Capítulo Um – Dança de Sangue.

Pesadelo.

Um sonho aterrorizante. Uma experiência, condição ou pensamento ruim.

Essas são as duas definições mais comuns da palavra. Helyse conhecia ambas e mais tarde, passou a conhecer os significados mais ocultos do termo, conceitos sombrios que ela não achava que pudessem ser claramente definidos por palavras de qualquer língua e assim, fluíam sob aquele único termo: Pesadelo.

No dia que poderia ser considerado o marco dos acontecimentos que a levariam a pensar dessa forma, teve um início como qualquer outro. Não houve sentimentos de premonição, nenhuma sensação de nervoso, um sonho estranho ou qualquer coisa aparentemente insignificante que, após os acontecimentos, pairaria em sua mente e ganharia um novo significado...

O sino escolar soara, cortando abruptamente as palavras de Sra. Haursdatten e anunciando o fim das aulas da manhã, e o som estridente foi logo somado ao de estudantes guardando os livros, conversas e risos, formando um som único e dos mais universais, que parecia o mesmo em quase qualquer outra escola do mundo. E a "Alegria de Fim de Aulas" sempre é maior quando é sexta feira. Há planos para o fim de semana, festas, idas ao cinema ou qualquer outra coisa do gênero...

Apenas dois alunos pareciam alheios à animação que tomava conta de seus colegas de classe. Um era um rapaz que, de alguma forma, conseguira permanecer adormecido mesmo com todo o barulho a sua volta e estava sendo sacudido por amigos de um sono profundo e agitado. O outro era Helyse Blake, ocupada em guardar seu material e, em termos simples, dar o fora.

O som à sua volta nada tinha de agradável, pelo contrário, era sufocante... E de alguma forma esquisita, distante.

Ela percebeu que, quando o garoto foi despertado por seus amigos, eles imediatamente começaram uma conversa sussurrada, a qual ela não deu importância e o grupo, igualmente, não pareceu se importar com ela.

"É um pouco estranho." Ela refletiu levianamente, guardando o livro na mochila com gestos ágeis. "Locker nunca dormiu na aula antes, mas agora o faz quase todos os dias...".

Esse pensamento era da natureza dos leves pensamentos sem forma definida que a mente produz mais por não poder parar de pensar do que por haver algum significado real. O fato não fazia diferença para Helyse, que não era amiga do rapaz, mas era difícil não perceber esse tipo de coisa quando se tratava de alguém que se sentava ao seu lado por horas. E ainda mais quando essa pessoa chegava a dormir na aula da Sra. Haursdatten... Era mais fácil voar até Marte de balão do que ela permitir que um aluno dormisse em sua aula...

No corredor, Helyse andava a passos ágeis, só desejando pegar o ônibus e ir para a casa. Em sua mente, não havia nada mais e ela não tinha como saber que no fim do dia, estaria mais do que nunca enterrada viva na escuridão, o corpo lutando naturalmente por sua patética existência.

Passando por um cartaz que dizia, em letras grandes e negras para que todos se recordassem do toque de recolher às 19:00 horas (ordem do Departamento de Polícia de Springwood), Helyse refletiu que ninguém poderia fica surpreso com o comportamento do garoto... Não quando se levava em conta que na última semana, um de seus amigos havia sido morto. Não havia pistas sobre o assassino... E este tampouco havia sido um caso isolado... Havia sido o último em uma série de homicídios cuja única conexão era o modo grotesco em que as vítimas tinham sido mortas... E a absoluta falta de pistas. Helyse achava que isto era a única coisa no caso que merecia tanta atenção... Mas algumas pessoas pareciam achar que a juventude era, de alguma forma, intocável para tais acontecimentos.

Como se todas as pessoas do mundo não tivessem o mesmo destino. Agora mesmo, aquele grupo rindo enquanto guardavam os livros nos armários? Eles poderiam ter uma doença escondida nos genes, esperando para desabrochar como uma flor negra ou algum verme aninhado em seu corpo... De um modo ou de outro, não havia ser que não pudesse ser morto. Não importava se era um velho ou um bebê recém-nascido.

Helyse suspirou consigo mesma... Alguns dias eram assim mesmo, mas não deixava de ser cansativo às vezes...

Dita falta de pistas, porém, não implicava que havia também uma falta de rumores. Estes havia em abundância e iam de pistas e detalhes das cenas para até mesmo a possível identidade do assassino, para a consternação dos professores que tentavam seu melhor para aliviar a atmosfera com avisos e palavras reconfortantes (o que a garota considerava serem absolutamente inúteis).

Sr. Collins, professor de Biologia, por exemplo, havia sido um dos que dera mais daqueles pequenos "discursos" e havia dito diretamente que o que todos na cidade queriam era que aqueles assassinatos apenas parassem e o responsável fosse pego... Mais tarde, a garota pensaria nessas palavras e refletiria como a ênfase deveria estar no desejo de que os assassinatos apenas parassem e fossem esquecidos.

