Capítulo Dezoito – Olhos de Esfinge

Freddy não esperava ver Helyse naquela noite, não depois de ele ter-lhe dito que poderia dormir que ele não iria invadir seus sonhos, pelo menos não naquela noite. A coisa normal então seria que ela fosse dormir e tivesse algum sonho comum e tolo e não que dormisse e de alguma forma, encontrasse o caminho até a sala da caldeira por si só.

"O que diabos ela faz aqui?"

Helyse não parecia muito surpresa por estar lá. E não estava, desejara estar lá, ainda que não tivesse esperado que isso fosse mesmo acontecer. No fundo, a jovem se perguntava (não pela primeira vez) o quão forte aquela "conexão" entre ela e Freddy era... Considerara que isto servia para Freddy ir ao "Mundo Real" se quisesse, o que ajudaria caso uma das vítimas decidisse usar este método para fazê-lo humano e mortal.

Mas não. Não estava certo porque isto não era algo feito pela conexão entre eles, certo? Não... Se você pensasse bem, não era a conexão em si, era por conta do próprio poder de Freddy que simplesmente aumentara devido ao medo de Helyse.

A conexão era feita de medo, medo que ele a forçara a sentir (não que havia sido difícil, ele tinha prática). Esta era a verdadeira ligação entre eles.

"Ligados pelo medo" Helyse pensou, sem perceber ou se importar com o fato de que Freddy estava olhando fixamente para ela enquanto ela estava perdida em pensamentos. "O quão poético isso soa?"

Além do mais, aquela corrente de medo (ela imaginava-a pequena, porém forte e da cor do sangue, conectando-os) parecia permitir que Helyse encontrasse seu caminho até a sala da caldeira quando ela bem desejasse, sem precisar que Freddy a levasse lá. Em verdade, a moça não estava certa de que isto era feito pela conexão, mas achava que deveria ser (e ainda que não fosse, eles jamais saberiam: Quem mais iria querer ir ao território do leão por si mesmo como ela acabara de fazer?).

"Eu deveria ser posta em uma camisa de força" Ela pensou com amargura e desprezo por si mesma. "Para que vim aqui, para começo de conversa?"

Ela descobrira tal coisa por acidente naquela noite, quando deitara na cama pensando e desejando a sala da caldeira e agora estava lá, descalça e usando apenas a camisola azul clara, o cabelo cor de pelo de leão solto sobre os ombros.

Freddy a encarava sem acreditar e com irritação. O que Helyse queria agora? Ou melhor, porque diabos ela estava ali? Aquele lugar deveria ser apavorante para ela e, no entanto, ela estava ali parecendo um pouco confusa e séria, mas... Não com medo. Nem um pouco.

"Vadia maldita" Ele pensou furioso com a falta de medo dela e com sua própria presença. Ele não queria estar perto dela esta noite, esta fora a razão que o levara a dizer a ela para dormir em paz, não pena ou afeto, apenas porque era ele quem não queria sequer olhar para ela estava noite ainda que fosse para matá-la.

O Demônio dos Sonhos também fez seu melhor para não pensar porque dissera tal coisa a ela para começar.

Por um breve momento, os dois apenas se encararam. Freddy estava em seu lugar, afiando as facas da luva como gostava de fazer quando sentia que o sangue estava começando a fazer as lâminas perderem o fio de corte. Pareceu agora familiar como um déjà vu ver Helyse de volta à sala onde estivera por semanas devido ao coma... Fora há algum tempo atrás, mas Freddy lembrava como se fosse ontem a primeira vez que a vira e a sensação, da parte de Helyse, era mútuo.

"E foi aqui que conversamos por um breve momento antes de eu levá-la para testemunhar a morte de Russo..." Ele pensou, recordando-se. De fato, fora exatamente aquele mesmo lugar, perto de uma das caldeiras onde as chamas crepitavam.

Meio iluminada pelo fogo, Helyse olhou em volta em silêncio, notando que nada havia mudado. A caldeira continuava acesa com um fogo forte e mortal, que parecia não compartilhar do mesmo calor que as chamas tinham no "Mundo Real". Era quente, sim, mas era possível "sentir" que era outro tipo de calor... Muito diferente do tipo que as pessoas associavam com uma doce lareira em casa. Entrementes, ela até que gostava mais deste.

Freddy não tirou os olhos dela enquanto ela olhava em volta, pensando em coisas que ele poderia apenas imaginar. Ele podia ver os olhos azuis refletindo o brilho do fogo, mas tinham um efeito perturbador devido ao fato de que pareciam estranhos como se fossem não olhos, mas pedaços de vidro que apenas refletiam o brilho externo e não possuíam nenhum próprio, fazendo Helyse parecer uma boneca sem vida ou algo que ele não podia relacionar no momento.

"Mas vazios. Eles parecem absolutamente vazios" E era verdade. Agora ela se parecia mais com a Helyse Blake que ele conhecia: Aqueles olhos eram os olhos mortos, frios e vazios de alguém que é não sente o que quer que seja, não porque não quer, mas porque é de fato incapaz. Não era uma questão de escolha. Os olhos dela pareciam não possuir nada e assim, ela parecia seca por dentro como se alguém tivesse lhe roubado a alma... Ou alguma outra coisa.

Se haviam emoções naqueles olhos, ele não era capaz de defini-las... Havia algo ali, sim, mas o que? Por alguns segundos, ele buscou dizer o que ela estava pensando e sentindo e por causa do jogo de luz e sombra feito pelo fogo, sua expressão parecia mudar, mas era ilusão de ótica e Freddy sabia. A expressão dela não estava mudando, ela apenas a mesma coisa que acontecia quando alguém colocava uma vela perto de um rosto de pedra e tinha a impressão de que o rosto talhado na superfície fria se movia.

"E o que dizer dos olhos dela?" Em um segundo ele teve a impressão de que vira algo que não sabia dizer se era um relampejo de uma profunda e insuportável tristeza ou superioridade fria e desdenhosa. Quando ela virou-se para ele, ele reconsiderou que poderia ter sido uma cólera glacial o que vira...

Não havia como definir. Ele não conseguia reconhecer aquilo e mesmo ele soubesse que parte disso era efeito da luz brincando no rosto dela, parte não era. Ele simplesmente não conseguia definir o que vagava sob aqueles pedaços mortos de vidro que Helyse tinha como olhos... Mas... De alguma forma...

