Cap 01 - Cão Preto

Ele acordou onze horas da manhã. Aquilo era rotina, já que não tinha um emprego não se sentia obrigado a acordar cedo. Mesmo que esse tipo de atitude atraísse rótulos como vagabundo e desocupado. Martim Souza tinha trinta anos e nunca teve um emprego certo na vida. Vivia fazendo bicos e terminou seus estudos no ensino médio. Era um homem sozinho, morava em um treiler que ficava próximo a um parque de diversões abandonado. A localização era péssima, o parque servia como ponto de drogas e mendigos. Mas Martim não se importava com isso. Pra ser sincero não haviam muitas coisas com que ele se importasse na vida.

O treiler de Martim, mesmo se considerando que era casa de homem solteiro, era muito desarrumado. Roupas sujas e toalhas molhadas ficavam espalhadas no chão, alguns pratos de comida não lavados ficavam na pia atraindo todo tipo de bicho. O treiler era apertado. Tinha apenas um quarto, um banheiro e uma sala sem divisória com a cozinha. Na sala havia um sofá de três lugares e uma televisão de quinze polegadas. No quarto de Martim havia uma das poucas coisas com que ele se importava. Sua guitarra. Seu instrumento de trabalho.

Martim era um homem pálido, com rosto ossudo e bastante magro. Seu cabelo era bem preto e seus olhos tinham um pouco de olheira. Apesar de não ser viciado, muitos erroneamente o tratavam como um usuário de drogas. Essa não era sua praia. Apesar de já ter experimentado uma ou outra substância ilícita na vida.

Hoje era dia de festa, Martim vestiu sua roupa favorita. Uma calça jeans preta e uma blusa branca com um ômega e, logo abaixo, um X desenhado. Por cima da blusa ele vestia uma jaqueta de couro preta. Daquelas que o faziam parecer um motoqueiro.

Enquanto não chegava a hora, Martim se distraia com sua guitarra. Treinando alguns riffs novos. Ligado a um amplificador de baixa potência Martim treinava movimentos que poderia usar em sua próxima apresentação com sua banda. A Mucosa Cerebral. Mesmo nunca obtendo muito sucesso, a não ser nos meios mais undergrounds, com sete anos de estrada Martim não esperava fazer mais nada na vida.

Oito horas da noite. Martim sai do treiler e pega um ônibus até o bar. O bar era um lugar conhecido pelos apreciadores de Rock underground na cidade. Logo na entrada Martim apertou a mão do segurança. Um homem forte de cabelos compridos. Um metaleiro bem estereotipado. No lado de dentro Martim não demorou a sentir a baforada de cigarro. Sob seus pés ele podia sentir o chão pegajoso, devido a tanta bebida já jogada no piso.

A guitarra e a bateria estava a todo volume. Contagiados pelo ritmo frenético os fãs mais ardorosos ficavam próximos ao palco se digladiando entre si. O vocal, para os que não gostavam do estilo, parecia rosnados sem sentido. Para os fãs era a coisa mais animal do mundo.

A noite iria ser longa, mais quatro bandas se apresentaram de estilos diferentes. Martim a maior parte do tempo passou bebendo ou falando conversa fiada com alguns conhecidos que encontrou.

Três horas da manhã foi quando a última banda fez sua apresentação. A essa hora a maioria da plateia já tinha ido embora. Mesmo assim Martim só saiu no final, no cisco. Cambaleando por causa das várias latinhas que consumira Martim teve dificuldade pra andar na rua. Estava sozinho, algo ruim, já que não tinha nenhum ombro amigo para se escorar.

Martim tentou ir até o ponto de ônibus, mas devido a uma decisão errada sobre qual rua tomar ele acabou errando o caminho. Demorou a ele desconfiar que estava seguindo o rumo errado. Quando descobriu ao invés de retornar se jogou no primeiro banco de praça e ficou lá. Jogado de maneira displicente.

Martim estava em uma pracinha. Como era muito tarde, ou muito cedo, não havia mais ninguém na rua. Uma situação que poderia ser perigosa se ele não conhecesse e, inclusive, tivesse feito amizade com a bandidagem local.

Seus olhos pesaram e ele quase pegava no sono. Porém o som insistente de porta se batendo ao sabor do vento começou a incomodá-lo. Do outro lado da rua havia uma casa azul simples, que surpreendentemente estava com a porta da frente escancarada. Ignorando a insensatez daquele ato Martim foi até a bendita casa nem que fosse só para colocar um calço na porta que o estava irritando.

