II. NÁRNIA

O navio era cor de carvalho, com detalhes em ouro e uma enorme bandeira vermelha, com um leão dourado rugindo ao centro. Elizabeth não sabia se deveria pedir ajuda e, antes que pudesse decidir, algo a puxou para baixo d'água. A garota virou o rosto para baixo para enxergar o que a havia puxado e quando seus olhos focalizaram com dificuldade do que se tratava, a garota se desesperou e começou a espernear e tentar nadar para cima com toda a sua força. Era uma espécie de sereia, porém parecia ser parte da própria água, só se distinguiam os contornos de seu corpo metade humano, metade peixe. Após alguns segundos de infrutíferas tentativas de se libertar, Elizabeth já estava há muito sem ar e limitou-se a levantar os braços. Estava tão cansada de lutar, parecia que sua vida havia virado do avesso e se tornado um grande pesadelo. Ela já estava toda arranhada, machucada, cansada e agora também prestes a morrer afogada. Decidiu que seria melhor aceitar seu destino.

Foi quando ela percebeu que alguém havia mergulhado e nadava em sua direção. Era um homem, isso ela podia perceber. Estranhamente a criatura a soltou assim que percebeu a presença do homem, que enlaçou a cintura de Elizabeth com um braço e com o outro colocou-se a nadar. Assim que atingiram a superfície, inspiraram o máximo de ar que seus pulmões podiam suportar. A garota tossia e mal tinha forças para manter-se na superfície. O homem, percebendo isso, não a soltou. Continuou a segurá-la perto de si, com medo que ela se afogasse.

- Acha que consegue alcançar a escada se eu a ajudar? - ele perguntou ofegante, assim que ela parou de tossir. Elizabeth acenou afirmativamente com a cabeça e ele a puxou até uma escada de corda que os outros tripulantes jogaram para que eles subissem.

Ele a ajudou a subir na escada e fez seu caminho até o navio atrás dela. Um rapaz ofereceu a mão para ajudá-la a subir ao navio e ela aceitou. Outro lhe trouxe uma toalha branca e indicou um lugar para que ela sentasse. A garota sentou e respirou fundo inúmeras vezes, até que seu coração desacelerou e seus pulmões pararam de doer. Foi quando a luz da coerência resolveu dar o ar de sua graça. Ela acabara de subir em um navio com um grupo de homens, quando estava justamente fugindo de outro. E se esses homens, inclusive o que a socorrera, fossem como os outros?

Ela percebeu passos vindo em sua direção e o homem que a salvara ajoelhou-se a sua frente.

- Você está bem? - ele perguntou, parecendo realmente preocupado - precisa de alguma coisa?

- Estou bem, muito obrigada - ela respondeu, levantando o rosto e encarando o homem pela primeira vez.

Aparentava ter entre vinte e quatro ou vinte e cinco anos, tinha os cabelos dourados em um comprimeto considerável abaixo das orelhas, uma barba por fazer e olhos muito azuis. Os olhos foram o que mais lhe chamou a atenção, pois eram de um azul extremamente claro, como se o homem possuísse o oceano em suas íris. Ele com certeza não parecia como os homens que a perseguiram. Tinha bondade em seus olhos e em sua voz. Ela não pôde evitar confiar imediatamente nele. O homem parecia ter se perdido em seus olhos também. Ele a achou realmente bonita, muito bonita, apesar dos cabelos molhados e das roupas manchadas. Ele deduziu que ela deveria estar perto dos vinte anos, tinha grandes olhos castanhos que o faziam lembrar avelãs, a pele muito branca, apesar de estar um pouco corada pelo esforço feito mais cedo, e os cabelos escuros. Não pôde deixar de notar, também, que ela possuía lábios muito rosados, e repreendeu-se mentalmente por estar prestando atenção nos lábios da garota.

- Você precisa de roupas secas - ele disse, tentando desviar seus pensamentos e seus olhos da figura da garota - Ed, consiga algumas roupas para...

- Elizabeth - ela completou, sorrindo - Elizabeth Gray.

- Para Elizabeth Gray - o homem concluiu, retribuindo o sorriso.

Alguns segundos mais tarde um rapaz de cabelos escuros, visivelmente mais novo do que o loiro, apareceu carregando algumas roupas nos braços.

- Peço perdão, Lady Elizabeth, mas só possuímos trajes masculinos a bordo - o rapaz começou - espero que não se importe.

- De maneira alguma, obrigada - ela respondeu, levantando-se e segurando as roupas.