"Uma esfinge... Ela está igual a uma esfinge" Ele percebeu enquanto a moça, ainda em silêncio, sentou-se perto e o observou enquanto Freddy trabalhava nas facas, muito parecida com uma criança sentando perto do pai para assisti-lo trabalhando. O homem não podia evitar recordar-se que a garota parecia gostar daquele espaço em especial, pois fora exatamente ali que ela sentara durante o coma para conversar com ele. Freddy duvidava que Helyse tivesse percebido, mas ela parecia gostar daquele lugar como se fosse sua cadeira predileta ou coisa semelhante.

Ele não sabia o que fazer. A última coisa que dissera a ela fora que ele não a torturaria naquela noite e que ele de fato matara alguém, não lhe contando quem havia sido sua vítima. Ela não deveria então respirar aliviada e dormir em paz, ou forçar-se a ficar acordava mesmo assim, como qualquer outra pessoa faria? Qualquer outro que estivesse lidando com ele jamais confiaria em suas palavras como ela parecia fazer.

Freddy não entendia e era uma das coisas que o irritava tanto. Como uma esfinge, Helyse parecia um enigma que ninguém resolvia. E sentada ali, apenas o observando com os olhos azul-escuro refletindo o fogo, mais do que nunca, ela se parecia com uma esfinge.

De alguma forma, ele sentia-se irritado com ela e seu silêncio. Se não tivesse dito a ela que não a machucaria, teria se levantado naquele momento e tentado cortar-lhe a garganta.

"Mas sou um homem de palavra, não sou?"

"Certo, não posso dizer que estava esperando você." Ele murmurou, voltando sua atenção para a luva "Ou que esteja feliz em vê-la. Então, que diabos você está fazendo aqui?"

Helyse continuou a encarar o homem queimado diante dela por algum tempo, sem dar resposta. O que podia dizer? Ela mesma não sabia por que havia desejado estar ali em primeiro lugar... Mas sua vida havia se distorcido de tal forma que ela não estava de fato surpresa com esse desejo. Aquele lugar parecia pertencer a uma parte da vida dela, a vida passada quando as coisas estavam dentro da rotina e as coisas eram mais compreensíveis. Agora, tudo lhe era confuso... E Helyse não sabia como agir ou se adaptar a isso.

"E o que isto tem a ver com Freddy? Não é só o lugar e você sabe disso, ele também faz parte da coisa" Ela pensou com amargura e deu de ombros em silêncio, enquanto tentava encontrar uma resposta para a pergunta dele. De fato, Freddy se tornara parte da vida dela, mas ela não podia dizer que gostava disso por mais acostumada com ele que ela estivesse... Aquele pensamento a fez lembrar-se de uma pessoa que fora parte da vida dela e a quem ela se acostumara... Mas jamais gostara. Naquela época ela havia apenas... Aceitado.

A memória a fez sentir como se seu sangue tivesse se tornado gelo e seu coração ardeu.

Por alguns segundos, Helyse e Freddy ficaram em silêncio, cada um ocupado com os próprios pensamentos e memórias até que a jovem murmurou.

"Não sei... Apenas fui para a cama pensando em estar aqui e aqui estou".

Freddy virou-se para ela com um sorriso de desdém. Helyse notou que as garras dele de fato tinham mais sangue do que ela se lembrava no sonho, logo o sangue fresco que ela notara pingando no chão de casa não podia ser dos seus amigos... Simplesmente não podia. Era sangue de uma vítima que, muito provavelmente, estava morta agora... Bem, ela provavelmente descobriria o nome da pessoa pela manhã e quem se importava com quem morrera? Ela não ligava. Uma vez que tinha certeza que após aquele pesadelo com Freddy tomando a forma de uma aranha imensa, nenhum de seus amigos teria adormecido.

"E quem pode culpá-los? Aquilo foi, no mínimo, nojento."

"Apenas pensando sobre estar aqui? E posso saber por quê? Não deveria estar pensando no seu namoradinho?" Freddy não conseguiu evitar perguntar em um tom de escárnio enquanto Helyse o encarava como se a possibilidade de namorar Jonathan não tivesse cruzado sua mente até o momento.

"Ele não é meu namorado e você sabe disso" Ela respondeu em um tom glacial de desprezo. Mas não era assim que os contos de fada terminavam? O príncipe coloca o sapato de cristal no pé da jovem suja e ela se transforma na princesa que merecia ser?

Não era este o sonho de todas as meninas?

Helyse não tinha certeza do que dizer agora e sentiu que sua face se tornava mais quente. Uma certa porção dela acreditava que Jonathan jamais sequer pensaria em sair com ela. Pelo amor de Deus, ele era um rapaz popular (a palavra veio em sua mente como que escrita em neon, brilhante e chamando a atenção) e ela estava o mais distante possível deste tipo de "grupo"... Tudo parecia muito bonito e romântico nos livros e filmes quando um homem popular e/ou rico se apaixonava e casava com uma pobre e rejeitada camponesa, no entanto, isto não era um conto de fadas. Era a vida real e as possibilidades de algo assim acontecer de verdade, eram, na opinião dela, zero. As pessoas que estão no topo jamais olham para aquelas que estão abaixo delas, mantém a cabeça erguida e só veem aqueles que estão no mesmo nível que elas...

As pessoas diriam que todos eram iguais e que se importavam uns com os outros e toda aquela besteira, mas era uma mentira. As pessoas nasciam naturalmente cheias de preconceitos e maldade, a única coisa que segura esses impulsos são leis, medo de ir para a cadeia ou Inferno. Poucos eram naturalmente bons de coração (e essas eram as pessoas que mais sofreriam em vida, quão injusto era isso?), muitos agem como se fossem bons e gentis quando não o são. Isto, para Helyse, era pura hipocrisia.

E agora Freddy vinha com essa idiotice sem sentido sobre um garoto lindo e popular saindo com uma que sempre era ou "invisível" ou o "bode expiatório" como ela? Aquilo era a maior piada e ela teria gargalhado se não fosse um tanto quanto triste.

"Mas Jonathan tomou conta de mim, não foi?" Ela pensou, tentando não olhar para suas mãos (coisa que ela sentia que poderia enfurecer Freddy ainda mais). Ainda que ela morrer antes de admitir qualquer coisa até para si mesma, fora bom ter alguém cuidando dela...

