Like how the colours fade from film

the present will also certainly fade from memory

The times when we were laughing

will become painful with time (…)¹


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Não era um dia bonito ou uma noite de horror. Era somente uma tarde infeliz sem hora marcada no domingo sem graça. Não sabia se conhecia aquele cara, e nem se lembrava por que resolveu correr quando viu que ele portava uma faca.

A lâmina cortou suas entranhas, e havia tanto sangue saindo dela que escapavam por entre os dedos que tentavam segurar sua dor.

A gravidade levou seu corpo como se fosse oco, caindo em puro desgosto naquela barragem no mês de Agosto.

Quando a acharam, seu rosto havia congelado em uma expressão de pavor.

(Ninguém foi me salvar, e acabei morrendo sozinha.

Não era assim que eu sonhei terminar).

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"O imortal morre de tédio" é o que diziam, não?

Antes de tudo acabar, o tempo passava em cinza para a dona de cabelos tão belos.

Até as pétalas de cerejeiras que enfeitavam a cidade de Yomiyama pareciam demorar mais de cinco centímetros por segundo² na queda.

A monotonicidade estava a matando antes da própria morte.

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Quando seu corpo tocou o fundo daquela água suja, não havia aquele filme da vida passando na frente de seus olhos. Nem os suspiros, os sorrisos e as lágrimas que viveu.

Só uma dor insuportável no corpo e a falta de ar tomando conta de seus pulmões. Não havia nada ali do que imaginava. Só havia aquilo. Só.

E tudo ficou escuro.

(E eu me lembrei que morri naquele dia).

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(Eu nunca foi uma pessoa que poderia ser chamada de especial para todos, mas também não era daquele tipo que ninguém se lembraria do nome anos depois.

Eu não era amada, nem odiada. Eu não era nem tão esquecida, nem tão lembrada. Eu não era o destaque dos esportes, nem o gênio das provas.

Entre tantos eu's meus e não meus, eu mesma era tão vaga quanto uma folha de papel em branco. E isso sempre me angustiou.)

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Há pessoas que não acreditam em vida pós-morte.

(De fato, nem eu acreditava.

Até o dia em que voltei à vida.)

No dia que tudo aconteceu, não se sabe dizer quando ou porquê exatamente, ela se sentiu como quem acordou de um sonho ruim na pior parte.

(Eu ofegava, suava frio e com os dedos gélidos e trêmulos atados ao peito, como se isso fosse capaz de me acalmar)

Ela sabia que tinha algo de errado, por mais que se negasse a todo o momento. Seu pai e sua mãe, por mais que parecesse "normal" aquela mania de continuar a chorar pela filha perdida à anos, não sabia explicar porquê sentia que faltava algo ou alguém no altar da casa.

(Como eu pude me esquecer de mim mesma?)

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Você tentou, e ninguém pode dizer que não. Porém você não tinha força o suficiente para salvá-los.
E acabou pagando por isso. E quem sentia mais o preço de sua teimosia, foram seus tão amados alunos.

(Eu sabia que o que estava acontecendo era culpa minha e mesmo assim, fiquei até o fim.

Como uma professora deve fazer.)

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Quando ela se deu conta de onde estava, havia pedaços pesados de madeira sobre as pernas delas – uma que ela sentia que estava quebrada – e ela não conseguia sair dali, e estava sozinha no meio daquela Calamidade.

E estava com medo.

(Seria uma mentira dizer que não estaria.)

Quando ela viu Kouichi-kun e Mei, por um breve momento até se sentiu aliviada.

(Só não entendi o porquê de ela estar carregando uma picareta.)

Os dois conversavam, olhavam pra ela.

(Ele em desespero, ela com apatia)

A ex-viva estava tão fora de si que não era capaz de discernir as palavras que falavam.

Mesmo quando a menina de cabelos curtos tentou atacá-la, ela não sabia o que fazer perante tudo.

(Meu tempo estava acabando)

E no momento que seu sobrinho pegou a ferramenta das mãos da garota, Reiko esperou pelo que viria, e não culpou ninguém pelo que deveriam fazer com ela.

(E tudo ficou escuro novamente)

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N/a: ''Anamnese, em filosofia, é um conceito platoniano que define a recuperação, pela alma, do conhecimento perdido, ainda que esteja presa ao corpo físico'' - Wikipédia

¹ - Annabel, Anamnesis. É a ed maravilhosa que me inspirou a escrever.

² - Dizem que pétalas de cerejeira demoram "Five centimeters per second" para cair, e é também o nome de um filme japonês, altamente recomendado por sinal.

Vai que a fic é tua, Memê! Espero que goste. ;)