NEW GENESIS

Capítulo 9

— Espere um pouco... Então você quer ficar responsável por Nicole enquanto estou fora, é isso? — Perguntava Tio Carl surpreso.

— Exatamente! — O loiro de olhos azuis logo respondia transbordando alegria. Prof. William tinha ficado na casa de Nicole após a pequena "descoberta", e exigido falar com o tio da garota assim que possível. Nicole estava aterrorizada; pensava que o professor ia contar sobre Pan, mas ela descobriu que não era bem essa a intenção. — Ah, perdoe a meu comportamento, mas é que sabe... Fiquei chocado ao saber da situação toda que estão passando. Seria o mínino que eu posso fazer. Com a sua permissão, é claro. — Ele terminou calmamente.

— Ah, é muita gentileza mesmo... — O tio falou, pousando a maleta no chão. Tinha chegado em casa á poucos minutos; era tardíssimo na noite. Ele estava de malas prontas. — Isto é, se Nicole não tiver objeções. Já tínhamos alguns planos sobre a minha viagem e sobre onde ela ficaria...

— Sim, sim, eu fiquei sabendo! — O jovem adulto falou logo em seguida. — Ela me contou na feira. Passaria as semanas na casa da amiga Melanie, não é mesmo? — Nicole assentiu para ele, ainda confusa com tudo aquilo. — Claro que eu não tomarei nenhuma decisão sem o consentimento de vocês dois! Não quero estragar as férias e a diversão que ela teria se fosse até a casa da amiga...

— Ah... Não se preocupe, professor. — Nikki começou relutante. Era isso mesmo que estava acontecendo? Seu professor estava pedindo para ficar na casa dela e cuidar de tudo durante a ausência do tio? Estava se voluntariando para ser responsável dela? Mas... Por quê? — Na verdade, depende mais do tio do que de mim...

O professor olhou de novo para o tio com as sobrancelhas levantadas.

— Nicole, eu quero que você escolha. — O adulto de cabelos curtos escuros disse seriamente. — Se não quiser que seu professor fique aqui, você pode continuar com o plano anterior... Não sei por que depende mais de mim, não sou eu que vou ficar...

— Uhm — A garota piscou e mordeu o lábio inferior. O professor agora olhava para ela através das lentes transparentes de seus óculos, implorando com gestos de suas sobrancelhas. Parecia estar pronto a cair de joelhos e insistir. Vendo tudo aquilo, e por mais que estivesse morrendo de vontade de perguntar qual era mesmo a intenção dele, ela disse: — Por mim tudo bem, então.

Uma exclamação de alegria saiu dos lábios do professor. Mas antes de comemorar, ele piscou e olhou para a garota tristemente. — Tem certeza disso? Eu... Eu realmente não quero estragar a sua diversão. — De repente o professor pareceu seriamente decepcionado. Isso surpreendeu a garota, que arregalou os olhos e ficou constrangida pela mudança tão repentina.

— Quê? N-não! Ah não, professor, tudo bem! Mel ainda pode vir aqui me ver todos os dias! — Ela confortou o loiro apressadamente. Logo ele progressivamente sorria mais uma vez. — Não tem problema. Vai ser bom ainda ter um adulto aqui pra cuidar de mim.

— Por quê, você dá trabalho? — Brincou de repente o professor.

— Ah não, minha Nicole é um anjo! — Tio Carl logo interveio e colocou um braço sobre o ombro da sobrinha, radiante. — Ela se comporta muito bem, faz toda a lição, e nunca esconde nada!

A última parte fez Nicole sentir um peso no estômago. Mas sorriu para o tio, culpada por saber que o que o tio dissera tão feliz não era completamente verdade. Os dois adultos se colocaram a sorrir com ela e a situação, por mais que confusa, estava leve e animada. Engolindo em seco, a jovem conseguiu concordar timidamente com o rosto enquanto sorria.

— Fico feliz em saber disso! Além do mais, vou descobrir se ela faz os trabalhos que peço no Google. — Prof. William cruza os braços, fingindo uma expressão séria; mas ela pouco dura e ele desatava a sorrir e rir mais uma vez. — Estou brincando, é claro... Agora, eu não quero atrasá-lo, senhor.