Ao chegar na casa sem querer Martim acaba vendo o lado de dentro. Sua mente entorpecida fez com que não entrasse em desespero ao ver a cena. Havia um homem jogado no chão com o que parecia ser as tripas do lado de fora. O sujeito estava morto de forma deplorável. Mesmo com nojo Martim se aproximou do corpo. Sua curiosidade falando mais alto do que seu bom senso.

Quando chegou perto do cadáver Martim ouviu um latido alto que o fez ficar em estado de alerta imediatamente. No fundo da sala ele conseguiu ver o que parecia ser um cachorro negro incrivelmente grande. Assustado, Martim saí correndo e fecha a porta atrás de si. Bem a tempo, a criatura que estava do lado de dentro latia e arranhava a porta. Frustrada por não ter alcançado sua presa.

Martim pega seu celular do bolso e liga para a polícia. O atendente, reconhecendo sua voz bêbada, quase ignorou aquele chamado. Quase. Em poucos minutos uma viatura foi mandada ao local.

- A porta da casa estava aberta. Fui dar uma espiadinha e, meu Deus, me apareceu um cão preto enorme!

- A polícia não encontrou animal nenhum na casa.

- Mas eu vi, eu juro!

Na delegacia Martim estava tendo dificuldade em dar seu depoimento. Primeiro porque não estava sóbrio o suficiente pra por suas ideias em ordem. Segundo porque ninguém dava muito crédito a um bêbado vestido daquele jeito.

- Tente não sair da cidade. Ao menos não até esclarecermos tudo.

Se Martim não estivesse com sua capacidade de raciocinar reduzida iria perceber que os policiais o viam mais como suspeito do que como testemunha. Do lado de fora da delegacia Martim se encosta a um poste e coloca tudo o que estava em seu estômago para fora.

- Noite difícil, não?

Martim olha para trás e enxerga um homem de mais ou menos cinquenta anos. Cabelos grisalhos e vestido de maneira elegante demais se for colocar em conta o bairro onde estavam.

- Me chamo Nicolelis. - O estranho estendeu a mão, mas a recolheu logo já que Martim não retribuiu o gesto. - Soube de sua história e quero que saiba que, ao contrário dos policiais, acredito em você.

Martim normalmente não aceitaria um convite de um completo estranho para tomar um café, mas aquela noite era por demais atípica. Os dois foram parar em uma lanchonete não muito distante dali. Martim tomou um café amargo, pra ver se a ressaca passava. Nicolelis tomava capuchino.

- O que você viu foi um sinistro. - Disse Nicolelis.

- Oi?

- Uma espécie de cão das trevas sobrenatural.

- E eu pensando que era o único bêbado aqui.

- O que mais me impressiona foi o fato de você ter conseguido enxergá-lo. Esses tipos de criaturas geralmente são invisíveis para as pessoas "normais".

- Obrigado pelo café, mas acho que vou ficando por aqui.

Martim se levantou da mesa e se dirigiu até a saída, só sendo impedido por um comentário certeiro de Nicolelis.

- Essa não foi a primeira vez que você vê algo que ninguém mais vê, estou certo? Como foi sua infância e adolescência? Problemática? Seus pais não o entendiam e te entupiam de remédios?

- Como você sabe disso?

- Sua história é mais comum do que você imagina, acredite.

Nicolelis tirou do bolso um cartão e o entregou a Martim que leu com curiosidade. Havia um número de telefone além de uma logo com um nome muito esquisito. - "Liga das sombras"?

- O nome é um pouco intimidador, mas nosso trabalho é sério. Ligue se lembrar de mais alguma coisa ou se precisar de ajuda.

Martim ficou olhando para o cartão enquanto pensava no que significaria tudo aquilo. Assim que levantou a cabeça para fazer outra pergunta toma um susto. Nicolelis que estava a sua frente naquele instante havia sumido. Desapareceu no curto espaço de tempo em que Martim havia tirado sua atenção dele.

Quando voltou ao seu treiler já havia amanhecido. Ainda cansado por causa da bebida e da noite longa Martim se jogou na cama sem se preocupar em tirar a roupa suja ou tomar um banho. Fechou os olhos e apagou.

Após cair de uma altura enorme ele se chocou contra um chão duro que parecia ser de concreto, mas ao contrário do que a lógica sugeria não teve um arranhão sequer. Naquele momento Martim havia percebido que estava presenciando um sonho. Achou estranho. Não costumava ter sonhos lúcidos ou tão vividos como aquele.

