NA: Cabe o aviso que esta fanfic é uma compilação de mensagens de um pbem, jogado em 2001 (sim, crianças, já existia internet naquela época) - cada jogador era responsável por seu personagem. Depois, eu juntei tudo em um arquivo e tentei dar alguma uniformidade.

Só pra deixar claro, meus personagens eram a T'mir e o Davis. :)

Capítulo 2

Davis arrumava os últimos detalhes. O antigo refeitório da Endeavour estava completamente transformado em um cômodo bar e restaurante. Depois de cinco anos na Base Estelar 3, tudo o que ele queria era trabalhar em uma nave espacial. Seu auxiliar, um jovem japonês chamado Suzuki, colocava as mesas. Davis poderia usar o computador em conjunto com um projetor holográfico e o Bar do Davis estaria pronto em segundos. Mas ele era em muitas coisas um barman a moda antiga. Gostava de "bebidas com álcool, cadeiras de verdade e mulheres com apenas um par de seios", como dizia seu avô. Então, tinha gasto uma boa parte de suas economias em mobílias e louças para poder dar àquele pequeno espaço no deck 10 a aparência reconfortante que um bar deve ter, mesmo que esteja no espaço, a milhares de quilômetros da Base mais próxima.

Estava nessa, carregando uma mesa para um dos cantos, quando Suzuki, esbaforido, veio para junto dele.

- Chefe, tem um cara aí querendo falar com o senhor.

Davis limpou o suor da testa com as costas da mão e olhou com raiva.

- É? E quem é esse cara que não vê que eu estou arrumando o maldito Bar do Davis, com dois dias de atraso? Deveria estar pronto ontem, antes de sairmos da Base...

Um homem corpulento surgiu por trás do jovem japonês.

- O cara, senhor, é o novo Oficial Assistente de Segurança. E o atraso no seu cronograma não me interessa.

Davis se esforçou para dar um sorriso. O homem na sua frente não era bem um "homem"... Pelo menos, não era humano. Era forte, e os olhos eram completamente brancos, com uma tatuagem decorando o olho direito. Não conhecia a raça, mas se ele era da Segurança, não seria com ele que Davis iria encrencar.

- Ora, me desculpe! É que muitos vem aqui de curiosos, só para ver como está ficando... E isso atrapalha. Mas sente-se, senhor, e diga em que posso ajudá-lo.

O outro recusou o oferecimento e permaneceu em pé.

- Não vim atrapalhar sua arrumação. Só vim marcar alguns pontos que eu e meu Oficial superior queremos que fiquem bem claros, senhor.

Ele respondeu abrindo seu sorriso mais cativante.

- Pode me chamar de Davis, meu chapa. Afinal, vamos conviver um bom tempo, não é mesmo? Aliás eu ainda não sei seu nome!

Davis tremeu ante o olhar que recebeu de resposta do Oficial de Segurança.

- Como eu disse, senhor Davis, vamos marcar alguns pontos. Não quero confusões na nave. Se eu considerar seu bar nocivo para a ordem e segurança, vou fechâ-lo. Bebidas alcóolicas são proibidas em uma nave da Federação. Se eu tiver a mais leve suspeita, eu prendo o senhor por contrabando. E por ultimo, não sou seu chapa, e meu nome é alferes Bannik, entendeu?

Por mais que quisesse responder, o barman engoliu em seco. Teria que agüentar calado e não contrariar.

- Claro, Alferes Bannik. Cumprirei suas recomendações.

- Espero que sim, senhor Davis. Com sua licença.

Enquanto Bannik se afastava, Davis ficou parado olhando. Apertou os punhos e resmungou.

- Você ainda vai me implorar algo de joelhos.

E voltou para a sua arrumação.

As duas primeiras semanas de Wills na nave foram agitadas. Tentava arduamente se adaptar. Sua experiência como assistente de ciências na USS Lisbonne tinha sido maravilhosa, mas não lhe preparara para a Endeavour. A nave comandada por Fernan Magellan era uma simples nave de pesquisa, onde todos eram cientistas e como tal se portavam. Lá, Wills se sentira em casa. Mas quando veio o aviso de sua promoção, ela foi a única a ficar triste. O velho Capitão a recomendara, e ficou feliz com seu sucesso.

E agora aqui estava ela, exercendo sua função, não mais como assistente em uma nave de pesquisa, mas como Chefe de Ciências em uma das principais naves da Frota. Estava sentada no console de sensores, fazendo uma vistoria de rotina. A ponte estava vazia, até que de repente ela ouviu vozes. Ficou aborrecida, pois precisava de paz e sossego para trabalhar.

Eram as oficiais de operações, Tami e T'mir, conversando sobre rotas e alinhamentos. Wills não gostava da jovem assistente. A meio-vulcana parecia desprezar toda a cultura e filosofia de sua raça, se comportando como uma humana. A sua superior era uma jovem séria e ponderada, com quem Wills simpatizava mais.

As duas se sentaram no console de operações e continuaram conversando. Pelo que Wills entendeu, a conversa girava em torno de uma possível rota dos contrabandistas ferengi para entrar e sair do sistema Janus. Wills voltou a se concentrar no trabalho, até que o Conselheiro entrou na ponte, cumprimentando a todos. A cientista se limitou a levantar a cabeça.

- Então, como vai indo nossa emocionante missão de patrulhamento?

T'mir soltou uma leve risada.

- Conselheiro, se todos as minhas missões na Frota forem assim, vou voltar para Vulcano e abrir um consultório de psicologia em Shikahr... Acho que não tenho duas semanas tão paradas desde que entrei na Academia Vulcana de Filosofia.

Chaz riu da piada sobre Vulcanos. Era uma linha típica de todas as faculdades e centros de ensino de psicologia na Federação: psicólogos em Vulcano morrem de fome e tédio, pois se os Vulcanos não admitem emoções, como fazê-los falar sobre elas?

