Quando eu me perco é quando eu te encontro
Quando eu me solto, seus olhos me veem
Quando eu me iludo é quando eu te esqueço
Quando eu te tenho, eu me sinto tão bem

(Você me faz tão bem - Detonautas)


"Katniss"

O grito ecoou pelo meu quarto e eu me encolhi ainda mais dentro do meu guarda-roupa. Eu estava afundando em um punhado de blusas amassadas e roupas de caça, mas ainda sim, não me sentia escondida o suficiente.

Eu não planejei chorar. Eu não planejei me esconder. Mas aquela era a pessoa que eu era. Alguém egoísta, que estava dando as costas para Peeta pela segunda, terceira, quarta vez. E eu só queria sumir. Ser consumida pelas roupas e desaparecer. Engoli um soluço e escutei os passos de Peeta pelo assoalho do corredor. Voltei a fechar os olhos, perguntando-me se ele havia ido embora. Se ele havia desistido de tentar. Se ele havia notado que não valia a pena.

Escorreguei mais fundo no meu armário e me deixei chorar.

"Katniss, você não sabia que essa casa veio com uma chave mestra?"

Escutei o que ele disse e lancei uma praga em quem quer que fosse que tivesse planejado a casa. E o amaldiçoei também por saber a localização daquela chave. Não demorou mais de um minuto para eu ouvir a porta do meu quarto se abrindo e, em seguida, a porta do meu guarda-roupa.

— Katniss...

Por mais que eu quisesse, não consegui sufocar o meu choro. Coloquei a minha cabeça entre os joelhos para não permitir que ele me visse chorando e a última coisa que eu esperava era ser envolta em um abraço.

Ele me segurou com um pai segura uma criança. Enterrei a minha cabeça contra a curvatura de seu pescoço e me odiei a cada lágrima que derramei. Eu não podia ser uma pessoa tão egoísta como eu era. Eu não podia e não devia. Mas eu estava sentindo toda a angústia que senti quando Peeta estava nas mãos da Capital, sozinho, sendo torturado. Todo aquele vazio, aquele desespero, aquela sensação de impotência por não poder fazer nada para ajudá-lo... E agora ele precisava voltar.

— Você quer mesmo que ir? — a pergunta escapou da minha boca e eu não consegui omitir o medo que eu sentia por ele.

— Eu preciso ir. — ele sussurrou a resposta na beirada do meu ouvido, afagando o meu cabelo solto com as pontas dos dedos e me segurando firmemente com a outra mão em minhas costas. — Payer decretou uma lei provisória a respeito de tortura. Todos os que sofreram alguma tortura vinda da Capital tem o direito a tratamento. A grande maioria dos médicos da Capital está trabalhando em medicamentos e antídotos. Algum desses pode... — Peeta parou de falar e eu o abracei mais fortemente contra mim.

— Você me disse que os flashbacks não estão acontecendo com frequência...

— Mas eles acontecem, Katniss... — prendi a respiração quando um polegar dele comprimiu uma de minhas bochechas, erguendo a minha cabeça com cuidado. — Hey... — olhei para ele, sentindo a ardência dos meus olhos aumentarem conforme eu queria continuar a chorar. — Eu não consigo me perdoar pelas vezes que tentei feri-la e eu não quero tentar machucá-la mais uma vez, Katniss...

Não era você... — eu gaguejei, tentando fazê-lo ver que eu não o culpava e nem carregava mágoas por conta do que havia acontecido. Tudo aquilo tinha sido culpa da Capital, afinal. — Não era você... — repeti, mas parecia que o que eu acreditava não tinha importância naquele caso para Peeta.

Eu poderia não ser responsável pelos meus atos, mas eram as minhas mãos em volta do seu pescoço... Eu tentei machucá-la mais de uma vez, Katniss, e não vou permitir que isso aconteça de novo...

Eu não quero que você vá para a Capital...

Eu tinha tantas coisas a dizer. Tantos medos para colocar em cima da mesa. Mas tudo o que consegui fazer foi agarrar um pedaço da camiseta dele com força entre os meus dedos e voltar a chorar.