Parecia ser noite, já que estava muito escuro. Mesmo assim Martim conseguiu ver a casa. Do lado de fora parecia ser uma moradia normal, porém ao se aproximar mais deu pra ver que não era. Parecia uma casa de show, tendo placa luminosa na fachada, com um nome que Martim não conseguia ler. Como a porta estava aberta Martim entrou.

Se Martim tinha duvida se aquilo era um bordel a duvida se foi assim que pôs os pés do lado de dentro da casa. Homens estranhos, fantasiados das mais variadas formas desde caubóis até a astronauta, agarravam mulheres seminuas enquanto bebiam e se drogavam. No palco garotas dançavam de uma forma a todo instante levantar a saia, nesse momento revelando que não usavam nada de baixo.

Martim sentiu uma mão passando pelo seu peito. Ele se virou assustado, mas relaxou ao notar que aquela mão pertencia a uma linda garota. Se aquilo era só um sonho, porque não aproveitar? Pensou Martim.

Infelizmente ele não teve oportunidade pra tanto. Uma voz gutural se fez presente o deixando bastante assustado. Aquele cenário subitamente havia se desmanchado. O bordel, as garotas e os clientes desapareceram fazendo com que tudo voltasse ao escuro.

- Posso te apresentar a vários prazeres, te mostrar muitas maravilhas. - Dizia a voz gutural. - Basta você aceitar trabalhar ao meu lado.

- Quem é você?

Em resposta a indagação de Martim um rosto enorme se fez presente na escuridão. O rosto parecia ser de um homem próximo aos cinquenta. Tinha barba e bigode, mas não possuía cabelo. Na testa ostentava um desenho estranho. Um pentagrama.

- Pode me chamar de Lorde Mundus. Sou o dono da sua cidade. Um dos vários mestres que controlam a vida dos mundanos a partir das sombras. Mulheres? Dinheiro? Fama? Eu posso te dar tudo isso e muito mais.

Martim foi levado a outro cenário. Dessa vez estava no que parecia ser um show a céu aberto. A plateia se apertava, milhares ovacionavam a banda que se apresentava no palco. Mesmo distante Martim conseguiu identificar a si mesmo, ou uma cópia sua, tocando guitarra junto com o resto de sua banda, a Mucosa Cerebral. Olhando a sua direita Martim viu uma placa escrita Wacken Open Air. Wacken era um festival de Rock na Europa muito famoso e cujo a banda de Martim tinha pouquíssima chance de participar.

- Posso patrocinar sua banda. Fazê-los famosos.

- Você quer o quê em troca? Minha alma?

A voz gutural deu um sorriso medonho. - Não precisa ser tão dramático. É só um contrato de trabalho. Não exijo nada a mais que um empregador exigiria.

- Posso ser pobre, ignorante e sem instrução, mas não sou tão burro a ponto de não desconfiar quando tentam me presentear com tantas coisas. Sinto muito, mas eu passo. Vou continuar com minha banda fazendo show pequenos por aqui mesmo que tá bom demais.

O rosto gigante tomou uma forma medonha com dentes pontiagudos e olhos amarelos. Aquela visão foi tão forte que Martim ficou muito assustado pra continuar dormindo. O choque de adrenalina o fez despertar.

Martim se levanta da cama e vai até o banheiro lavar o rosto. Ainda tentando se esquecer do susto proporcionado por aquele sonho Martim recebe outra descarga de adrenalina. Ele ouve um uivo. Um uivo longo. Se fosse em outra ocasião ele nem daria trela pra aquilo, mas depois de ter presenciado aquela cena de crime e aquele cão preto enorme a última coisa que ele queria ver agora era um cachorro.

Alguma coisa estava arranhava repetidas vezes a porta do treiler. Martim assim que notou, mesmo com o coração na mão, abriu a janela para verificar o que era. Nesse instante ele recua bem a tempo de se esquivar de uma mordida. Como temia o cão preto estava de volta. Dessa vez atrás de sua carne.

Martim tranca a janela e procura desesperadamente nos bolsos de sua jaqueta pelo cartão. Assim que o encontra faz um telefonema pelo seu celular.

- Ele está aqui! O maldito cão preto quer me pegar!

- Você tem sal grosso? - Perguntou Nicolas no outro lado da linha.

- O quê?!

- Passe sal grosso nas portas e nas janelas. Isso vai impedi-lo de entrar.

Martim não via muita lógica naquilo, mas obedeceu. Foi até a cozinha e deixou tudo ainda mais desarrumado do que já estava, espalhando pacote de feijão e arroz pra tudo que era lado. Quando finalmente encontra um pacote de sal grosso ele espalha seu conteúdo na porta. Além de jogar um pouco na janela.

