Cap 01 - Sensitivo

A banda era formada por um trio sendo um homem no violoncelo, uma garota no violino e outra cantando. O som não era erudito, apesar de ter elementos de música clássica o estilo de cantar da vocalista e o formato das melodias eram bem acessíveis. Uma música Pop sinfônica. Um tipo de música que atraia um público mais alternativo. O show ocorria a céu aberto, em um parque público muito agradável, com muito verde e uma lagoa. Era uma ensolarada manhã de domingo. A única área coberta era a do palco, sendo que a plateia assistia sentada em tamboretes de madeira bem simples. O palco onde a banda tocava tinha apenas o mínimo, sendo enfeitado com vinhas artificiais que se prendiam ao toldo.

Martim Soares assistia ao show mais por causa de seus pais, não se interessava muito por música. Ele era um garoto franzino de dez anos e sua mente se ocupava por problemas complicados demais para alguém de sua idade. Joaquim e Amelia Soares estavam sentados na segunda fileira e, distraídos com a música, por um momento se desligaram do filho que acabou por decidir caminhar por aí. Longe da vista dos pais.

Em outra área do parque Martim dá de cara com um homem que a primeira vista não parecia ter nada de diferente. Quando os olhos dos dois se cruzaram a fisionomia do sujeito alterou-se drasticamente. Suas feições humanas foram substituídas por animalescas. O homem passou a mostrar um rosto com chifres de carneiro, daqueles bem grandes que chegavam a dar uma volta pela cabeça. A visão durou não mais do que cinco segundos, mas já foi o suficiente para deixar o menino transtornado.

- Isso não é real! Isso não é real! - Martim baixinho repetia o mantra que seus pais lhe ensinaram para quando as "alucinações" ocorressem. Desde sempre Martim teve esse problema que o atormentava. Começou com visagens que atormentavam seu sono e faziam ele dar gritos estrondosos a noite. Depois tais perturbações começaram a incomodá-lo em suas horas despertas. Apesar da pouca idade essas ilusões já proporcionaram algumas situações embaraçosas para ele e seus pais. Apesar disso Joaquim e Amelia refutavam a ideia de procurar ajuda especializada. Não queriam que seu filho tivesse algum estigma de louco ou coisa parecida. Um preconceito que acabou custando alto. A cada ano que se passava as imagens ficavam cada vez mais recorrentes.

- Garoto, é bom te ver aqui. - Dentre as amizades que fez no colégio uma delas é a do zelador. Conhecido apenas como Dudu, ele era o principal confidente de Martim. O garoto não sabia o porque, mas se sentia confortável em contar a ele todos os seus problemas. Um tipo de relação que seus pais provavelmente desaprovariam. Não iriam gostar da ideia de ver seu filho compartilhando tanta coisa com um completo desconhecido. Dudu era um homem carismático. Sessenta anos, pele bem negra e cabelos já grisalhos.

- Aconteceu de novo. - Disse Martim com uma voz chorosa. - Vi coisas.
- Tive um irmão com um problema parecido com o seu, ele conseguiu dar a volta por sima e é muito feliz. Você também consegue.
- Sei não.
- Venha, eu te pago um sorvete.

Enquanto tomava o sorvete Martim conversava com Dudu sobre o seu dia a dia. Sem que percebesse o tempo foi passando e de repente ficou tarde demais. Quando os pais o reencontraram ele recebeu uma dura. Ao ser perguntado onde estava ele contou a verdade, só omitindo a conversa com Dudu.

Na manhã seguinte, como a maioria das crianças, Martim foi para a escola. Como todo garoto na sua idade brincou com seus colegas no intervalo e passou a maior parte das aulas conversando bobagens. No final da manhã, antes de voltar pra casa, Martim encontrou Dudu em um dos corredores e foi ter uma conversa com ele.

- O que foi, Martim? Está falando sozinho agora? - A primeira vista Martim não tinha entendido o comentário de um colega que naquele momento passava perto dele. Após digerir a informação Martim decidiu fazer um teste. Tentou tocar no seu confidente. Sua mão atravessou o braço de Dudu, ele era intangível. O temor de Martim havia sido confirmado.

- Isso não é real! Isso não é real!
- Espera, garoto! Você entendeu tudo errado! - Dudu tentou se aproximar de Martim, mas o garoto saiu correndo como se ele fosse uma assombração. Os pais de Martim deram ao jovem uma educação bem pragmática onde espíritos e coisas místicas não tinham lugar. Mesmo assim, para um menino de tão pouca idade, desvincular seu problema com a ideia de algum tipo de perturbação sobrenatural era difícil. O que Martim não tinha como saber é que apesar da pouca experiência de vida ele estava mais próximo da verdade que seus pais.