Katniss, nada mais pode me acontecer... — recebi um beijo trêmulo em minha testa e um afago na minha nuca. Suspirei asfixiadamente pelo carinho, contudo, as lágrimas continuaram a molhar as minhas bochechas. — Eles já tentaram de tudo... — ele deu mais um beijo entre os fios da minha franja e comprimiu os braços ao redor do meu corpo, em um abraço tão quente quanto as minhas maças do rosto ficaram posteriormente ao que ele disse: — ...Mas eu sempre volto para você.

Funguei, agarrando com mais força a camisa dele entre os meus dedos, apegando-me na crença de que nada conseguiria arrancá-lo de minhas mãos mais uma vez. Eu não saberia explicar o que se passava dentro de minha cabeça. Eu não saberia nem ao menos explicar o que eu estava sentindo. Era uma mescla de pavor, covardia e insuficiência. Enquanto Peeta lidava bem com as palavras e sabia expressar o que sentia sem nem ao menos desandar, eu tinha a minha garganta seca e os meus olhos empapados, e o meu único movimento era o de me comprimir contra ele, mais e mais, buscando acreditar que aquela proximidade não cessaria em momento algum.

Senti-me fraca, como se tivesse passado o dia inteiro na floresta, caçando como antigamente e pregando pela sobrevivência da minha irmã e de minha mãe. Cansada, como se o peso do mundo estivesse em minhas costas e como se o tempo esvaísse pelas pontas dos meus dedos. Exausta, na verdade, e minha própria força me enganava.
A minha cabeça refolgou em um ombro de Peeta e escutei um bocejo escorrer pela minha boca, provando que eu não estava enganada sobre o meu fastio. O que era ridículo, pois o ponto alto do meu dia – ou seja, o mais trabalhoso – fora o de preparar o jantar. Como eu poderia estar cansada por culpa daquilo? Desisti de procurar a resposta assim que um novo bocejo se juntou ao ar. Possivelmente eu estava exausta de tentar resistir.

Resistir a tudo: as dores, aos pesadelos, aos medos, ao passado distante, ao futuro esperançoso e aos olhos azuis de Peeta.

Se eu fechasse os meus olhos por alguns segundos, talvez, eu não precisasse resistir à tudo aquilo. Se eu fechasse os meus olhos somente por alguns segundos...

xxx

Acordei sobressaltada, sentando bruscamente na cama e sentindo os meus olhos reclamarem de imediato pela claridade. Olhei para os lados com pressa, com aquela necessidade de reconhecer o terreno, e me deparei com um lençol branco esparramado por uma cama grande e com uma boa quantidade de travesseiros empilhados por ali. Eu não poderia ignorar o fato de Peeta estar deitado ao meu lado, ainda em um sono aparentemente sossegado e com uma mão descansando no exato lugar onde, minutos atrás, minha barriga deveria estar localizada.

Eu ainda podia sentir o calor dos dedos dele em uma região próxima ao meu umbigo, todavia, aquilo era um pequeno detalhe.

Ainda sem entender muito bem, finquei os pés no chão gelado, sentindo uma corrente elétrica passar pelo meu corpo, percorrendo os meus nervos e agitando os meus músculos. Sair do recanto aconchegante e quente todas as manhãs era, sem duvidas, a parte mais árdua do dia e muitas vezes eu preferia não enfrentar aquela dificuldade. Cocei os meus olhos com as palmas das mãos e me espreguicei, resistindo a tentação de deitar mais uma vez e tentar dormir por mais algumas horas. Peeta deveria estar para acordar, pois os raios do Sol já estavam aparecendo pela janela, mas ainda demoraria um punhado de minutos para isso.

Calcei um par de meias, me enrolei em um casaco de lã antigo e depois me arrastei para fora do quarto, tentando não fazer barulho algum. Consegui sair do cômodo sem despertar Peeta, mas quase que Buttercup fez o que eu não havia feito ao soltar um miado agudo e irritante ao me encontrar no corredor. Ele estava lambendo as patas de uma forma preguiçosa e eu supus que ele acabara de chegar em casa depois de sua caça noturna. Ignorei-o, como sempre fazia, e segui para a cozinha. Escutei o meu estômago roncar assim que cheguei perto do balcão e me amaldiçoei em pensamentos por retornar aquele lugar em menos de vinte quatro horas.