- Pronto. E agora?

- Você tem uma arma?

- Não!

- Nem mesmo uma faca.

- Sim, isso eu tenho.

- Ok. Passe sal grosso na faca.

- O quê?!

- Faz o que eu digo. Seguindo minhas instruções mesmo se o sinistro conseguir te atacar ao menos indefeso você não estará. Espere um momento que já irei enviar uma equipe pra te salvar.

Nicolelis desligou o telefone. Isso deixou Martim nervoso. Principalmente porque ele não se lembra de ter dito onde morava. Como o velho iria mandar alguma ajuda sem saber o bendito endereço onde ficava o treiler? Mesmo ocupando sua mente com essa preocupação Martim seguiu a risca as instruções e pegou na cozinha a maior faca que tinha. Na faca ele jogou o que tinha sobrado de sal grosso do pacote.

O ruído na porta havia sumido. Tudo silêncio. Parecia que o cachorro macabro havia simplesmente desistido de sua presa e ido embora. Mesmo não sendo uma boa ideia, Martim decidiu ir lá fora conferir. Ele abre a porta do treiler com cuidado e primeiramente põe seu rosto do lado de fora. Não viu nada. Toma mais coragem e abre de vez a porta. Foi seu erro. O sinistro estava a sua frente com seus olhos vermelhos e dentes pontiagudos brilhantes. Seu pelo era muito preto e seu tamanho era maior do que qualquer outro cachorro que Martim já tinha visto na vida.

O animal sobrenatural se jogou sobre Martim e ia lhe cravar suas presas. Os dois haviam caído no chão, no lado de dentro do treiler. Martim embaixo, a fera em cima. Apesar da aparente desvantagem Martim não foi mordido. Só percebendo isso quando parou de gritar.

Martim joga o corpo inerte do animal pro lado e percebe uma ferida. Uma ferida que não era dele, mas sim do bicho. O sangue da criatura era negro e fedia muito. Parecia ovo podre, ou melhor, enxofre. O sinistro havia pulado inadvertidamente em cima da faca que Martim empunhava.

Martim ficou encarando o animal até que o espetáculo grotesco terminasse. O bicho derreteu, virou uma poça gosmenta e em seguida sumiu. A poça, o bicho, e tudo o que poderia sinalizar que a criatura havia passado por ali.

Nicolelis e seus homens, a ajuda, só apareceu vinte minutos depois. Se dependessem deles Martim já tinha virado ração pra cachorro demônio. Eles encontraram a porta do treiler aberta, Martim jogado no chão, na mesma posição em que se defendera do animal das trevas. Tentaram chamar sua atenção, mas ele não reagiu a nenhum estimulo.

- Está em choque. - Concluiu um dos agentes. Um homem negro que parecia não ter mais que vinte anos.

- Vamos levá-lo. - Ordenou Nicolelis.

Martim estava abalado demais pra perceber que estava sendo guiado até um carro e que aquele carro se dirigia a um destino completamente desconhecido. Martim só veio recobrar a consciência horas depois no que parecia ser um leito hospitalar. O hospital em questão não pertencia a rede pública, nem a privada. Era reservada a pacientes que houvessem sofrido "incidentes incomuns".

- Finalmente acordou. - Disse uma enfermeira. - O senhor Nicolelis quer falar com você.

Martim não precisou nem esperar cinco minutos para que a enfermeira trouxesse Nicolelis consigo, praticamente pelo braço. Os dois foram deixados a sós no quarto para conversarem.

- Grande feito o seu. - Disse Nicolelis. - Matou uma criatura sobrenatural sem ter tido um treinamento especifico pra isso. É uma façanha bastante rara.

Apesar de não estar mais com o olhar vidrado e conseguir encarar Nicolelis nos olhos, Martim não falou nada.

- Sei que esse não é o melhor momento. Mas você se interessaria por... - Nicolelis fez uma pausa dramática de alguns segundos. - Uma proposta de emprego?

Martim não disse nada, mas seu olhar de estranhamento era bastante expressivo. Ele não parava de se impressionar com quantas coisas que soavam absurdas aquele homem dizia. Podiam soar assim, mas ao mesmo tempo eram verdadeiras.

- O salário não é muito bom e o horário é péssimo. Mas o bem que se faz aos outros já é...

- O que você quer que eu faça? - Disse Martim enfim. Falando a primeira coisa inteligível após horas de silêncio.

- Já cogitou a ideia de fazer carreira caçando monstros?