Wills fechou a cara. Realmente não simpatizava com ela. Como se atrevia a fazer pouco de uma filosofia mais do que milenar? Tentou novamente se concentrar no trabalho, mas eles continuaram a conversar.

- Mas como os ferengi conseguem entrar e sair de Janus, que é um sistema bem interno da Federação?

- Justamente... É isso que estamos tentando descobrir, Conselheiro. - Tami olhou para o console. - Srta. T'mir e eu estamos durante as últimas semanas tentando descobrir as rotas usadas por eles.

T'mir ia adicionar alguma coisa, mas nesse momento, o Capitão entrou na ponte junto com os Oficiais de Segurança. Spencer cumprimentou a todos, nisso sendo imitado por Heavyside, que se juntou ao grupo que conversava. Enquanto isso, Bannik se dirigiu ao seu lugar sem nem ao menos olhar para o lado. Sentou-se e começou a mexer no console tático. Wills apreciava a seriedade de Bannik. Ele quase nunca falava e quando o fazia, sempre se relacionava a serviço.

Foi quando o Conselheiro contou uma piada. O Capitão sorriu, Tami esboçou um sorriso, Heavyside riu e T'mir soltou uma risada alta e cristalina. Wills olhou com reprovação, mas ela nem reparou. Mas quando Bannik se virou para ela de cara fechada, a moça enrubesceu, abaixou o rosto e pediu licença a sua chefa, pois "precisava tomar algo.".

"Fascinante." pensou Wills, "Eu não sabia que o Alferes Bannik tivesse tal poder sobre a mestiça. Realmente intrigante."

A hora de almoço na nave era sempre movimentada. E Davis na hora do almoço era simplesmente o mais charmoso e irresistível atendente da Federação. Ia de mesa em mesa, cumprimentando um, se apresentando a outro, anotando os pedidos. Suzuki, no balcão, ia e vinha da cozinha, trazendo os pratos que eram pedidos. Davis fazia questão de fazer ele mesmo a comida, que deixava pronta em porções individuais congeladas, que esquentava na hora de servir. Isso era, na maior parte, o motivo do Bar do Davis estar sempre cheio nas horas de refeição. E em um mês e meio, Davis servira mais do que em seis meses na Base Estelar Três, onde tivera um restaurante.

Davis parou um pouco e viu o salão quase lotado. Todas as mesas estavam ocupadas, e somente alguns lugares estavam vagos. Sorriu satisfeito ao pensar no lucro que teria. Seu contrato com a Federação lhe reembolsaria por refeição servida, e nesse ritmo, ele poderia se aposentar antes dos trinta. Olhou para a porta que se abria e viu o Oficial de Segurança Assistente, o "detestável Bannik" como o chamava em pensamento, entrar no salão. Aproximou-se, com o sorriso mais respeitoso que conseguiu.

- Ora, se não é o Alferes Bannik que finalmente veio provar da minha comida.

- O meu sintetizador de alimentos quebrou. E esse é um bom motivo para poder vigiar o senhor e ver se está agindo de acordo com os regulamentos. - Bannik olhou com frieza para Davis.

- Regulamentos? Eu vivo pelos regulamentos da Frota, não respiro sem consultá-los. - Se Davis sorria, mentalmente mandava o tyrriano para todos os infernos da Federação, e mais alguns outros fora dela. - Bom, deixe-me procurar um bom lugar para o senhor sentar e comer.

Davis procurou pelo salão e achou uma mesa que parecia adequada. O Engenheiro Chefe Salek, um vulcano extremamente educado e até mesmo simpático se isso era possível em um vulcano. Ao seu lado esquerdo, Johnny Welker, seu assistente, um excelente jogador de pôquer, que passava algumas de suas horas de folga jogando com Davis. Na frente do vulcano estava Heavyside, o superior de Bannik, outro companheiro de pôquer. E do lado dele, estava o único Oficial da ponte que freqüentava com assiduidade o Bar do Davis, o Conselheiro Chaz. Duas cadeiras vazias, uma de frente para a outra completavam a mesa. Davis levou Bannik até lá, anotou seu pedido e saiu. "Eles que o agüentem agora, eu tenho mais o que fazer."

Bannik sentou-se a mesa e cumprimentou a todos de maneira seca. Heavyside o cumprimentou com um alegre "Alô, Bannik." e os outros acenaram com a cabeça. Welker retomou o assunto.

- Bom, voltando ao assunto, ainda acho que a Oficial de Ciências é a melhor delas.

Heavyside fez um gesto de desdém.

- Aquela geladeira? Um beijo dela e você viraria picolé. Sou mais a vulcaninha de Operações. - revira os olhos. - Ela é uma gracinha, e ainda por cima simpática.

O vulcano comeu uma colherada de um caldo avermelhado e cremoso e se dirigiu ao Conselheiro.

- Um dia, Chaz, gostaria de saber por que os humanos tem o hábito de falar de mulheres que obviamente não sabem que eles existem.

O Conselheiro sorriu.

- Uma das nossas peculiaridades, Salek. Não conseguimos evitar na maior parte das vezes.

- Ah, fala sério, Chaz, que você nunca reparou em nenhuma delas. O senhor Salek eu nem digo nada, ele deve estar longe do próximo pon-farr, mas você... - Heavyside olhou acusadoramente para sua vítima. - Quer dizer que nem a japonesinha você olha?

Chaz foi salvo por Davis, que chegou com o pedido de Bannik e bebidas para os demais. Chaz sempre se sentira atraído por Tami, mas nunca demonstrara. Como Aaron percebera, ele não sabia.

- Calma, conselheiro. Eu estou brincando, não precisa fazer essa cara de nojo!

Chaz quase suspirou aliviado quando ouviu Welker resolveu inquirir o tyrriano.