E o adulto deu espaço para que Nicole se despedisse do tio. Nem parecia que ele estava indo embora. Ela havia imaginado que voltaria para sua própria casa antes de ter um problema desses, mas... Tantas coisas que ela não imaginava já haviam acontecido. Mas era difícil dizer adeus. Mesmo que não fosse por muito tempo, a jovem sentiria muito a falta do tio.

— Ah... Tio Carl... — Nicole começou sem jeito. — Eu espero que dê tudo certo na viagem e no processo todo para o tio Antony...

— Eu vou tomar conta para que dê. E voltarei assim que puder. Não se esqueça que eu prometi te dar as semanas mais divertidas possíveis, certo? — O tio da garota disse calmamente. — Se comporte, e não preciso nem pedir para que não dê trabalho ao seu professor; eu sei que você não dará.

E Tio Carl se adiantou para dar um abraço na sua sobrinha. Abraçando-o de volta com força, a adolescente sorriu, e após engolir em seco fechando os olhos com força, ela diz:

— Okay, tio... Eu vou estar te esperando.

Prof. William parecia emocionado com a cena e contentava-se a observar em silêncio, sorrindo. Era diferente para ele estar ali naquela situação, mas ele conhecia a sua aluna há tempo suficiente para se importar com ela. A noite continuava a cair progressivamente do lado de fora, e ninguém imaginaria que uma criatura de 7 metros de altura dormia tranquilamente logo ao lado da grande casa de madeira.
Após o abraço, o adulto mais velho faz um cafuné na sobrinha bagunçando-lhe os cabelos e se volta para suas malas. Estavam todas arrumadas perto da porta, e Nicole notou com uma surpresa que havia um Taxi parado na frente da casa. Nem havia percebido a chegada dele. Mas ela sorriu com um aperto de tristeza em seu coração ao ver o tio abrir a porta da casa, sorrir e acenar para ela e o professor, e então deixá-los ali na sala enquanto descia pela escadinha até o Taxi. O professor se adiantou e ajudou-o a levar o resto das malas, o que deixou Nicole sozinha na sala com seus pensamentos e preocupações.

Quando voltou, o professor deixou a porta aberta para que Nicole acenasse para o Taxi que se afastava, e depois, fechou a porta devagar. Ele olhou para o relógio e notou que era muito tarde. Virando-se para a jovem, ele disse:

— Bom, ah... Está bem tarde, então acho que seria melhor você descansar... — Mas Nikki adiantou-se e lhe disse, cautelosa, o pegando de surpresa:

— Professor... Sem querer ser mal-educada, mas... Me dê um bom motivo pra ter concordado com isso tudo...

O professor não se sentiu ofendido; na verdade, pareceu se animar mais. — Ah, na verdade eu tenho um ótimo motivo! Mas, novamente, vou precisar do seu consentimento...

— O que é? — Nicole pergunta de novo, curiosa e cautelosa. Era esquisito estar ali, na sala de estar no meio da noite, sozinha com o professor de Biologia e matemática ao invés do tio. Mas por dentro a garota confiava no adulto; só queria saber exatamente as intenções dele.

— Bom... — Começa ele, mexendo em seu óculos. No que ele fez aquilo a adolescente sentiu um estalo ao pensar na reação de Melanie ao saber que o professor das duas estava como responsável dela por um tempo indeterminado. — Eu queria saber se você me deixaria... Estudá-lo.

Nicole pisca antes de dizer: — Estudá-lo?

— Sim. Eu quero dizer, só observar ele e fazer anotações, talvez fazer uns exames aqui e ali, mas não é nada de sério, eu juro! — Apressou-se o professor William a dizer. — Eu quero descobrir mais sobre ele. Jamais vi nada igual... Você me daria essa chance de pesquisar e descobrir suas origens e mais?

A garota de cabelos castanhos pensou um pouco. A parte de descobrir mais sobre Pan chegava a ser interessante... Ela mesma não tinha muita certeza do que ele era e nem de onde vinha, e talvez com a ajuda do professor, ela descobrisse. Afinal, ele era um cientista, era o segundo a descobrir Pan; e acima de tudo, era de confiança. Ela arrumou a franja sorrindo devagar quando afirmou com o rosto, pra alegria do loiro.

