Capítulo Um - Acidente

O sino da escola soou, ecoando pelos corredores, anunciando o fim das aulas durante aquela manhã. Os alunos imediatamente começaram a guardar seus materiais, conversando e rindo entre si. Alguns já haviam guardado seus pertences, sem precisar consultar o relógio para saber que as aulas estavam no fim, como se seu relógio interno estivesse condicionado, programado com o sino.

Risadas, palavras trocadas entre colegas. Era como se aquele som libertasse uma onda de animação que podia ser ouvida e sentida no ar, como uma aura potente que tomava conta da escola inteira, em uma correnteza de libertação e animação, a simples felicidade pelo fim das aulas.

Apesar disso, como pedras salientes em meio a um rio, havia algumas pessoas que não tomavam parte naquela vivacidade. Apenas uns poucos que estavam isolados e não pareciam muito felizes. Um deles era uma garota, aparentando estar em seus dezessete anos, outro era um rapaz que estava em um profundo –porém, agitado – sono. Quando a campanhia soou, ele acordou subitamente com o barulho e seus amigos, aproveitando o fim da aula, correram para falar com ele, aparentemente preocupados e, de alguma forma, aliviados.

A garota não se importou e saiu da sala sem olhar para trás. Andava olhando para baixo e o cabelo longo lhe escondia a face. Caminhava depressa, mas ainda assim de uma forma estranhamente cautelosa.

"Não deixa de ser estranho" pensou ela "Locker nunca dormiu na aula antes, mas agora ele faz isso quase todo dia..." Mas logo pensou que ninguém podia culpar o garoto... Na semana passada, um dos melhores amigos dele havia sido assassinado durante a noite e não havia pistas do assassino. Se é que havia sido mesmo um homicídio e não um estranho e macabro acidente.

Ao sair ao sol, a jovem sacudiu os cabelos, que eram longos, ondulados –quase cacheados - de um loiro escuro, a cor exata dos pelos de um leão. Com os cabelos afastados do rosto, era possível ver-lhe os olhos, de um azul escuro e profundo, como o oceano. O modo como ela andara até então a fazia parecer uma pessoa isolada e sozinha. E ela o era.

Seu nome era Helyse Blake. No momento, sua maior preocupação não era com Locker, nem com a possibilidade de haver ou não um assassino à solta e sim com o que ela poderia cozinhar para o almoço. Foi pensando nisso que ela subiu para o ônibus e sentou à janela, olhando para fora e começando a relaxar o corpo, como se estivesse estado tensa até então.

Fechou os olhos, relaxando, apenas agora que estava se afastando da escola é que conseguia relaxar. Não que estivesse feliz, mas aquela sensação pesada e amarga abandonava seu corpo finalmente.

Tal estado não durou muito tempo.

De repente, o ônibus começou a saltar e a sacolejar, fazendo a moça acordar de seu estado de devaneio com um choque. O ônibus estava atingindo e sendo atingido por outros carros. A sensação era de que havia perdido o rumo. Olhando pela janela, Helyse teve um vislumbre de fumaça, mas o constante sacolejar ameaçava derrubá-la no chão.

E as pessoas estavam apavoradas.

"O que está havendo?" Uma mulher berrava histericamente, tentando ficar de pé. Ela caiu e se agarrou a uma cadeira, enquanto continuava a gritar.

"Um ônibus de gasolina explodiu!" Berrou alguém. Se era verdade ou não, não era possível saber naquele pandemônio. Helyse tinha vontade de tapar os ouvidos. Tudo isso era pior porque estava acontecendo ao mesmo tempo e muito depressa para a cabeça de alguém suportar.

Um forte tremor; e seu corpo foi lançado violentamente para o chão.

Não podia ver mais nada direito. Viu o chão. As lâmpadas, o teto. Seu corpo atingia metal duro e frio, era sacudida e jogada como uma boneca de pano. Cheiro de sangue no ar e gritos... Gosto de sangue na boca e uma estranha umidade em sua pele... Manchas vermelhas em meio ao cinza... E alguma coisa afiada e dura batendo em sua cabeça, fazendo-a ver estrelas brancas de dor, e seus olhos encheram-se de água. Algumas vozes pararam subitamente, vidro quebrando...

Tudo isso levou menos de um minuto para acontecer e parar.

Grogue, cheia de dor, Helyse tentou olhar em volta... O ônibus parecia estar de ponta cabeça. Havia um pouco de sangue, janelas quebradas e áreas que pareciam ter sido amassadas.

Sentiu-se enjoada e fraca. Pensou estar ouvindo algo, mas muito distante.

Um bebê chorava alto... Helyse estava semi-inconsciente... Consciente o bastante para sentir dor, mas fraca demais para gritar... Uma forte sonolência se apoderava dela...

Tentando ignorar tudo, a jovem tentou ficar em pé, e quando não conseguiu, percebeu que seu corpo estava preso sob alguma coisa. Cansada demais para tentar se soltar, ela deitou no chão – ou teto? Não sabia mais - e piscou, tentando fazer sua visão entrar em um melhor foco...

A sonolência a vencia, pouco a pouco como um veneno se espalhando por suas veias.

Pensou estar ouvindo uma ambulância, mas agora havia outro som em seus ouvidos... O som distante de antes, que se tornava mais claro à medida que ela ficava mais fraca. Vozes? Helyse tentou clarear a mente enquanto tocava a cabeça – e isso custou grande esforço-e sentiu seu cabelo molhado de sangue... Seu sangue.

Mas porque a dor parecia tão longínqua?

Zonza e estranhamente entorpecida... Ela sabia que uma pessoa que sofreu uma concussão não deve dormir logo após o acidente, contudo não conseguia lembrar por que. Era importante –ela achava- e mesmo assim...

Agora, os sons em volta dela pareciam distantes. Como sussurros, vindo de um local afastado; e as vozes que pensara ouvir estavam mais altas e suas palavras, mais inteligíveis.

One, two, Freddy is coming for youUm, Dois, Freddy vem te pegar

Vozes de duas ou três menininhas cantando... Helyse sentiu um calafrio. Isso, por alguma razão, não era nada bom... A razão, não sabia, mas sentia. Tinha esse horrível pressentimento sobre aquela canção que jamais havia ouvido em sua vida inteira.

Three, four, better lock your door – Três, quatro, melhor fechar a porta

"Fique acordada, fique acordada" Ela murmurou para si mesma, sentindo como se sua língua estivesse flutuando em sangue. De repente, não era só um pressentimento, mas um genuíno pavor. Algo estava dizendo a ela que não podia dormir e não era só pela concussão. Era algo mais, algo que ela não sabia... Mas que mesmo assim, a preenchia com um pavor inexplicável.

Five, six, grab your crucifix – Sete, oito, agarre o crucifixo

Que diabos de música era aquela? E porque sua cabeça não parava de sangrar? A dor agora era quase uma coceira... Mas isto não trazia alívio. Assim mesmo, estava tão entorpecida que mesmo a dor parecia não ter importância. Apenas uma pequena porção de sua mente, ainda não atingida pelo sono, parecia gritar e tentar manter a consciência do corpo... Sem sucesso.

Seven, eight, gonna stay up late – Sete, oito, ficar acordada até tarde.

Seus olhos estavam se fechando contra sua vontade e ela não conseguia mantê-los abertos...

"Não, NÃO" Ela pensou, sem poder lutar contra o desfalecimento.

Nine, tem, never sleep again – Nove, dez, não durma nunca mais

Quando o resgate veio, Helyse Blake já estava em coma...