- E você, Bannik? Já está de olho em alguém da nave? Na geladeira, na vulcana, na japonesa, na deltana da sala de transportes, na trill de operações...

Bannik parou de comer e olhou com severidade para o Alferes.

- Alferes Welker, eu não me encontro nesta nave para fazer conquistas amorosas ou viver um romance. Eu fui chamado para desempenhar uma função, e isso será o que vou fazer enquanto estiver na Frota.

"Por que essa agressividade?" Pelo que Chaz sabia dos tyrrianos, eles eram calmos e pacíficos, até mesmo bem humorados. E o comportamento de Bannik até esse momento tinha provado isso, apesar da excessiva seriedade. "Deve ter algo nessa questão que o incomoda." Se preparava para perguntar algo que ajudaria a analisar melhor o outro, quando Heavyside falou.

- Olhem, se não é a senhorita T'mir de quem estávamos falando. Olhem, parece que o Davis vai trazê-la para cá. - o Tenente ajeitou disfarçadamente o uniforme, enquanto Welker passava as mãos no cabelo.

Realmente Davis trazia T'mir até a mesa. Puxou a cadeira para que ela se sentasse. Depois de anotar o pedido dela, olhou para os que estavam sentados na mesa e disse.

- Muito bem, senhores. Comportem-se, há uma dama presente. - e se retirou.

A jovem Alferes sorriu para os presentes. Chaz pensou no quanto ela deveria estar se sentindo desconfortável. Mas para sua surpresa, ela virou para Heavyside.

- Bom, vocês podem continuar a conversar. Eu não ligo.

Salek levantou a sobrancelha.

- Não creio que gostaria de ouvir a nossa conversa.

- Por que vocês não tentam? - Davis chegou com o prato dela, uma salada verde com pedaços de carne de polvo, e um copo de chá gelado. Ela bebeu um gole e sorriu para todos.

Welker era o mais expansivo na mesa e resolveu "pagar para ver".

- Estávamos comentando sobre a companhia feminina na nave, sobre quem seria a nossa favorita. - Chaz pode ver a face de T'mir revelar um interesse quase profissional ao ouvir isso. "Hábitos antigos morrem devagar.", pensou.

- Fascinante, John. E a que conclusão chegaram?

O vulcano parecia, para Chaz que o conhecia há algum tempo, quase divertido com a curiosidade de T'mir e o embaraço de Welker e Heavyside. Bannik comia de olhos baixos, mas Chaz percebeu que às vezes, quando achava que não havia ninguém olhando, ele levantava a cabeça e olhava fixamente a moça a sua frente. "Hum, curioso..."

- Parece-me, T'mir, que meus jovens companheiros se encontravam divididos entre a sua pessoa e a Oficial de Ciências. - o vulcano apontou os homens, que ficaram constrangidos. - Mas por motivos de ética não irei dizer qual.

- E nem precisa, senhor Salek, já sei quem escolheu a quem. - T'mir levantou as sobrancelhas e olhou para Heavyside, que de repente achou seu prato muito interessante e abaixou os olhos para ele. - Mas o senhor e o Conselheiro, não entraram na conversa?

- Como vulcano, acho mais interessante a mente feminina do que sua figura. Mas devo admitir que a senhorita tem uma... estampa talvez seja o termo... extremamente bonita. - T'mir inclinou a cabeça de leve ao escutar o cumprimento. Sabia que não era uma cantada ou coisa do tipo, apenas uma opinião sincera. - E ao Chaz foi impingida a Srta. Adachi.

Chaz fez um gesto de "eu não sei do que ele está falando." T'mir sorriu.

- Ora, que curioso. - Ainda sorrindo, olhou para o homem a sua frente. - E você, Alferes, o que tem a dizer?

O tyrriano olhou para ela com a mesma fúria que olhou para Welker. Chaz chegou a pensar que ele seria grosso com a moça também. Mas quando ele reparou melhor, viu que não era fúria, era algo muito intenso, mas não hostil. O tyrriano se limitou a olhá-la, sem dizer nada. De repente, saiu, deixando o prato pela metade.

T'mir olhou para os demais, que pareciam tão espantados quanto ela.

- Foi algo que eu disse?

A ponte de comando estava calma, como sempre nos últimos três meses. O único incidente digno de menção foi um Alferes sonâmbulo que resolveu invadir a ponte em um dos turnos noturnos e atacar T'mir e Ix, a jovem trill que dividia o console com a meio-vulcana. Mas Heavyside, que estava na ponte, rapidamente conseguiu retirá-lo sem mais problemas. Isso lhe valeu a alcunha de "salvador de donzelas", dada por Davis, juntamente com um copo de cerveja romulana sintetizada e um tapinha nas costas.

Era hora da mudança de turno. Tami e T'mir passavam coordenadas uma para a outra, enquanto Bannik fazia seu relatório para Heavyside. T'Gar entrou na ponte e se juntou ao seu Comandante, assim como Chaz, que o acompanhava.

- Alguma novidade, Capitão?

- Não nos últimos três meses, T'Gar. Ainda bem que agora só falta mais um. Apresente seu relatório, Conselheiro.

Chaz se empertigou um pouco.

- O Alferes Anderson se sente envergonhado e culpado e insiste em pedir desculpas pessoalmente à T'mir e Ix. Para evitar mais esse constrangimento a elas, disse que ele não deveria. Parece que consegui convencê-lo. Está indo a Enfermaria tomar uma hipospray de calmante todas as noites, como confirmei com o Dr. Zamblivinsk. Fora isso, apenas queixas comuns em situações... entediantes.

Spencer reprimiu um suspiro com custo.

- Essa é a palavra, Conselheiro. Entediante. Sr. T'Gar, eu gostaria que...

A voz de Tami o interrompeu.

- Senhor, mensagem subespacial de emergência. Mas o código é ferengi.