— Pode estudar ele sim. O Pan parece gostar de você, e eu queria mesmo saber mais sobre ele... Mas você vai ter que me prometer duas coisas! — Ela falou em tom de aviso e o professor ficou rígido, atento e em silêncio, prestando toda a atenção na sua aluna. — Vai ter que me prometer que não vai contar dele pra ninguém; só você e mais uma pessoa sabem. E também precisa prometer que não vai machucar o Pan nas suas experiências... — Disse Nicole lentamente.

— Não vou contar, de modo algum! Eu prometo! — Ele segura e agita a mão da aluna entusiasmadamente. — E também não vou machucar ele, não não... A maior parte das coisas vão ser estudos e anotações, eu lhe garanto. Só vou ter que pegar minhas coisas em meu apartamento amanhã... Mas não é hora pra isso... Aliás, não é hora pra quase nada! — Ele se espanta, olhando para o relógio. Eram 11:40 da noite. Só agora que Nicole se deu conta de como estava com sono. — Por favor, você pode me mostrar as coisas aqui? Eu não quero acabar caindo da escada no meio da noite atrás de um copo d'água e acabar te acordando!

Ele ri alegremente. Nicole inclina o rosto, sorrindo um pouco confusa pelo jeito que ele tinha falado aquilo; parecia que sinceramente achava que acordar ela no meio da noite era pior do que cair da escada. — Por aqui, professor. Eu vou te mostrar tudo.

— Certo. Só uma passada rápida... Não esqueça que amanhã é sexta-feira, e você tem que ir para a escola. Não quero que se atrase para a minha aula, ouviu? — O professor de brilhantes olhos azuis comentou sorridente.

Nicole acordou apressada no dia seguinte. Despertou se lembrando que não tinha telefonado para Melanie na noite passada e então correu para vestir seu uniforme branco com detalhes cinzas e azuis. Seus cabelos estavam uma bagunça e demorou um pouco até ela terminar de se ajeitar. Tinha dormido tão pouco que quase morreu do coração quando ouviu a voz do professor vindo da cozinha:

— Seu café da manhã vai esfriar!

Então ela se recordou da noite passada, de que o professor William agora era responsável por ela, e que era esse o motivo pelo qual precisava ligar para a amiga. Nicole se adiantou, pulou os três últimos degraus e correu para a cozinha, sentando com pressa á mesa e comendo o café da manhã que o professor tinha preparado. Ele já estava vestido com seu jaleco branco, jeans e blusa azul celeste, esperando a garota terminar para pegar seu prato.

— Vamos, quando voltarmos eu lavo a louça... Agora diga, vamos com meu carro ou você prefere ir de ônibus, como sempre faz? Eu posso pagar pra você. — O homem alto disse deixando o prato dela na pia.

— Bom... — Nicole engole a última porção do seu lanche e olha para cima, para o rosto do professor. — Geralmente na ida eu vou a pé até a escola... Mas não tem problema, nós podemos ir de carro.

— Ok então! Mas se quiser, podemos revezar também. Um dia de carro, o outro a pé... Não quero bagunçar os seus costumes... — Prof. William fala gentilmente. Era tão bem humorado e agradável que chegava a ser impressionante.

Os dois seguiram para a frente da casa, onde o Civic prateado do professor estava estacionado. Nicole já tinha pego seu fichário. O sol que nascia iluminava o céu da manhã com poucas nuvens. Mas a garota não foi imediatamente até o carro. Carregando uma cesta cheia de frutas, ela foi até o armazém cautelosamente. O professor sorriu quando compreendeu o que ela ia fazer e esperou, entrando no seu carro e arrumando sua pasta. George — o esqueleto falso — ainda estava no banco de trás.
Abrindo a porta com cuidado, a garota de olhos verdes se esgueirou para dentro do armazém, sendo recebida por uma lambida carinhosa do enorme monstro de escamas cinzas e roxas pálidas. Pan a esperava como toda manhã, sentado com seus enormes braços á frente, a comprida cauda enrodilhada entre duas Vans desmontadas ao fundo. Ronronou no fundo da garganta depois de a cumprimentar.

— Oi Pan... — Nicole esfregou o focinho longo de Pan carinhosamente, e ele fechou seus seis olhos laranjas, ronronando audívelmente. — Eu trouxe suas frutas. E, quando eu voltar da escola, vamos ter que conversar. Tenho uma... Hãn... Surpresa pra você.