Freddy percebeu que a pergunta a deixara inconfortável e não gostou nada disso. Geralmente ela teria apenas o encarado como se ele fosse louco, não fazer uma declaração tão simples quanto o velho clichê "ele-não-é-meu-namorado" e então ficar olhando o chão daquela maneira tímida como agora. Desde aqueles malditos haviam entrado na vida dela, Helyse parecia estar mudando aos poucos, como se estivesse se recordando de como era ter sentimentos que não fossem tédio ou medo... Mas não era isto que o deixava zangado, se eles estivessem simplesmente mexendo com os sentimentos inexistentes dela, ele não daria a mínima, porém todos eles (principalmente aquele fodido garoto) estão mexendo demais com ela para o gosto dele. Freddy preferia quando ela era aquela moça que não se importava com quem morreria e cuidava apenas de si mesma.

"E porque diabos eu estou me importando?" Ele quase rosnou para si mesmo enquanto afiava as facas com raiva e imaginando-as cortando a garganta de Jonathan. Helyse notou e concluiu que era hora de mudar de assunto, ainda que não estivesse entendendo a razão, ela conseguia sentir que Freddy não estava gostando da direção da conversa. E sendo franca, ela mesma não estava gostando. Dava a ela uma sensação estranha, triste e amarga no estômago.

"E aí, vai me contar quem você matou hoje ou eu terei mesmo de esperar para descobrir?" Ela perguntou em um tom mais suave, como se aquilo não fosse mais do que um jogo.

Freddy riu enquanto examinava as lâminas e se voltou para ela com aquilo que alguém chamaria de um sorriso doentio de prazer.

"Ora, ora, e onde estaria a graça se eu simplesmente contasse? Não quero estragar a surpresa... Você terá de esperar e descobrir você mesma." Ele soava como um pai se recusando a contar para a filha que presente ele comprou para ela de Natal. Helyse entendeu que não adiantava insistir, pois não arrancaria nenhuma informação dele, portanto apenas suspirou e não disse nada mais sobre o assunto. Isto apenas fez Freddy pensar em outra coisa: Outra pessoa qualquer ficaria falando e falando sobre como matar era errado até que ficassem sem ar (e ele a essa altura teria perdido a paciência), mas aquela menina jamais sequer o olhara com desgosto quando o assunto era o fato de que ele era um assassino.

"Estou acostumado demais com ela para o meu próprio bem. Eu deveria simplesmente matá-la agora mesmo e acabar com isso." Ele pensou, mas decidiu apenas perguntar aquilo que rondava sua mente, algo que vinha lhe aborrecendo.

"Porque você nunca reclama disso? Qual é o seu problema?" Freddy perguntou, soando um pouco mais rude do que desejava, mesmo que a garota não tivesse dado a mínima, já estava acostumada com a falta de educação dele. Voltando-se para ele com um olhar confuso, Helyse não parecia entender.

"Do que diabos está falando? Reclamar do que?" Ela sinceramente pensou que ele se referia ao sangue que deixara pingar no chão da casa dela.

Freddy sentiu como se estivesse prestes a sacudi-la ou bater dela, como se ela fosse alguma máquina que se recusa a funcionar direito. Helyse, no tocante a certos assuntos, agia como se fosse mentalmente incapacitada.

"Sobre eu matar pessoas, sua vaca idiota! O que mais seria?" Ele tinha que se conter para não pronunciar a real pergunta: Porque ela não podia agir normal? No momento, ele não culpava os alunos que a tratavam como uma anormal na escola porque ela era anormal e isso com certeza irritava as pessoas após algum tempo.

Helyse não respondeu de imediato. Seria possível que Freddy estava tentando entendê-la? A troco de que? Helyse conhecia o Demônio dos Sonhos bem o bastante para ver que ele estava realmente irritado, talvez porque não conseguira matar ninguém do grupo dela naquela noite (ela se surpreendeu ao perceber que pensara neles como seu grupo) e, não querendo se ferir, a moça decidiu não provocá-lo. Ele não estava de bom humor.

Fazia um certo tempo desde que ela o vira assim...

"Quer dizer... Porque eu nunca reclamei que você mata pessoas? Como eu nunca tentei te convencer a parar?" Ela soava como uma criança tentando confirmar se compreendera direito a pergunta do professor na sala de aula, o que fez Freddy revirar os olhos. O que mais poderia ser?

Helyse por sua vez suspirou com irritação como se Freddy fosse o idiota e desta vez, estava realmente aborrecida. Não era óbvio a essa altura? Ela adoraria não responder já que não estava acostumada (ou gostava de) falar sobre seus pensamentos e opiniões. Era um pouco chato.

"E funcionaria?" Ela perguntou, sua expressão se tornando uma de total sarcasmo e desdém. Naquele momento, seus olhos que poderiam parecer um oceano calmo (e quase morto), pareciam mais piscinas de um gelo escuro como uma lagoa no inverno, mas sua voz era um sussurro sereno. "Faria você parar com essa chacina? Não e estou certa de que você odiaria ter alguém agindo assim, lhe dizendo o que deveria fazer com sua vida, então porque eu desperdiçaria meu tempo?" Ela pensou por um momento se deveria ter dito "morte", mas Freddy estava morto e ao mesmo tempo, não estava... Ele era tão confuso, parecia desafiar todas as leis de existência!

"Se sentiria melhor se eu parasse?" Ele perguntou, provocando-a. Helyse o encarava, uma mecha de seu cabelo caindo sobre sua face. Com a luz vindo do lado dela e ela o olhando daquela forma, ela parecia mais com o que ela realmente era: Uma jovem fria e sem coração, até egoísta, que não se importaria se alguém morresse diante de seus olhos.

"Para ser perfeitamente honesta, não dou a mínima para isso. Eu me sentiria muito melhor se você tivesse me deixado em paz..." Ela respondeu em uma voz baixa e então encarou os próprios pés como uma criança tímida pega dizendo algo tolo em classe. "Mas você não o faria, mesmo que eu pedisse"

"Não, não o faria." Ele voltou a afiar suas lâminas, desejando que Helyse simplesmente fosse embora. Mas uma coisa pelo menos ficara clara: Ela realmente não se importava se ele era um assassino. Enquanto Helyse até se importava com seus "amigos", o resto do mundo podia morrer de uma morte dolorosa que ela não se incomodava. E se Jonathan não tivesse chamado-a para se juntar ao time, ela ainda não estaria se importando com ninguém que não fosse ela mesma. Aqueles adolescentes eram as primeiras pessoas com as quais ela se importava, tudo porque ela já não os via como "colegais de time", mas como amigos.

