O General saiu do castelo do Reino Dourado visivelmente atordoado. O príncipe havia enlouquecido, e pra completar ainda o tinha colocado nessa história toda. Kunzite caminhou em passos largos e rápidos, tinha que ir até a lua, se a princesa abriu a boca para Venus, bem, a paz garantida há algumas horas já teria desabado em questão de segundos.

Não precisou andar muito, a preocupação havia se tornado uma total realidade materializada a sua frente. Lá vinha ela, refletindo a luz dourada do sol nos cabelos, pousando rápido e com a expressão mais dura que ele já havia enfrentado nos últimos meses. Fez uma cara de dor falsa, pensando a quão ótima era princesa Serenity - ou a quão tola era. - para esquecer-se de quem exatamente era a guardiã que tinha.

– Eu não sabia! - Kunzite encarou os orbes azuis que mudaram para uma expressão confusa.

– Você... Então é por isso que está aqui e... Pelos Deuses! - A loira colocou as duas mãos sobre a cabeça. - Isso só pode ser um pesadelo!

– Acalme-se. - Ele levou a mão ao queixo, procurando refletir. - Olhe Venus, a notícia me pegou tão de surpresa como pegou a você, também acho que seja loucura. Acho que eles poderiam ficar idosos, se quisessem, permanecendo nesse encontro as escondidas assim e eu estaria ao lado deles, protegendo.

– Precisamos fazer algo.

– Fazer o quê? Dizer pra dois adultos que estão sendo malvados? Que estão nos colocando em encrenca? "Olhe só, que inconveniente: vocês querem casar!" - O tom do Shitennou era irônico.

– Serenity não aparecerá com aquele anel daquele tamanho sem ser questionada pela mãe, acredite em mim General. - Venus manteve uma seriedade nunca antes vista.

– O que quer dizer com isso?

– Sabe, quando eu tinha cinco anos, a princesa nasceu. - Venus olhou para o céu. - Lembro-me como ontem quando Neherenia entrou naquele salão e rogou aquela praga. Eu agarrei-me as pernas do meu pai quando vi aquela mulher, ela me assustava. Depois o que aconteceu? - Venus observou o olhar confuso do Shitennou. - Voltei pra Venus, pro meu reino, dias depois meus pais me chamaram no quarto e me disseram que eu deveria ir para a lua servir como uma Senshi, cuidar da princesa, que era uma grande honra e orgulho para mim e para minha família, mais uma vez senti medo e disse ao meu pai que sentia esse medo. Ele se sentou ao meu lado naquele e me disse que eu não era tola por senti-lo, mas que deveria cumprir o meu dever. Minha mãe colocou em mim o mais belo vestido de princesa na noite em que fui embora e me entregou meu prisma, disse a mim que queria que eu cuidasse dele e que se eu pudesse, eu iria mesmo atingir o seu estágio final de poder. Apareci diante do meu povo pela última vez naquela noite, abri mão de toda aquela gente para servir a lua, manter a paz na galáxia.

– Aonde quer chegar com isso?

– Naquele dia, tenho certeza, que minha mãe vestiu-me daquele jeito pra que eu lembrasse de que jamais poderia ser uma princesa de novo e disse aquelas palavras para me dar força e lembrar-me do meu dever. Olhe pra mim Kunzite, pareço alguém que não quer cumprir com os deveres e honra que me foram confiados? - Penetrou-lhe com um olhar magnético.

– Não... - Ele hesitou um pouco ao notar o broche. - Só não entendo aonde quer chegar com esse discurso sobre seu passado.

– General, não há absolutamente nada que eu possa fazer para mudar o que já foi feito, compreende?

– Venus, fale direito, essa nem parece você!

– Não vou perder aquilo que me foi confiado. - Ignorou o comentário por completo. - Proponho uma parceria.

O prateado parou abismado, para ele a loira só poderia estar doente, ele sabia que ela não suportava ficar perto dele sem se irritar por suas investidas - que pra ele era uma forma de diversão insubstituível. - e agora sugeria uma parceria, estaria morto antes das duas primeiras semanas, com certeza.

– Enlouqueceu, mulher? Não, espere: Você está doente! - Ele colocou uma das mãos na testa dela, provando a temperatura.

