Disclaimer: Todos os personagens de Inuyasha pertencem à Rumiko Takahashi.


Gênero: Romance/Drama/Ação/Aventura.

Emparelhamento: Sesshoumaru/Rin

Sumário: Ao nono ano após a derrota de Narak, Rin deve fazer sua escolha entre seguir seu querido Lorde, agora Rei das Terras do Oeste, ou permanecer entre os humanos. Mas ao descobrir que a verdadeira história por traz do massacre acontecido em sua infância está ligado a mistérios e motivos inimagináveis, sua vida muda completamente trazendo responsabilidades e deveres que vão além deste mundo.


Akai Ito - O fio vermelho do destino

Capitulo 1: De que são feitos os dias¿

Da grande janela, observava o fim de madrugada, a poucos minutos do amanhecer. As arvores altas, compunha a mata densa e extensa que contornava parte das terras norte, toda parte leste e sul do território que cercava o castelo. A sala privada para assuntos políticos – o escritório – onde guardava pergaminhos, livros de frequente uso ou necessários para estudos em momentos específicos, ficava na ala norte do castelo, no andar superior, e era sua localização atual.

Sim, a vista dali era inspiradora.

O céu estava escuro, mas já apresentava indícios da proximidade do dia. O vento levemente gelado assoviava baixinho, chicoteando nas arvores, o silencio do descanso noturno, o brilho vindo da lua que abria caminho entre as sombras. Tudo o que admirava era seu.

A liberdade, a beleza, e a força, facilmente podiam ser encontradas naquela paisagem. Mas isso não era o suficiente para aliviar os pensamentos turbulentos.

Os olhos dourados no horizonte ocidente buscavam respostas concretas para inumeráveis perguntas que a mente astuciosa levantava diante das ultimas decisões tomadas. O olhar vidrado, intenso, e as pupilas dilatadas, denunciavam sua profunda reflexão. Talvez as poucas estrelas que restavam no céu pudessem explicar algumas questões duvidosas.

Desde a derrota de Narak, Sesshoumaru fez escolhas que trouxeram a esse ponto atual. A primeira delas foi deixar Rin na vila de Inuyasha, aos cuidados da velha humana chamada Kaede. Para quaisquer caminhos que devesse percorrer, depois de tantas hipóteses levantadas e avaliadas, todas as possíveis decisões sempre levavam ao primeiro passo óbvio: uma criança humana não poderia acompanhar uma jornada youkai. E existiam certas responsabilidades adiadas que deveriam ser retomadas pelo taiyoukai, para com as terras do Oeste, que detinham sua total atenção atual, e Rin atrapalharia seu foco.

Havia tantas coisas para pensar, tantas consequências e resoluções a prever naqueles dias, que a luta com o impertinente hanyou alucinado por uma jóia provou ser menos complicado que criar 'teias' de ações e reações, quando na verdade as decisões tomadas não seriam para si próprio, e sim para outra vida. Pensar e agir como outra pessoa pensaria e agiria, como fazia contra seus inimigos, não funcionaria como o esperado. Agir tão estrategicamente com alguém complexo e imprevisível como Rin era perda de tempo.

Ocorreu-lhe então que deveria mudar a estratégia, o modo de pensar, afinal sua maneira tradicional tão teria efeitos positivos, considerando primeiramente que a humana não era sua inimiga, apenas uma criança. Decidiu pensar de maneira diferente, mesmo que fosse contraditório a seus princípios, para que sua decisão fosse realmente satisfatória.

O que seria melhor para ela¿

A menina havia testemunhado a morte da família quando era muito pequena e desde então viveu jogada a própria sorte, sendo maltratada pelos da sua espécie. Algum tempo depois foi morta por lobos e trazida de volta a vida pela espada de um inuyoukai, passando então a acompanhar e viver com o mesmo, e mais outros dois youkais.

O próprio Lorde das Terras do Oeste teve que admitir que foi uma vida consideravelmente diferente. Infeliz, a julgar pelos padrões humanos.

No entanto, apesar de que a vida levada por ela fosse considerada infortuna por muitos, aos seus olhos era um mistério a constante alegria da menina. Desde que começou a acompanhá-lo ela nunca se deixou abater por nada. Nunca questionou as longas jornadas aparentemente sem rumo, não se queixou sobre dores ou cansaço, nem reclamou dos dias sem banho e noites frias nas florestas. Não que ela tivesse medo dele, ou que ele não fosse atender suas necessidades, mas ele percebia que ela seguia-o porquê realmente gostava.

Rin gostava dos longos dias de caminhadas, dos campos de flores, da liberdade, da atenção de Ah-Un, as implicâncias de Jaken... e da sua presença.

O carinho e o respeito que ela demonstrava quando voltava de seus assuntos particulares, era estimulante. Ela foi cativando seu coração frio aos poucos com pequenos atos, tornando cada vez mais difícil tomar a decisão de afastar-se dela.

Mas era provável que devido os caminhos tomados da pequena vida humana fazia-se necessário para ela praticar a convivência com os da sua espécie novamente, para que pudesse escolher quando chegasse o momento. Não que a ideia de deixa-la entre seres tão ignorantes e traiçoeiros agradasse ao Lorde Ocidental, mas ela não era nada além que humana também, não era¿

Não!

Mas esse era o ciclo natural das coisas. A liberdade que lhe era extremamente apreciada, sempre regeu sua própria vida, e não a privaria disso. Não seria ele que a proibiria de estar onde quisesse, ou de ter opções. E para que ela pudesse ter uma escolha, naquele tempo uma sentença deveria ser tomada.

E foi a primeira vez que Rin contestou sua decisão. Quando a deixou na vila humana, ela perguntou-lhe se havia feito algo errado, se estava atrapalhando ou se seu senhor não gostava mais dela. Pediu para ficar ao seu lado e que não precisava conviver com outros humanos, e só queria a companhia de seu mestre.

Ele era o Senhor das Terras do Oeste, e não precisava e nem era acostumado a explicar suas decisões, quando ordenava algo, era claro e não aceitava recusas ou questionamentos. Nunca também voltava em suas sentenças, sempre foi exato. Mas ele não estava ordenando nada a Rin. Nunca a obrigou a nada, sempre a deixou livre em suas decisões, e as palavras dela soaram tão verdadeiras e dolorosas que era difícil manter-se firme. Até que ponto a pequena menina o havia feito chegar¿

Ele, o temível taiyoukai Sesshoumaru estava verdadeiramente considerando voltar em uma de suas decisões para agradar a humana.

