Disclaimer:

Premissa Maior: Twilight pertence a Stephenie Meyer.

Premissa Menor: Eu não sou Stephenie Meyer.

Conclusão: Twilight não me pertence.


Em seu castelo imaginário, ela reinava absoluta. Uma beldade de alma generosa e coração valente. Não havia um único príncipe encantado, mas vários, eternamente disputando a mão da mais bela donzela de toda a nobreza daquela terra inventada. Em seus devaneios, ela era eternamente jovem; dispondo de um futuro infinito onde pressa não era palavra, muito menos ordem. Seus sorrisos eram vastos e sua alegria imensurável, seu semblante radiante iluminava até os mais sombrios corações. Seu eu onírico jamais conheceria a dor da solidão, muito menos a fuga de uma mente inquieta, obsessivamente buscando o afago de uma mão.

Mas sua vida não era feita de sonhos, nem era ela uma princesa; uma mera plebeia perdida na imensidão de rostos singelos, indistinguíveis em sua similitude, indestacáveis em sua vulgaridade. Sim, ela caminhava entre a humanidade, mas sentia-se inumana. Presa de seus medos, prisioneira de suas limitações ela era mais uma, só uma. Tirana de sua vida, ditadora de suas ações, ela lamentava o declínio de um governo fadado ao exílio. Não importa o quanto lutasse seu eu rebelava-se contra o estrito controle de um ser autoritário, com quem dividia a mesma face, mas nunca o mesmo espírito.

Uma mulher de contrastes e confusões, sua cabeça era seu guia e seu coração a bússola a guiar passos impensados em direção a futuros incertos. Suas decisões, imaturas sentenças de casos improváveis, inapeláveis por natureza e opção. Seus sonhos, construções imprecisas de fundações inconfiáveis, oscilavam ao vento, passíveis de desmoronamento em momentos impensáveis.

Em resumo, era uma mulher normal como tantas outras; vítima de sonhos e incertezas tão peculiares ao sexo feminino. Mas seu caso era mais grave, pois tendia a perder-se em devaneios, vivendo contos de fadas descritos em livros ou frutos de sua mente insensata. E ao perder-se em fantasias ignorava a si mesma, relegando-se a um papel secundário no teatro de sua própria existência.

Teria sido bela se empenhada estivesse em mascarar as imperfeições de sua quase-harmoniosa face. Ao seu corpo faltava o tônico da juventude recentemente perdida e o constante exercício de músculos que teimavam em encolher. Seu sorriso ainda era belo, ainda que seus dentes não fossem impecavelmente brancos, pois era viciada em cafeína e como toda droga seu consumo deixava marcas em seu corpo. Seus cabelos eram tingidos em um tom borrado de castanho, pois branco já povoava seus indomáveis cachos. Sua pele seria lisa, não fossem pelas marcas de acnes pueris, pois estava determinada a derrotar o inimigo.

Sua inteligência seria notável, quisera ela livrar-se da mediocridade do mediano. Mas contentava-se em ler livros falando de amor e celebrando amantes. Não se importava em aprender pois sabia ser inútil, sua alma não era ambiciosa, nem tinha vontade de lutar por mais do que lhe era livremente ofertado. Uma comodista por temperamento e por conveniência contentava-se em sonhar com um futuro distante.

Mas o futuro já chegara e agora era o seu presente, perdida e amedrontada ela negava-se a seguir em frente; condenava-se a um limbo de meia-vida incontente. Seus sorrisos eram forçados e sua paz meramente aparente, pois em seu âmago a infelicidade jazia complacente. Seus dias eram acanhados e suas noites indolentes, seu rosto forçado em improfundas verdades de vontade latente.

Sua única salvação era a consciência de seu auto-abandono e implacável negligência. Mentia para o mundo, mas era absolutamente fiel a si mesma. Diante do espelho admitia seus erros e implorava perdão à estranha mulher cujos olhos cruéis negavam-lhe absolvição. Sua dor e seu martírio eram magnânimos em sua plenitude, pois não há dor mais profunda que aquela de sua própria autoria.

Rasas amizades e simulacros de relacionamentos povoavam sua inexistente convivência, só o suficiente para manter a ilusão de normalidade. Não sabia falar ou pensar como seus semelhantes, portanto condenara-se ao exílio da auto-suficiência. Inabalável plenitude daquela temerosa mulher que jamais desbravaria os mares; seria eternamente uma ilha.

Por vezes sentia pena de si mesma, mas reconhecia a inutilidade de seus esforços, pois em sua solidão apenas a carrasca consolaria a vítima. Não havia salvação para seu tormento, nem alimento a abater sua fome, pois tudo que não fosse capaz de prover a si mesma restaria escasso. O veredito fora entregue muito antes que ela se defendesse e agora estava eternamente atrelada às conseqüências de suas inações.

Condenada à sua própria companhia, ela lamentava a má-sorte de uma vida dividida com uma estranha, pois não conhecia a si mesma. Havia muitos recantos escuros de sua conturbada mente que ela jamais explorara e muito menos reconhecera. Medos e fobias causados por eventos que ela preferira esquecer muito antes de escolher dita repressão. Era um corpo sem alma, pois mesmo seus sonhos mais ardentes jamais foram perseguidos.

Seus ouvidos eram surdos ao desespero de uma menina/mulher esmagada pelo peso de escolhas feitas à luz da escuridão de uma alma cega ao caminho da felicidade. E assim seguia a quase muda mulher que ao clamar por liberdade machucava a si mesma. Ao lutar com as amarras impostas pela temida déspota, ela desperdiçava suas energias; a cada dia se tornava mais vulnerável à devastadora verdade de seu inescapável cárcere.

No entanto, sua teimosia era admirável. Recusava-se a morrer e tanto lutou que um dia escapou e destruindo as barreiras do consciente, penetrou na mente que governava seu corpo. Sussurrou sua insatisfação, lentamente atiçando o fogo do desejo que logo consumia a alma da mulher que outrora havia sido duas, mas agora era uma única alma descontente com o presente que construíra.

Mas mudar não era fácil e muitas lutas seriam travadas, com o mundo que estranhava a súbita audácia da mulher que nada queria e que agora buscava conquistar o mundo apenas com a força de sua vontade. Mas eram tolos aqueles que a subestimavam, pois debaixo de seu verniz de conformidade vibrava a força da Deusa-mulher, insuperável em sua vivacidade, intacta em sua vontade.

Assim começa a jornada de Bella Swan em direção à maior vitória a que uma mulher pode aspirar: conquistar a si mesma.