– É simples, Kunzite: Você escreverá uma carta, em nome do seu príncipe, a rainha com a proposta do pedido de casamento e fim. - A loira se desvencilhou do toque.

– Claro, e a rainha lunar me joga órbita afora após eu dizer que sua preciosa filhinha estava indo a Terra treinar para a lua de mel com Endymion, quanta coerência!

– Você é tonto ou o quê? - Venus mirou a lua - É uma proposta, eles não se conhecem. Escreva uma carta, marque a audiência.

– Você está insinuando que...

– Que vamos mentir pra rainha.

– E o papo do dever e da honra?

– Proteger minha princesa, custe o que custar, compreende? - Venus virou-se para o portal lunar. - Vá encontrar seu príncipe, tem uma hora pra carta de audiência chegar pra mim.

– Não sou seu subordinado, Sailor Venus. - Riu vendo a visível irritação costumeira da Venus que conhecia.

Beryl subiu as escadas do palácio correndo, alcançando o topo de uma das torres, não se sentia cansada, o poder de Neherenia dentro de si tornou-a forte e poderosa. Naquela torre era o único lugar que tinha paz, o único onde podia olhar um pequeno espelho e conversar "consigo". Sacou o espelho prateado, levemente talhado em folhas e galhos e olhou o próprio reflexo.

– Neherenia... Por quanto tempo mais terei de esperar?

– Paciência querida, os peões precisam ser movidos, eu já posso ver os primeiros a se moverem.

– Quero agir logo!

– Tudo bem, querida. - O reflexo de Neherenia mostrou um sorriso debochado. - Aguarde alguns dias, seu primeiro peão está ali, olhe pela janela.

A ruiva correu até a janela, olhando a grande cúpula aberta em uma das partes do castelo, onde alguns guardas se encontravam.

– Os guardas?

– Apenas um em especial querida, aquele que é próximo da guardiã.

– Danburite? - Fez se rir. - O doce e amável Danburite, Neherenia? Não compreendo!

– Como eu disse: paciência.

Neherenia se foi com a mesma facilidade que veio, mostrando no espelho, novamente, o reflexo da sacerdotisa Beryl.

– Sua idéia é brilhante! - A princesa lunar abraçou a amiga. - Pegue o entregue a Kunzite quando quiser, hoje, sim! - Entregou o anel a Venus.

– Não podemos marcar para hoje Serenity, olhe bem, será uma audiência com sua mãe, poderá não dar certo e você não pode parecer tão animada, entendeu? - Segurou a garota pelos ombros.

– Mas... Pode marcá-la agora?

– Posso, mas preciso da carta de audiência, alteza.

– Onde está essa tal carta?

– Provavelmente no meu quarto, algum mensageiro deve tê-la deixado lá.

– Então vá buscar, é uma ordem! - Balançou as mãos para frente em sinal a porta.

– Serenity! - Fez uma cara divertida.

– Por favor! - Implorou com um biquinho.

Venus saiu do quarto da princesa rindo. Realmente nunca viu, em nenhum momento de sua vida, Serenity tão feliz assim. Se em seu juramento como Senshi constasse fazer a felicidade da princesa acima de qualquer outro dever, poderia voltar para o planeta Vênus imediatamente. Seus deveres estariam feitos. Desceu dois andares até entrar em seu quarto, colocou o anel da princesa dentro de uma gaveta na penteadeira. Olhou para o lado, a surpresa maior não foi ver a carta e sim, que a carta viera com um brinde de mais de 1,80 m de altura e tinha cabelos prateados.

– Ótimo, descobriu o caminho do quarto! - A loira bufou. - Deveria ter deixado o papel e ido embora.

– Desculpe, sou teimoso. - Sorriu de lado. - E não gosto muito da Venus séria de mais cedo.

– Ah, claro! E invadir meu quarto foi a melhor solução que encontrou pra me tirar do sério.

– Não, eu tenho idéias bem mais mirabolantes e que te tirariam a calma muito mais facilmente do que essa. - Debochou.

– Ah! Você não tem jeito! - A senshi massageou a testa contando, mentalmente, até dez. - Ok! Me entregue a carta, tenho que entregá-la, já.

– É assim que trata suas visitas? Saindo sem se despedir? - Riu mais uma vez.

