(Cap. 19) Sujeira

"Se você não quer pegar uma maçã podre, não tire do barril, tire da árvore."

Os intocáveis

POV Peter

Walter estava em seu laboratório improvisado com Astrid, me dirigi a ela e pedi que nos deixasse sozinhos. Era uma conversa de pai e filho, e não deveria ter público. Fui até ele e falei firme:

- Então o Walter, o que você queria me contar? O que aconteceu com a janela?

- Filho, você não entende- ele dizia em tom de súplica

- Então explique, Walter! Conte a sua história! – ele mostrou um olhar de entendimento, e começou a falar sem rodeios, não aparentava aquela confusão habitual dos últimos tempos

- Eu e William desenvolvemos a idéia dessa janela há muitos anos. Antes do seu nascimento para falar a verdade, no tempo da faculdade onde ainda "viajávamos" com LSD... Mas foi só na descoberta da sua doença que redobrei os meus esforços e a conseguimos construí-la. Você lembra-se da sua doença, não é?

- Vagamente. Era muito novo, só lembro que me sentia fraco e ficava sempre em casa.

- Uma doença raríssima que não tinha cura, Peter. Você estava prestes a morrer. Eu tentei criar a cura para ela, trabalhei muito, mas não cheguei remotamente perto dela. Estava perdendo as esperanças, quando pensei nessa janela. Com ela eu poderia observar outras realidades, lugares onde já poderiam tê-la encontrado. Foi difícil, observei diversos universos, e nada. Pensei em loucuras como criar portais para tais lugares, conversar com versões alternativas de mim, romper barreiras que poderia criar e destruir mundos. Estava prestes a brincar de Deus, filho. Vi as ações de outras versões minhas e sei pelo menos uma quebrou esse fino tecido da realidade, que nunca deveria ser rompido. Os efeitos foram catastróficos!

- Isso não importa... Continue...Como achou a cura, Walter?

- Uma versão alternativa minha a encontrou em um universo mais avançado que o nosso. Então refiz os seus passos, e com elementos similares aos dele consegui recriá-la e dei para você que foi curado! Você não imagina como fiquei feliz com isso.

- Cativante, Walter. Mas vocês não pararam por aí, roubaram outras invenções!

-A única patente que eu registrei e que não era minha foi a cura da sua doença. As outras invenções, mesmo as criadas por outros alternativos meus, não foram registradas por mim, e sim por Belly ou outro. Eu juro, tirando essa cura, tudo que carrega o meu nome, tem meu trabalho nela.

- Que bela desculpa! Mas não mostra integridade. Mesmo que isso seja verdade. Você é um dos donos da Massive Dynamics e enriqueceu bastante com as invenções atribuídas a empresa, mas que foram roubadas de outros lugares!

- Sim, é verdade! Mas que mal há nisso? Ou melhor, tomamos o crédito e recebemos dinheiro por elas. Nós fazemos parte de uma empresa, vivemos em um mundo capitalista e precisamos ganhar dinheiro. Mas quem realmente prejudicamos? Os seus verdadeiros inventores receberam o crédito em seus universos. E com algumas delas conseguimos salvar vidas aqui no nosso. Uma dessas vidas foi a sua, a outra a minha, já que a técnica que Bell usou em minha cirurgia foi baseada em uma que um Bell alternativo criou. Pode não ser uma visão utópica, mas as coisas não são tão torpes assim.

- Agora o que vocês fazem é heróico? Diga isso á Brandon Fayette e sua pesquisa boicotada, e aos outros que tiveram as mesmas idéias de seus duplos, mas que nem tiveram chance de construí-las pois vocês a roubaram antes. E ahhh, e aos cientistas farsantes que levam o crédito por idéias alheias, mesmo que eles não sejam você, eles elevaram o nome da sua empresa, e de certa forma o seu.

- Eu sei. Não é justo, e muitos equívocos são cometidos. Mas entenda, muitas vidas foram salvas com isso, filho.

Walter tinha razão nesse ponto, mas não podia concordar totalmente com ele, pois essa idéia fedia, essas palavras não me deixava orgulhoso, pelo contrário, e só de pensar que eu deveria entendê-lo naquele momento me revoltava.

Comecei a sair pisando firme no chão e ainda escutava a voz de Walter atrás de mim:

- Não vá, filho... Peter... Peter...Olhe isso, Peter. Eu... – o seu tom havia mudado, olhei para trás e vi Walter em pé, pela primeira vez desde que ele levara o tiro, Walter ficava em pé, ele estava radiante, eu não consegui resistir e apesar de não ter resolvido a nossa situação, sorri para ele.

Os problemas foram momentaneamente esquecidos. Walter passou por uma bateria de testes que confirmaram a sua melhora. Ele ainda estava confuso, mas isso parecia somente questão de tempo, e assim como recuperara os movimentos do corpo, em breve teria o pleno funcionamento da mente. Agora só não dava para saber se sua reputação também seria restaurada.

Precisava me distanciar um pouco dele e passei a noite no quarto de Anna. Era incrível como o tempo em que passava com ela me deixava mais tranqüilo, talvez até mesmo mais sensato. Humm... Só sei que me sentia muito bem só de estar com ela.

O dia já havia amanhecido e estava me despedindo dela. A beijei quando estava próximo a porta do quarto, antes de girar a maçaneta ainda tive aquela visão dela vestindo apenas uma camisa e ostentando um belo sorriso.

Abri a porta e vi Michael, que falava:

- Olivia..Ab...

Ele se assustou ao me ver, eu também, mas me portei com naturalidade:

- A Anna? – ele balbuciou

- Está aí dentro – respondi

- Estou aqui, Michael! – ouvi a voz dela atrás de mim

- Foi ótimo te ver, Michael.

- Digo o mesmo, Peter.- ele respondeu e entrou no quarto,enquanto Anna vestia um roupão, escondendo a sua nudez

Eu saí andando para o meu quarto enquanto pensava. Aquilo fora um pouco constrangedor, mas já estava na hora. Alguém descobriria sobre a gente uma hora ou outra. E nós não estávamos fazendo nada errado mesmo, não era motivo para me preocupar.

O mais estranho era que ele a havia chamado de Olivia. Será que eu havia escutado bem? Será que eles também tinham uma brincadeira com esse nome? Ou havia algum problema maior nisso? Ahh... era uma bobagem ficar imaginando coisas com algo que ele podia nem ter falado...