Deixe-a segui-lo... – Tomou fôlego apagando as ideias que uma voz pérfida lançava a sua mente, e disse que iria se ocupar com a construção de seu império, e que iria visitá-la, até que chegasse o momento certo para sua escolha.

No começo, viu nos grandes olhos castanhos da criança a aversão à ideia, entretanto, para sua surpresa ela não protestou nenhuma vez mais sua palavra, os cantos dos pequenos lábios rosados transformaram-se em um sorriso radiante, e o cheiro de sua alegria tocou seu sensível olfato. A menina disse que esperaria ansiosa pelas visitas de seu protetor, e que ficaria feliz em ver um lindo castelo com um grande jardim.

Sesshoumaru aceitou o fato de que realmente Rin tinha o poder de desconcertar suas ideias. Ela era diferente, o surpreendia, fazendo sentir-se curioso, incitado a perguntar, de querer saber o que estava nos pensamentos dela. Rin abalava as estrutura da sua típica frieza.

Mas a vida deveria tomar seu curso natural, algo indubitável, e assim como o sol tornava a brilhar no céu todos os dias, um humano deveria crescer com humanos.

Falar como um humano, andar como um, pensar e até agir como. Sempre existiu um ciclo na natureza, presente muito antes de seus antepassados, e interferir nas ações de uma força irrefutável seria sandice.

No inicio foi estranho o silêncio maçante sem os risos da pequena criança, e conforme foram passando os dias, a longa ausência dos sorrisos tornou-se desconfortável.

Então levava presentes para vê-la e assegurar-se que ela estava bem cuidada e segura. Sempre que chegava a vila era recebido por Rin com muita alegria e intermináveis estórias sobre os dias na aldeia. A presença dela apesar de barulhenta era confortável, e o cheiro que possuía afetava-lhe como um calmante, um inconfundível aroma doce e leve de lírios e jasmim.

Desde que a menina chegou ao vilarejo com aproximadamente oito anos, começou a aprender sobre o uso de ervas medicinais. Ela gostava das aulas e aprendia com facilidade. E os dias foram passando, estendendo-se a anos. Logo Rin começou aprender arco e flecha com a miko de Inuyasha. Ela era muito inteligente para uma humana e isso o fez sentir-se estranhamente orgulhoso.

As visitas eram feitas regularmente, mas a cada dia que passava tornava-se difícil manter a frequência, devido aos assuntos políticos, a construção do castelo e escolha dos servos...

Sesshoumaru saiu de suas reflexões para ver os primeiros pequenos feixes de luz solar que começaram tocar seu rosto. Agora, o restante das estrelas já tinha desaparecido da sua visão.

A brisa do final da madrugada soprou em sua face, fazendo-o fechar os olhos e respirar fundo. Os cabelos prateados, levados pelo fraco vento para trás de suas costas, fluíam e deslizavam como plumas de neve.

O cheiro reconfortante do inicio da manhã trazendo consigo as lembranças de uma, agora, mulher humana.

É algo intrigante o quão rápido os humanos crescem e envelhecem, feito a brisa do inicio da manhã... Eles têm uma existência rápida e passageira sem quase nenhum efeito. Vivem vidas sem nenhum propósito e razão - pensou.

Às vezes quando pensava nela, a imagem da pequena garota aparecia em sua mente, e tinha que lembrar-se que agora com 17 anos, ela não era mais uma criança. Rin havia crescido de uma pequena e brincalhona menina, para uma mulher.

Respirou intimamente para concentrar-se mais uma vez, e voltar ao foco central de sua falta de tranquilidade.

Fazia algum tempo desde que tinha visto Rin da ultima vez, dois anos. Na ultima visita que fizera a menina, notou que seu olhar castanho se concentrava mais do que o habitual, em sua figura. Ele podia perceber os olhares constantes, a falta de atenção dela, e algum tempo depois o odor perturbador que nublou seus pensamentos. O perfume que tanto o acalmava misturado a uma fragrância quente e provocante. Lírios, que pareciam desabrochar na primavera, regados a um rio de jasmim almiscarado. Seu Youki despertou ao cheiro sedutor e seu corpo estremeceu, ao perceber que a pequena criança que cuidara por anos era agora uma mulher... E estava excitada. Mesmo quando ela teve seu primeiro 'ciclo da lua', com 13 anos e seu cheiro se tornou um pouco mais forte e doce, sua mente era relutante ainda a aceitar o rápido crescimento dela, a mudança de uma criança para uma jovem. E agora essa confirmação veio como um soco em seu estomago.

Controlou seu corpo ao impulso de rosnar. Não era uma tarefa fácil pegar o taiyoukai de surpresa, tira-lo de sua indiferença constante... ou faze-lo se sentir despreparado. Rapidamente retomou o controle sobre sua mente, youki e corpo, e virou-se para olhar nos olhos da menina, com um olhar reprovador. Procurou sob a franja negra, nos profundos olhos castanhos a pequena menina Rin, verdadeira, inocente e alegre. Ela ainda poderia viver no coração de uma mulher¿

Mas o que encontrou naquele momento foi apenas a tensão, e o cheiro de seu desapontamento. Porem isso não o impediu de procurar mais tarde a resposta que buscava.

Virou-se para sair, e quando a menina chamou pelo seu nome, com a voz baixa e um pouco triste, falou a ela sem virar-se para olha-la - Vá dormir Rin. – Soou um pouco mais frio e autoritário aos seus ouvidos, do que gostaria que fosse, mas era necessário.

Por mais que tentasse negar, sempre se preocupou com ela. Salvando-lhe a vida quando estava em perigo, levando presentes, vigiando-a sempre – até mesmo por este tempo de dois anos que não foi visita-la, mandou servos ficarem constantemente próximo à vila vigiando-a a cada passo que dava.

Era desconfortável vê-la chorar ou se machucar, e não gostaria de pensar nela triste ou sofrendo devido a desilusões ou por sua causa... Algo que estava tomando-lhe um tempo indesejado, que deveria ser ocupado com assuntos de maior importância. Seus assuntos com as Terras do Oeste precisavam de sua atenção.

Desvencilhando os pensamentos tortuosos, desviou os olhos da janela, para o pergaminho em sua grande mesa de madeira.