Helyse percebeu a postura de Freddy e seus olhos e decidiu que era a hora ideal para se afastar. Aprendera sobre sua linguagem corporal e naquele momento, ela dizia em bom tom que ele estava realmente furioso e mataria qualquer ser vivo que ficasse perto dele tempo suficiente.

"Ele é tão confuso às vezes... Parece um bipolar" Ela pensou e se ergueu lentamente, se afastando não da sala da caldeira, mas apenas dele. Silenciosa como um fantasma, ela apenas andou pelo local, reconhecendo alguns lugares aqui e ali como a plataforma onde ela cantara para si mesma enquanto Taýra era morta. Isto lhe trouxe uma estranha sensação, nostálgica, porém aquecedora.

Freddy tinha razão em um ponto: Ela não se importava e nem tentava se importar. Porque deveria? Parecia sem sentido tentar sentir pena de alguém que ela sequer conhecia. E hipócrita também.

Entrementes, ela se importava sim com seus amigos. E se importava com Jonathan.

Lentamente, Helyse começou a murmurar uma melodia que lentamente evolui para uma canção que ecoou pelo resto da sala da caldeira como a canção de um fantasma.

"You're a part time lover – Você é um amante de meio período
and a full time friend – e um amigo em tempo integral
The monkey on you're back is the latest trend – O seu vício é a última moda
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

Freddy podia ouvir a voz dela e era como ouvir um fantasma cantando. De fato, aquela não era uma má comparação, era? Não, ele podia imaginar Helyse andando pela sala da caldeira com a camisola azul-clara e cantando para si mesma. A cor clara da roupa, pele e cabelo (poucas cores não seriam claras naquela escuridão) somadas ao silêncio e escuridão do ambiente aumentavam a força da imagem...

Exceto os olhos dela. Aqueles olhos de esfinge...

"E em que merda eu estou pensando?"

XxX

I kiss you on the brain – Eu te beijo no cérebro
in the shadow of a train – Na sombra de um trem
I kiss you all starry eyed, - Eu beijo com um olhar estrelado
my body's swinging from side to side – Meu corpo balançando de um lado para o outro
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

Helyse quase riu quando pensou em Jonathan. Sim, o cara popular de quem muitas meninas gostavam e alguns rapazes gostariam de ser ele. Aquilo não era um tanto estúpido? Quando alguém era popular no colegial, algumas pessoas podiam começar a se vestir como ele ou ela, usar a mesma maquiagem e penteado... Quase como se o Popular (ela pensou que a palavra merecia mesmo P maiúsculo) fosse uma celebridade.

"Bem, talvez eles sejam... Sim, de certa forma, são, não são?" Verdade, mas de alguma forma isso ainda soava... Idiota. Mesmo que ela pudesse entender quando alguém queria estar em qualquer outro lugar e ser qualquer outra pessoa... A jovem sentiu-se um pouco envergonhada já que, no fundo, não estava em posição de julgar ninguém, mas do jeito que as coisas eram na escola dela... Não conseguia evitar achar aquilo uma idiotice e desprezar.

"E porque eu não consigo esquecer aquilo?" Ela pensou um pouco triste, recordando uma época em que ela teria dado tudo o que tinha e era para... Bem, que se danasse. Não importava mais, só que ultimamente todo aquele medo e tudo que vinha acontecendo estavam trazendo de volta memórias que ela teria dado um órgão para esquecer para sempre...

Here is the church and here is the steeple – Aqui está a igreja e ali está o campanário
We sure are cute for two ugly people – Nós somos de fato fofos para duas pessoas feias
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

Mas aquilo que Freddy havia dito sobre ela sair com Jonathan... Certo, novamente, aquele era o final que aparecia em contos de fada e filmes... Ela se recordava de como se sentira aquecida por dentro quando ele lhe beijara o rosto, quando ele segurara suas mãos e a ajudara...

Ele tinha sido gentil de verdade com ela, ele tinha estado...

Extremamente apavorado quando notara o estado atual das mãos dela. Estavam em um estado lamentável e ainda sangrando quando eles acordaram. Quando ela murmurara febrilmente sobre sua habilidade nos sonhos, Jonathan mal a escutara por estar mais preocupado com o estado dela para ouvir.

E os outros também estavam preocupados com outras coisas.

"Minha perna! Porra! Isso dói!" Ela podia ouvir alguém gritando, mas queria ser amaldiçoada se sabia quem era. Lentamente tentou sentar sem usar as mãos para apoiar o peso do corpo, elas não haviam doído durante o sonho, mas agora ardiam com tal intensidade que lhe custava todo o autocontrole não gritar.

"Ah, merda, AH MERDA!" Outra voz gritando, mas não parecia um grito de dor.

"Calma, vá com calma..." Jonathan disse enquanto se ajoelhava ao lado dela e a ajudava a sentar. Também estava ferido, havia marcas dos fios de teia em seus pescoço e pulsos, mas ele parecia ter-se esquecido delas e um de seus braços estava em volta dos ombros de Helyse.

The pebbles forgive me,– As pedras me perdoam
the trees forgive me – As árvores me perdoam.
So why can't, you forgive me? – Então porque você não pode me perdoar?
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

"Oh, inferno! Ah, Deus!" Ele conseguiu reconhecer os gritos de Jessica. Suas pernas pareciam feridas e Helyse não percebera no sonho. "Como se eu pudesse notar qualquer coisa naquela hora" ela pensou consigo mesma, encarando as mãos enquanto tentava seguras as lágrimas de dor. Seu coração ardia como se ela tivesse corrido por milhas e estivesse a beira de um ataque cardíaco.

Kurt segurava o braço murmurando em dor, tentando parar um sangramento. Helyse conseguia ver o sangue pingando no chão, na forma de círculos.

"Jonathan, precisamos de ajuda aq... CARAMBA! O que houve com ela?" Mark agora se aproximara para pedir ajuda ao amigo e vira as mãos de Helyse. Não era uma visão bonita: As palmas eram uma teia de cortes sangrentos e fundos, a pele já não era alva, mas vermelha e as roupas dela estavam ensanguentadas. Era possível ver que em alguns pontos a pele parecia a ponto de cair devido aos cortes, e ainda havia cortes menores nos braços.