– Primeiro: Você não é uma visita. - Venus abraçou o General Shitennou, vendo-o corar, e saiu o empurrando até a varanda. - Segundo: é assim que eu trato invasores.
A loira acariciou os cabelos prateados dele, que fechou os olhos sentindo o toque. Em seguida a garota saiu correndo, fechando a grande porta de vidro, deixando-o parado do lado de fora, completamente confuso. Acenou com uma mão e com a outra chacoalhou a carta com o selo terrestre de dentro do quarto, enquanto via Kunzite mostrando um sorriso divertido ao balançar a cabeça negativamente.

Venus estava com um estranho bom humor e dirigiu-se ao salão real, onde a rainha provavelmente estaria. Encontrou com Mars pelo caminho, a quem disse que chamassem as outras urgentemente. Não tardou muito e Venus já se reunia as suas subordinadas, explicando o conteúdo - falso - da carta recebida da Terra.

– Quem garante que os terrestres não querem se aproximar da princesa pelo cristal de prata? - Questionou Júpiter.

– Júpiter tem razão Venus, não seria estranho pensar que um povo que nunca teve vínculo com os outros planetas se interessasse tão subitamente pela lua? - Mercury também parecia desconfiada.

– Meninas, cofiem em mim. - Venus colocou em si a postura de líder. - Sei o que estou fazendo.

As Senshis não questionaram mais nada, tinham plena confiança em sua líder, fosse lá o que ela estivesse pensando. Era Venus e como tal agia de forma sempre coerente, sempre defensiva. Se não desconfiou de nada no conteúdo contido naquela carta, algo estava certo. Pararam atrás das gigantescas portas brancas, cuidadosamente talhadas em curvas simétricas, estrelas e trazia no topo duas grandes luas crescentes na cor dourada. Ouviram o som da pesada porta abrindo, as luas crescentes se separando no topo, asa guerreiras aproximaram-se atrás das lanças dos guardas ouvindo o breve anúncio:

– Majestade! - Falou alto o homem. - Anunciamos as quatro guerreiras e guardiãs da lua. Lady Júpiter, Lady Mars, Lady Mercury e, por fim, sua líder, Lady Venus.

As lanças cruzadas foram abertas, deixando passagem para as quatro entrarem em formação, e ajoelharem-se diante do trono.

– O que as trazem aqui, jovens princesas? - A Rainha Serenity era majestosa quando falava.

– Vossa graça... - Venus levantou devagar. - Trago uma mensagem da Terra.

– Leia para mim, Venus. - Apoiou o cotovelo sobre o braço do trono, colocando o queixo sobre a mão, interessada.

Venus levantou-se de sua reverência, destacando com cuidado o selo, em cera, do reino dourado de cima do fino papel amarelado. Tomou a carta nas duas mãos, levantando o papel até a altura dos olhos.

– "Vossa Majestade, Rainha Serenity..."– Venus limpou a garganta levemente, procurando atingir um som mais solene. - "Quem vos escreve aqui é o príncipe da Terra, Endymion. Há muito que tenho contemplado a sua lua e mais ainda, que tenho visto de longe sua filha. Certa vez vi a princesa contemplando o céu enquanto patrulhava minha órbita e fiquei tão abismado e encantado com tal beleza que confesso observá-la de longe sempre que posso, estou perdidamente apaixonado. Sei que aos olhos da corte isso parece loucura, mas preciso marcar uma audiência com vossa graça e, enfim, pedir a mão de sua filha.

Despeço-me agradecendo a oportunidade de ler a minha humilde carta e desejando-lhe bons ventos e que os deuses tragam bons dias. Espero que considere minha proposta.

Endymion."

O silêncio tomou conta do salão do trono por alguns instantes, à rainha mantinha o mesmo olhar calmo e a mesma expressão de anteriormente, na verdade sempre foi assim, calmo demais, o que era assustador por ninguém saber o que se passava pela cabeça dela. Serenity endireitou-se no trono encarando uma a uma das sailors.

– O que acha disso Mercury? - Soltou a pergunta inesperada.

– Majestade... Vossa Graça... Eu... Eu... - A tímida sailor endireitou-se. - Estatísticas mostram que nos últimos milênios a Terra não tem incomodado a ninguém, poucos detém magia por lá, muitos ignorantes, alheios a existência do universo, creio que não oferece perigo.