Ele não era diferente de tantos outros que já tivera recebido e lido. Um pergaminho trazido por um mensageiro, de convocação para uma reunião em outro reino com um dos reis integrantes do Conselho. Talvez ele quisesse propor alguma aliança ou tratado antes da próxima assembleia... mas alguma coisa nele fazia uma sensação estranha tocar sua mente, como um aviso. Seus instintos sempre foram muito uteis e não ignoraria esse. Logo se encontraria com o Rei das Terras do Leste, e averiguaria melhor sobre suas intenções, agora só precisaria dar o novamente 'primeiro passo' para mais uma decisão tomada.

Em passadas lentas e graciosas se dirigiu até a porta, e parou por um momento antes de abri-la.

Parecia existir um conflito dentro de sua mente, entre a lógica e a verdade. Entre o que ele buscava e o que ele possuía. Essa guerra já estava durando tempo demais, tornando-se irritante. E o rumo que ela estava parecendo tomar, tirava-lhe a tranquilidade.

Então retomando sua típica indiferença, deslizou a porta e saiu em direção ao grande pátio, onde já podia sentir a presença de Jaken e Ah-un esperando por ele para começarem sua viagem.

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Estava escuro, mais escuro que a meia-noite sem lua.

Estava perdida entre a noite sem fim, nenhuma luz, ou estrelas, sem nenhuma alegria ou vontade de sorrir... sem ninguém. Tentou olhar para suas mãos, para o seu corpo e se assegurar que estava mesmo inteira, e não conseguia ver nem a própria mão, encoberta pela escuridão. Não podia ver nada, nem ouvir nada, só a sua respiração lenta.

A noite negra não era apenas outra noite comum, era como uma névoa escura e espessa de energia, que parecia carregar seu coração de dor. A sensação foi horrível, como se estivesse se afogando em sofrimento, em uma prisão sem saída. Parecia um grande vazio e ao mesmo tempo tão pesado, que parecia querer esmaga-la.

A energia era como um mal intenso, que começou a jogar com sua mente mostrando lembranças que não queria lembrar, mas quanto mais se recusava, mais intensas elas ficavam.

Corpos mutilados, crianças gritando de dor, sendo mortas e depois queimadas, monstros perseguindo pessoas para rasga-las ao meio... sangue, corpos e fumaça.

Escutou ao longe quase como um eco, uma voz baixa e assustadora rindo, um riso cruel que fez um arrepio subir pela espinha. Então o riso se tornou mais nítido, mais forte, como se estivesse se aproximando e seu corpo estremeceu. Tentou ajustar os olhos para as sombras e mesmo se esforçando ao máximo, não podia ver nada, e a cada segundo a voz soava mais sombria e próxima. Institivamente correu tentando se afastar da 'voz'. Corria mais e mais rápido, e a 'voz' ainda parecia estar muito próxima. Olhou para trás enquanto corria para tentar ver quem ou o que era aquilo, e foi em vão, não pode ver nada além da nevoa negra.

- Vamos humana, você não pode resistir. - a voz ecoou por toda parte e deixou Rin ainda mais confusa. Resistir ao quê¿ Para quê¿ O que está acontecendo¿ Pensou sentindo o coração disparar quando 'aquilo' voltou a falar.

- É apenas outra humana insignificante e miserável, e logo irá morrer como uma.

Sentiu o coração ir à boca, a respiração rápida e irregular, o medo em cada gota do suor frio pelo corpo. Como lutar contra nada, só uma voz e fumaça negra, deuses, o que esta acontendo¿

Continuou a correr, até sentir alguma coisa gelada e úmida agarrar sua perna e derruba-la. Essa 'coisa' afundou as garras em sua carne, e sentiu como se rasgasse o tornozelo fazendo o sangue quente fluir livremente pela escuridão.

- Me solte coisa nojenta! – Gritou e chutou com a outra perna, fazendo o tornozelo livre novamente. Levantou-se e voltou a correr, o mais rápido que podia, tentando achar uma saída, uma luz, alguma coisa para aliviar a dor que sentia no coração, no tornozelo e na cabeça, mas não havia nada, não havia ninguém, só a 'voz' que voltou a falar:

- Não a nada que possa fazer, eu posso sentir seus sentimentos... ele não virá.

Não imaginava que poderia doer mais, mas parecia que agora, invés do tornozelo, o coração parecia estar sangrando. A impotência que sentia, fez apenas o medo aumentar, e o rosto começou a ficar úmido pelas lágrimas que agora desciam em um rio cristalino de angustia. Sesshoumaru-Sama, por favor, me ajude. Corria mais lentamente agora, as dores pelo corpo se faziam insuportáveis, e parecia que o sangue e a vida estavam se esvaindo completamente do seu corpo. Com o resto da sua voz, gritou o mais alto que poderia.

-SESSHOUMARU-SAMA!

-Rin. – Kagome chamou com preocupação no seu tom de voz, chacoalhando levemente os ombros da amiga.

Rin abriu os olhos lentamente ajustando-os a claridade do pequeno quarto e piscou algumas vezes para focar o olhar em sua amiga. Luzes solares invadiam o ambiente mostrando que o sol já estava alto no céu.

Suspirou ao sentir uma onda de alivio lavar seu corpo. Foi apenas outro sonho.

Era impressionante o quão perturbador estava sendo os seus sonhos nos últimos dias, tinha pesadelos frequentemente e isso estava prejudicando seu humor. Olhou para a amiga que a chamava, sentada ao lado de seu futon com preocupação nos olhos castanhos.

- Kagome-chan aconteceu alguma coisa¿- respondeu com a voz macia tentando esconder a agitação de seu sono. Observou a miko que era a mesma de quando conheceu, usando sua tradicional roupa de sacerdotisa branca e vermelha, mantendo os mesmos traços do seu rosto.

- Rin-chan, você estava agitada enquanto dormia e eu fiquei preocupada. Já faz algum tempo que você esta dormindo, e também achei que talvez você estivesse com fome. – Kagome manteve seu olhar firme nos olhos cor de avelã enquanto falava.

