca se deseja a dor ou se acredita seu próximo alvo.

Brownie havia se jogado na grama e ainda com a cauda abanando, olhou para a garota consigo, ofegando de felicidade. Ela o tomou nas mãos e lançou a vista para o céu além do muro. Nuvens baixas e levemente cinzentas tomavam conta do espaço, contudo, uma aragem amiga chamava-a para longe dali.

Decidiu:

_Vou levar Brownie para dar uma volta. –apareceu na cozinha e comunicou.

_Com este tempo?

_Só uma voltinha para ele começar a reconhecer a vizinhança…

_Não demore muito.

Assentindo, foi buscar a coleira vermelha que escolhera para o filhote na semana anterior, quando deixaram o veterinário. Brownie havia completado quatro meses e já estava ansiosíssimo em se exercitar mais vigorosamente e nem pensava se o clima era inapropriado para isso.

Ficou receoso ao ver a coleira e pouco a vontade ao senti-la prendendo-o, contudo, conforme Relena o conduzia para fora do jardim, em direção ao portão, passou a empolgar-se, certo de que algo maravilhoso aconteceria.

Pisando para fora do portão, a única pessoa que encontraram foi um vizinho sentado na varanda que brincou um pouco com Brownie, que vibrava com cada novidade que surgia.

Quanto mais confiança pegava em suas passadas, mais rápido queria correr. Relena mantinha a corda da coleira firme em sua mão, puxando o filhote para perto de si de vez em quando, só para vê-lo afastar-se com mais pressa. No ritmo dele, acabaram indo mais longe do que ela intentara.

_Venha Brownie, temos de voltar.

A impressão que tivera era de que um pingo de chuva a havia acertado no ombro. Porém, Brownie não se atentava a isso, interessado avidamente em farejar um canteiro de flores do lado de fora de um grande cercado que se estendia por toda a frente de uma casa.

Sem muita força de vontade, Relena seguia o cão, começando a ficar ansiosa e eletrizada com o fato da macia nuvem cinza pesadamente estar movendo-se em sua direção, avolumando-se. A chuva começaria a qualquer momento. Olhou para trás na rua vazia, tal qual estivesse ouvindo algo cadentemente aproximar-se e logo um carro passou por ela, irresoluto, buscando seu destino. Acompanhou a forma lerda e solene com que o automóvel se afastava, como que hipnotizada, gradualmente experimentando a umidade do ar tocar-lhe e cobri-la, seus cabelos ficando leves e suas roupas ficando moles e geladas.

Um repuxo inesperadamente violento a despertou de sua inércia. Um rosnado e um ganido agudo que rasgou seu coração acompanharam o incidente.

Um grande cachorro malhado surgira no vão da cerca e ladrou potentemente em reprova para Brownie, que se desesperando, pegou impulso e escapou.

Foi tudo mais veloz do que os reflexos de Relena podiam abarcar.

_Brownie! –gritou, aflita e confusa, correndo atrás dele com toda a força que tinha até finalmente perde-lo em um cruzamento.

Ofegante, olhou os três rumos abertos para si.

_Brownie! –chamou, sem sucesso. Olhou o gancho quebrado na extremidade da corda que carregava na mão. Devia ter algum defeito…

O que faria agora? A pergunta se repetia no côncavo de sua mente a ponto de fazer seu coração acelerar cada vez mais, o ritmo crescendo a cada eco.

Chamando pelo filhote, escolheu uma direção para seguir vagarosamente, olhando para trás em intervalos regulares, ansiosa. Agarrava-se a confiança de que logo veria surgir a criaturinha felpuda rolando assustada de volta para ela.

Primeiro, vieram algumas gotas gordas e esparsas. Relena recebeu a chuva em si, mas esta não a fez nenhum pouco menos determinada em procurar por Brownie, e mesmo três trovões depois, quando a água começou a acertá-la sem reservas, testando-a, ela seguia pela rua, olhando os entornos, sentindo os cílios pesarem e as roupas empaparem-se, colando a seu corpo.