Isso pareceu animar a enorme criatura. Ele bateu com a ponta da cauda no chão uma vez, o que causou um pequeno tremor, e abriu as mandíbulas revelando pequeninos dentinhos no que parecia ser um sorriso. Nicole riu e fechou os olhos ao encostar o rosto contra o focinho dele carinhosamente, antes de se retirar do armazém. Trancou a porta e seguiu até o carro prateado, onde seu professor a aguardava pacientemente.

Chegando na escola, Nicole se atrapalhou um pouco pois como tinha descido no estacionamento teria que dar toda uma volta para sair no pátio e encontrar a amiga. Ela se despediu do professor, que ia para a sala de aula direto, e seguiu por pelo corredor exterior até acabar chegando no pátio principal. Como sempre, o pátio já estava cheio de alunos e todos conversavam animadamente sobre a feira do dia anterior, e não demorou muito para ela avistar a amiga ruiva entre as pessoas. Melanie estava parecendo confusa, e isso só aumentou quando ela viu a amiga vindo pelo lado contrário. A ruiva de olhos castanhos apontou para Nicole, depois para a rua, depois de volta para a amiga.

— Hã... Você ficou a noite inteira na escola? — Foi a pergunta confusa de Melanie, que parecia não entender a situação. Nicole driblou os outros colegas até chegar na amiga.

— Não, Mel. Olhe, desculpe mesmo por não ter telefonado, é uma longa história... Mais longa do que você pode imaginar... — Pensou a garota de olhos verdes pra si. — Te explico tudo, tá bem? Vamos.

Mel não hesitou; seguiu a melhor amiga com visível curiosidade em seus brilhantes olhos castanhos.

Assim como Nicole já esperava, Melanie tivera uma reação exagerada ao ouvir a notícia. Surpreendentemente não tinha ficado aborrecida por não poder passar o tempo com a amiga em sua própria casa; na verdade, ela parecia era muito contente. Berrou de alegria e chegou a esbarrar na pilha de livros, derrubando todos pelo chão na aula de história. O professor de Química, senhor Roberts, a encarou com uma expressão desaprovadora enquanto ela se apressava a recolher os livros, com a ajuda de Nicole.

— Que horror, precisava derrubar tudo?! — A jovem de cabelos castanhos sussurrou para a amiga, aborrecida.

— É que... Uau! O professor William, na sua casa! — A ruiva replicou sem nem ligar para o tom irritado da outra, recolhendo os livros e voltando para o seu lugar.

— Estou surpresa que você tenha acreditado de primeira.

Nicole acabou dizendo aquilo sem pensar, já que a amiga não duvidou nem um pouco sobre a notícia de que o professor de Biologia e Matemática ia passar um tempo indeterminado na casa dela como seu responsável. Melanie voltou seus olhos castanhos para o rosto da melhor amiga e sorriu abertamente, realmente não parecendo nem um pouco incomodada, somente surpresa.

— E por quê não acreditaria? Isso é ótimo! — Ela disse.

— Haha... Vou até entender se você começar a aparecer lá mais vezes.

— Não seja boba, Nikki!

E as duas riram, mas só antes do professor chamar a atenção das duas para prestarem atenção na aula.

Passaram outros dois dias desde que Tio Carl viajara para cuidar de negócios familiares. Nicole estava acostumando-se a ver o adulto loiro e contente na sala de estar ao invés do tio. Por mais que pensasse que fosse ser um pouco estranho estar na companhia do professor fora da escola, ele provou ser realmente agradável. Era gentil como sempre foi, simpático e por mais que ficasse quase o tempo todo fazendo anotações, lendo livros e fazendo pesquisas, ele conversava bastante com a aluna e os dois estavam se dando bem; o que era um alívio para a adolescente. O professor William era até divertido e estava cumprindo a promessa sobre Pan em todos os sentidos. Obviamente Nicole fazia questão de estar com Pan quando o professor queria fazer exames, só para garantir, mas estava claro que ele não iria mesmo ferir Pan.
Enquanto isso, a criatura pareceu adorar o fato de que agora era visitado por duas pessoas. Recebia os dois com entusiasmo, ronronando no fundo da garganta enquanto ajeitava o gigantesco corpo no espaço amplo do armazém. Nicole ficou muito feliz por vê-lo assim tão contente. E os olhos azuis do professor igualmente se iluminavam toda vez que ele via o monstro amistoso. Toda a sua pesquisa tinha sido até agora pequenas anotações, medidas tiradas e mais anotações. Mas ele já havia dito para a jovem adolescente que uma hora iria precisar tirar uma amostra do sangue de Pan; por mais que, como disse ele, não saberia como penetrar na pele rígida do monstro. Pan tinha as escamas acinzentadas muito pequenas e fortes, firmemente prensadas perto uma da outra, o deixando com uma couraça de escamas resistentes.
Mas isso não abalava o bom humor do confiante cientista; nem um pouco sequer. Parecia que a descoberta de Pan tinha mais significado para o adulto do que Nicole poderia compreender.