- Eu sou Rei Edmund, a propósito - o rapaz apresentou-se, sorrindo e estendendo-lhe a mão, que ela tomou e sacudiu levemente.

- Um Rei? - Elizabeth não pôde deixar de manifestar a surpresa em sua voz.

- Milady fere meus sentimentos assim - ele disse, fingindo incredulidade, arrancando uma risada da garota.

- Peço desculpas, Majestade. Minha intenção nunca foi ferir tão nobres sentimentos - ela respondeu, fazendo uma reverência. Todos notaram a entonação usada pela garota na palavra nobres, e desataram a rir.

- Eu realmente gostei dela - Edmund disse, sorrindo, ao homem loiro.

- Ótimo - o mais velho respondeu, com o semblante sério - mas agora ela deve se trocar, antes que fique doente. Acompanhe-me, Elizabeth.

A garota ficou espantada ao ver o tom que o mais velho havia usado com Edmund. Afinal, ele era um Rei. Até onde ela sabia, reis eram tratados com um respeito até exagerado, às vezes alguns preferiam inclusive ser tratados como deuses. Ela então pensou que Edmund deveria ser um rei melhor do que os que ela lera sobre, justamente por não considerar-se superior e permitir ser tratado de igual para igual. Ela seguiu o homem até uma pequena escada, pela qual desceram. Lá embaixo encontravam-se quatro portas de cabines, e ele dirigiu-se àquela que se encontrava ao fundo do corredor.

- Você pode usar minha cabine para se trocar - ele disse, parecendo mais tranquilo novamente - quando terminar, gostaria que subisse para que pudéssemos conversar.

- Claro - ela respondeu - não demorarei.

Ele acenou com a cabeça e fechou a porta, deixando-a sozinha na cabine. Tinha uma decoração diferente, ela tinha que confessar. As paredes de carvalho eram adornadas com inúmeros escudos e espadas dourados, havia também uma enorme cama com uma colcha vermelha com detalhes em dourado e almofadas douradas. Havia uma pequena mesa de carvalho e uma poltrona vermelha. Ela trocou as roupas, que resumiam-se à uma calça de um tecido grosso de cor marrom e uma camisa de linho branca, e tentou pentear os cabelos com um pequeno pente dourado que achou em cima de uma cômoda ao lado da cama. Resolveu calçar as próprias botas, pois certamente a de nenhum homem lhe serviria. Olhou-se no enorme espelho próximo à ecotilha da cabine e decidiu que, depois de tudo o que passara, sua aparência não estava tão ruim. Saiu da cabine com as roupas sujas nas mãos, quando um tripulante passou por ela e disse que cuidaria das roupas sujas e retirou-as de suas mãos.

Quando chegou ao andar superior do navio, avistou Edmund escorado na borda do navio conversando com o homem loiro, que acenou para que ela se aproximasse.

- Bom, tenho que ver como estão as coisas. Milady - o rapaz fez uma reverência e se afastou.

A garota então escorou-se ao lado do homem e encarou o oceano azul.

- Então, Elizabeth - ele começou - como uma garota surge sozinha no meio do oceano?

- Eu não sei - ela confessou olhando-o nos olhos, e ele a encarou com uma expressão confusa - você vai me achar maluca.

- Tente - ele respondeu, pela primeira vez soando divertido.

- Eu encontrei uma bússola nos jardins de minha casa nova, e quando a girei notei que estava em um lugar diferente, haviam muito mais árvores do que eu me lembrava. Comecei a caminhar para tentar ver onde eu estava, e foi quando ouvi o som de cavalos correndo em minha direção - ela falava rápido, percebendo como tudo parecia mais estranho quando dito em voz alta - não sei o porquê, mas senti que precisava fugir. Era como se algo me dissesse que eu deveria fugir, uma voz. Corri até uma clareira, onde havia um poço e os homens me alcançaram. Eram cinco. Tentei afastar-me de um deles que havia descido do cavalo e vinha em minha direção e acabei caindo no poço. E foi assim que surgi aqui, no meio do oceano.

Ele a encarava, tentando absorver tudo o que ela havia dito.

- Eu sei, parece loucura. Mas é a verdade - ela disse, num sussurro, voltando a encarar a água que batia contra o navio - Eu acho que estou morta.

- Se estivesse morta, isso significaria que eu também estou - ele disse, aproximando-se mais dela. Elizabeth sentiu o braço quente do homem contra o seu e isso a deixou reconfortada - e eu tenho certeza absoluta de que estou bem vivo.