_Brownie- sua voz não era párea para o som consistente e relaxante da chuva que as nuvens generosamente descarregavam.

Mesmo assim, tudo que escutava era sua própria voz indagando-lhe o que iria fazer então. Soluçou e só por isso deu-se conta de que chorava. Sua face tão molhada não denunciava as lágrimas de desespero.

De repente, a sua esquerda localizou um grande beiral convidativo. Já começava a tiritar e debaixo daquela aba de telhado, poderia se guardar da precipitação e pensar seus próximos passos.

A casa de esquina estava silenciosa, Relena olhou entre as fretas do portão, um pouco temerosa em incomodar, e depois se agachou suspirando, notando a forma contente com que as gotas incidiam no asfalto.

Captou o ruído de passos velozes quebrando a harmonia da música pluvial, apesar de não poder encontrar a fonte do som com seus olhos.

_Que droga. –distinguiu a reclamação de uma voz masculina, embora não houvesse ninguém a seu lado.

Colocando-se suavemente de pé, caminhou esgueirando-se pela cobertura até onde a parede dobrava a esquina. O beiral se estendia naquele sentido também e outra pessoa havia tido a mesma ideia de se proteger debaixo dele.

Curiosa, Relena fitou a figura do rapaz que torcia a camiseta, bufando e encarando a chuva com inimizade nas expressões. Ele devia ter a idade dela embora emanasse uma presença séria incompatível com a adolescência. Conforme ele tentava se secar, mantinha-se estranho à presença de outra pessoa e ela perguntava-se por que nunca o tinha visto antes no bairro.

Ele passou a mão pela franja que aderira a seu rosto, colocando-a toda para trás, e só assim Relena conseguiu finalmente reconhece-lo. Não sabia o nome dele, mas várias vezes cruzara com ele e os amigos durante a troca de aulas.

_O que foi? –só deu-se conta de que havia sido flagrada quando ele dirigiu-se a ela.

_Ah… me desculpe… –corou ao murmurar, todavia não desviava a vista da face dele. O modo como ele pusera a franja permitiu que ela adentrasse em seus olhos azuis inigualáveis que a forçavam mesmo a manter-se fixa neles.

Ele moveu a cabeça revelando desconfiança.

_Que chuva, não? –ela resolveu comentar para desfazer a tensão, caminhando para mais perto dele e livrando-se do laço daqueles olhos.

O rapaz analisava fria mas perplexamente a garota e a presença dela.

Ela tremeu um pouco e passou a mão pelos olhos, secando a água que escorria da franja.

De perto, o rapaz acompanhava cada movimento que ela desenhava. E quando a ouviu suspirar desanimada e brincar com a corda de coleira que trazia, ficou ainda mais intrigado:

_O que é isto? –não soube como perguntar, então pediu uma resposta óbvia.

Relena lhe lançou um fito exaltado, tal qual tivesse se esquecido, naquele diminuto intervalo, de que não estava só. Apenas após restabelecer-se que deu atenção ao objeto em sua posse. Soluçou de leve.

_Eu devo tê-lo perdido para sempre.

Abaixou-se assim que terminou de falar, sentando no chão, dobrando e encolhendo as pernas, derrotada.

Quanto mais tempo durava a chuva, maior sua certeza de que Brownie nunca mais seria encontrado. Essa era a principal causa de seus soluços desconsolados.

_Como o cachorro escapou? –ele conseguiu articular melhor a nova pergunta, embora ainda soasse rude demais para alguém interessado.

_O gancho quebrou. –resmungou, sem se importar mais com o que houvera. –Eu já estou acostumada…

_Com o quê?

_Tudo que eu amo vai embora…

_Ah é?

Assentiu imperceptivelmente.

_Você está exagerando. –ele repreendeu, a voz tão inexpressiva.

_Como sabe? –ela se defendeu, apesar de completamente desprovida de firmeza ou brio, apenas desejosa de esconder-se.

Ele abaixou-se junto dela.

_Não foi você quem espantou seu cachorro, foi?