Mas eu já estava ali, então que mal teria fazer alguma coisa para comer?

Não me esforcei o mínimo sequer, fritando alguns ovos e esquentando alguns pedaços dos pães de Peeta no fogão. Peguei o resto de suco de amora que Sae tinha colocado na geladeira e tentei arrumar a mesa da forma mais organizada possível. O resultado, como esperado, fora um fiasco... Mas Peeta não pareceu achar isso quando desceu as escadas e se deparou com uma mesa de café da manhã já pronta.

Hey... — escutei a voz dele e imediatamente me virei para onde ele estava, abrindo um pequeno sorriso e limpando as minhas mãos no meu casaco.

Olá...

— Pelo visto esse será um dos bons dias... — entendi o que ele quis dizer e não tentei responder. Bons dias e dias ruins, era assim como classificávamos os nossos dias. — Você fez ovos fritos?

— Achei que você gostaria de comer ovo com pão... — dei de ombros, não querendo fazer aquele café da manhã ser uma grande coisa.

Ele sorriu para mim. Um daqueles sorrisos quentes de Peeta. Na verdade, parecia idiota falar que algo vindo de Peeta era quente, porque soava como analogia. Os olhos, os sorrisos, os abraços... Tudo era quente. Então por que eu não me acostumava com aquele calor?

— Também tem um pouco do suco que a Sae fez...

— Está tudo com uma cara ótima, Katniss. — Peeta sentou e esperou que eu me juntasse a ele para começar a comer.

O assunto do café da manhã costumava ser sempre o mais agradável. Estava virando costume conversarmos sobre o que pretendíamos fazer durante o dia e até soltar algumas poucas risadas, apostando em quantas vezes escutaríamos Haymitch soltar alguma praga ou virar um gole de alguma bebida alcoólica durante as horas que se seguiriam. Até então, nós nunca tínhamos acertado, por isso que a brincadeira continuava divertida.

— Uma garrafa de whisky.

— Inteira? — questionei, empurrando outro pedaço de pão para ele.

— Na verdade não. A última garrafa de whisky dele já esta na metade, mas eu aposto que ele termina tudo hoje.

— Eu acho que ele vai escolher o rum hoje.

— Ou talvez ele misture.

Demos risadas baixas, talvez nos condenando por estar nos divertindo à custa de um assunto que não era assim tão engraçado. O alcoolismo do Haymitch já nos metera em um bom punhado de confusões. Contudo, precisávamos nos segurar em qualquer razão que nos fizesse rir pelo menos um pouco, e aquela aparentava ser uma.

— Você já escreveu uma resposta para a Annie? — a pergunta dele me fez engolir em seco e neguei com a cabeça, prometendo para mim mesma que responderia o quanto antes. — Eu estava pensando que você poderia chama-la para ficar um tempo aqui com você, enquanto eu estiver fora. — ele disse a última frase com delicadeza, sabendo que eu poderia agir de uma forma estupidamente infantil, como na noite anterior. — Assim você não ficaria sozinha.

— E teria alguém para ficar de olho em mim. — fiz uma careta, não conseguindo resistir ao impulso e agindo novamente como uma garotinha chata.

— Se fosse para convidar alguém para ficar de olho em você, Katniss, eu falaria para você chamar a Johanna ou até mesmo o Haymitch para ficar hospedado aqui.

Prendi a minha respiração somente de pensar em ter que ficar presa dentro de quatro paredes com o Haymitch durante dias e mais dias. Depois de dividir um quarto e medicamentos no Distrito 13 com Johanna, eu poderia encarar alguns dias com ela sem dificuldade alguma... Mas Peeta estava certo. Annie não seria a minha babá, e sim alguém para não me deixar afundar na solidão... E ela mesma dissera que estava se sentindo sozinha no Distrito 4.

Sem contar que eu devia tanto à ela.

Não dei uma resposta à Peeta, porém estava decidida a colocar o convite dentro da carta resposta. Ela teria todo o direito de recusar ou aceitar.

— Você já sabe o dia em que você vai...? — não consegui terminar a frase e me calei.

