The best pies maker in London

Apertou o espartilho novamente: já estava escurecendo e logo os clientes estariam lotando a loja.

Suspirou de cansaço, por ser prática como era. É claro que ninguém sabia o serviço sujo e penoso que ela tinha de fazer durante o dia para estar em tão distinta posição de anfitriã à noite.

Ah, mas a velha Eleanor Lovett I se orgulharia deveras do empreendimento, pensou ela orgulhosa: a receita era a mesma que lhe ensinara tantos anos atrás... Salvo pequenos detalhes. Ademais, agora os tempos eram outros — a praga e os impostos ruindo toda e qualquer tentativa de sobreviver dignamente de alguém cujas posses consistiam em farinha, gordura e um quarto assombrado para alugar. Faziam refletir seriamente sobre o conceito "dignamente", é verdade, ela pensou, dando uma espanada distraída em um móvel mofado qualquer à sua frente.

E quem imaginaria, não é mesmo?, que ele voltaria para reconstruir a vida ao lado dela. Riu envergonhada para o espelho sujo, que não a deixava ver claramente os dentes amarelados e as olheiras sob os olhos. Ele havia mudado, é claro, mas quem poderia culpá-lo? Os anos corroíam mesmo tudo (menos as navalhas de prata, que ela guardara como um tesouro inexplicável).

Quem imaginaria, Nellie, depois de todos esses anos? Sob o sacrifício de andar à exaustão pelo arco-íris de Londres, a cidade que parecia só saber chover, ainda que por caminhos tortos, ela tinha de repente um pote de ouro quase maior do que podia carregar. A loja cheia, o filho que você nunca gerou, o marido com o qual você sempre sonhou. As melhores tortas de Londres.

-x-

Mr. Todd havia sido o primeiro a provar.

"A la Pirelli. Vamos lá, Mr. Todd."

Ele fechou os olhos enquanto mastigava lentamente. Quando os abriu, mirou-a não com os olhos vermelhos e cegos pela vingança como ela já se acostumara, mas com os mesmos olhos doces do lindo barbeiro que ela conhecera anos antes. No fundo, ainda é o gentil Mr. Barker, ela sabia, e corou.

Corou ainda mais quando ele deu seu veredito.

"I lovett."