_Claro que não.

O fato de ele tomar tempo de raciocinar com ela a colocava em ordem, devolvendo-lhe a tranquilidade.

_Já perdeu as esperanças?

Por alguns minutos não o olhava na face. Não porque não era possível, mas porque não era necessário já que nunca antes estivera tão consciente da presença de alguém. Roubou uma olhadela do semblante dele – conforme o cabelo secava, os fios da franja retornavam a lançar sua sombra sobre a face dele. Ele era irresistivelmente atraente. Não só porque era belo, mas porque exalava uma gravidade enigmática feito uma fragrância exótica, amadeirada e instigante.

Ela encolheu um pouquinho os ombros de frio e tensão. Sabia qual era a reposta certa, ouvira Zechs lhe pedir muitas vezes que não perdesse as esperanças. Entretanto, só quis dizer a verdade:

_Sim… –e pronunciou baixinho, para não escutar.

Era fácil para o rapaz apreender o quanto ela estava triste. Não era só os olhos úmidos e a postura retraída que denunciavam isso, pois aqueles eram indícios de uma tristeza óbvia que não exigia mais nada para ser percebida além de uma observação simples. Ele sentia – porque era somente assim que conseguia notar, visto que não havia o que ver ou tocar – que dentro da garota algo fora retirado definitivamente e cujo espaço ficara para ser preenchido de uma profunda melancolia. Mesmo assim, tão, tão triste internamente, ela não parecia quebrada e era isto que mais o interessava nela.

_A chuva diminuiu. Vamos procurar seu cachorro. –ele determinou.

Relena olhou-o em branco e ficou refletindo naquelas palavras aparentemente simples e opacas. Contudo, não eram para ela. A firmeza que ele usava a sustentou. Conseguiu ver que sempre quando ele falava, era resoluto e inspirava grande força em seus ouvintes. Avigorada, assentiu e apanhou a coleira a seu lado.

O rapaz se pôs de pé e estendeu uma mão para ela usar de apoio.

Guardando seu embaraço, ela aceitou.

Queria saber o nome dele. Ao mesmo tempo, via-se impedida de perguntar por sentir-se ousada e encabulada demais.

Ficaram frente a frente. Ela sorriu só com os lábios, olhando baixo, escondendo-se. Ele apenas registrou a imagem de quão melancolicamente contente ela mostrou-se para ele ali. E não queria soltar-lhe a mão, apesar de saber precisar.

_Me diz, qual o nome do cachorro…?

_Brownie. Ele tem quatro meses. É um labrador marrom-chocolate. –ela deu mais informações do que fora requisitada e nem percebeu.

Anuindo, o rapaz olhou os lados da rua deserta antes de começarem a caminhar.

_Eu o perdi quando vinha daquela direção. –Relena apontou.

_Nós vamos encontrá-lo. –ele olhou estritamente para ela, qualquer coisa naquele fito azul brilhava como se ele sorrisse. Mas seus lábios estavam constritos e graves.

Ela juntou as palmas tal qual fosse orar. Tomou fôlego e concordou. Algumas lágrimas escapavam ainda de seus olhos claros, serenamente, acortinando com encanto qualquer paisagem. A monocromia causada pelo chuvisco era calmante, o barulhinho da água que alcançava seu ponto final produzia uma alegriazinha.

A quietude que usavam para caminhar era oportuna para que prestigiassem uma música improvisada. Chiava nos telhados, criava uma percussão inusitada ao tocar latas, poças e vidraças e suavemente solava caindo no asfalto e nas calçadas.

A sensação que Relena tinha, andando atravessando a garoazinha, era de que a chuva a compreendia perfeitamente. Qualquer coisa nas nuvens acima de suas cabeças parecia ter sido formada na verdade pela evaporação da tristeza da menina. E vê-la então e senti-la então convertida em líquido a aliviava, vivificava e confortava. Respirou fundo, ar gelado invadindo seu corpo, refrescando seu coração.