Tal era a natureza de Springwood, como ela descobriria.

Mas agora, os assassinatos ocupavam um andar baixo em sua mente, os andares superiores ocupados sobre o que teria de almoço e o teste que teria na semana que vem e mesmo estes pensamentos eram vagos e sem forma.

Enquanto ela saía do prédio (piscando um pouco sob o sol), passou por grupos de pessoas, estudantes conversando, outros esperando carona de amigos ou pais. Ninguém lhe chamou ou disse alguma frase comum de "fim-de-aula" como "Até logo, Helyse" ou "Vejo você amanhã".

Na esquina, a garota viu o ônibus que sempre pegava e acelerou mais o passo, sem vontade de perdê-lo e ter que caminhar até em casa ou de ficar sentada esperando pelo próximo.

Conseguiu entrar em tempo.

Foi o ponto crítico do dia. Mais tarde, o "e se...?", que assombra mentes de pessoas pelo mundo inteiro, faria com que ela pensasse como as coisas poderiam ter sido diferentes... No que teria acontecido, se ela jamais tivesse pego aquele ônibus...

Sentada à janela, Helyse ajeitou-se e fechou os olhos, sentindo o sol na pele, seus pensamentos não se fixando em nada em particular, de modo que sua mente voltou a refletir sobre os assassinatos...

Todos na cidade estavam tensos com o caso de, até agora, sete adolescentes encontrados mortos... Em um dos casos (que a moça havia até visto no jornal na lanchonete em que trabalhava), um repórter revelara que aparentemente a polícia sequer sabia como o assassino havia entrado no quarto da vítima, que fora encontrada sentada à mesa de seu computador. A janela estivera trancada pelo lado de dentro, assim como a porta do quarto e seus pais, que haviam estado no andar de baixo o tempo todo, relataram (às lágrimas) que não haviam escutado um único som.

Este não era o único aspecto estranho dos casos, a forma em que os corpos haviam sido encontrados também. Em outro caso, aparentemente, a pessoa fora encontrada no quarto, completamente mutilada... Até agora, a contagem de corpos chegava a sete (a ordem do toque de recolher fora dada após a descoberta do quarto corpo) e poderia ser até mais do que isso. O caso de Sarah King ou Kingsley, por exemplo, fora considerado suicídio por muito tempo (apesar dos protestos dos pais da moça, que insistiam o contrário) até o legista confirmar o homicídio.

Considerando a natureza bizarra de tais acontecimentos, não era totalmente estranha a quantidade de rumores.

Ainda no dia anterior, Sr. Collins havia entreouvido alguns alunos sussurrando sobre o assunto na aula, o que o havia enfurecido o bastante para que passasse vários minutos (o resto do período da aula, na verdade) dando um sermão sobre o assunto. Falara sobre como tal comportamento não ajudava em nada, que eles podiam (e deviam) pensar sobre os sentimentos daqueles que haviam perdido os amigos e tais coisas podiam acontecer com qualquer um deles e não estavam encarando o assunto com seriedade e todo o resto... No fim, o professor havia comparado pessoas que gostavam de fazer piadas e falar levianamente sobre isto com abutres, vivendo como se pensassem que eles jamais podiam ser feridos dessa forma, estando acima de tais acontecimentos.

Enquanto ouvindo tudo aquilo, a garota só pudera refletir como é que o professor podia pensar que palavras fariam os boatos pararem ou as pessoas pararem de fofocar. Verdade que Jake Norton, por exemplo, parecera um pouco envergonhado... Mas não o bastante para realmente parar de sussurrar sobre como ele ouvira dizer que um dos cadáveres fora encontrado com os órgãos todos apodrecidos.

Collins dera um sermão interessante, mas fora completamente inútil, ainda mais levando em conta que...

O ônibus sacudiu bruscamente.

O corpo de Helyse foi lançado para frente.

Uma virada súbita atirou-a para o lado antes que ela se desse conta do que acontecia. Estrelas dançaram em seus olhos quando sua cabeça colidiu com algo duro. Por um momento, ela só conheceu um raio de agonia aguda rasgando sua cabeça e mente.

"O que está havendo? O que houve?" Uma voz de mulher gritou, cortando o ar junto com a dor persistente. A garota tentou olhar em volta, mas de alguma forma, estava no chão. Havia gritos das rodas virando e de pessoas, coisas se chocando umas contra as outras, quebrando e amassando, tudo acontecendo ao mesmo tempo em um inferno carnavalesco de sons e sentidos.

Uma mulher (a mesma que gritara?) foi atirada para frente, batendo a cabeça enquanto um homem gritava algo sem palavras. Algo caiu (ou fora atirado?) e rolou no chão com som de pedras e ossos.