- Na tela, Tenente.

- A mensagem é só de áudio, senhor. - Apertou alguns botões. A voz saiu, filtrada pelo tradutor universal.

{Qualquer na#xiiiiiixtsy##ve que escu#ziiiiiisxte#te. Essa é a nave Tl#chhhhhae#engar, estamos sobre ataque. Não conseguimos reconhecer nossos atacantes. Por favor, rápido.}

O silêncio imperou na ponte depois que a mensagem terminara. Antes mesmo que Spencer perguntasse, a meio-vulcana falou.

- A origem da mensagem é da borda do sistema. ETA2 em meia hora, em dobra 4.

- Dobra 4, Alferes? Não é possível ir mais rápido?

- Impossível senhor. - Antes que T'mir completasse, a Oficial de Ciências se intrometeu.

- Senhor, o sistema Janus é repleto de detritos e pequenos asteróides. Uma maior velocidade implicaria em um maior risco de pequenos e múltiplos impactos, que poderiam danificar o escudo, até mesmo penetrá-lo.

T'mir dirigiu um olhar no mínimo glacial para a outra mulher.

- Obrigada, Tenente Williams. Era o que eu ia dizer.

Spencer pensou por segundos.

- Tenente Adachi, trace rota para as coordenadas definidas pela alferes. Dobra 4, agora. Alferes T'mir, mensagens em todas as freqüências possíveis.

Olhou para seu Chefe de Segurança, que se empertigara ao ouvir a palavra "ferengi".

- Senhor Heavyside, alerta amarelo. Quero escudos levantados ao chegarmos perto da nave.

- Sim Capitão.

A meia hora seguinte se passou de maneira tensa. Nenhuma outra comunicação fora recebida, e as mensagens enviadas não obtiveram resposta. Spencer podia sentir a tensão de cada membro de sua tripulação. Via as luzes amarelas piscando, indicando o alerta. Quando ouviu a meio-vulcana falar, despertou de seus pensamentos.

- Capitão, ETA em 5 minutos.

- Tenente Wills, quero sensores no máximo, círculo de um ano luz tendo como centro a nave ferengi. Quero sinais de vida, sinais de energia, radiação...Tudo o que for possível.

- Sim senhor.

Quando chegaram ao seu destino, uma nave ferengi meio destruída se encontrava a deriva. Pequenos pedaços de metal flutuavam ao seu redor, e mais nada estava a vista

- Tenente Adachi, freqüências abertas. Transmita pedido de identificação. Tenente Wills, quais os resultados dos sensores?

- Pequenos resíduos de raios energéticos, e um outro tipo de traço residual semelhante ao de um wormhole3.

- E a nave?

- Sistema de suporte de vida funcionando em 50% da capacidade. Integridade do casco comprometida em três setores.

- E a tripulação?

A jovem ergueu o rosto, muito séria, para o Capitão.

- Nenhum sinal de vida. Estão todos mortos.

As palavras da Oficial de Ciências ficaram suspensas na ponte. T'mir olhou para Heavyside e engoliu em seco enquanto ele fez como se assobiasse. Bannik abaixou a cabeça e Chaz abanava a sua se recusando a acreditar. T'Gar foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- A senhorita tem certeza? Conferiu todos os sinais?

Wills respondeu em um tom glacial, dando a perceber que se sentira ofendida pela colocação feita pelo meio-klingon.

- Todos os sinais foram conferidos duas vezes, senhor, e ainda chequei a calibragem dos sensores. Não existem sinais de vida macrobiológica na nave.

T'Gar franziu ainda mais a testa. O Capitão permaneceu quieto, refletindo. O que poderia em meia hora ter destruído uma nave de comércio ferengi e sumido sem deixar rastros? Levantou-se.

- T'Gar, Hanges, Adachi e Heavyside na sala de reuniões. Agora. - se virou para a Oficial de Ciências.- Tenente Wills, pegue todos os dados obtidos pelos sensores e leve para a Engenharia. Os analise juntamente com Salek.

Ela simplesmente assentiu com a cabeça, enquanto transferia os dados para um PADD. Saiu da ponte, sem dizer mais nada. Spencer se virou para os dois Alferes.

- T'mir e Bannik, a ponte está sobre seus cuidados. Qualquer problema, quero ser contato imediatamente, entendido?

- Sim capitão. - os dois responderam juntos. Heavyside falou de repente.

- Senhor, considero mais sensato que eu permaneça na ponte. Bannik tem minha permissão para falar em meu lugar.

Spencer concordou após refletir um pouco.

- Entendido, Tenente. A ponte é sua, então.

E seguiu seus demais oficiais que já estavam na sala de reuniões.

Todos os chefes da ponte estavam sentados na mesa de reuniões. Tami se sentia um pouco desconfortável, nunca quisera um cargo de chefia. Entrara na Frota apenas com a intenção de servir e honrar a tradição de sua família. O Capitão entrou na sala e não sentou. Apoiou as mãos na mesa e disse:

- Muito bem senhores, estamos com uma certa urgência. Alferes Bannik, nossa situação.

O tyrriano se levantou e se empertigou antes de fazer seu relatório.

- Os phasers e os torpedos fotônicos estão armados e prontos, senhor. Só aguardando ordens de disparar. Os escudos estão prontos e em perfeitas condições. Os oficiais de tático e segurança em seus postos e aguardando. O que quer que tenha atingido os ferengi, não nos atingirá desprevenidos.

- Muito bom. Temos que descobrir o que aconteceu naquela nave.

T'Gar, sem pedir, levantou-se de súbito.

- Devemos então descer até lá, senhor. Vamos até lá e checamos os bancos de dados da nave.

Tami viu Chaz balançar a cabeça negativamente. Ele começou a falar, no tom pausado que usava quando tentava convencer alguém.