_Brownie! –Relena sentiu vontade de chamar. –Brownie! –chamou ainda mais. E sempre olhava derredor, ansiosa em vê-lo aparecer timidamente.

A voz dela tinha uma textura que a identificava única. Ele divertiu-se com o próprio pensamento. Era uma voz de garota, doce, guardando sua agudeza natural, e ao mesmo tempo, profunda no efeito que causava, tornando as coisas reais e presentes, feito conjurasse encantamentos de som. Ele estranhava o cão não respondê-la prontamente. Era impossível resistir ao chamado dela.

_Qual o seu nome? –ela olhou para ele subitamente. Não suportava mais a vontade experimentada.

_Heero. –não havia muita expressão nele.

_Muito prazer, eu sou Relena. –falava de modo estranhamente confiante, sim, reconheceu para si própria que sua atitude não combinava com quem guardava tão grande depressão.

Caminhava cada um de um lado da rua, olhando tudo e chamando o labrador, refazendo o caminho trilhado por Relena.

_Não deve ter ido muito longe. –Heero raciocinou ao chegarem à encruzilhada. –Vou por aqui. –escolheu uma direção imediatamente.

Relena não desejou separar-se dele e por tanto se julgou idiota. Riu um pouquinho e concordou, tomando o rumo oposto.

Havia muitos arbustos em frente às casas daquela rua, Heero ia verificando todos ao passo que Relena encontrara algumas caixas empilhadas em uma calçada e as investigou sem sucesso. Se ao menos tivesse certeza de que lado Brownie escolhera! Estava desanimando de novo, mas aquela era a hora errada para isso.

Heero viu algo a se encolher entre uma moita e um muro. Abaixando-se para ver melhor do que se tratava, deparou-se com um cachorrinho esbelto e cansado com a coleira presa nos galhinhos finos da planta.

_Brownie… –Heero o puxou com cuidado para não assustar o animalzinho ainda mais. Ele esperneou um pouquinho quando se sentiu distante do chão, mas se cansou rápido. Estava tão encharcado quanto o rapaz. Qual teria sido sua aventura durante a chuva? Talvez, ao se esconder nas moitas com pressa, enroscou-se… –Relena! –Heero chamou olhando para trás, mas ela estava distante demais para ser alcançada.

Heero segurou Brownie pela barriga e o aproximou de seu peito. O cachorro tremia tanto.

_Será que é isto que está procurando? –Relena foi surpreendida pelo garoto a seu lado e carregando com poucas dificuldades o filhote fugitivo.

_Brownie! –ela regozijou-se alto.

Heero sorriu bem pouco ao passo que o cãozinho choramingou, abanando o rabo. Estava tão contente em ver a dona quanto ela.

_É melhor levar ele para se secar. –Heero avisou, sentindo quão gelado o animal estava.

Contudo, era impossível engatar a corda à coleira. Por um segundo, a menina encarou a peça de metal quebrada e suspirou, pensando em uma alternativa.

_Você mora muito longe? –ele falou outra vez, trazendo-a de volta de seus pensamentos.

_Não. –indicou a direção de sua casa. –Seis ruas para lá.

Heero olhou, ajeitando Brownie em seu colo, e assentiu.

_Então eu levo ele até sua casa.

Relena mordeu o lábio inferior, preocupada, resistindo a oferta.

_Que foi?

_Não quero te dar trabalho.

_E por acaso você me pediu alguma coisa? –rudemente ele replicou. Já tinha decidido ajudá-la, não via por que mudar de ideia.

Sem ação, Relena meneou a cabeça, tentando resolver se tomava o retruco dele por positivo, mas desistindo logo, já que ele começou a caminhar, alisando um pouco o pescoço do labrador. Ela respirou profundamente, buscando preparar-se para segui-lo, quando o assistiu parar e voltar-se sobre o próprio ombro e lançar-lhe um fito incisivo, sempre afiado, porém paciente e atencioso, que a acionou. Sim, tudo o que ela desejava era segui-lo. Tê-lo ao lado era diferente de ter qualquer um consigo. Por que tinha de ser assim? Até aquele dia, era como se sempre tivessem sido reservados a serem estranhos.