Rin pensou um pouco no que sua amiga havia dito, e tentou buscar em sua memória o que teria acontecido para estar acordando depois dos fortes raios do sol. Fechou os olhos lembrando-se que acordou um pouco antes do sol nascer, e fez sua rotina diária como sempre. Vestiu um quimono leve e fez sua refeição da manhã, foi até a antiga arvore que ficava na entrada da vila e sentou-se sob os grandes galhos, usufruindo a brisa e os primeiros raios fracos do começo do dia. Todos na vila dormiam, e aproveitava sempre esses momentos de silencio e tranquilidade para meditar. Depois de um tempo, ainda aproveitando o descanso dos moradores do vilarejo, treinava com seu shamisen* aperfeiçoando a melodia do instrumento. Mais tarde voltou para a cabana de Kagome-chan, trocou a yokata* pela roupa cinza de treinamento, fez os exercícios que Megumi-Sensei* ensinou, e esperou por InuYasha-Sama ir até a clareira próxima ao poço-come-ossos para treinarem espada. Lembrou-se que ele chegou e começaram a lutar, e depois de um tempo treinando, pegou-a distraída e atingiu sua cabeça fortemente. Tudo rodou e escureceu. Então estava aqui, acordando provavelmente do desmaio na clareira. Rin, ainda não aprendeu que precisa ser melhor para acompanha-lo¿ Se distrair em pensamentos é uma fraqueza que não pode acontecer novamente, repreendeu-se em pensamentos.

- Kagome-chan, obrigado por se preocupar, mas estou me sentindo bem. Agora gostaria de ajudar a preparar o almoço. – Rin disse, com um largo sorriso para a amiga.

– Ahm... bem... é que já está quase na hora do jantar. Você estava descansando do incidente no treinamento e achei melhor não acorda-la antes. Respondeu Kagome, olhando para a mulher que estava deitada a sua frente, com um pedido de desculpas implícito nos olhos.

- Ah não, um dia inteiro perdido. - Disse alto e choroso para si mesma, levando as duas mãos a cabeça enquanto levantava as costas para sentar-se sobre o futon. Parabéns Rin, dormir o dia todo era tudo o que você precisava. Zombou de si mesma interiormente, frustrada. Enquanto argumentava com sua mente, ouviu a amiga responder-lhe, tocando seu ombro direito para tentar consola-la.

– Rin-chan você tem feito seus exercícios todos os dias, e se tornou uma mulher muito habilidosa, aproveite o restante do dia para descansar, vá tomar um banho, relaxe, e quando voltar o jantar já estará pronto. Eu trouxe alguns macarrões instantâneos e chocolates da visita que fiz ontem a minha mãe. Eu sei que você adora chocolates! - Disse Kagome tentando esconder a preocupação de sua voz.

- Inuyasha-sama vai jantar conosco hoje¿- perguntou a menina, tirando as mãos do rosto, deslizando-as para as laterais do corpo para se apoiar em suas palmas.

- Sim, daqui a pouco ele chegará. Precisamos conversar. Ontem não nos falamos, e hoje só nos vimos a hora que ele trouxe você desacordada... Você me deu um susto!

- Desculpe. - Rin fitou a mulher que estava com a face estampada de preocupação, e sentiu-se mal. Ela era sua grande amiga, quem a ajudou, confortou em vários momentos, e deveria retribuir a ela o mesmo carinho, não preocupa-la. Abaixou o olhar, envergonhada.

- Você está um pouco pálida, e parece triste. Tem certeza que esta se sentindo bem¿ - indagou Kagome.

- Sim, eu só estou um pouco assustada ainda, tive um sonho ruim. E acho que também estou com fome. - respondeu a jovem.

- Rin-chan, diga-me, Sesshoumaru estava nesse sonho¿- perguntou Kagome com a voz baixa.

- Sim, e não. Foi um pesadelo, eu estava fugindo, sozinha, e ele não estava lá. Eu... fiquei com medo... então chamei por ele.

- Você chamou em voz alta por ele.

- Oh, que coisa mais infantil da minha parte. Desculpe Kagome-chan, por te preocupar, e por falar até mesmo quando eu deveria dormir e ficar quieta... - disse sorrindo nas ultimas palavras para a amiga, enquanto sentia as bochechas corarem.

- Não, não é nada infantil da sua parte. É natural que sinta a falta dele, você sempre foi tão apegada a Sesshoumaru. É difícil se separar de alguém que é importante em nossa vida... ou que se ama. - falou acusadoramente a amiga, esperando por uma negação ou confirmação.

- Eu irei admira-lo eternamente por sua generosidade e bondade comigo. Serei infinitamente grata por ter salvado a minha vida, e tenho certeza que essa vontade imensa de estar ao seu lado não irá passar, porque foi ele quem me deu um motivo para querer viver. Eu acho que isso é amor...- disse melodiosamente a jovem, sorrindo para si mesma.

- Mas você está apaixonada por ele¿

Apaixonada¿ Como uma mulher por um pretendente¿ Como ela pode pensar isso¿ Será que é isso que parece¿

- N-Não! Não estou apaixonada, o que sinto por ele é... um carinho, acho que amor familiar, algo que eu sentiria por um irmão mais velho e protetor, se eu tivesse um. Ou melhor, um querido professor, alguém que me deu uma nova vida, uma segunda, terceira, ou quarta chance! Kagome-chan, que bobeira, não é a mesma coisa que você sente por Inuyasha-sama.- respondeu a menina, nervosamente em descrença.

Lembrou-se da besteira que havia feito há dois anos, quando pensou em coisas impróprias perto de seu mestre, deixando-o zangado e decepcionado. Isso causou-lhe tanto constrangimento, e mostrou-se tão inútil, que por dias pensou em si mesma como uma mulher idiota e nojenta. Poderia considerar o sentimento que abrigava por ele, um carinho e admiração que sentiria por um irmão mais velho, um melhor amigo, um salvador, mas nem passava por sua mente compara-lo com ela. Ele era sempre tão bonito, calmo, forte, imponente, reservado. Seria um insulto compara-lo a um humano.

Kagome sorriu para a amiga.

- Entendo. - a miko sorrio, assentindo levemente com a cabeça. - Bem, agora é melhor você ir tomar seu banho porque senão vai desmaiar de fome, e quando você voltar conversamos mais. - disse enquanto levantava-se indo em direção a porta fina - E não seja tão rigorosa com você mesma! Pense nisso.- deslizou-a saindo do quarto.

Rin olhou para porta se fechando, e suspirou. Estava sozinha.

Não mentiu para a amiga, estava se sentindo bem fisicamente, mas aquele sonho ainda estava perturbando suas ideias. Era assustador, e o medo e desespero que sentiu eram tão reais, que parecia mais uma lembrança do que um devaneio. Esse talvez tenha sido o pesadelo mais real que já tivera, mas como todos os outros, sempre se encontrava chamando e implorando por ele. Às vezes ele viria e a salvaria, às vezes não, ou acordava antes de saber... mas ele sempre estava presente em sua mente. Porque é tão difícil esquece-lo mesmo que seja por alguns momentos¿. Essa pergunta estava constantemente em suas reflexões.

