Cap 07 - Monstros

Martim estacionou seu corola prateado em um posto de gasolina e pediu ao frentista para encher o tanque. Enquanto isso ele passa em uma loja de conveniência que ficava ao lado para comprar algumas coisas de que iria precisar na viagem. Comida principalmente.

- Em instantes, homem mata o próprio avô e foge. - Anunciava o repórter na televisão.

- Absurdo, não é? Onde esse mundo vai parar?

Incomodado com a repercussão negativa do seu ato, Martim abrevia sua estadia na loja e trata logo de passar pelo caixa. Não antes de comprar um boné e um óculos escuros. Uma tentativa parca de evitar ser reconhecido em alguma situação futura.

De volta ao carro, após pagar o frentista com cartão, Martim pega novamente a estrada rumo a um destino que nem ele sabia ao certo qual seria. No meio do caminho Martim freia o carro de maneira brusca e quase perde o controle do veículo. Ao seu lado apareceu uma pessoa não esperada.

- O que faz aqui?! - Perguntou Martim.

- Como você sempre me ajudou na escola acho que eu te devo uma.

Aurélio não havia envelhecido um ano. Nem poderia, estava morto. Apesar de ser colega de Martim nos tempos de escola ele mantinha ainda a aparência de um garoto de quinze anos. Vestia ainda o mesmo uniforme escolar que usou quando deu o salto para a morte.

- Você foi traído, a polícia está atrás de você, seus pais adotivos te odeiam... É, não tem nada pra você nesse mundo. Sugiro que fuja para o astral. Lá pelo menos é um lugar seguro.

- Preciso descobrir algumas coisas antes. O porque de Dudu fingir ser meu espírito guia. O porque dele me fazer caçar criaturas.

- Deixa isso pra lá. Como você vai fazer para forçar um fantasma a falar?

- Eu tenho uma coisa ou duas em mente.

Durante o percurso numa autoestrada Martim estaciona seu carro no acostamento e se embrenha no mato tendo apenas um diário nas mãos e sua mochila nas costas. Tal diário ele usa desde que tinha treze anos. Um presente dado a Martim por Dudu que agora ele usaria para lutar contra seu antigo tutor. Por mais que se escrevesse nele o diário parecia que nunca tinha fim. Depois de quase dezoito anos escrevendo em suas páginas elas ainda não acabaram, tendo muitas ainda em branco. Mesmo assim o diário não era grosso. Uma lógica que só algo vindo de uma realidade não física poderia proporcionar.

Martim sabia que um sensitivo podia invocar um espírito, mas não tinha certeza se um ser do astral, apesar do seu contato com o mundo extrafísico, tinha a mesma habilidade. Não custava tentar. Ele leu a página do diário referente a esse tema e começou a sessão. De sua mochila pegou uma vela de sete dias e a acendeu. Sem ninguém para importuná-lo Martim tinha a possibilidade de repetir sua tentativa quantas vezes quisesse. O único empecilho era Aurélio, que ainda ao seu lado, tinha perspectivas negativas referentes a essa ideia.

- Sabe, minha mãe gostava dessas coisas espiritualistas e sempre me dizia que "o telefone só funciona do lado de lá para cá".

- Quieto, Aurélio. Se não ajuda não atrapalha.

Após várias tentativas Martim teve algum êxito, mas o espírito que atendeu ao chamado não foi bem o esperado.

- Vovô?!

- Não me chame desse nome, monstro! Você me matou! Como pôde?! Depois de tanto carinho que eu te dei! - Hélio Soares estava enraivecido. Algo que devido aos eventos recentes era algo compreensível.

- Desculpe, mas você não tem o direito de se fazer de vítima. - Disse Aurélio, defendendo seu amigo. - Não depois de tudo o que fez.

- Monstro!

- Avô, sei que não tenho o direito disso, mas... Você pode me ajudar a encontrar Dudu?

- Não. E por que te ajudaria depois de tudo?

- Depois de anos de mentira. - Disse Aurélio. - Acho que você deve ao menos isso a ele. Respostas.

