...


Capitulo Um

Sonho


Pelos sonhos que tivemos que silenciar. Pois são tudo o que eles sempre serão, sonhos.


...

A neblina foi se dissipando enquanto ela caminhava lentamente pelas ruas de Konoha. Sua pele sempre tão pálida era tocada pela luz da lua cheia, exatamente igual à daquela noite em que ele cruzou os grandes portões da vila para ir embora.

Tudo ainda continuava exatamente igual há oito anos...

O barulho dos seus passos cessou, e o único som que se podia ouvir era o som do vento balançando as copas das arvores. Ao longe, seus olhos captaram o mesmo banco de pedra, e sentado nele o mesmo garoto, de uma aparência mais madura, e, no entanto, com a mesma indiferença estampada no rosto.

Pensou primeiramente em fugir, correr, desaparecer desse lugar, o mesmo lugar onde tudo mudou, onde todos os seus sonhos desapareceram e com ele o time sete.

Suas pernas agora tremendo quase falharam quando tentou dar o primeiro passo. Ficou então um momento ali estática, com as mãos em direção ao peito. Quando os olhos negros caíram sobre si, seus dedos misteriosamente puderam sentir seu coração palpitar ainda mais rápido e por um segundo fracassar uma batida

Seu corpo não mexia um só músculo, O vento soprava friamente, fazendo com que tudo que não estivesse preso rodopiasse no ar. Quem o a via de longe não poderia saber, mas seu corpo tremia e queimava por dentro, como se uma onda de sensações a inundasse em fogo, sem qualquer explicação.

Depois de todos esses anos de procura, lágrimas e noites mal dormidas, lá estava ele. Após todos esses anos a arrogância ainda transparecia em seu rosto, a indiferença de seus olhos ainda sobrevivia, talvez até com mais frieza.

Suspirou fundo, os olhos negros a fitavam intensamente, como se esperasse uma atitude sua e observava meticulosamente cada movimento seu. Não poderia simplesmente ir embora.

Levou as mechas de cabelo atrás da orelha e retomou sua lenta caminhada em direção ao banco. Pareceu um caminho longo demais, como se 10 passos de distância fosse capaz de lhe consumir um esforço absurdo, no entanto, quando se sentou ao seu lado, o mais doloroso foi escutar a voz de seu antigo companheiro de time, tão absurdamente fria.

- Estou de volta – ele começou. Jogou sua cabeça para trás e apoiou-se no encosto do banco.

- Esse não é o seu lugar – sua voz saiu firme, mas não o suficiente para esconder a aparente tristeza nela esboçada.

- Hn, vejo que ainda não superou minha partida – virou fitando-a, e soltou um sorriso de canto de lábios.

(...)

Acordei e me sentei na cama abruptamente. Sentia minhas têmporas úmidas de suor e constatei em uma tentativa de limpá-las que minhas mãos tremiam. A respiração pesava e na base da garganta sentia algo apertar. Respirei fundo duas vezes, a fim de normalizar minha respiração, mas ainda foi necessário um tempo até que todo o meu corpo voltasse ao normal.

Há muito tempo não tinha sonhos, alias já fazia alguma tempo que não dormia direito por causa do trabalho pesado no hospital. No entanto, o mais estranho ainda era sonhar com Sasuke depois de tanto tempo.

Houve uma época em que sonhava com frequência, e raras eram as vezes em que ele não surgia, sempre com os olhos escuros e sóbrios, com os sorrisos de canto e apenas possíveis em uma situação irreal.

Lembrei eventualmente do meus quinze anos, onde eu e Naruto o achamos e quase morremos. É difícil imaginar que ele tentou nos matar, como se não fossemos nada para ele, mas ainda assim não perdíamos as esperanças, a vontade de o ter de volta era maior que qualquer coisa que podia nos acontecer.

Nossas esperanças foram esmagadas quando a Grande Guerra ninja começou. Sasuke aliado a Akatsuki e eventualmente ao Madara, dificultando ainda mais nossas ações, tornando inimigo de Konoha e das outras vilas.

Por mais que o quiséssemos de volta, não podíamos deixar que sua obsessão machucasse ainda mais as pessoas. Precisávamos pará-lo, antes que coisa pior acontecesse. Foi assim que passamos a lutar individualmente dentro de nós. Pela segurança das vilas, ou pela vida de Sasuke.

As imagens da guerra transbordavam em minha mente, como se ainda eu estivesse lá em meio ao decapitados ao chão, feridos e crianças. Os gritos... Eu ainda conseguia ouvi-los claramente em minha mente, como se meu corpo fosse transportado para o campo de batalha, onde meus amigos caiam um a um, ninjas de todos os lugares, dando suas vidas para proteger a paz, e consequentemente os jinchuurikis da vila da folha e da nuvem.