Olhou ao redor do quarto que viveu nesses últimos anos. Pequeno e aconchegante.

Ao lado de seu futon, um dos muitos livros que ganhara há alguns tempo de Megume-sensei. Olhou para o baú de madeira perto dele, e levantou-se. Sentiu-se um pouco tonta, e levou uma mão a cabeça. Rápido de mais.

Ao passar os dedos na parte de trás da cabeça sentiu uma saliência dolorida ao toque, que era onde havia levado o golpe. Respirou profundamente, recompondo-se, passou as mãos pelo quimono de treinamento para alisa-lo e foi até o baú. Abriu e olhou dentro para escolher um quimono. Hoje os camponeses guardariam suas ferramentas e instrumentos de campo, os jovens trabalhadores em vilas grandes voltariam para suas famílias, porque amanha seria dia de descanso. Hoje a noite teria uma grande fogueira, a vila estaria cheia de pessoas conversando, cantando e crianças correndo; uma noite alegre.

Olhou os quimonos e encontrou o que queria. Era o ultimo presente que Sesshoumaru-sama havia lhe dado, e o mais lindo quimono que já tinha visto. Ele era feito com a mais pura e macia seda rosa clara, e decorado com várias sakuras* brancas pintadas delicadamente à mão. As mangas dele eram largas e longas, e o obi branco com alguns fios de ouro. Era lindo, e mesmo assim nunca usara.

Talvez tivesse coragem de usa-lo hoje a noite, desfilar pela vila e 'arrebatar corações' como dizia Megume –sensei. Riu com o pensamento.

Megume era muito bonita e graciosa, com seus cabelos longos e ondulados, esbanjando segurança e suavidade por onde passava, um exemplo de mulher forte e feminina. Não era para menos que Sesshoumaru-sama escolheu-a como sua sensei.

Ela havia lhe ensinado a ser mais delicada, como andar sem tropeçar nos próprios pés, a fazer um bom arranjo de cabelos, a tocar um instrumento, manejar uma arma, técnicas ninjas e samurais, até a ler e escrever, mas não se sentia à vontade para exibir todos seus aprendizados. Não por falta de vontade, ou beleza. Se considerava uma mulher bonita e constantemente podia ver os olhares dos jovens, e homens mais novos atraídos por sua beleza, mas incomodava ouvir algumas mulheres e homens mais velhos murmurarem entre si, e entre outros, que ela era enfeitiçada por um youkai, ou propriedade de um mononoke*. Eles proibiam os filhos e convenciam os homens de não se aproximarem dela.

Não precisava ser cortejada por sua formosura, ou adorada para tal. O que realmente incomodava eram as pessoas acharem que se algum homem se aproximasse, mesmo que por alguns momentos para uma conversa amigável, ou até mesmo uma amizade, Sesshoumaru os mataria. Como se seu mestre não passasse de um monstro sanguinário, e que ela fosse algum objeto para ser propriedade de alguém ou algum tipo de prostituta. Existiam pessoas mesquinhas e ignorantes naquele lugar - assim como em qualquer outro por onde passou.

Mas também existiam as generosas e sábias.

No começo, quando chegou ao vilarejo, não tinha amigos além do grupo que destruiu Narak. Com o tempo, as pessoas começaram a aceitar sua convivência entre eles, e alguns passaram até a gostar de sua presença. Com Kaede-Sama aprendeu a cuidar e curar os doentes, feridos, e ajudar em partos. Nas festividades, era convidada a tocar seu instrumento de cordas e cantar, e muitos elogiavam seus dons. Suas habilidades de luta que aprendeu com Megumi-Sensei e seu amigo hanyou eram muito uteis quando apareciam mal feitores nas regiões do vilarejo e o casal de amigos estava ausente, visitando a família de Kagome. E Sango se ocupava com seus filhos quando o monge saia do vilarejo para ganhar o sustento da família.

Mas quando Sesshoumaru-sama ia visita-la, os moradores se agitavam, tinham medo e murmuravam entre si coisas do taiyoukai e dela, sem se dar conta que ele poderia ouvir nitidamente. Ele ouvia, e ignorava. Nunca deu um olhar ameaçador ou sequer falou algo, foi sempre superior, com sua indiferença elegante, ignorando a todos.

E assim como ele, também evitou as fofocas agressivas, ignorou os indiscretos, e seguiu em frente. Ele era superior a todos, e então ela seria também.

Saindo de seus pensamentos, pegou o quimono com muito cuidado, colocou-o em cima do futon e olhou para ele mais uma vez. Ele trazia tantas lembranças, até mesmo as que ela queria enterrar, mas acima de tudo, lembrava a pessoa mais importante da sua vida, que a salvou tantas vezes, que a fez sentir-se livre, que mostrou que nem todas as pessoas eram egoístas e cruéis sem sentido. Conhecia seu mestre o suficiente para dizer que ele era um youkai honroso e de palavra, nunca havia falhado com ela, sempre esteve no momento exato em que precisava dele, nunca a machucou, sempre foi gentil e bondoso, mesmo sendo conhecido por todos pela sua intolerância com humanos, mas já fazia tanto tempo desde a última vez que ele veio, que as vezes se pegava perguntando se ele tinha se esquecido. Certamente para ele faz pouco tempo, mas para mim é como uma eternidade... A saudade dele era grande, a vontade de vê-lo, ouvir sua voz, era inevitável.

Não, agora não é o momento para isso. Conteve suas emoções, pegou uma toalha de algodão, uma yukata* leve, um sabão levemente perfumado, e saiu andando.

Chegou à porta da cabana e abriu. Refletiu as palavras da amiga que ecoaram em sua cabeça. 'Não seja tão rigorosa com você mesma'. Realmente havia treinado durante todos os dias, sempre obstinada a melhorar, e admitiu a sua mente que Kagome tinha razão. Era hora de ser mais flexível consigo mesma, menos exigente talvez. Tomar um banho para relaxar era uma excelente ideia.

Começou a caminhar em direção ao rio, enquanto olhava o sol fraco no horizonte que logo iria se pôr dando lugar a lua. A vila ainda estava silenciosa, mas logo com a chegada da noite, isso iria mudar.