A chuva contrariou as designações do presente. Brownie tratou de reuni-los.

Sorrindo, era como se o sol estivesse raiando por cima das nuvens carregados. Heero ficou concentrado naquela expressão jovial e doce, luminosa, olhou o alto e apreciou o manto gris que servia de teto da Terra. O sol naquela face parecia ser mais tépido. Acenou com a cabeça para apressá-la. Devia ter se interessado por ela antes. Pensou nas outras vezes que a vira, na escola, durante o intervalo. Lembrou-se dos comentários sobre ela. O sofrimento mudo que ela abrigava em seu âmago a fizera diáfana e suave, alheia e sublime para ele. Não encontrava razões de se aproximar certo de que não tinha nada a dizer. Não sabia lidar com a dor e a fragilidade de ninguém.

Brownie assistia aos jovens completamente aconchegado nos braços do garoto. Bocejou, murmurando baixinho, piscou para Relena e esticou o focinho para cheirá-la. Depois, alongou o pescoço em um ângulo nada usual para enxergar a face do rapaz. Aspirou o ar, farejando-o também.

_Que folgado. –Relena provocou o filhote, dando uma palmadinha na cabeça úmida dele, que espirrou. Apesar de Heero deixar claro que não se importava, ela ainda estava um pouco chateada por incomodá-lo.

Por meio de um olhar oblíquo, o rapaz acompanhou a menina a sua direita. Ela olhava para frente, havia um balanço suave agitando seu corpo causado pelos passos mansos, seus cabelos escorridos mal se moviam, pesados da umidade, mas seu rosto parecia dançar e qualquer resquício de sorriso ainda o abrilhantava.

_Eu… –rouco e embaraçado ele tentou falar, contudo, fez uma pausa muito longa.

Relena virou a face para ele, ansiosa pelo que viria. Não sabia prever.

Ele roubou outro relance dela e estalou os lábios.

_Sei o que houve.

Ela ergueu as sobrancelhas castanhas:

_Ah, isso… é, todo mundo sabe. –e ao murmurar, não soava nada abalada. Até parecia divertida.

_É verdade que você tentou se matar? –a seguir, ele demandou, circunspecto e sem emoção.

_Não. –a réplica dela foi fácil. Tinha certeza que ele se satisfaria com um monossílabo.

_Sabia. –ele revelou.

_Hã? –por aquilo, entretanto, nunca esperou.

_Não combina com você. –e virou-se para ela e sorriu sem reservas pela primeira vez.

Relena de novo espantou-se. Corou, porém, e encolheu-se um pouco, desviando a vista.

_Você é bem mais corajosa do que pensa.

O que ela escutou causou-lhe um sorriso instantâneo:

_Não. –humildemente, respondeu.

_Seus pais estariam orgulhosos de você. –mesmo que considerasse que ela poderia ficar abatida com a menção daquelas pessoas que certamente eram imensamente queridas por ela, mas que infelizmente foram privadas de viver por aquele trágico acidente aéreo, Heero decidiu comunicar o que pensava.

_Acha mesmo? –ela o encarou em um movimento rápido, duvidando por pura insegurança e não afronta. Tinha secretado tanta culpa dentro de si que achava difícil acreditar no que Heero afirmara com a confiança usual.

Enxergava-se fraca, mimada, imatura. Só pensara nela no momento em que soube do acontecimento e em como viveria sem a estrutura que a sustentara aqueles dezesseis anos. Ficou tão perdida com a realidade que, semanas depois, ao cair em si, cobrou-se e arrependeu-se de muito mais erros do que de fato tinha cometido. Pôs-se deveras tão abalada que foi tragada por aquela melancolia sorrateira e absorvente, feita de areia movediça. Aos poucos, o modo de lidar com a perda foi sendo revelado a ela, e ainda assim, era de forma dolorosa e cheia de tropeços.