A noite, no seu quarto, Martim se deitou em posição fetal e se cobria dos pés a cabeça. Não gostava de olhar ao seu redor quando ia dormir, pois nessas horas geralmente suas alucinações ficavam mais intensas. Estava acostumado a ver elementos estranhos em seu quarto. Desde animais e pessoas até criaturas que assustariam os mais corajosos dos adultos. Pegar no sono nessas condições era uma tarefa difícil. Ele só conseguia quando o seu cansaço vencia o seu medo.

Martim se viu em uma biblioteca, desde muito cedo adorava ler livros de todos os tipos. Inclusive livros avançados demais para sua cabecinha juvenil entender. Um dos seus passatempos favoritos era visitar bancas de jornais e bibliotecas. Aquela biblioteca para ele parecia um pedaço do paraíso. Enorme e muito bonita. As estantes eram tão grandes que alguns livros só podiam ser alcançados subindo em escadas. Cada estante tinha uma móvel que tinha liberdade de se movimentar paralelamente as estantes.

Martim estava sentado em uma mesa retangular, ao seu lado outros leitores liam tranquilamente seus respectivos livros. O garoto sabia que aquilo era um sonho, mesmo assim queria aproveitar sua estadia ali. Ia se levantar para explorar o lugar. Quando um livro pesado foi jogado em sua frente fazendo um baque que o assustou a principio. Martim olha ao seu lado, em pé, quase colado a sua cadeira, estava Dudu. Seu amigo imaginário.

- Já que você não quer mais me visitar em suas horas despertas, tive que dar um jeito de conversar contigo enquanto dormia. Menino, tenho muito o que te ensinar.
- O que uma alucinação pode me trazer de bom?
- E se eu te contasse que seus pais estão errados? E se suas visões, a despeito de mais ninguém conseguir vê-las, fossem reais?
- Isso não faz sentido.
- Só leia esse livro. Acho que sua leitura vai ser muito esclarecedora.

Martim olhou para o livro e não pôde negar que o achou interessante mesmo sem saber do que se tratava. Não tinha título, mas a capa era adornada com entalhes que lembravam histórias medievais e épicas. No centro havia um símbolo familiar a Martim que ele já tinha visto antes em romances de aventura. Um símbolo que remetia a cultura celta. Quando Martim abriu o livro para começar a lê-lo seu sonho havia acabado. Novamente em sua cama, já de manhã, Martim não pôde esconder sua frustração. O que ele não havia percebido no primeiro momento era que embaixo do seu travesseiro havia um volume que não estava ali antes dele ir dormir.

Mais um dia de aula. Martim como de costume acordou cedo, tomou café, vestiu seu uniforme e andou até sua escola que ficava no mesmo bairro da casa de seus pais. Algo cômodo já que não precisava pagar por transporte. O dia transcorreu como qualquer outro só tendo alguma novidade no intervalo das aulas. No pátio da escola, onde gostava de conversar com seus coleguinhas, Martim viu passando um garoto de dezoito anos. Provavelmente um aluno do terceiro ano. Ele seria um tipo comum se seu rosto não mudasse de forma dando lugar a uma feição felina que lembrava a de uma onça. Com direito a bigode de gato, dentes pontiagudos e pintas espalhadas pela cara.

- Não gosto desse cara.
- O quê? - Martim estava conversando com Aurélio, um dos seus melhores amigos em sua classe. Aurélio era um rapaz de doze anos acima do peso que se defendia das brincadeiras a sua pessoa tomando atitudes agressivas que já lhe causaram problemas.
- Reginaldo. Não gosto dele. - Reafirmou Aurélio. - Ele é metido a valentão, incomoda todo mundo. E pra piorar ainda dizem que usa drogas.
Mais tarde, ainda no intervalo, Martim seguiu Reginaldo e sem que percebesse assistiu quando ele incomodava um garoto cinco anos mais novo que ele. Enquanto se divertia com o sofrimento alheio Reginaldo deixava mais evidente seu lado animalesco. Martim olhou seu rosto de onça o máximo que pôde, por fim o horror daquela visão se tornou intolerável e ele saiu correndo dali antes que fosse notado.