"Por favor... Ai..." Jessica sentara e chorava. Helyse viu suas pernas: As calças haviam sido parcialmente destroçadas e pelo que ela podia ver, parecia que Freddy, naquela forma monstruosa, tentara perfurar uma das pernas dela com uma de suas patas e arrancá-la do corpo da moça. Apesar dos próprios ferimentos, Kurt se aproximara e tentava acalmá-la.

Apesar de estar mais preocupada consigo mesma, Helyse sentiu um pouco de compaixão por Jessica e desejou que pudesse fazer algo por ela. Amelia parecia acabada, mas não tão ferida e ao lado de Jessica, murmurava estupidamente alguma coisa parecendo como se já não soubesse de fato onde estava e nem quem era. Helyse não entendeu porque se sentia daquele jeito. Era ilógico, se houvesse algo que ela pudesse ou devesse ter feito para ajudá-las, então seu sentimento faria sentido, mas naquela hora não houvera nada que pudesse ser feito!

"Há algumas coisas naquela caixa cinza ali! Sabia que íamos precisar!" Jonathan respondeu em um grito, mais para Amélia (a menos ferida na sala), mas a garota não se moveu. "AMELIA! A caixa cinza na mesa!"

Como se o grito a tivesse acordado definitivamente, Amelia se moveu, trêmula e desajeitada, agarrando a caixa e tirando dela tubos, gazes, pomadas e uma pequena garrafa de soro.

Jonathan, ainda segurava Helyse, como se sentisse por ela.

I will find my nitch in your car – Eu acharei meu graveto no seu carro
With my mp3 DVD rumple-packed guitar – Com meu mp3, DVD, violão
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
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"Você sabia que precisaríamos disso..." Ela murmurara para ele, que estava pedindo por algumas das coisas que Amélia tirava da caixa de primeiros socorros. Agora a moça ajudava Jessica a limpar as feridas enquanto Mark tomava conta das próprias feridas e examinava uma ferida que Amelia tinha nas costas. Apesar de Amelia ter murmurado algo sobre Helyse e Mark ter perguntado a Jonathan sobre o estado de ambos, Helyse não conseguia se lembrar do que haviam dito exatamente.

"Bem... Eu..." Ele disse para ela enquanto segurava as mãos dela entre as dele, tomando cuidado para não tocar as feridas (ou ao menos tentando). Ela balançou a cabeça devagar.

"Não... Foi bom... Você planejou... Deixou isto perto de nós" Ela não conseguiu terminar a frase, mas Jonathan assentiu. Sim, ele deixara a caixa perto, para o caso de alguém estar seriamente ferido quando acordassem, a caixa de primeiros socorros estaria o mais perto possível assim como telefone, pronto para chamar uma ambulância.

Isto deu a Helyse um estranho sentimento, não exatamente aquecedor, mas ela não sabia o que era. E distraída como estava, sequer prestou atenção.

"Graças a Deus que ninguém teve ferimentos mais sérios... Quero dizer, não que isto não esteja doendo, claro" Ele acrescentou como se temesse tê-la ofendido. Era até que adorável o modo como ele agia, com aquela situação sendo estranha para ambos, mas eles no momento agiam de acordo com seus respectivos instintos. Jonathan não era de questionar seus próprios atos.

"Você também está ferido" Ela murmurou e ergueu a outra mão como se quisesse tocar-lhe o pescoço, mas a dor a impediu. Mal conseguia mover as mãos de tanta dor e Jonathan notou, puxando-a gentilmente e ajudando-a a se levantar. Devido a perda de sangue, ela terminou se apoiando nele

"Eu ficarei bem, vamos..." Ele se virou para os outros. "Ei, alguém aí pode me ajudar aqui com a Hell?"

Os outros não responderam diretamente. Jessica estava muito ocupada chorando, mas murmurou qualquer coisa sobre ajudá-los assim que terminasse. Amelia ainda estava em um estado de choque e nada disse. Kurt idem. Mark, porém respondeu com uma seriedade que Helyse jamais vira nele.

"Estarei com vocês em um minuto"

Jonathan a levou até outra sala... Não era realmente uma sala separada por porta, apenas dobrando o canto. Ele fez Helyse sentar-se em uma pequena poltrona e ajoelhou-se diante dela, pegando as mãos dela delicadamente e olhando-as com uma expressão doce, mas estranha.

Up up down down – Para cima, para cima, para baixo, para baixo
left right left right B A start – Esquerda, direita, esquerda, direita, A, B, começar
Just because we use cheats – Só porque usamos cheats
doesn't mean we're not smart – Não quer dizer que não sejamos espertos
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Antes que Helyse pudesse dizer qualquer coisa, ele beijou aquelas palmas ensanguentadas e começou a limpar as feridas com um algodão com soro. No mesmo segundo, Helyse sentiu como se sua face estivesse em chamas. Imaginara que ele apenas lhe daria as coisas necessárias, não que fosse realmente tomar conta das feridas ele mesmo.

"H-Hey... Eu posso fazer isso... Cuide das suas..." Mas não conseguira continuar quando ele ergueu o rosto e encarou-a nos olhos. Pela primeira vez, ela percebeu que ele era belo e não conseguiu evitar corar estando sob aquele olhar verde e tão intenso.

"Você salvou minha vida esta noite... Eu poderia ter morrido se você não tivesse lutado contra aquela teia.."

"Talvez, mas não... Não foi... Quero dizer... Eu não estava pensando. E não podemos ter certeza de que você teria morrido ou não..."

"Não muda o fato..." Ele respondeu sem olhar para ela. No fundo, Jonathan estava surpreso. Ele se acostumara com a ideia de que Helyse Blake era uma aberração e que não possuía qualquer tipo de sentimentos, nem tristeza, nem felicidade, nada. Mas ele vira que estava errado quando a vira esta noite: Assustada e preocupada com outros e agora ela buscava esconder que estava à beira das lágrimas. Isto o fazia sentir-se envergonhado pelas coisas que ele pensara e dissera sobre ela e agora se perguntava se Helyse jamais chorara na escola quando os outros a atormentavam não porque ela não se importava, mas porque não possuía lágrimas o suficiente.

E quem poderia dizer que ela não chorara quando estivera sozinha em casa?

Ele não sabia nada a respeito dela... E agora estava arrependido do que dissera. Ela parecia ter sentimentos, mas era como se os tivesse de forma diferente.