_Eu… nunca tentei suicídio, mas pensei em deixar de viver. –ela confessou depois, despreocupada quanto a se ele a compreenderia ou não.

Espantou-se ao vê-lo assentir. Ele podia não ter dito nada depois, mas fora o bastante vê-lo confirmar com aquele gesto simples e talvez insignificante, involuntário. O silêncio dele a abrigava e lhe dava segurança de falar o que quisesse. Era uma sensação nova.

_É aqui? –ele apontou com o queixo a grande casa de dois andares em estilo de chalé austríaco.

_Muito obrigada.

E era assim que tudo ia acabar.

Com carinho, Relena fitou Heero e sorriu somente com os olhos azuis, muito mais claros do que qualquer par de olhos que ele já havia encontrado. Resolveu apreciá-los mais de perto. Percebeu ela retrair-se espontaneamente, declinando a cabeça para frente, enquadrando a cara sorridente e preguiçosa do cão nos braços do garoto.

Secretamente, ela sabia o queria, mas não sabia o que fazer.

Se pedisse, será que Heero ficava para sempre com ela? Era bobagem apenas cogitar a ideia de ele ficar, que diria ainda para sempre, todavia, percebera que era relaxante conceber aquele tipo de criancice.

Estavam imóveis ali, como se ainda faltasse algo a ser feito.

Considerando exatamente isso, Heero não a descobria de sua atenção. Nem sentia o peso do animal em seus braços, Brownie havia ficado tão quieto, feito respeitasse o momento e aguardasse também por algo bem perto de acontecer.

Ela pousou uma mão no portãozinho de ferro trabalhado e desajeitadamente, ergueu a face e beijou Heero no rosto.

_Muito obrigada. –repetiu baixinho, sem controlar a intensidade de seu enrubescer. Demonstrou intenção de tirar o filhote do colo do garoto para então levá-lo à segurança do quintal.

_Relena… –brandamente, ele chamou, suspenso no que ia atentar. Só teria aquela chance.

Ao mostrar-lhe o semblante ameno, recebeu o toque dos lábios dele nos dela. Ao mesmo tempo em que ficou envergonhada pela atitude dele, alegrou-se com a iniciativa. Era exatamente o que desejara.

Brownie distendeu a cabeça para cima, para olhá-los, quem sabe tentando entender o que faziam, apesar de ter gostado de sentir Relena aproximar-se dele e ajudar o rapaz a aquecê-lo. Ele era só o que os impedia de se achegarem mais, contudo, o por meio do beijo eles tinham eliminado muitas distâncias.

Trocavam lufadas de calor que eliminavam o efeito da chuva. A atmosfera gelada que a precipitação deixara de rastro não conseguia mais tocá-los. Não fora com pressa e nem com ansiedade que dividiram a carícia, porém, com equilíbrio sincero e cuidadoso.

Heero não desejava assustá-la, precisava manter em mente que não se conheciam o suficiente para tanta liberdade, apenas seguira seu instinto e deixara o coração valer sua vontade naquele instante para variar. Se arriscar às vezes era a única opção. Pensava que, beijando-a da maneira certa perpetuaria as experiências tecidas naquela tarde nublada. Era cedo pra pensar em eternidade, mas sua juventude o impedia de ter noção do comprimento de tanto tempo. Só queria se fosse para sempre. E uma parte dele tinha certeza de que com Relena este para sempre poderia de fato existir e durar.

Mergulharam inteiramente um no outro e nas palavras que pronunciavam sem som ao passo que moviam os lábios com doce e suave pressão, atentos a pulsação que captavam em crescendo dentro de seus peitos.

Tiveram de voltar a si quando sentiram Brownie lambendo-os nos pescoços, traquina e enciumado.


Etapa 5 do P² Challenge!

Até agora, esta foi a resposta que mais gostei de escrever.

Semana que vem o tema é "Fim" e lá vou eu para mais uma crise. Preciso de ideias! :(

Espero que estejam gostando e não deixem de ler as respostas que a grande Miyavi Kikumaru está postando.

XOXO

30.01.2012