— Provavelmente daqui uma semana. — Peeta também não parecia muito feliz em falar sobre aquele assunto e suspirou fracamente depois de tomar um gole do suco. — Eu vou tentar aproveitar a viagem para a Capital para comprar algumas coisas para a padaria.

— Você acha que eles vão deixá-lo sair do Hospital?

— Eles não vão poder me manter em cativeiro mais uma vez. Eu concordei em ir para ser tratado como paciente, não como uma cobaia. — pude ver naquela fração de segundos como ele estava assustado e deslizei a minha mão por cima da mesa até tocar a dele. Fora apenas um roçar de dedos, algo sutil, mas Peeta ergueu o olhar e me encarou em silêncio.

— Então você deveria procurar pela Effie enquanto estiver por lá. Eu acredito que ela deva conhecer todas as lojas que existem e ela pode ajudá-lo com isso. — tentei apaziguar o assunto e rocei o meu polegar contra as costas da mão dele, em uma tentativa vergonhosa de carícia.

Os olhos dele finalmente caíram sobre as nossas mãos unidas. Agradeci por ele ter desviado o olhar do meu rosto, que deveria ter adquirido uma cor estranha pelo acanhamento. Eu nunca tinha feito algo parecido. Nem mesmo com Prim. Na verdade, eu conhecia aquele carinho porque o meu pai costumava fazer em mim quando eu era criança. Mas eu nunca havia ousado fazê-lo com ninguém.

Não até então.

— É uma boa ideia. — em uma tonalidade rouca, Peeta me respondeu, sem ainda me olhar. A mão dele se apossou da minha e comprimiu-a com amabilidade, unindo os nossos dedos e observando com atenção a junção. Eu não pude evitar olhar também. — Você promete que vai se cuidar, Katniss?

— Eu garanto que eu não vou morrer de fome. — tentei brincar, mas não soou como uma brincadeira e Peeta me encarou com seriedade.

— Eu estou falando sério. Se os seus pesadelos piorarem...

— Peeta, eu vou ficar bem. — fiz o maior esforço que consegui para aparentar que eu estava calma com a ida dele, pois não podia ser egoísta mais uma vez e prendê-lo ali comigo, sendo que era evidente que ele acreditava que existia uma chance de melhoria com a ida dele para a Capital. — Eu não vou falar que eu vou dormir bem sem você aqui, porque eu estaria mentindo e nós não mentimos um para o outro... Mas eu prometo que eu vou me cuidar.

— Eu posso ligar e avisar que eu não vou...

Você não vai fazer isso. — fui firme ao dizer, negando-me a acreditar que ele abriria mão de mais alguma coisa por minha causa. — Você não vai se privar disso, está bem? Eu vou ficar realmente aborrecida se você deixar de ir só porque está preocupado comigo.

Eu estou sempre preocupado com você. — meus olhos ficaram úmidos e eu virei a cabeça, encarando a porta para não deixa-lo ver aquilo.

E eu estou sempre preocupada com você, e é por esse motivo que eu acho que você deve ir para a Capital...


N/A: Oh meu deus oh meu deus oh meu deus, eu não acredito que essa fanfic tem 7 comentários! Eu realmente não acredito. Quando eu comecei a postá-la, eu achava que se até o final tivesse uns 5, seria a glória, e a fanfic, com um capítulo, ganhou quase 10 comentários. Isso é muito mais do que eu esperava, por isso meninas, obrigada por todo o carinho e pela atenção, vou tentar retribuir com a história!

E eu queria saber se vocês estão achando que a minha Katniss não está muito desconexa com a personagem que ela é no livro. Eu imagino a Katniss sofrendo muito, depois do 3º livro, mas eu nunca consegui imaginá-la afastando o Peeta ou recusando qualquer forma de aproximação com ele. Mesmo que eu esteja escrevendo as coisas indo beeem devagar, eu sempre imaginei assim, e queria saber o que vocês estão achando a respeito disso.

Prometo postar um novo capítulo o mais rápido possível! Talvez até segunda. Quem sabe? Se eu receber mais um ou outro comentário, eu tenho certeza que vou me empolgar e digitar como uma louca.

Feliz primeiro de Abril para vocês – e não, nada do que eu disse acima foi mentira – e até logo 3