You are always trying to keep it real – Você sempre tenta manter isso real
I'm in love with how you feel – Estou apaixonada por seu jeito de sentir
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
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"E não é assim com todos?" Ele pensou, embaraçado. "Cada pessoa tem sua própria e opinião. É a mesma coisa, cada pessoa tem um jeito próprio de sentir e pensar de forma diferente dos outros, mas não é desculpa para tratar alguém como... Como..." Ele não conseguia encontrar uma definição, mas não importava. A forma como certas pessoas tratavam outras não era apenas cruel: Era obscena. E o que fazia tudo pior era que as pessoas que chutavam outras no corredor iriam achar extremamente engraçado quando essas outras "aberrações" caíam. Mesmo se quebrassem um dente, iriam rir como se fossem palhaços e sua dor, irreal.

Pensando nisso, ele sentiu-se sujo e como se não merecesse tocar essa moça racional diante dele, de quem ele havia rido e ainda assim, ela o ajudara hoje.

Jonathan não era santo. Dissera coisas sobre ela e para ela, tomara seu lugar na multidão daqueles que riam quando alguém atingia seu braço e fazia os livros caírem e não faria nada quando alguém colocasse o pé diante dela, fazendo Helyse cair com o rosto no chão e não gritaria em defesa dela se alguém chutasse sua cabeça.

Tudo que Jonathan vira fora uma menina que sempre olhava para o chão, o rosto meio escondido pelo cabelo. Uma garota que jamais dizia uma palavra na sala de aula e que era perturbadora pelo fato de que jamais mostrava sentimentos. Agora ele via que só porque ela não demonstrava, não queria dizer que não os tivesse...

Mas era difícil dizer "me perdoe"... Muito difícil...

We both have shiny – Nós dois temos brilhantes
happy fits of rage – felizes acessos de raiva
You want more fans – Você quer mais fãs
I want more stage – Eu quero mais palco
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

"Jonathan?" Ele ouviu-a chamando com uma voz doce e tímida. Terminara de por bandagens em suas mãos e agora apenas as acariciava, sentindo como eram frias e desejando que pudesse aquecê-las.

"Sim, Hell?" Ele a olhou, inseguro se ela gostara do apelido que Jessica lhe dera, mas a única reação dela foi uma expressão fraca e um pouco triste...

"Obrigada..." Ela murmurou naquele tom suave, sua voz mais baixa que um murmúrio.

Nenhum deles notou os sussurros vindo da outra sala ou que nem Jessica nem Mark tinham vindo ver como estavam, como haviam dito que fariam.

Don Quixote was a steel driving man – Don Quixote era um condutor durão
My name is Adam I'm your biggest fan – Meu nome é Adam, sou seu maior fã
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

O modo como ele praticamente a abraçara enquanto a ajudava a se sentar... Fora bom, Helyse não podia negar... Ela sentira-se... Bem, protegida. Mas seu estado de mente fora tal qual que não estivera pensando direito. Tudo que vira fora sangue, suas mãos cheias de sangue... Embora pudesse ver bem os cortes, não prestara atenção neles exatamente. Tudo o que vira fora o sangue... Todo aquele sangue...

E havia ainda aquela conexão com Freddy, o que ela não contara a ninguém. Novamente, podia imaginar isto como uma corrente em volta deles.

"Às vezes é como se as coisas ao meu redor não quisessem que eu esquecesse o que aconteceu naquele dia..." Fora um dia ou noite? Não sabia. Sempre tentava não pensar a respeito. Mas era isso. Primeiro Freddy vira parte daquela lembrança e agora isto...

"Droga... Pare de pensar nisso! Foi há anos! Malditos anos atrás!" Ela pensou, com raiva de si mesma. Não queria se recordar, não porque a fazia se lembrar de quem era, mas porque era doloroso. Helyse não tinha arrependimentos pelo que fizera. Não era isso que fazia a memória ser tão dolorosa.

"É, continue assim. Porque já não conta para Jonathan sobre isso e aproveita para falar que se não tivesse mantido sua boca fechada, Russo estaria vivo?" Mas jamais faria isso. Em dois casos, não se arrependia. Fora parcialmente culpada na morte de Russo, sim, e não estava nem aí. Até se divertira!

Squinched up your face and did a dance – Levanto sua cabeça e faço uma dança
You shook a little turd – Você tira uma sujeira
out of the bottom of your pants – Da parte de baixo da calça
I don't see what anyone can see, - Eu não vejo o que qualquer um pode ver
in anyone else – Em mais ninguém
But you" – Além de você

Mas imaginar a expressão de Jonathan se ele soubesse, era surpreendentemente doloroso. Ela, que jamais se importara com o que pensavam dela, agora estava preocupada e com medo disso.

But you – Além de você

Ela tinha medo de ver o desapontamento e ódio nos olhos dele. Aqueles olhos que a faziam sentir-se como se não houvesse escuridão... Nenhuma escuridão no mundo, nenhuma escuridão nos sonhos e nenhuma escuridão ou pecado em sua alma...

Embora houvesse. Ambos. E ela não tinha arrependimentos... Sobre nenhum dos dois.

XxX

A manhã cumprimentou Springwood com um céu cinzento e nublado que anunciava que uma tempestade cairia a qualquer momento. E isto combinava com o humor do resto do grupo.

Helyse não estava surpresa em ver que Amelia não viera à escola e que Jessica, que geralmente usava shorts ou uma saia, estava de calças longas. Algumas pessoas em sua classe, perguntavam a Kurt como ele machucara o braço e Helyse sabia que ele estava contando mentiras, mas não ouviu quais eram.

Desnecessário dizer, ninguém perguntou a ela porque suas mãos estavam envoltas em bandagens. Isto não a aborreceu, ela mal percebeu o ocorrido, tinha outras coisas em mente.

O que chamava sua atenção era como algumas pessoas pareciam tristes e havia rumores de que alguém morrera. Helyse sabia que fora Freddy, mas ainda não sabia quem fora a vítima e não sabia como perguntar a alguém... E depois da última noite, não se sentia confortável em perguntar a Kurt, ele já parecia estar muito mal.

Poderia ter sido Amanda? Fazia sentido. Freddy estaria ferindo Kurt ao fazê-lo... Quando pensou sobre isto, percebeu que não a feria. Okay, ela salvara Amanda, mas não possuía sentimentos em relação à menina como pessoa.