Quando percebi meus braços estavam em volta da minha cintura, como se eu mesma me abraçasse. Meu corpo reagia a solidão pelo visto, e pensar em Sasuke me deixava mais consciente do quanto eu me sentia sozinha. Fechei meus olhos com forca e balancei a cabeça a fim de distanciar os pensamentos. Deixei escapar um suspiro. Ainda me sentia cansada em todos os aspectos, mas teria um longo dia no hospital e era necessário tomar alguma atitude.

Abri meus olhos lentamente, vi pela janela um vestígio de sol ao longe, entretanto o meu quarto ainda estava escuro.

Levantei cambaleante, meu corpo inteiro lutando em relutância e fui em passos lentos em direção ao banheiro. Vi o meu reflexo no espelho, estava com um aspecto terrível. Meus olhos estavam vermelhos, minhas olheiras até a bochecha, e meus cabelos completamente desgrenhados.

As vezes pensava que o hospital me matada cada vez que salvava uma vida nas salas de cirurgia.

Liguei o chuveiro, deixando a água morna cair sobre a minha pele.

As imagens de Sasuke vieram a minha mente, foi tudo tão real, como se ele estivesse disposto a assombrar a minha mente tentando sobreviver e deixar a sua marca ainda viva.

Era quase como um sussurrar constante "Estou aqui Sakura, acredite..." e bastaria eu acreditar que fosse real para tornar sua voz mental cada vez mais alta em minha cabeça.

Acreditar... Acreditar foi exatamente o que eu fiz todos esses anos, eu e Naruto sempre mantivemos Sasuke vivo e mesmo quando todos desistiam dele nós estávamos lá, o procurando, tentando trazê-lo de volta.

Mas agora todo nosso esforço estava perdido... Ele estava morto, e não tinha nada que pudéssemos fazer, a não ser seguir... Seguir como deveríamos ter feito quando ele deixou tudo para trás.

Claro que a as vezes penso em culpa. No entanto, sei que não existia espaço para ela. Não havia arrependimentos pois tínhamos feito tudo que estava ao nosso alcance, e agora precisávamos seguir os nossos sonhos, que sempre foram deixados de lado.

Naruto, estava prestes a se tornar Hokage, seu sonho finalmente estava prestes a se concretizar, e eu... bem, eu tinha o hospital. Finalmente não mais vivia na sombra dos meus companheiros, podendo salvar vidas, e dá utilidade a minha existência.

Desliguei o chuveiro, e peguei a toalha pendurada no boxe. Distraída acabei ficando no banho por mais tempo do que o planejado e provavelmente já estava atrasada! Fui correndo em direção ao armário, peguei um par de roupas qualquer, me enfiei nelas, desci as escadas e, logo depois de tomar um café rápido, sai correndo de casa para o hospital.


Guardava cuidadosamente os materiais recém usados na consulta. Lembrei-me do grande sorriso do garoto; ele acabava de voltar de missão, e, mesmo com alguns ferimentos, era completamente impossível apagar o rastro de entusiasmo estampado em seu rosto. Esbocei um sorriso ao perceber sua extrema semelhança com Naruto na época em que o time sete ainda existia.

Uma sensação tranquila adentrou o meu corpo, lembrar do time sete sempre me dava essa sensação de paz e tranquilidade.

A rivalidade de Naruto e Sasuke, sempre brigando e implicando um com o outro. E Kakashi sempre absorto em seus livros pervertidos. Na época ainda tínhamos pequenas missões que de algum modo nos faziam mais unidos, mas que, infelizmente, para meus companheiros de equipe não era o suficiente. Sasuke sempre obcecado em sua vingança e Naruto sempre lutando e treinando arduamente para não ficar para trás, buscando forças para realizar o seu sonho, e cumprir suas promessas.

Meus pensamentos foram cortados no momento que senti um beijo úmido a minha orelha. E antes mesmo dele se pronunciar eu já sabia de quem se tratava.

- Anda tão distraída hoje.

Apesar disso era inevitável que eu não me arrepiasse quando sua voz rouca soou tão atraente aos meus ouvidos. Mas recompus os meus sentidos e falei, tentando ser o mais casual possível:

- E vejo que não perde uma oportunidade de se aproveitar da situação. – não pude conter um sorriso, e logo depois senti seus braços envolverem minha cintura.

- Não quando o assunto é você.