- Descer até lá é uma atitude temerária. Apesar dos sensores, não sabemos se o que matou todos os tripulantes daquela nave ainda está ou não lá dentro.

O meio-klingon sorriu para o Conselheiro, mostrando os dentes. Tami sentiu um arrepio. T'Gar era um oficial respeitado e competente, mas sempre a incomodava quando sorria daquele jeito, mostrando os dentes.

- Então, senhor Conselheiro, nós vamos ter que arriscar. Eu me ofereço para liderar o grupo de descida.

Chaz ainda fez mais uma tentativa de tentar trazer o Primeiro Oficial a razão.

- E quem iria descer com o senhor?

Antes que T'Gar pudesse falar, Bannik se ergueu.

- Pedindo permissão para me juntar ao grupo de descida.

Chaz fez um gesto de "eu desisto". Spencer acenou com a cabeça afirmativamente.

- Permissão concedida, Alferes.

Ainda tentando ser o 'cabeça fria da reunião', Chaz interveio novamente.

- Seria adequado alguém da equipe médica.

O Capitão concordou e abriu comunicação com a Enfermaria.

- Spencer para Zamblivinsk. Precisamos de um voluntário para o grupo de descida.

{O.k., Capitão. Mas não conte comigo. Eu mandarei um voluntário para a sala de transporte 2 agora mesmo. Zamblivinsk desliga.}

- Resolvido. Mais alguma sugestão?

- Mais alguém da segurança, senhor. - T'Gar olhou para Bannik. - O Tenente Heavyside seria útil lá embaixo.

Bannik respondeu o olhar de T'Gar com uma expressão de desafio. Tami resolveu falar algo. Se sentia oprimida pelo clima tenso que está na sala.

- Não seria recomendável um dos dois, ou Bannik ou Heavyside, ficarem no tático?

- Não se preocupe, Tenente Adachi. – Spencer falou. - Eu ficarei na ponte, e um oficial tático menos graduado também. Mais alguém?

T'Gar desviou o olhar de Bannik.

- Alguém que possa operar com precisão os painéis da nave. Alguma sugestão, Adachi?

Ela pensou por alguns instantes.

- A minha assistente, T'mir, é sensata e competente. Creio ser a melhor opção.

Tami se assustou com a resposta ríspida do tyrriano.

- Senhor, eu sou contra. Não sabemos o que vamos encontrar lá. Não podemos garantir a segurança de ninguém.

Spencer demonstrou sua irritação encarando o Oficial de Segurança.

- Sr. Bannik. Se tem algo contra a Alferes T'mir, sugiro que guarde para outra ocasião. Reunião encerrada.

T'mir e Heavyside ficaram em silêncio quando os outros saíram da ponte. A meio vulcana tentava não demonstrar seu nervosismo, mas estava quase perdendo o controle. Uma nave ferengi, mesmo pequena, não era um alvo fácil. Se o que tivesse pego aqueles ferengis resolvesse voltar, teriam sérios problemas. Heavyside deve ter notado seu nervosismo, pois saiu do seu lugar como Chefe de Segurança e sentou ao lado de T'mir.

- Nervosa, Alferes?

Ela conseguiu forçar um sorriso.

- Um pouco, Tenente. Não esperava encontrar uma ameaça tão cedo.

- Fique calma, tudo vai dar certo. É a sua primeira nave?

- É sim. Antes, servi quase um ano na Base Estelar 16.

- No sistema Épsilon Endi? Por que não continuou em Bases?

T'mir suspirou. Começava a relaxar um pouco.

- Gosto de conhecer coisas novas. E em uma Base, eu não conseguia ver muito disso.

Aaron sorriu para ela.

- Então. Para se conhecer coisas novas, é preciso passar por situações onde não se sabe o que vai vir. - Ele coloca a mão no ombro direito dela. - E além do mais, eu estou aqui para proteger você, esqueceu que eu sou o "salvador de donzelas"?

T'mir sorriu e ia dizer algo. Mas a porta da sala de reuniões se abriu. Heavyside se pôs de pé em um pulo. O Capitão veio até eles.

- Alferes T'mir, Tenente Heavyside, vocês farão parte do grupo de descida, junto com o Alferes Bannik e o Comandante T'Gar. Boa sorte.

Durante alguns segundos, o coração de T'mir pareceu ter parado. Ela não queria descer, ainda mais com Bannik no grupo. Algo no jeito de olhar do tyrriano a incomodava, e não era somente a ausência de pupilas. Heavyside percebeu o nervosismo de T'mir aumentar e olhou para ela, sorrindo, tentando lhe transmitir uma confiança que não sentia. Ela abaixou os olhos e disse, a meia voz.

- Sim senhor. - e o grupo de descida se dirigiu ao elevador, para se encaminhar para a sala de transportes.

Estavam na sala de transportes da nave ferengi. Com os sentidos apurados que seu sangue meio-klingon lhe dava, T'Gar podia sentir um cheiro acre e pungente no ar. O recinto estava vazio e silencioso. "Como um túmulo", pensou ele, se arrependendo em seguida. Não era momento para esse tipo de pensamento. Os outros quatro integrantes do grupo de descida estavam ali, parados, esperando ordens. T'mir e o jovem Alferes médico pareciam assustados e nervosos, enquanto que os dois oficiais de segurança pareciam até mesmo ansiosos para prosseguir.

- Coloquem os phasersem tonteio. T'mir e Durden, fiquem atrás de nós.

Bannik imediatamente falou.

- Comandante, não seria melhor que o senhor e o Tenente Heavyside fossem na frente, seguidos pelo Alferes Durden, depois pela Alferes T'mir, e que eu fechasse a nossa retaguarda?