"É apenas uma menininha... Foi só por isso que eu a ajudei. Eu estava lá e podia fazer algo." Era muito simples. Se Amanda fosse mais velha, Helyse não teria feito nada, mas novamente, ela era uma criança. Mas se tivesse sido morta agora, Helyse não se importaria. Não era como se pudesse ter feito algo.

"Mas se Amanda tivesse morrido, Kurt sequer teria vindo à escola hoje, não é?" Mesmo se tivesse vindo, estaria com uma aparência pior do que a que apresentava atualmente. "E por sinal, Helyse, você tem realmente olhado para o espelho ultimamente?"

No fim, descobriu o nome do morto no almoço. Helyse trouxera comida de casa, mas desta vez não foi para a arquibancada onde ficava normalmente, mas foi sentar-se com os outros. Jessica estava horrível: Seus olhos estavam vermelhos como se tivesse chorado por horas e não usava maquiagem. Helyse poderia não ser amiga da menina, mas admitia que jamais a vira em tal estado de desespero.

"Jessica?" Ela perguntou lentamente. A moça a encarou estupidamente e nada disse, embora algo parecesse faiscar em seus olhos. Ao lado de Helyse, Kurt murmurou.

"Evelyn Sanderson morreu..." Helyse piscou duas vezes... Do fundo de sua mente, veio uma risada alta e aguda, palavras que pareciam fazer um eco.

"E aí, alguém notou que você está viva?"

Uma garota de cabelos negros que pisara em sua mão...

"Porque você não morre, Blake?"

Sim, ela conhecia Evelyn Sanderson. Fora quem pisara em sua mão no dia em que voltara para a escola após o coma... Evelyn costumava ser uma das pessoas que preferiam a atormentá-la a ignorá-la e aquela cena entre elas não fora a pior que já acontecera.

E agora, Evelyn estava morta. Helyse não conseguia evitar sentir um tanto quanto agradada. Já vai tarde, desgraçada. Ela sentia-se grata e mesmo que soubesse que Krueger não fizera isto por ela, iria agradecê-lo assim mesmo assim que o visse. Menos uma pessoa para azucriná-la.

"E-Ela não me-merecia isso" Jessica soluçou. Helyse logo se lembrou de que Evelyn e Jessica eram amigas. Não era surpresa que ela estivesse tão triste. "Ela era tão... Tão boa! Ela era uma boa amiga!"

Helyse teria adorado debater se Evelyn era uma boa pessoa ou não, mas resolveu ficar calada, ainda que em sua mente pudesse se recordar do dia em que Evelyn lhe perguntara se sua mãe morrera de desespero porque a filha era uma coisa como ela ou se fugira para não ter que criá-la.

"Bem..." Ela começou, mas não sabia o que dizer para confortar Jessica. Para isto, precisaria lamentar a morte de Evelyn e ela não sentia isso. Em seu ponto de vista, Evelyn era um tormento e era ótimo que tivesse morrido. Ela queria até detalhes de como Freddy a matara e só lamentava não ter estado presente durante o assassinato.

Jessica olhou Helyse, respirando depressa como um cavalo com a boca fechando até que seus lábios fossem uma linha fina.

"Olha aqui, o que..." Ela pareceu perdida em palavras e então olhou para Kurt com raiva. "Kurt!"

Helyse não entendia o que Jessica queria dizer. Kurt, porém, parecia chateado com alguma coisa e Jonathan estava irritado.

"Jessica, de novo não..."

"O que de novo não?" Helyse perguntou, confusa sobre o que estava acontecendo. Jessica se voltou para ela e Helyse percebeu que a moça estava a beira das lágrimas. Bem, com a amiga morta, nada surpreendente, mas porque ela parecia zangada com ela? O que ela tinha feito?

Jessica respirou fundo como se estivesse se controlando para não gritar e falou em um tom geralmente usado para crianças pequenas.

"Olha.. Blake... Será que você poderia não sentar mais com a gente?" Seu tom de voz era o de um adulto pedindo à criança para não se meter na "conversa dos adultos", um tom de voz que ela com certeza pensava que era doce, mas Helyse sentia o que havia por detrás disso.

A garota não respondeu. Deveria ter sabido. Era evidente... Quem andava enganando? Não acabara de se recordar que Jessica era amiga de Evelyn?

E porque isto lhe feria assim? Como algo que não era uma surpresa, algo que ela sabia que aconteceria mais cedo ou mais tarde, poderia feri-la, se era esperada? Helyse sentia seu coração arder e fez o possível para controlar a dor, expulsando seus sentimentos... Não sumiu de todo, mas melhorou um pouco...

"Jéssica, só porque você está chateada..." Jonathan começou, mas Jessica o ignorou..

"Não é que não queremos você no time, é só que gostaríamos... Eu gostaria que... Você não comesse mais conosco... Sabe, meus amigos estavam me perguntando sobre isso e... Bem, é melhor que você não ande mais conosco, pelo menos não na escola"

"Não é melhor dizer logo que você não quer ser vista com alguém que não seja popular?" Helyse pensou. "Viu, só, Freddy? Você não estava dizendo algo noite passada sobre eu sair com Jonathan? Deveria ouvir Jessica, ela poderia lhe ensinar uma coisa ou duas..."

"Jessica!" Jonathan chamou-a, em tom zangado. "Pare com isso! Você está sendo apenas..."

"Sendo o que? Não é só isso!" Ela se virou de Jonathan para Helyse e abandonou o tom doce de voz. Seus olhos queimavam de raiva e dor e sua voz era gélida, nervosa e rancorosa. "Merda! E tem mais! Taýra e Scott morreram e essa maldita coisa está viva? Evelyn era boa e doce e Taýra também! Scott... Ele era..." Jessica soluçou e parecia furiosa de modo que era difícil apenas falar e não começar a chorar.

Helyse queria se erguer e ir embora. Mas viu-se colada à cadeira. Algumas pessoas olhavam para eles agora, mas felizmente Jessica ainda não estava gritando, apenas sussurrando... Ainda assim, suas lágrimas e expressão bastavam para chamar a atenção.

"Cacete! Porque você não morreu? Scott merecia estar vivo! Porque não foi você? Deveria ter sido você!"

Helyse finalmente encontrou forças para se levantar e saiu da cafeteria em silêncio. Podia ouvir as pessoas sussurrando e sentia olhares furiosos pesando sobre ela como se fossem de aço. Podia ouvir Jessica dizendo algo para Jonathan e os outros.