– Vejamos... Mars?

– Vossa graça, ainda me restam dúvidas, o poder do cristal é forte e temos e protegê-lo a todo custo. Não sei se sou totalmente de acordo com o ocorrido, mas vejamos o quanto esse príncipe Endymion pode ser sincero.

– Sincero... - Colou as mãos sobre o colo. - Júpiter?

– Pelas palavras de Mercury e Mars, majestade... - Júpiter interrompeu e olhou para cima, buscando contato visual com a rainha. - Creio eu que uma escolta fosse necessária. Mas não me oponho.

– Escolta, hein? - A rainha sorriu. –Venus?

– Majestade. - A senshi deu um passo a frente, mantendo a posição ereta e segura. - Não tenho porque ser contra. A Terra é um planeta próspero e sabe-se disso em vários pontos da galáxia, os guerreiros de lá também são muito poderosos. Vejo que seria uma aliança interessante, uma vez que sendo um planeta sem vínculo algum com o resto da via láctea traria mais aliados para o nosso lado.

– Ponto de vista interessante Venus. - Serenity levantou do trono. - Pois bem, envie uma carta a esse príncipe Endymion, diga que ele poderá vir até a Lua, mande-o vir amanhã, mas ainda não tem o consentimento para casar com minha filha. Diga-lhe que para provar sua confiança, que venha apenas com a escolta de um guarda. Se este não oferece perigo, nós também não. Venus, como Júpiter disse, você como líder deve escoltá-lo junto de seu homem até aqui. Busque-os pela manhã, com minha resposta em mãos.

– Entendido. - Venus reverenciou. - Com sua licença, majestade.

As quatro jovens saíram do salão, Venus despediu-se com um aceno e dirigiu-se ao seu quarto com passos excitados. Havia dado certo, muito certo. Mal podia acreditar que seus dias de babá haviam acabado, poderia voltar e ficar na lua em paz, apenas treinando e sendo uma guardiã. Entrou porta e apressou o passo para banheira quente de seu banheiro, prendeu os cabelos loiros no topo da cabeça, lavou-se devagar e saiu, enrolando-se na toalha. Entrou no quarto, estaria pronta para se vestir, até ver a figura do general ainda parada do lado de fora da varanda mostrando um sorriso safado.

Correu e fechou as cortinas do quarto, por precaução, vestiu a fina camisola laranja no banheiro, voltou e colocou o pequeno cetro de transformação em cima da penteadeira. Onde sentou e buscou um papel na gaveta. Pegou um fino papel marfim com pequenos detalhes prateados e pôs-se a escrever a resposta a Endymion. Terminou, selou a carta com cera de vela e carimbou com o símbolo lunar, em seguida abriu as cortinas e destrancou a porta, vendo Kunzite ainda parado na varanda.

– Você é impressionante! - Estendeu a carta.

– Eu sei. - Jogou os cabelos prateados com a mão. - Boas notícias? Parece de bom humor.

– Talvez. - Levantou uma das sobrancelhas e entregou o envelope a ele. - O conteúdo nessa cata é sigiloso.

– Então posso fazer isso. - Kunzite puxou a fita laranja que ainda prendia o cabelo da loira no topo da cabeça, fazendo o rio de fios dourados espalharem-se pelos seus ombros e costas. - Boa noite.

– Ora seu... - Venus jogou o cabelo para trás ajeitando-o enquanto via Kunzite saltar para fora da sacada.

A garota apoiou-se no parapeito vendo a sombra do rapaz sumir na imensidão. Riu. Ele a tratava como ninguém antes, sem títulos, reverências, sem medo de ser desrespeitoso. Tratava-a normalmente, como nem mesmo suas senshis a tratavam, apenas Serenity se aproximava daquilo. Venus começou a pensar que, realmente - apesar de ser um pensamento completamente louco - gostava daquilo, atém mesmo achou que começara a gostar dele.


N/A: Só faltam 16 capítulos pra eu completar a repostagem :v

Acho que estou conseguindo revisar tudo sozinha, espero não ter mais nenhum erro, mas se encontrarem: apontem pra mim, tá? s2