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Apesar de que poderia conseguir algumas bacias de agua para se lavar na própria cabana, preferia tomar banho no riacho. Isso a fazia sentir-se livre como no tempo maravilhoso que viveu com seu Lord. Olhou em todas as direções e não ouviu e viu nada nem ninguém, então prendeu seu cabelo em um coque alto, despiu-se colocando o quimono de treinamento sobre uma grande pedra na margem do riacho e entrou na água, se posicionando atrás de uma rocha que ficava no meio da correnteza fraca.

Esse momento era reservado para relaxar o corpo, escutar seu coração e sua mente. Agora era o momento de deixar as emoções e lembranças fluírem com a leve correnteza, deixar os pensamentos e reflexões vir à tona, desligar-se do restante do mundo.

Rin, esse é o seu momento para acalmar seus pensamentos e consequentemente o seu coração, esvazie-se. Agora deixe que tudo que atormenta sua tranquilidade venha para fora, deixe a água lavar o tormento, jogue os pensamentos para o exterior para que eles possam ser lavados. Você só será capaz de concentrar-se totalmente se estiver tranquila, com o coração em paz. As emoções turbulentas enfraquecem os pensamentos. Esvazie seu coração, para que você possa receber o que você realmente precisa para ser forte - pensou.

Fechando os olhos concentrou-se e jogou para a superfície tudo que estava em sua mente. As águas calmas batiam levemente em suas costas as massageando, e a sensação da água mudando seu curso e passando pelas laterais do seu corpo era como sentir-se abraçada, embalada pela correnteza que trazia uma estranha sensação de conforto.

Carinho. Desejava isso, ter alguém para compartilhar sua vida, poderia ser com uma família, ou com alguém. As outras meninas da vila, com sua idade, já estavam todas casadas, muitas já tinham filhos, com exeção de Kagome, que ainda era uma miko.

Passou os dias na vila vendo as pessoas mudarem e formarem famílias. Era algo natural das pessoas, neste caso os seres humanos, viver constantemente em busca de alguém para entregar seus corações. Fosse procurando conjugues, amigos, ou família, sempre precisavam estar com alguém. Isso, com certeza estava na natureza por todos os lados. Talvez fosse isso que faltasse em sua vida, alguém para se entregar, uma família para cuidar e se sentir cuidada, alguém para compartilhar sua alma. Parecia que tudo foi feito em pares, então porque tinha que ser sozinha¿ Será que seria a única pessoa sozinha, sem família ou amor no mundo¿

Não... existem outras pessoas além de mim que parecem ser sozinhas, como Mestre Jaken, Ah-Un, e até mesmo Sesshoumaru-Sama. Meu Lord é único, talvez seja por isso que sempre foi solitário, sem amigos, sem família, sem um amor, talvez ele também tenha sido feito para ser sozinho, assim como eu. Ou talvez esteja enganada e ele já tem um amor, e eu seja realmente a única pessoa sozinha da natureza. Esse pensamento trouxe-lhe tristeza. A mulher que conseguisse o coração de seu Lord, seria de grande sorte. Porque apesar de que ele sempre tentou ocultar o fato, ele provou-lhe ter o coração mais bondoso e gentil que conheceu.

Sesshoumaru-Sama é o que meu coração está cheio. Eu sinto tantas saudades da minha infância, quando eu poderia estar com você... meu maior exemplo. Por que eu tenho que ansiar tanto por sua presença¿ Por que eu não posso estar com você, por que minha humanidade é uma fraqueza¿ Seria tão mais fácil e tranquilo viver uma vida normal, com outros humanos, ser a mulher de um homem, criar uma família, ser uma camponesa... Kami, por que tudo isso não me atrai, por que sinto pânico em pensar em ter uma vida assim, por que estar distante é tão sufocante¿ Não tenho... medo de estar sozinha, mas não quero viver sozinha nem atrapalhando a vida dos outros. Eu quero carinho, quero uma família... mas também não estar longe dele. Sinto-me estranha, confusa, e cada dia esse sentimento de angustia aumenta mais.

Desde que chegou ao vilarejo, tudo que fez, os exercícios e o treinamento diário, sempre foi para ser melhor que uma humana comum, para voltar a estar ao lado dele, caminhando pelas terras, conhecendo lugares, explorando as florestas, e para não ser só um peso. Quando aprendeu a ler e escrever, e gostou muito disso, foi pensando em cartas para seu Mestre. Apesar de adorar tocar e ouvir as melodias produzidas pelo seu shamisen*, quando a bachi* tocava suas cordas, e o som reproduzia as vibrações do seu humor, todas as canções eram para ele. O treinamento com espada era libertador, fazia sentir-se tão independente e forte, como se existisse ao seu redor a muralha mais firme da terra, mas quando empunhava o instrumento de metal era para provar a ele o quão forte poderia ser. Sempre presente em seus pensamentos...

A distância sem noticias dele era cruel. As lembranças do youkai roubavam-lhe a concentração, destruiam o autocontrole sobre suas emoções que tanto esforçará para construir. Hoje no treinamento com InuYasha-sama deixou-se levar em memórias do seu protetor. Apesar de irmãos extremamente diferentes, a cor dos cabelos e dos olhos, tão parecidas fez pensar nele. Então InuYasha acertou sua cabeça com força porque não conseguiu desviar do golpe. Mas não podia deixar de desejar sentir o peso do olhar, ouvir o tom grave e suave da voz do taiyoukai, saber se ele estava bem...

Tocar novamente os cabelos macios, que não toco desde criança, tocar seu rosto... Tão belo... Pare de ser tola Rin. Sonhar com coisas imprudentes só trará mais vergonha e desilusões. Ele não é um jovem pretendente seu, para pensar tais tolices, ele é seu... seu... mestre! Protetor, alguém piedoso que se compadeceu de sua vida infatil solitária.

Lembrou-se da ultima vez que seu Lord foi visita-la, há dois anos.

Tinha ouvido algumas coisas sobre 'relacionamentos' de Sango e algumas mulheres da vila, sobre tocar a pele um do outro, dar as mãos, pentear os cabelos, beijar e até mesmo tirar as vestes na presença do outro. Era algo muito vergonhoso e constrangedor pensar em si mesma sem seu quimono na presença de um homem. E quando seu senhor foi visita-la, pensou em como seria estranho vê-lo sem suas roupas, ele que sempre foi tão inexpressivo, e reservado, pensar nele de tal jeito parecia engraçado. Mas ele também era tão bonito, e seus olhos tão intensos. Imaginou como seria talvez aquilo que as mulheres falavam, de ser tocada, de tocar o outro, de olha-lo sem restrições. Mesmo tendo tantas vezes imposta a si mesma para não pensar em nada imprudente perto de seu protetor, estava naquele momento caindo mais uma vez em seus devaneios.