Então, na segunda-feira á tarde, Nicole voltava mais uma vez da escola no Civic prateado do professor. O céu claro tinha algumas nuvens espalhadas aqui e ali, mas o clima parecia bom e não havia sinal de que iria chover. As ruas da cidade de Nova York estavam tranqüilas enquanto o Prof. William dirigia em direção á grande casa de madeira. Tudo ainda estava bem claro.
Estacionando o carro em uma pequena vaga em que costumava ficar o carro do tio, os dois abriram as portas e saíram do veículo, a garota com seu fichário e o professor com seus materiais. Até aquele esqueleto falso — George, como o professor o chamava — tinha vindo com os pertences do adulto. Ele estava posicionado perto a uma estante, e graças a isso Nicole não se surpreendia mais tanto com ele. Pode-se dizer que estava se acostumando.

Mas naquela tarde, a adolescente de cabelos castanhos recebeu uma visita inesperada.
Nicole estava fazendo o dever de casa de História quando alguém bateu na porta, sem esperar resposta a entreabrindo e espiando para dentro. Era Matt. A garota levantou o rosto, surpresa e juntou suas coisas, envergonhada, pois o conteúdo do fichário estava espalhado pela mesa onde ela estudava e ela estava apoiada preguiçosamente ali. Ela arrumou a franja quando o jovem policial adentrou na casa e fechou a porta, no rosto a mesma expressão séria de sempre e vestindo o uniforme de polícia cinza escuro.

— Hey. — Foi só o que ele disse.

Nikki piscou confusa seus olhos verdes ao se colocar de pé e andar até o meio da sala. O rapaz entrava na casa dela e só dizia "Hey"?

— Oi — Ela respondeu calmamente, sem saber o motivo da visita dele e tentando arrumar os cabelos bagunçados inconscientemente.

Matt abriu a boca para falar algo, começando a apontar para ela com a mão vestindo as comuns luvas sem dedo, mas parou imediatamente e hesitou com a outra mão sobre o lado do seu cinto onde pendia a pistola, ao ouvir um som dentro da casa e então o professor loiro saiu de um aposento, trazendo diversos livros nos braços.
Matt pareceu afrontado.

— Oh! Olha só quem é! — Prof. William sorriu por trás dos livros que carregava. Parecia surpreso mas com certeza feliz com a surpresa. — Você não me disse que o seu amigo policial iria passar aqui!

O jovem de cabelos até o pescoço arrepiados olhou do adulto para Nicole, aborrecido, e com a boca entreaberta. Então apontou para o loiro de olhos azuis e disse sem parecer se incomodar como o fato de soar rude: — O que é que ele está fazendo aqui?

— Matt! — Nicole abafou uma exclamação.

Prof. William ficou no seu lugar e pareceu mais confuso e curioso do que ofendido.

— Ele está aqui no lugar do meu tio — A garota explicou, virando o rosto para o professor com uma expressão de quem pede desculpas pelo comportamento do outro. — O professor William vai ficar aqui até o tio Carl voltar.

— Ah, sim, é isso mesmo. — Arrumando seus óculos, o adulto se aproximou. — Eu estou responsável por ela por tempo indeterminado. Desculpe se o surpreendi por estar aqui.

— Humph — Matt resmungou e cruzou os braços, ainda parecendo ofendido. Nicole não entendia o por quê. — Você podia ter me avisado.

— Eu preciso avisar tudo pra você? — A garota respondeu; E foi aí que o professor recuou a passos lentos, devagar saindo da sala com as sobrancelhas erguidas, silenciosamente. — Não passou aqui no fim de semana... Eu teria contado antes.