- Dudu era meu espírito guia desde quando eu descobri que eu era um sensitivo. Tinha uns sete anos na época. Joaquim e Amelia adotaram um bebê sem me consultar. Foi um choque quando descobri que a criança não era humana, mas sim um ravenclaw.

- "Ravenclaw"?

- Esse é o nome de sua espécie. Criaturas vingativas e com tendências a explosões de raiva. Como não consegui fazer os meus filhos desistirem da adoção, Dudu teve uma ideia. Usar o instinto homicida do meu "neto" para algo... produtivo.

- Nossa, mas vocês me usaram a vida toda!

- Só um aviso antes de me despedir. Agora que você não é mais o "brinquedo" de Dudu ele irá te descartar.

- Como assim? - Perguntou Martim bem assustado.

- Fique esperto! - Hélio desapareceu deixando no lugar um clima de insegurança.

Em outro lugar, na mesma autoestrada em que o carro de Martim está parado, um sedan preto anda em alta velocidade, sengo guiado por um homem que tinha muita pressa. No volante havia um sujeito vestido todo de preto. Forte, careca e com cara de "não mexa comigo". No banco do carona um desencarnado. Um espírito cheio de maldade que manipulava outra vítima.

- Segue reto. - Disse Dudu. - Ele não está muito longe.

- Como você tem tanta certeza disso.

- Carlos, o lado bom de se estar morto é que as distâncias emocionais são mais significativas do que as físicas.

Após meia hora de direção continua Carlos finalmente avistou o corola prateado. - É ele! - Indicou Dudu. Atendendo as exigências de seu espírito guia o caçador joga o seu carro no fundo do veículo de Martim. Martim foi pego desprevenido. Perdeu o controle do corola e acabou virando e em seguida começou a capotar. Duas vezes.

Com o carro virado de cabeça pra baixo, Martim tirou o seu cinto de segurança (que salvou sua vida) e saiu do carro se arrastando. Com o corpo todo dolorido. Martim se pôs logo de pé já sabendo que aquela batida não foi acidental. Estava com uma pistola em mãos, pronto para uma guerra.

Com um cavalo de pau o sedan foi estacionado, antes de parar completamente, o motorista abriu a porta e saiu. Com uma desenvoltura impressionante demais, o assassino deixou claro que não era um humano. Também armado com uma pistola Carlos já deu as caras atirando, mostrando que não estava ali pra brincadeira. Blam! Blam! Blam! Martim se defendeu dos tiros usando seu carro capotado como escudo.

Ainda com o carro fazendo cobertura Martim com cuidado viu o rosto de seu algoz, como esperado o rosto do caçador que estava em seu encalço não demorou a perder o aspecto humano. Era um rosto pálido lembrando uma pintura de guerra, com marcas negras nos olhos. O novo protegido de Dudu era um ravenclaw que nem Martim.

Martim foge se embrenhando na mata fechada que circulava a estrada. Carlos obviamente foi atrás. Disparando com sua pistola até ficar sem munição. Quando perde o foco em seu oponente para recarregar sua arma Carlos é atacado repentinamente por Martim que praticamente se joga em sua direção. Martim tenta, a curta distância, atirar na cabeça de Carlos, mas esse consegue desarmá-lo. Agora a luta se desenrolava na base de socos e chutes. Carlos era mais forte, mais rápido e mais preparado. Mesmo assim a sorte sorriu para Martim. Aproveitando um tronco partido pontiagudo localizado perto deles, Martim agarra Carlos pela cintura em um abraço, em seguida o empurra para o tronco. Na queda o tronco pontiagudo atravessa o peito de Carlos causando um ferimento letal. Como toda criatura do astral ao morrer Carlos desaparece em uma explosão de um pó dourado.

- Maldito! Levei anos treinando esse aí. - Dudu apareceu na frente de Martim. Disposto a ameaçá-lo.

- Você me usou a minha vida inteira. Você arruinou tudo! - Martim tentou socar Dudu, uma tentativa frustrada. Já que era impossível tocar em um fantasma.