"Não me venha com essa! Taýra e Scott morreram, Evelyn morreu e ela não? Porque isso? Porque Evelyn, de quem a vaca não gostava, teve que morrer? Porque não ela? Evelyn nunca fez mal a ninguém!"

A cafeteria era próxima do campo, onde Helyse caminhou notando as nuvens no céu. A chuva estava próxima e cairia logo... Ótimo. Ele gostava de chuva.

Bem, não estava mesmo surpresa com nada que acontecera. A garota sabia que era um acontecimento inevitável... Sabia... Mas na verdade, Helyse esperara que acontecesse mais tarde, após derrotarem Krueger (e se ainda estivessem vivos), não enquanto eram... Bem "colegas de time".

A chuva começou a cair. Ao invés de sair para se abrigar, Helyse permaneceu ali, deixando a chuva cair sobre si, sentindo cada gota cair em sua pele e cabelo, sem se importar se ainda teria aulas e as assistira molhada. O prazer valia a pena... Ela ainda se recordava de um tempo em que teria dado tudo para sentir a chuva... Parecia lavá-la por inteiro, limpando-a.

"Não pense a respeito..." Ela sussurrou para si mesma e tentou expulsar memórias de anos atrás e momentos atrás, tentando se focar apenas na chuva, em cada gota e como era boa a sensação da chuva contra sua pele... Como o cheiro era bom... Tão limpo e puro...

Helyse escutou alguém atrás dela e se voltou, esperando (quase desejando) que fosse Krueger, mas não era ele...

"Hey, Helyse..."

Era Jonathan. Talvez tivesse vindo dizer que ela ainda era do time e toda essa baboseira? Provavelmente. Ou talvez não, afinal, ela não pensava que o poder que demonstrara fosse uma grande ajuda.

"Sim?" A moça perguntou, querendo que ele apenas dissesse o que queria e desse o fora. No momento, Helyse queria ficar sozinha e não ser lembrada de como fora idiota em até mesmo considerar que poderia ser amiga deles. Como pensara na última noite, eles não estavam no mesmo nível social, pelo menos não na hierarquia escolar.

"Olhe, a Jessica está... Ela está um bocado triste... Então não leve a sério e..." Ele não conseguia dizer nada. Correra atrás dela, preocupado e irritado com as palavras de Jessica e agora não sabia o que dizer para confortar aquela moça diante dele, que apenas o encarava, pacientemente, como se apenas esperando que ele dissesse o que tinha para dizer.

Os olhos azuis escuro dela apenas o miraram e naquele momento, ele a achou bela, com a chuva caindo sobre ela.

"Porque eu deveria estar chateada? Tudo o que ela disse não é nada além da verdade..." Helyse disse lentamente e embora sua voz não tivesse tristeza, Jonathan sentiu pena dela. Havia mais que pena, havia um desejo de estar ali por ela, de escutá-la.

"Por favor, não..." Ele pensou... Mas "por favor, não" o quê? O que o incomodava naquela visão?

"Helyse, isso não..." Ele começou, mas Helyse o interrompeu.

"Ora, é sim." Sua expressão era tão doce que ele não entendia. "Scott era namorado dela. É mais que natural que ela deseje que eu estivesse morta e ele, vivo."

Embora fizesse sentido, Jonathan achou que não era natural. E mesmo que Helyse não chorasse, ele sabia que Jessica a magoara, pelo menos até certo ponto... E enquanto algumas pessoas estavam confortando Jessica, pessoas que nada sabiam sobre Krueger, não havia ninguém confortando Helyse.

"Por favor, pare... Com essa expressão."

"Então, não tenho motivos para me importar." E ainda assim, ela se importava. Qualquer imbecil podia ver. Ela pensara que eram amigos e agora via que estava errada.

Olhando para ela, Jonathan podia ver como seus olhos eram bonitos... Ela não era a garota mais bela que ele já vira, mas aqueles olhos...

"Olhos de esfinge... Exatamente como olhos de esfinge..." Ele percebeu que não conseguia ler aqueles olhos... Havia emoções que ele não conseguia definir e algo mais, como um enigma ou um grande segredo que ela não queria compartilhar com as pessoas...

Mas Jonathan não conseguia evitar encará-la... Ela parecia tão bela e tão só que ele não conseguia parar de pensar em todas as vezes em que testemunhara, fizera ou tomara parte em alguma piada cruel sobre ela (ou qualquer outro dos considerados "excluídos") e como jamais parara para pensar se estava ferindo-a ou não... Era tudo engraçado demais e divertido demais... E mesmo quando as pessoas falavam sobre bullying, ele concordaria que era algo nojento e uma coisa horrível, mas não parava com as zombarias, porque...

Por quê? Porque era tão engraçado? Porque ele jamais considerara que poderia estar ferindo a ela ou a qualquer um dos outros de quem já rira e zombara? Porque jamais notara que ela sempre comia sozinha, nunca era convidada para festas e tinha que fazer trabalhos escolares sozinha e nunca parara para pensar que ela não tinha pais e, portanto, ninguém para quem pudesse contar os problemas em casa? Porque nunca parara para pensar, nem por um momento, se ela chorava sozinha em casa?

Sim, talvez por causa de tudo isso.

Helyse continuava a olhar para ele, sem um traço de emoção, seus olhos de esfinge perturbadores como sempre... Um enigma que ele jamais seria capaz de decifrar, ela permanecia imóvel como se só esperando que ele fosse embora.

Ao invés disso, Jonathan caminhou até ela e a abraçou.

Pôde senti-la ter um espasmo em seu abraço, como se esperasse tudo menos isso (e estava certo). Ele sentia-a tremer, mas não sabia se era de frio ou de algo mais...

"Jonathan?" Ela perguntou, subitamente muito mais tímida que antes e olhou para ele como se não pudesse entendê-lo. "Saia... Me solte, você está ficando ensopado..."

"Você também..." Ele respondeu em um sussurro, surpreso como sua própria voz soava madura. Helyse tentou se libertar, mas ele não permitiu. Sentia que não poderia, que se a soltasse, ela desapareceria como um estranho sonho ou ilusão. Helyse ainda o olhava confusa e até mesmo... Assustada?

Lentamente, como se ela fosse um pequeno animal que ele não queria assustar, ele se inclinou e a beijou.


A canção deste capítulo se chama "Anyone Else But You", direitos reservados à Moldy Peaches.Nenhum dinheiro foi ganho aqui. Canção pedida por Tiny-SpockhatesTacos.