De volta a sua casa, assim que suas aulas terminaram, Martim recebeu logo um esbregue de sua mãe. - Garoto, não te ensinei a arrumar a cama após levantar?
- Desculpe, mãe. Esqueci.
- Além disso você esqueceu esse livro em cima da cama. - Amelia entregou ao seu filho o livro com que ele havia sonhado na noite anterior. Surpreendido com aquilo o rapazinho ficou boquiaberto olhando para a mão de sua mãe sem tomar nenhuma atitude. - Anda, menino, pega logo esse livro! - Martim tomou o livro de sua mãe e foi correndo ao seu quarto. Ansioso para descobrir o seu conteúdo ele o folheou rapidamente e percebeu que todas as páginas estavam em branco. Seu primeiro pensamento foi achar que aquilo não se tratava de um livro, mas sim de um diário. Martim então tomou uma decisão de súbito. Pegou uma caneta de sua mochila e resolveu por escrever o que tinha lhe ocorrido na escola naquele dia. Por fim ainda fez um desenho a mão livre do homem-onça. Um desenho meio tosco, tipico de um jovem da sua idade que nunca havia praticado muito.

Durante todo o mês Martim decidiu anotar naquele diário tudo de estranho que ele visse. Desde sonhos exóticos a homens com cara de animal e pessoas que ninguém mais via. Como era seu segredinho, decidiu por guardá-lo em um lugar que julgava ser longe da vista dos seus pais. Em um canto escondido do armário de roupas de seu quarto. Dois meses depois Martim recebeu a visita do amigo imaginário que ele começava a acreditar que não era tão imaginário assim.

- Garoto, gostou do presente que te dei? - Perguntou Dudu.
- É. Acho que sim.
- "Acho"? - Dudu sorriu, achando graça da sinceridade juvenil de Martim. - Tenho uma tarefa para você que acredito irá ajudá-lo a entender o que passa consigo.
- O quê?
- Que tal uma visitinha ao seu avô?
- Vou ter que falar com meus pais e...
- Eles não podem saber.
- Mas como vou visitá-lo sem..?
- Ora essa, assim que acabar as aulas é só você pegar um ônibus.
- Mas eles vão ficar bravos com minha ausência e...
- Tudo bem, se você quer continuar na dúvida o problema é seu.

Vencido pela argumentação do fantasma Martim assim que terminou as aulas do dia foi até um ponto de ônibus e esperou o transporte certo. Ele nunca havia ido até onde seu avô morava sozinho por isso ficou um pouco apreensivo. Após tomar o ônibus e saltar no ponto certo relaxou. Estava a poucos passos de entender mais sobre o seu problema.

Martim entrou no estabelecimento e assim que chegou a recepção falou com a atendente. - Quero visitar Hélio Soares, é o meu avô. - Não era comum os internos receberem visitas de crianças não acompanhadas. Por isso a atendente estranhou. Mesmo assim atendeu o jovem e indicou em qual quarto ele deveria prosseguir. Hélio era um homem de oitenta e quatro anos. Há um bom tempo ele mora em uma casa de repouso. Não por opção, mas por imposição de seus filhos. Como muitos de sua idade Hélio era um homem carente que se achava abandonado. Assim que Hélio viu seu neto atravessando a porta de seu quarto seus olhos brilharam. - Meu menino, mas como você está enorme!

Martim abraçou o seu avô meio sem jeito, já que não tinha muita intimidade com ele. - Como está seu pai? Ele veio me visitar também? Que milagre!
- Vô, eu estou aqui sozinho. Vim pra te fazer uma pergunta.
- Diga, filho. - Disse Hélio com a voz já desanimando.
- Eu estou tendo um problema que me disseram que você pode me esclarecer.
- Que tipo de "problema"?
- Jura que você não vai me achar maluco?
- Martim, você está me assustando.
- Eu estou vendo coisas.
- Como assim? Não me diga que você... Oh meu Deus, Martim! Sinto muito!
- O que foi?
- Você é um sensitivo também, não é?
- Não entendi.
- Desde muito cedo seu avô via coisas que ninguém mais conseguia ver. Pessoas invisíveis, homens com cara de animal e todo tipo de criatura bizarra.
- Você também? - Perguntou Martim visivelmente surpreendido.
- Nenhum dos meus filhos herdou isso de mim, mas ao que parece meu neto sim. Desculpe, não desejaria esse destino pra você.
- E agora? O que eu faço?
- O mais importante é não contar isso pra ninguém, está me entendendo? Vão fazer mal juízo de você. Você tem o dom, garoto. Consegue ver o que para os outros é invisível. Imagine que o mundo é dividido entre uma dimensão física e outra extra-física / astral. Nós vivemos no plano físico, o plano extra-físico é a moradia dos desencarnados e de todo ser criado ou imaginado pela mente humana. De vez em quando os seres do plano astral visitam a nossa dimensão. Eles passam despercebidos pela maioria das pessoas. Ou porque ficam invisíveis ou porque assumem aparência humana. Nós dois somos sensitivos. Podemos ver qualquer coisa desse mundo ou do outro.
- Nossa!
- Geralmente nós sensitivos temos um guia, um ser espiritual que nos ajuda na nossa jornada. Você já recebeu a visita do seu guia em sonho ou até mesmo em visões?
Martim pensou um pouco e em sua cabeça veio logo a imagem de Dudu. - Sim, acho que sim.
- Pois bem, ele vai ser um quebra galho e tanto. Mas você não precisa seguir o que ele diz religiosamente. Lembre-se que a escolha final é sempre sua.