T'Gar ficou algo surpreendido com a proposta de Bannik. Afinal, ele mesmo dissera que não teriam como proteger ninguém. Uma olhada rápida para T'mir lhe deu o motivo. "Uma coisinha linda dessas, com essa cara de choro, até eu iria protegê-la." Alto, ele disse:

- Boa idéia, Alferes. Muito bem, T'mir, abra a porta.

A meio vulcana se dirigiu para os controles da porta. Em questão de segundos, a porta escorregou para o lado, com um suave "vuuusch". Seguiram pelo corredor, na formação sugerida pelo tyrriano. O cheiro piorou e agora os demais também o sentiam. Mas nem sinal de vida... ou de morte. T'mir tinha restabelecido as luzes do corredor principal onde se encontravam, mas tudo estava vazio.

Quando chegaram na porta da ponte de comando, T'Gar fez com que Bannik e Heavyside se postassem com os phasers armados a frente do grupo. Ele próprio se colocou ligeiramente atrás deles. T'mir e Durden ficaram de lado, na frente do painel. Ao sinal de T'Gar, ela acionou o comando da porta.

A cena que viram foi terrível até mesmo para T'Gar, que desviou o olhar. Ele escutou T'mir soluçar e viu quando o tyrriano a virou de costas, murmurando algo como "Você não precisa ver isso". Heavyside abaixou a cabeça. O único menos abalado foi Durden, que acostumado com a morte, só empalideceu um pouco. Pedaços de corpos ferengi espalhados pelo chão e pelos consoles e até pelo teto da ponte. Sangue e vísceras por todo o lado, e um cheiro acre se espalhava. "É daqui que vem o cheiro então." Pedaços de metal retorcido que antes haviam sido componentes de algo. Recuperando o autocontrole, T'Gar reassumiu a liderança.

- Vamos entrar logo. T'mir, feche a porta assim que entrarmos, e bloqueie os controles externos. - Ela demorou um pouco a reagir, ainda meio recostada no tyrriano. Mas de repente ela ergueu a cabeça, disse "Sim, Comandante." e foi até os consoles que ainda estavam inteiros da nave. Quando as portas finalmente se fecharam, T'Gar se sentiu mais tranqüilo.

- Heavyside, Bannik, mantenham-se alertas. Usem os tricorders. T'mir, veja se consegue acender as luzes e acessar os registros de bordo da nave. - enquanto eles faziam o que pedira, T'Gar chegou perto de Durden que examinava um corpo mais ou menos intacto.

- O que o senhor acha que pode ter sido, Alferes?

O jovem ruivo franziu a testa.

- Não posso dizer algo mais profundo sem um exame acurado, senhor, mas foi algo cortante, como pode ver por esse talho aqui. - Aponta para um ferimento que varava o tronco do ferengi. - Mas algumas lacerações parecem ter sido produzidas por dentes, como essas, onde encontrei vestígios de matéria de origem desconhecida. Estou passando os dados para a Endeavour através do meu tricorder. O Doutor Zamblivinsk irá analisá-los.

- Ótimo.

As luzes principais se acendem. T'Gar pode ver Heavyside operando os terminais de força, enquanto T'mir tinha se sentado na cadeira de comunicações. Bannik operava outro console, que pelo que o Primeiro Oficial podia ver era o console de Ciências. Resolveu contatar a Endeavour.

- T'Gar para Endeavour.

{Fala Spencer. O que está acontecendo aí, Comandante?}

- Confirmamos as leituras dos sensores, Capitão. Estão todos mortos. E de uma maneira nada agradável.

Depois de uma pequena pausa, Spencer responde:

{Eu acho, Número Um, que devíamos env.../*****/...}

De repente, as comunicações foram subitamente cortadas.

- Capitão? Capitão? Endeavour...

T'Gar olhou para os demais. Estava com um péssimo pressentimento.

T'mir mexeu nos consoles da nave tentando contatar a Endeavour novamente, mas não obteve sucesso. Ela tentou mais uma vez, e nada. Controlando-se para não bater com os punhos no console, ela virou-se para T'Gar e disse:

- Nada senhor... O que quer que seja, além de bloquear o sinal de nossos comunicadores, deve ter cortado os canais externos de comunicação.

Ela viu Bannik olhar para o console de ciências e sacudir a cabeça.

- Algo está mesmo bloqueando comunicações com nossa nave, pois não consigo registrar nem um ruído de fundo. Pode ser algum tipo de pulso extremamente forte atuando no campo subespacial.

Mal o tyrriano acabou de falar, escutaram um barulho alto, semelhante ao de alguma coisa se esfregando no casco metálico da nave. Heavyside e Bannik prepararam seus phasers.

- Seja lá o que for que fez isso com os ferengi, parece que está de volta. E pelo estrago, creio que nosso encontro com ela não será nada agradável. – Heavyside falou, parecendo estar preocupado.

O barulho aumentou cada vez mais até que parou. Mas o alivio deles durou pouco. T'mir concentrava-se em abrir comunicação com a Endeavour quando ouviu um ruído de metal sendo rasgado. Não demorou muito para uma perfuração aparecer na porta. Reprimiu um grito.

Uma espécie de garra negra forçou o metal da porta, abrindo-a de alto a baixo, deixando um enorme buraco. Através desse buraco, passou um ser de mais ou menos 2 metros de altura, recoberto por uma couraça biomecânica formada por várias placas. Possuía garras ao invés de braços e era bípede. T'mir mal conseguiu respirar, se sentindo tomada pelo pânico. Todo o autocontrole que seus professores vulcanos tentaram lhe ensinar não servia de nada, tudo o que ela podia sentir era uma imensa sensação de medo e impotência. Demorou até que ela percebesse que seu próprio medo se misturava ao medo dos outros, mas principalmente do Alferes médico. "Claro, Heavyside e Bannik foram treinados para controlarem seus medos, assim como T'Gar. Ele não, é apenas um cientista...". De alguma maneira, o pensamento a acalmou. E mais ainda, quando viu Heavyside e Bannik se colocarem na frente dela, com as mãos nos phasers.