Apesar de que sabia que ele poderia sentir o cheiro de suas emoções, deixou-se destrair pela sua presença, e pela primeira vez pensou nele como um homem. Não porque o via de tal forma, mas talvez porque ele fosse o unico homem que tinha sua confiança e lealdade. Nunca havia pensado em se aproximar de algum jovem, provavelmente, o terror que os bandidos humanos causaram em sua vida, ficaria marcado eternamente no fundo do seu coração, servindo sempre como um alerta de perigo.

Percebeu-se desejando-o. E então, tão rápido quanto notou o erro que havia cometido, os olhos dourados já estava em sua figura, pesando, repreendendo silenciosamente. Quando levantou o olhar para encontrar o dele, sentiu uma vontade imensa de cavar o chão o mais profundo e se esconder. Seu olhar era reprovador, e um leve franzido em sua testa mostrou o quão descontente ele estava. Vê-lo com aquela expressão, foi como sentir uma lâmina atravessar seu corpo. Tudo pelo que havia lutado para conquistar, os esforços com suas atividades e treinos, tinha sido em vão, porque ao invez de deixa-lo orgulhoso, ele estava descontente. Ela deixou-o aborrecido.

E desde então, seu desgosto foi tamanho, a ponto de não visitar-me mais.

Por isso intensificou seus treinamentos, para obter o controle sobre seu corpo, sua mente, suas emoções. E também para ocupar seu tempo e tentar evitar pensar nele todo o instante. Algo que se mostrou inutil. Afinal quase todos os momentos felizes que tinha passado em sua vida era na presença dele, Jaken e Ah-Un. Eles eram, mesmo não tendo laços de sangue ou nada parecidos, sua familia. Kaede-Sama também era muito boa, e depois que faleceu há um ano, passou a morar apenas com Kagome-chan. Ela também sempre foi bondosa e uma verdadeira amiga, mas no fundo não sentia que aqui era seu lugar. Sentia-se deslocada, em um lugar que não pertencia.

Mas teria que viver ali por mais algum tempo. Ele irá voltar para mim, ele sempre voltou, e quando ele estiver menos aborrecido, talvez ele releve minha fraqueza...

Terminou de se banhar e foi até a margem do rio, pegou sua toalha de algodão, secou seu corpo e vestiu seu quimono. Levou sua mão até o topo da sua cabeça e soltou o coque, deixando os longos cabelos negros descerem pelas costas suavemente, até atingir os quadris.

Respirou profundamente, recuperando o controle sobre sua mente expulsou os pensamentos sobre ele. Agora preciso voltar à vila, já está anoitecendo e Kagome-chan deve estar me esperando para a refeição. Olhou para o céu, pintado de cores azul profundo e leves tons alaranjado e vermelho no horizonte, encobrindo as arvores em sombras, algumas pouco iluminadas pelos ultimos raios fracos. A lua encantadora já estava no alto, desputando seu espaço com os ultimos clarões. O céu estava lindo, deixando aquele pedaço de terra à beira da correnteza, acolhedor. Sentiu vontade de deitar na grama baixa e esperar o céu se encher de estrelas, conta-las, e escolher sua favorita como na sua infância, quando viajava pelas florestas. Quando não existia esse sentimento de angustia e tudo que mais fazia era colher flores, correr, cantar e admirar o céu. Aquele tempo que faltava em sua vida, mas que eram memórias felizes. Só que agora eu não sou mais criança, e tenho pessoas que esperam por mim, e não devo desaponta-las. Afinal, ninguém melhor do que eu para saber o quão duro a longa espera pode ser.

Virou-se em seus pés, fazendo o caminho devolta para a cabana onde vivia agora. Ele vai voltar, eu sei. A qualquer momento ele chegará a minha procura... e se eu pensar que agora estou caminhando de volta para ele... Sesshoumaru-sama pode ter voltado para mim, como na minha infancia. Ele pode estar do outro lado dessas arvores esperando que eu volte logo, talvez até tenha mandado Jaken-sama ir atras de Rin para chama-la. Afinal não é bom ficar muito tempo afastada do nosso acampamento só para um banho que deveria ser algo rápido. Ele também não deve entender muito bem sobre as necessidades humanas de ficar um tempo sozinho para colocar os sentimentos em ordem, e eu não quero deixa-lo de mau humor com meu atraso, e nem dar motivos para Jaken-sama brigar comigo como sempre – Apressou o passo, até que sem perceber estava correndo pelo caminho e sorrindo.

Correu pelo caminho anciosa para chegar ao seu destino, e atravessando as ultimas arvores fechou os olhos, tentando sentir a presença de seu Lord, mas isso não aconteceu.

Então abrindo-os novamente, viu a vila e as cabanas, alguns humanos, mas ele não estava ali. Seu corpo foi lavado em decepção, ao perceber que estava mais uma vez tentando enganar a si mesma, fantasiando coisas, fugindo em sonhos. Essa é sua realidade, e você deve agradecer por ela Rin, porque mesmo não sendo a coisa que você mais deseja, é uma vida feliz, com pessoas que gostam de você, outras nem tanto, mas você não está completamente sozinha, certo. Recomponha-se e vá para a casa de seus bondosos amigos que estão te esperando para a refeição.

Caminhou lentamente para a cabana onde era aguardada. O vilarejo estava começando a se agitar. Algumas pessoas já estavam fora de suas cabanas conversando, e logo mais uma fogueira estaria acesa, e crianças correndo em volta.

- Rin-chan venha logo, o jantar está pronto! – Ouviu sua amiga falar da porta de sua cabana, sorrindo pra ela.

- Kagome-chan estou indo! - respondeu, e acelerando os passos chegou até a amiga. Entraram na casa.

InuYasha já estava lá, sentado sobre um futon com uma expressão fechada, provavelmente ele e sua amiga haviam tido uma discussão. Seria melhor manter as palavras sob moderação, para não deixar a situação mais tensa.

Virando-se para olhar o hanyou cumprimentou com um leve aceno:

- InuYasha-sama, boa noite. Gostaria de pedir desculpas pela minha falta de concentração no treino da manhã. Acho que eu estava um pouco sonolenta, não dormi muito bem noite passada, mas isso não acontecerá de novo. Vou tomar mais cuidado, eu prometo.