Ela sorriu, e então percebeu que ele a olhava como na primeira vez em que colocou os olhos nela e sentiu-se ruborizar. Ele a observava e constatava que a cada minuto que passava ele a achava mais bonita e interessante. Parecia que quanto mais conhecia dela, mais queria conhecer. Percebeu também que os cabelos dela, agora secos, eram ondas de um castanho avermelhado, muito parecido com o de Lucy, porém mais curto. Batia-lhe um pouco abaixo dos ombros, enquanto o de Lucy caía até sua cintura. Ela, por sua vez, percebeu que não sabia quem o homem era. Sentiu-se incomodada com isso.

- Ainda não sei como se chama - ela disse, encarando-o.

- Verdade, acho que estava tão interessado em saber sobre você que esqueci as boas maneiras em casa - ele disse, sorrindo - sou o High King Peter, o Magnífico.

- Podia tê-la poupado da última parte, Pete - Edmund interrompeu-os, e Elizabeth não conseguiu refrear uma pequena risada, fazendo com que Peter tirasse os olhos do outro rei e os voltasse para ela.

- Desculpe, Majestade - ela desculpou-se, temendo que ele não levasse sua risada na brincadeira do mesmo jeito que Edmund.

- Não precisa se desculpar - ele disse sorrindo, fazendo-a sentir alívio - meu querido irmão costuma fazer muito esse tipo de piada. E também não precisa me chamar de Majestade, Elizabeth. Ficaria feliz se pudesse me chamar apenas de Peter.

- Peter - ela concordou, e ele sorriu ao ouvir seu nome pronunciado por ela. Era como se seus ouvidos estivessem esperando a vida inteira para ouvir isso.

- Espere só até chegarmos em Nárnia - Edmund disse, escorando-se do outro lado de Elizabeth - Lucy vai ficar louca com você.

- Lucy? - a garota perguntou.

- Nossa irmã caçula - ele respondeu - nós somos quatro, sabe? Susan é a mais velha depois de Peter, e Lucy é a mais nova.

- E elas são rainhas também?

- Sim, Susan é a Rainha Gentil, Lucy é a Rainha Valente, eu sou o Rei Justo e Peter é o Grande Rei, o Magnífico - Edmund explicou, não poupando o sarcasmo em cima do título do mais velho - Nós quatro fomos coroados por Aslan, o Grande Leão há quase dez anos.

- Dez anos? - ela perguntou, chocada.

- Fomos coroados cedo, sabe. Hoje tenho vinte anos e Peter vinte e cinco. Susan tem vinte e quatro e Lucy tem dezoito. Fomos coroados bem cedo mesmo. Não há muitos humanos em Nárnia, sabe? Lucy vai ficar contente por ter mais alguém além de Susan para conversar.

- Se não há humanos, o que há? - ela perguntou, cada vez mais interessada em Nárnia.

- Centauros, anões, elfos, ninfas, além de animais falantes de todas as espécies que possa imaginar - ele respondeu, sorrindo ao ver o brilho nos olhos da garota - e você veio de onde?

- Inglaterra, mas provavelmente vocês não devem conhecer - ela respondeu.

- Inglaterra? - Peter perguntou, finalmente entrando na conversa - era onde morávamos!

Edmund e Peter passaram longas horas contando a Elizabeth como foram parar em Nárnia, porque foram coroados, como derrotaram a Feiticeira Branca e inúmeras outras coisas que deixavam a garota cada vez mais fascinada. Mal perceberam que já havia anoitecido, e Edmund anunciou que iria dormir e retirou-se para a sua cabine. Peter determinou que Elizabeth dormiria em sua cabine e que ele dormiria junto com Edmund. Ignorou os protestos da garota e a acompanhou até a porta da cabine. Não sabia o porquê, mas não queria que ela fosse dormir, mesmo que fosse por algumas horas. Queria passar a noite conversando com ela, descobrindo mais sobre sua vida e, acima de tudo, sentiu medo que ela pudesse desaparecer do mesmo jeito em que apareceu. Relutantemente despediu-se dela, quando ela bocejou.

Elizabeth estava cansada, tirou as botas e as calças e deitou-se na enorme cama, sentindo o cheiro gostoso dos travesseiros e almofadas. O cheiro de Peter. Não importou-se em afastar tais pensamentos, simplesmente fechou os olhos e caiu em um sono profundo, em que sonhou com um enorme leão dourado rugindo. A princípio pensou que sentiria medo, mas o leão aproximou-se dela e disse para que ela dormisse, e ela obedeceu.