- Pode demorar o tempo que for, mas irei colocar outro monstro em seu encalço. E se você der sorte de também matá-lo. Chamarei outro monstro. E outro. E mais outro. Quantos forem necessários para ver seu fim.

- Acho que não! - Aurélio agarrou Dudu por trás. Martim não sabia o que seu finado amigo estava fazendo, mas o que tudo indicava estava pondo fim aquela ameaça. Os dois começaram a queimar em uma labareda de fogo. Em seguida desapareceram, mas não antes de terem uma calorosa conversa.

- O que está fazendo?! Me larga!

- Você não vai mais importunar ninguém. Nunca mais.

- NÃOOOOO!

Horas depois.

Amelia e Joaquim estavam em casa. Tristes com os últimos eventos que aconteceram com sua família. Amelia desde que soube da morte de seu sogro não consegue parar de chorar. Joaquim, comovido com o estado de sua esposa, também começou a se entristecer e por fim as lágrimas venceram e rolaram pelo seu rosto. Da janela, sem ser percebido, uma figura condoída da situação do casal assistia ao seu sofrimento impotente, sem poder fazer nada. Nem mesmo um consolo ele poderia dar, pois sabia que seria mal interpretado. Martim se não fosse a constituição mais rígida de sua espécie estaria agora aos prantos. Se mantinha forte, mas até seu coração de rocha já mostrava sinais de que seria vencido.

- Desculpe, pai. Desculpe, mãe. Por tudo. - O pedido de desculpa não foi ouvido. Martim não queria ser visto por isso falava o mais baixo possível. - Espero que me perdoem algum dia. - Após se despedir do que restou da sua família Martim caminha pra reencontrar outros pontos da cidade que para ele foram muito importantes. Martim passa pelo colégio onde estudou a infância e a adolescência. Um sentimento de nostalgia o acomete. Um tempo difícil, como toda a sua vida, mas que fora muito mais feliz. Por último Martim visita a casa de sua ex-quase-noiva. De longe Martim via Helena brincando com uma criança, possivelmente seu filho, e de braços dado com um homem desconhecido. O peito de Martim começou a doer. Pois ele sabia que se tivesse tomado um outro rumo, ele poderia estar no lugar daquele homem e aquela criança poderia ter sido dele.

Por fim Martim vai até um beco deserto. Já era noite. Seguindo as instruções impressas no seu diário Martim desenha uma porta em uma parede qualquer com um pedaço de giz branco. Como se aquela porta fosse real Martim bate com o punho nela três vezes e diz as palavras que julgava serem as certas. Nada aconteceu. Após mais algumas tentativas frustradas o desespero se apodera dele e ele começa a suplicar por alguma resposta. O que acaba chamando a atenção de um mendigo que por ali passava.

- Algum problema, amigo?

Martim se aproxima do mendigo e o agarra pelos braços dando a impressão que tinha perdido a sanidade. - Eu tinha tudo! Fui enganado e minha vida virou uma merda! Preciso sair daqui! - O mendigo se desvencilhou do agarrão e saiu correndo dali.

Assim que o mendigo deixou o beco Martim foi atraído por uma luz, ao olhar para trás viu que a porta desenhada na parede, contrariando todas as expectativas, se abriu. Um velhinho com chifres de cervo saiu de dentro dela. - Você chamou? Se quer entrar vamos logo. Não tenho o tempo todo. - Alegre, Martim não pensou duas vezes. Assim que cruzou aquela porta ela se fechou. Não deixando nenhum vestígio que havia sido aberta anteriormente.

Agora começava uma nova etapa da vida de Martim. Uma que não pertencia ao mundo físico. Mas sim a um mundo mais transcendental. Onde as leis que regem a física e o espaço não se aplicavam. Onde a liberdade era infinita e as realizações eram do tamanho de seus sonhos. Naquele mundo estranho, o mundo astral, Martim começaria a sentir um gostinho que nunca tinha sentido antes na realidade física.

O gosto da felicidade.