- Ei, não precisa se desculpar, é... esse tipo de coisa acontece e... eu não queria ter acertado sua cabeça com tanta força... – desviando o olhar da mulher, cruzou os braços, fechou os olhos e continuou, com um tom de irritação na voz. - Feh! Você sabe, às vezes esqueço que vocês humanos são sensiveis – disse enfatizando a ultima palavra; - E vamos comer porque estou com fome.

Rin sorriu para o amigo hanyou. A última palavra soou-lhe como uma indireta, provavelmente destinada a miko, que parecia ignora-lo. Esse era o jeito dele, o mais próximo de um pedido de desculpas que pediria, era evidente o desconforto naquela situação. No final das contas ele era irmão de Sesshoumaru, e se existia uma coisa que os dois tinham em comum, era certa arrogância em relação a pedidos e emoções.

Rapidamente deixou seus itens do banho e quimono de treinamento dentro de seu quarto e voltou para o jantar.

Sentou-se, esperou sua amiga sentar-se tambem, e se serviu.

A relação entre InuYasha-sama e Kagome-chan era algo muito bonito e especial, e qualquer um poderia ver o amor que existia entre os dois. Muitos achavam estranho, eles não estavam casados e nem moravam na mesma casa, mas o companheirismo entre os dois, apesar das discussões, era admirável.

Sua amiga ainda era uma miko, e a mulher mais velha do vilarejo que não havia se casado, e pode acompanhar muitas vezes a tristeza de sua amiga em ficar dividida entre o amor e a responsabilidade.

Pegando seus ohashi* começou a comer silenciosamente, pensando e ouvindo Kagome contar sobre rumores de um general youkai e soldados que estavam passando por vários vilarejos a procura de uma mulher que havia desaparecido. Essa mulher era uma prisioneira de um reino, uma humana 'muito perigosa', que se fosse vista, deveriam ser avisados.

- Não sei, mas acho que alguma coisa está errada nessa história, uma mulher humana perigosa sendo procurada por um youkai e soldados. Dizem que os soldados tambem eram youkais. É um pouco estranho que uma mulher, por mais perigosa que seja tenha fugido de um reino e causado todo esse transtorno. – disse Kagome, olhando para Inuyasha, que não parou de comer por um minuto, e depois passando os olhos em Rin que parecia perdida em pensamentos. Apoiou a cabeça sobre um braço e suspirou longamente antes de completar. – Será que vocês ouviram alguma palavra do que eu disse¿

- Oh, desculpe Kagome-chan. Eu ouvi algumas coisas sobre essa estória também, mas não entrei em detalhes. – disse Rin.

- Ei Kagome, você não vai comer sua comida¿ Se você quiser ficar conversando eu posso come-lâ antes que esfrie por você. – Respondeu Inuyasha, que ao perceber o olhar furioso que a mulher lhe lançava, deu um pulo de susto, sorriu forçadamente e completou. – É-éé, não precisa, acho que estou cheio com a minha comida, pode comer a sua... E realmente isso é um pouco estranho.

Rin sorriu com a situação. Era engraçado como Kagome e InuYasha se amavam e tinham seus desentendimento, ele sempre teve uma personalidade forte e dificil, e ela era doce e carinhosa. Apesar de diferentes, quase que completamente, eles formavam um casal perfeito.

O restante do jantar foi calmo, quieto e passou rápido. Kagome estava muito mais quieta que o habitual, evitando mais conversas e Rin seguiu o exemplo. O clima no ambiente apontava para uma discussão entre os dois amigos, mas seguiu a ignorar, até que sentiu Inuyasha estremecer ao seu lado. Olhou para o rosto de seu amigo e percebeu que ele estava apreensivo, e um pouco nervoso. Ele se levantou rapidamente e foi em direção à porta, parando um momento para falar-lhes.

- Eu vou tomar um pouco de ar, encontro vocês mais tarde próximo à fogueira no centro do vilarejo. Eu não vou demorar muito. - Abriu a porta e saiu. Rin olhou para Kagome que tinha o mesmo olhar confuso no rosto.

- Será que eu fiz alguma coisa que não deveria Kagome-chan¿

- Não Rin, talvez ele esteja só um pouco nervoso, quando esfriar a cabeça ele voltará. Então, vamos lá pra fora¿.

- Oh, acho que é melhor eu ficar, vou ler e depois talvez praticar um pouco com meu shamisen. - Hoje eu não estou no clima para suportar alguns olhares das mulheres com pena de mim por não ter nenhum pretendente. Nem dos homens comentando coisas nojentas como 'ela é concubina de um mononoke*', com medo de se aproximarem de mim e acabarem morrendo. Acrescentou em pensamento.

- Rin-chan, vamos isso vai te fazer bem, você já dormiu grande parte do dia, vamos lá, conversar... e estou precisando de um ombro amigo hoje, para desabafar e contar os últimos acontecimentos - disse Kagome sorrindo melancolicamente, pegando as mãos da amiga e levantando-a do chão.

Rin, seja superior, lembre-se do que você prometeu a si mesma. Você não tem medo de youkais, não tem medo de lutar, de seguir em frente, por que ter medo de uma dúzia de pessoas humanas, velhas e rancorosas¿ Eles não te farão mal algum, os pensamentos deles não mudara nada, são só humanos fracos e você é forte! Lembre-se dele, seja superior!

- Vamos¿

Eles não te farão mal algum, os pensamentos deles não mudara nada, são só humanos fracos e você é forte! Lembre-se dele, seja superior!

- Ei, Rin-chan, vamos¿

Eu sou superior. Ignore-os.

- Hai*! Eu não tenho medo! - Respondeu determinada.

- Nani*¿ Perguntou a miko sem entender a ultima frase dita pela amiga.

- Não é nada, vamos! - mudou de assunto a jovem enquanto sorria para a outra mulher.

Autora: A. Diandra


Sumário:

*yokata: vestimenta japonesa de verão.

*Sensei: professor; mestre.

*sakuras: flor de cerejeira

*Mononoke: espírito vingativo (nome pejorativo dado aos youkais).

*shamisen: instrumento musical de três cordas.

*bachi: palheta grande que percuti nas cordas do shamisen.

*ohashi: palitinhos japoneses usados para refeições.

*Hai: sim.

*Nani: 'O que¿'


NOTA AUTORA: Desculpe-me pelos erros gramaticais, não há revisão para este capítulo, essa é minha primeira história, e estou à procura de um Beta Reader.