— Claro que precisa! — Ele levantou a voz aborrecido. — E eu não vim aqui por que estava ocupado na estação. — E ele encarou Nicole com seus olhos azul petróleo. Mas suavizou a expressão se sentindo ligeiramente culpado por levantar a voz para ela e falou em seguida, um pouco mais suave: — Há quanto tempo que ele está aqui?

— Desde quinta-feira. — Nicole suspirou um pouco mais tranqüila. — No dia da feira mesmo, ele veio aqui e resolvemos tudo, por isso não fui para a casa da Melanie, como era o planejado.

— Bom, era por isso que eu vim.

— Mas afinal, você sabe que eu não poderia deixar o Pa-...

Matt de repente se jogou na frente dela e tapou a boca dela com uma mão, em um movimento tão veloz que Nicole nem teve reação.

— SHHH! Está doida? — Ele sibilou.

Nicole tirou a mão dele da boca dela, com as bochechas vermelhas com a proximidade.: — D-Do que está falando?

— Você quase falou! — O rapaz sussurra aborrecido, olhando para o lado para garantir que o professor não estava por perto.

— Ora essa, seu bobo! Ele sabe! — Nicole sibila em resposta, ainda vermelha.

— Ah — E Matt se afastou, parecendo muito constrangido.

Nicole arrumou a franja mais uma vez, piscando em silêncio enquanto o jovem policial coçava um lado do rosto com um dedo; mas logo ele pigarreou e prosseguiu: — Eu pensei que você tinha dito que ninguém mais além de mim sabia. — E ela notou mais uma vez um leve tom ofendido na voz dele.

— Ele descobriu depois que me deu a carona naquele dia.

Matt bufou, cruzando os braços.

— Você não toma muito cuidado.

— Oras...! — Ela disse aborrecida, franzindo de leve as sobrancelhas.

— Hey hey, relaxa. É por isso que ele está aqui então? Por causa dele? — Com "ele", o rapaz se referia à Pan.

— Como... Como você sabe? — Nikki piscou, olhando nos olhos dele demonstrando surpresa.

— Ele tem jeito de cientista — Matt deu de ombros.

Nicole riu de leve, olhando para baixo, e por isso não notou no sorriso que brotou nos lábios do garoto.

— Vai tomar mais cuidado então? — Ele disse de repente, a fazendo levantar o rosto. — Senão, daqui a pouco a cidade inteira vai saber dele.

O tom zombeteiro do garoto fez Nicole torcer os lábios irritada e ela cruzou os braços. Mas quando falou, sua voz não soava irrititada: — Vou sim.

Matt sorriu de novo.

— E depois? Tem mais alguma idéia do que vai fazer?

— Sobre o quê? — Nicole perguntou.

— Ora, sobre qualquer coisa. No final, não parece estar sendo tão ruim, não é? — Ela percebeu que o rapaz se referia á todo o problema anterior de não saber o que faria com Pan, já que ia precisar sair da casa. — Por enquanto, você pode ficar tranqüila.

— Acho que sim... — Nicole disse cautelosamente. Mas por dentro, estava realmente aliviada. E a presença dele proporcionava uma certa segurança que ela nem percebia.

— Certo. Eu vou indo então. — E Matt começou a parecer novamente o jovem aborrecido e fechado, e Nicole pensou que era de novo sobre o fato da estadia do professor na casa dela.

Nikki assentiu quase sem perceber, em silêncio, enquanto o observava. Matt virou a metade de seu corpo, descruzando os braços para se dirigir á saída; mas, antes disso, virou seu rosto para a garota e estendeu seu braço esquerdo até alcançar o rosto dela, onde repousou a mão e pareceu apertar muito suavemente a parte do rosto em que tocava; depois, retirou a mão com a luva sem dedos lentamente e começou a sair, deixando a garota realmente confusa e corada com o gesto.

— Você parece bem. — O professor comentava, meia hora depois, ao jantarem um prato de salada e coxas de frango que ele mesmo preparara.

— ...Hã? — Nicole piscou, ficando alerta. — Como assim?

— Estava sorrindo enquanto eu colocava a comida na mesa.

Nicole corou ainda mais por que o professor a olhava com uma sobrancelha arqueada para cima, visivelmente divertido com a situação.

— Ah... Deve ser impressão sua, professor! — Ela força uma risada, sorrindo tranqüila.

Mas não era só impressão do professor.