Me virei e fitei seus olhos perolados indicando certa malícia. Quis sorrir ainda mais, no entanto, me contive e com um falso tom de indignação continuei:

- Pelo amor de Deus estamos em um hospital!

- Mas aqui tem tudo que precisamos Dra. Haruno. – sugeriu e mal pude acreditar no seu sorriso cínico – Veja, uma cama, eu, você – ele disse apontando respectivamente.

- Tokuma! – Seu sorriso se alargou ainda mais, senti minhas bochechas ficarem levemente quentes – Baka! – disse por fim dando um soco em seu peito de brincadeira.

Senti seus braços envolverem minha cintura novamente, e me puxarem para mais perto de seu corpo. Um arrepio subiu por minha nuca quando seus olhos caíram sobre meu decote, pouco a mostra por causa do jaleco do hospital, isso bastou para sentir minhas maças esquentarem.

- Veio me visitar por algum motivo especial? Ou se tornou um ninja desocupado? – perguntei controlando o rubor de minhas bochechas e por fim entrando no seu jogo.

- Sou um Hyuuga, um homem compromissado! – respondeu fingindo uma expressão séria. Os seus olhos perolados não desviaram nenhum segundo dos meus.

- Seduzindo médicas em seus consultórios, também faz parte desse seu compromisso?

- Depende. Se ela tiver um estranho cabelo rosa, olhos verdes, e se chamar Haruno... Quem sabe.

Girei os olhos e sorri marota, para novamente chamá-lo de baka e dar outro soco em seu peito. Tão galanteador.

Era plausível o efeito que Tokuma causava em mim, sempre com seus sorrisos enigmáticos arrancando suspiros de todas as mulheres na vila. Não duvido nada que muitas delas viviam pensando em uma maneira de conseguir sua atenção.

Desviei-me de seus braços e caminhei em direção à mesa para acabar de ajeitar os materiais espalhados sobre ela. Ele apenas se escorou na parede, cruzando os braços.

- Estava em missão? – Falei casualmente dando continuidade a conversa.

- Estava. Acabo de chegar. - respondeu e pude perceber que seguia em minha direção de maneira cautelosa. - Então... – sorri; mesmo não o vendo sabia que ele faria algum convite. Tokuma às vezes era tão previsível. – Que tal um jantar para recompensar a minha falta de disciplina no hospital, principalmente diante da Dra. Haruno?

- Parece válido, sua indisciplina deve ser mesmo corrigida.

- Mal posso esperar por isso. Te pego as nove.

- Parece bom. – virei me apoiando no suporte da mesa metálica. Ele me fitava com um sorriso enigmático. - As nove então.

- Já esta me dispensando? – perguntou malicioso e, quando mais alguns passos seguiram em minha direção, eu já estava me perguntando de que maneira ele tentaria roubar um beijo. – Sabe, sou um médica e não tenho tanto tempo sobrando. Ao contrário de certas pessoas por ai. – dei o meu melhor sorriso zombeteiro.

Ele parou a minha frente e levou suas mãos ao meu queixo.

- Tudo bem, já conseguir o que vim buscar – ele desapareceu das minhas frente. E apareceu em cima da janela do consultório. - Bom saber que consegui seduzi-la Dra. Haruno, grande avanço.

Pude ver somente seu sorriso sarcástico antes de desaparecer novamente.

Abaixei a cabeça balançando negativamente sem conter um sorriso. Era incrível como Hyuuga Tokuma conseguia me animar e arrancar sorrisos de meus lábios, mesmo nas piores circunstâncias.


O hospital estava com a mesma rotina de sempre, no caso, sempre agitado e nunca vazio. Apesar disso e diferente de outras vezes, hoje eu não abriria mão do fim do meu expediente que se aproximava. Me sentia ansiosa com a aproximação do meu encontro com Tokuma. Estávamos saindo algum tempo, apesar de não saber exatamente há quanto, e apesar disso, tudo que eu mais precisava no momento era afastar os pensamentos e me encontrar na companhia de alguém que me fizesse rir e eventualmente esquecer os problemas. E não havia ninguém melhor do que ele, talvez com exceção de Naruto.

Naruto estava em uma missão sem previsão de volta, então não podíamos marcar nada e Kakashi-sensei só aceitava meus convites quando era final de semana e quando o time estava todo reunido. Ino provavelmente marcaria algo com Sai. E então, com Tokuma livre, e não somente por isso, minha companhia da noite seria ele. E talvez com ele, eu também pudesse esquecer os olhos de Sasuke invadindo meu pensamentos a cada instante daquele cansativo dia.

Caminhava tranquilamente pelos corredores do hospital, apesar de calmo, ainda havia aquela correria de médicos e enfermeiros por todos os lados. Meu expediente estava quase no fim, não pude conter o sorriso que se apossou de meus lábios.