O alienígena ficou parado, olhando para eles. Balançava a cabeça de forma ameaçadora, mas não mexia mais nada. Parecia estar os examinando.

- Fiquem calmos, vamos ver se é pacífico. - T'Gar dirigiu-se ao estranho ser. - Saudações, eu sou o Tenente-comandante T'Gar, Primeiro Oficial da nave da Federação USS Endeavour. Viemos em paz. Quem é você?

"Pacífico? Ele fez picadinho da tripulação de uma nave ferengi e você ainda tem dúvidas?" T'mir permaneceu junto ao console da comunicação. Com os dois Oficiais de Segurança na sua frente, podia tentar abrir novamente os canais para se comunicar com a nave, enquanto T'Gar se dirigia ao estranho ser. Conseguiu uma freqüência nova e sussurrou para o comunicador da nave ferengi.

- Endeavour, estamos sendo atacados.

Mas quando ela ia receber a resposta da Endeavour, o alienígena pronunciou algumas palavras incompreensíveis, que o tradutor universal não conseguiu identificar. Os sons emitidos soaram apenas como grunhidos de um animal feroz e curioso. Assustada, ela desligou o comunicador.

Um brilho se fez e, ao lado da criatura, outro ser semelhante apareceu teleportado. O recém-chegado disse na língua da federação:

- Nós somos caçadores. Viemos aqui pelo Grande Portal. Esta nave e sua carga são nossa propriedade, assim como vocês.

T'mir estremeceu, pois até seus sentidos empáticos fracos se sobrecarregaram com as emoções dos alienígenas. Ela viu Heavyside sinalizar para Bannik se manter em alerta, enquanto T'Gar respondia.

- Em nossa cultura, - continuou T'Gar. - prezamos muito a liberdade individual. Não vamos aceitar isso!

Definitivamente, não foi uma boa resposta. A criatura soltou um som parecido com uma risada.

- Liberdade não existe para vocês nem para o seu povo! - respondeu a criatura. - Vocês são apenas comida e substrato para nossas crias!

O meio-klingon sussurrou para seus companheiros

- Preparar phasers... potência letal.

Ela não gostava da idéia de ver alguém matar uma coisa viva, mas no caso seria uma questão de vida ou morte para os oficiais. Viu Heavyside ajustar seu phaser de forma ágil e discreta, com os dedos e sem movimentar os braços. Bannik também ajeitou o seu.

Os alienígenas pareceram perceber a movimentação deles. Um deles, provavelmente o líder, começou a mover uma de suas garras para cima com a ponta para baixo, como alguém que segura uma faca para apunhalar. T'mir sentiu arrepios, pois havia visto o que aquelas garras tinham feito com os ferengi.

T'Gar deu a ordem de apontar. Heavyside levantou o braço direito mirando o seu phaser na altura média de um dos seres. Bannik mirou e T'Gar saiu da linha de fogo.

Quando o meio-klingon gritou fogo, os três atiraram juntos. Por um breve instante, ela quase pôde sentir o calor do pulso de energia emitido pelo phaser. O impacto foi direto e certeiro. O caçador foi arremessado contra a parede. O cheiro, um misto de metal e material orgânico queimados rapidamente misturou-se ao odor da matéria em decomposição na ponte ferengi. Mas antes de qualquer outra ação, T'mir se viu envolvida por uma intensa luz azul, assim como T'Gar e Durden. T'mir se sentiu mais tranqüila, mas segundos antes de sumir da nave ferengi, percebeu que Bannik e Heavyside ficaram. Gritou para avisá-los, mas sua voz se perdeu.

Quando se viu na sala de transportes, na frente de um Alferes Johnson muito aliviado, ela olhou para seus companheiros. Realmente os dois Oficiais de Segurança haviam ficado. T'Gar resmungou algo, enquanto o Alferes Durden saía para a Enfermaria.

"E agora, o que acontecerá com eles?"

Spencer podia sentir a tensão de todos na ponte. O grupo de descida já tinha ido há mais de 15 minutos e não ainda entrara em contato ainda. Quando T'Gar entrou em contato, se sentiu aliviado.

{T'Gar para Endeavour.}

- Fala Spencer. O que está acontecendo aí, Comandante?

Ele ouviu o breve relatório do meio-klingon e refletiu por alguns instantes.

- Eu acho, Número Um, que devíamos enviar uma...

Antes que ele completasse a frase, a tenente Adachi falou.

- Capitão, a comunicação com o grupo na nave ferengi foi interrompida. Estou tentando todos os canais, mas não consigo contatá-los em nenhum.

- Continue tentando, Tenente.

Um comunicado da Engenharia chega até a ponte.

{Capitão, aqui é a Tenente Wills. Os níveis de neutrinos lá fora aumentaram em proporção avassaladora.}

- Qual a explicação para isso, Tenente?

{No momento nenhuma, mas estamos trabalhando para isso.}

- Quando chegar em algo mais conclusivo, avise. Spencer desliga.

A Tenente Adachi estava parada a seu lado.

- Senhor, o Dr. Zamblivinsk informou que também perdeu contato com o grupo de descida. Disse a ele que...

Spencer esperou que ela completasse a frase, mas ela ficou parada, boquiaberta, olhando para a tela. Surpreso com aquela reação da sempre controlada Adachi, Spencer olhou na mesma direção. E teve a mesma reação por alguns segundos. Um wormhole se abrira e de lá saíra uma estranha nave. Era até menor que a Endeavour, mas não se parecia em nada com as naves que Spencer já havia visto. Sua própria aparência era ameaçadora. O assombro de Spencer durou apenas alguns segundos, e ele reassumiu a postura de capitão da nave.