A conversa é interrompida com a chegada de uma enfermeira, ao seu lado, para a surpresa dos dois, estava Amelia e Joaquim. - Menino, porque você veio pra cá sem nos contar nada?! - Disse Amelia já visivelmente alterada.
- Como vocês adivinharam que eu estava aqui? - Perguntou o pequeno Martim.
- A atendente ligou para nós nos avisando. - Respondeu Joaquim. - Por favor, filho, nunca mais faça isso.

De volta a sua rotina, Martim continuou a sua tarefa de escrever em seu diário as bizarrices que ele presenciava. Certa vez, em uma noite qualquer, Martim estava folheando suas anotações e percebeu algo estranho. Muita coisa havia sido adicionada complementando suas informações. Martim lia as anotações novas mais com curiosidade do que espanto. - Quem escreveu isso? - A resposta para essa indagação se encontrava escrita na contra-capa.

"Muito interessante o que você anotou esse tempo todo. Tomei a liberdade para colocar algumas explicações novas que espero lhe sejam bastante úteis. Ass: Dudu".

Na primeira página, onde Martim havia anotado sobre o garoto-onça de seu colégio, Dudu escreveu um parágrafo inteiro.

"Wherepanther, sem nome traduzido, é uma criatura hostil do astral, uma criatura meio onça que possuí hábitos perversos que vão do mais simples até os mais cruéis. Sua origem veio da imaginação de povos indígenas da America Central. A onça era tida como símbolo de força, mas também de temor. O Wherepanther representa essa segunda parte. Fique longe desse tipo ou, se possível, lute contra eles".

Martim folheou seu diário mais um pouco antes de dormir. Quando fechou seus olhos teve um sonho. Sua mente não estava mais em seu quarto e sim vagando em dimensões diferentes da nossa. Ele via um ringue, tal como o de boxe, porém os competidores em nada pareciam com lutadores convencionais. Apesar do corpo humanoide, um deles tinha aparência lupina e outro dentes grandes que lembravam um leão marinho ou um Dentes-de-Sabre. A platéia também não ficava atrás no quesito bizarrice. Iam desde humanos normais até criaturas de variado tamanho e formato.

- Isso é mais divertido que as lutas de MMA que seu pai gosta de assistir, não acha? - Martim olha a sua esquerda e novamente encontra Dudu.
- Você vai invadir todos os meus sonhos a partir de agora, é?
- Calma, garoto. Só quero te ensinar uma coisa. - Enquanto conversavam o homem-lobo e o homem-leão-marinho no ringue se atracavam, valendo desde socos e chutes até mordidas. - Você terá que se tornar forte pra usar suas habilidades em prol de todos.
- O que quer dizer com isso?
- Vou te ensinar a seguir os caminhos do seu avô.
- Ainda não entendi.
- Credo, mas você é lento. Vou te ensinar a ser um guerreiro. - Nesse instante o homem-leão-marinho é retirado do ringue desacordado enquanto o homem-lobo se vangloriava e era ovacionado. - Vamos é a sua vez.
- Minha vez de quê?
Dudu agarrou Martim pelo braço e o levou contra a sua vontade até o ringue, o jogando lá dentro de qualquer jeito. O garoto ficou aterrorizado com a ideia de ter que lutar. Principalmente quando deu de cara com seu oponente. Um homem verde com escamas que lembrava um crocodilo. - O que está fazendo? Eu não quero lutar!
- É bom fazer alguma coisa, pois esse kobold não vai dar moleza.
Martim olhou para seu oponente sem poder fazer nada. O enorme kobold se aproximou e com uma dentada aquele mundo se desmanchou e Martim se viu novamente em seu quarto. Suando frio e com o coração batendo bem forte. Incomodado, ele pegou seu diário e o arremessou em baixo de sua cama sem demonstrar zelo nenhum. Queria esquecer a loucura da sua vida, mas logo ele irá descobrir que não será algo tão fácil assim.