Em todo aquele movimento de corpos e sons, Helyse mal conseguia se mover antes que o ônibus virasse novamente, seu corpo batendo, sacudindo e empurrado como o de uma boneca até que ela não soubesse mais o que era um braço ou uma perna.

Algo passou por ela no chão, mas tudo que ela conseguiu perceber foi a cor vermelha, deixando para trás um cheiro úmido e metálico...

Algo afiado e duro...

As pessoas ainda gritavam? Os sons pareciam se afogar uns nos outros e se distanciavam...

Seu corpo rolou e vários pontos de dor surgiram em sua carne.

Choro, alguém estava chorando...

Seus ossos gritavam dentro do corpo e o gosto de sangue preenchia sua boca...

Tentando respirar, ela percebeu que havia vidro no chão...

"Onde? Como?"

Tudo era cinza e vermelho...

Estava deitada ou...?

Começou a perceber (de uma forma ausente) que tudo havia parado... Há quanto tempo, ela não sabia... Lentamente, tentou colocar as coisas em uma ordem que fizesse sentido, mas mal conseguia manter o pensamento fixo...

Um bebê chorava...

Manter os olhos abertos doía... Sangue... Sangue lavando tudo... Uma luz brilhante... Janelas quebradas ("Oh, o vidro... Certo...") e partes do ônibus que pareciam amassadas... Um bebê chorava... Ela pensou que podia ver alguém deitado com o canto dos olhos, mas não podia ter certeza... Seu corpo estava lavado em agonia...

Todo o resto se perdia em uma névoa...

Como em um sonho, a garota tentou se mexer, mas só uma tentativa de mover um músculo criou um brilhante rugido de nova dor e ela desistiu.

À distância, ela achou que podia ouvir um som... Alto e baixo, alto e baixo... Gritos? Não... Qual era o nome disso mesmo?

Não sabia, nem se importava (a dor, meu deus) e havia outro som, mais próximo e claro que sufocava o primeiro...

Mais claro que o choro, que se tornava irregular...

"One, Two, Freddy is coming for you"

As cores se dissipavam do mundo, como os sons.

Se a dor fizesse o mesmo, ela não reclamaria...

Tudo era cinzento... A única coisa mais próxima da clareza, eram aquelas vozes que afogavam os outros sons, que ela já não compreendia...

Vozes de...

"Three, Four, Better lock your door"

Duas ou três meninas cantando... Vozes infantis que deviam ser inocentes, mas soavam como corvos cantando com vozes humanas... Helyse sentiu um arrepio que não vinha da dor... Jamais ouvira aquela canção, mas...

Mas...

"Five, Six, Grab your crucifix"

Vozes afiadas, gentileza envenenada... Ela mal conseguia sentir nada, sua própria existência reduzida a uma névoa dentro do corpo... Tinha apenas impressões, como aquela de que havia algo escorrendo em seu rosto...

Em algum ponto dentro de si, onde ainda era possível existir, alguma coisa se apertou, como se puxando...

Ou estava escorregando?

"Seven, Eight, Gonna stay up late"

O frio se aproximava de dentro, assim como algo mais, que vinha de onde quer que aquelas vozes ecoavam... A garota quis abrir os olhos, aquelas vozes ecoavam em sua espinha e havia aí uma sensação que ela não gostou...

Mas já não podia controlar nem isso.

Seu corpo permaneceu deitado como um brinquedo esquecido, uma jaula de carne e sangue...

E as trevas venceram.

"Nine, Ten, Never sleep again".

Quando o resgate chegou, embora acudissem um minuto após o início daquela melodia, já era tarde demais.

Helyse Blake estava em coma.


Disclaimer: Nada aqui me pertence e todos sabem disso.

Críticas e sugestões são muito bem vindas!

Ana: Oi, pessoal...

Freddy Krueger: Droga, eu esperava que você tivesse morrido ou coisa assim...

Ana: Tão gentil...

Helyse: E após a longa espera, isto é o que você oferece aos leitores? Isso é, se você ainda os tem...

Ana: Eu realmente pensei em postar todos os capítulos reescritos e mais os novos, mas... Primeiro, eu posto essas fics em duas línguas, então eu tenho que escrever e traduzir, o que pode levar um tempo. Segundo, eu pensei que se eu esperasse para traduzir tudo antes de postar, poderia levar ainda mais tempo.

Freddy: Então?

Ana: Então, eu vou postar os reescritos bem mais depressa, mas não todos de uma vez. E sim, há capítulos novos que já estão terminados, então eu espero não demorar mais tanto assim.

Helyse: Bem, eu ainda posso ter esperanças que você tenha um ataque fatal de asma ou seja atropelada na rua.

Ana: Você não mudou nada... Oh, bem. Tudo que posso dizer é, para aqueles que ainda querem ler isso aqui, muito obrigada, eu realmente aprecio!

Freddy: Não poderia soar mais patética se tentasse.

Ana: Hey, aqui uma ideia, que tal você tentar parar de ser um porre?