Parei quando cheguei na recepção e me ocupei preenchendo algumas fichas, e assinando outras. Quando percebi uma agitação na entrada, levantei minha cabeça procurando por todos os lados afim de descobrir o motivo do alvoroço. Uma das enfermeiras se afastou e apressou-se na minha frente seguindo em direção a agitação, a acompanhei dando alguns passos, mas no terceiro movimento meu corpo travou. Ao certo não saberia dizer, mas provavelmente o baque surdo foi da prancheta que escapava de minhas mãos.

Eu não consegui mexer nenhum músculo sequer do meu corpo, meus olhos foram inteiramente obrigados a focar a imagem que acontecia bem a minha frente. O que eu esperei desesperadamente por sete anos, e desistido há mais de um, estava se materializando bem ali.

Naruto carregava Sasuke desacordado e pelo visto gravemente ferido em seus braços. Suas roupas estavam completamente rasgadas e as suturas em volta de seu corpo encharcadas de sangue. Mesmo de longe conseguia ver perfeitamente os hematomas e queimaduras contrastante com sua pele pálida. Naruto respirava com dificuldade, e um repentino pânico me preencheu quando imaginei que algum órgão vital tinha sido atingido ou que tinha gasto tanto chakra que a recuperação seria impossível. Me aproximei desesperada, em seus olhos azuis escorregavam lágrimas que manchavam seu rosto de vermelho, uma mistura de agua e sangue. Um pouco de minha sanidade voltou quando vi suas roupas igualmente rasgadas, e vários cortes e suturas pelo corpo, provavelmente feitos por um atendimento médico básico, indicando que de alguma maneira ou de outra, levando semanas ou dias, ele estava ou estaria fora de risco com os cuidados corretos.

Minha perspicácia médica só retornou realmente quando o corpo de Sasuke foi posto em uma maca. Eu era a médica principal ali e meu coração palpitando, o desespero e o pânico deveriam ser totalmente controlados. Meus pés me guiaram até ele, enquanto levava as mãos aos meus cabelos fazendo um coque frouxo para não atrapalhar minha visão.

- É um Uchiha – escutei um deles comentar enquanto eu examinava seu corpo desmaiado sobre a mesa.

Eu sabia exatamente a identidade do homem ferido naquela maca, mas agia como se fosse qualquer outro paciente que já esteve sob meus cuidados.

- Por favor, alguém verifique se está tudo bem com Naruto! – Ordenei para ninguém em particular enquanto o chakra verde se tornava denso em minhas mãos.

Constatei os danos de seu corpo, queimaduras, cortes, ossos fraturados, órgãos internos danificados, e a perda absurda de sangue; era incrível como o corpo a minha frente ainda respirava, mesmo que fracamente.

- Temos que levá-lo a sala de cirurgia, agora! – falei aos enfermeiros ao meu redor. Dois deles saíram em direção ao bloco cirúrgico para preparar a sala. Não havia tempo nem mesmo para a bateria de exames usual, ele precisava ser operado imediatamente. Seus órgãos estavam tão danificados que me surpreenderia caso ele não ficasse com alguma sequela.

- Naruto já está sendo atendido – ouvi uma das enfermeiras dizer, trazendo com sigo uma bolsa de sangue O+.

- Sakura-san, tem certeza que esta bem para...

- Vamos levá-lo ao bloco cirúrgico – a interrompi levantando minha cabeça tempo suficiente para lhe lançar um olhar reprovador. Não tínhamos tempo a perder; segundos depois empurrávamos a maca em direção ao bloco cirúrgico. Tive tempo somente de olhar para trás por poucos segundos, e ver Naruto ao longe sentado em uma maca me observando. Olhei em seus olhos profundamente, lhe tentando passar algum conforto, em resposta ele me direcionou um sorriso fraco antes das portas serem fechadas.


Hey pessoal!

Então, primeiro capítulo de uma long fic, voltada para o casal Sakura e Sasuke.

Queria dedicá-la inteiramente a Oul K.Z(Laís) que me deu toda a forca para escrevê-la, me dando ideias, me ajudando a compor o enredo, e a betando! Laís, obrigada por tudo, sem você essa fic nunca teria sido escrita.

E queria também citar meus amigos, que sempre me acompanharam,me dando forcas também para escreve-la. Obrigada Paulo,Virginia,e a minha irmã, e a todos que me ajudaram indiretamente!

Então é isso, espero que gostem,e se identifiquem, qualquer erro me avisem, no mais boa leitura!

Kissus no kokoro!