- Atenção, todos aos seus postos, alerta vermelho. Tenente Adachi, tente comunicação em todos os canais. - a nave se aproximara da nave ferengi e parara.

- Nada, capitão, eles não respondem. Mas, parece que o grupo de descida conseguiu entrar em contato. - a jovem aperta alguns botões.

{Ende*%%###ur , esta*%%###s sendo a*%#%#%cados .}

- T'mir, quem está atacando vocês?

Mas a meio-vulcana não respondeu. Novamente as comunicações haviam sido cortadas.

- Spencer para a sala de transportes. Traga-os de volta.

{Capitão, só consigo travar o sinal em três deles.}

Por mais que ele não quisesse fazer essa escolha, ela era inevitável.

- Então os traga.

Pareceu uma eternidade para Spencer, mas segundos se passaram até que novamente a sala de transportes entrou em contato.

{Senhor, temos três integrantes do grupo de descida a bordo: Comandante T'Gar, Alferes T'mir e Alferes Durden.}

- Peça para o Comandante T'Gar e a Alferes T'mir virem até a ponte, se estiverem bem.

Nesse momento, a voz do Primeiro Oficial ecoa na ponte.

{Capitão, peço permissão para resgatar o restante do grupo de descida.}

- Permissão negada, Número Um. Venha até a ponte.

Spencer sabia que seu Primeiro Oficial iria querer voltar, mas ele seria necessário na nave.

{Sim senhor, a Alferes T'mir e eu estamos indo para aí. T'Gar desliga.}

A nave recém chegada preenchia toda a tela. Não era uma visão nada agradável, mas Spencer não conseguia tirar os olhos dela. "Quais serão suas intenções?"

Tami olhava para o seu console, cada vez mais preocupada. A presença do alarme vermelho a incomodava demais. Quando T'Gar e T'mir entraram na ponte, e sua auxiliar se sentou ao seu lado, no leme, se sentiu um pouco melhor. Mas continuava preocupada pelos Oficiais de Segurança que ainda estavam na nave ferengi. A ameaçadora nave ainda estava lá, parada, como se estivesse esperando algo... ou alguém. Cinco longos minutos se passaram sem que nada acontecesse.

- Senhor, estamos sendo sondados. - comunicou de repente a fria Oficial de Ciências, sem nenhuma emoção na voz.

O capitão olhou fixamente para a tela, como se estivesse vendo os tripulantes da estranha nave.

- Sonde-os também, Tenente. Vasculhe igualmente a nave ferengi, veja se tem alguém nosso lá, ou se eles os fizeram de prisioneiros.

- Sim senhor. - ela olhou seu console por alguns segundos, que pareceram intermináveis para Tami. - Sondagem da nave ferengi concluída. Não há formas de vida macrobiológica.

Tami viu o Capitão morder o lábio inferior. Sinal de que estava seriamente preocupado.

- E a nave alienígena?

Novamente a impassível Tenente apenas demorou alguns segundos para responder.

- Não posso dar certeza, senhor, mas pelos nossos sensores, há 85 % de chance de existir formas de vida humanas na nave. Para confirmar, é necessário recalibrar os sensores, devido ao grande número de neutrinos.

- Faça isso, Tenente Wills. Tenente Adachi, tente abrir um canal de comunicação, vasculhe todas as freqüências.

- Imediatamente, senhor. - Tami respondeu, tentando aparentar calma embora estivesse tão nervosa quanto toda a tripulação. Quando ouviu a voz de sua assistente, demorou para conseguir discernir o que ela dizia, e pediu para que repetisse.

- Perguntei se quer ajuda, Tenente. Posso tentar achar uma freqüência alternativa, acho que já sei até como.

Tami acenou com a cabeça. Metade de sua atenção se encontrava no console, a outra no que acontecia na ponte. O Capitão pedira uma análise do primeiro contato para Chaz, que colocou a mão no queixo e pensava. Tami confiava muito no Conselheiro e em sua sensatez. Por isso, prestou atenção quando ele falou:

- Realmente, Capitão, acho que ainda é um pouco cedo para tirarmos quaisquer conclusões. Sabemos que as culturas dos outros quadrantes, como suponho que esta seja, se aquilo foi um wormhole, são quase sempre bastante diferentes das nossas. E pelo que o Comandante T'Gar descreveu, eles não parecem estar aqui pacificamente, não aos nossos olhos humanos. Sugiro que entremos em contato, para entendê-los e aos seus motivos. Afinal, o que nós chamamos de crueldade, para outras culturas pode ser uma coisa rotineira. E assim que derem uma brecha, precisamos de uma reunião para levantar o que já temos.

Tami se empenhou cada vez mais arduamente em estabelecer contato com a nave desconhecida. Olhou para o lado e viu sua assistente tentando também, a testa franzida. Ao vê-la, lembrou-se de uma velha freqüência comercial vulcana, abandonada pela Federação há alguns anos. Não custava tentar. Quando obteve resposta, quase sorriu. Mas se conteve.

- Senhor, consegui estabelecer contato com a nave desconhecida. - Tami informou enquanto abria o canal. Na tela principal, uma imagem retorcida de uma das criaturas toma o lugar da nave. Ele era pior do que imaginara, uma criatura saída das mais sombrias lendas dos seus antepassados.

- Criaturas, - inicia o alienígena, em tom neutro - vocês estão invadindo nossa área de domínio. Nosso território. Por esse motivo vocês serão agregados a nossa nave. Sua tecnologia será analisada e seus tripulantes serão o substrato para nossa reprodução. Deponham suas armas. Dois de seus tripulantes já se encontram em nosso poder.

- Eu sou o Capitão Theodore Spencer da USS Endeavour, representando a Federação Unida de Planetas. Quem são vocês? Nós não tínhamos conhecimento deste ser um território habitado por outras raças capazes de viagens estelares.

Tami percebeu que o Capitão propositadamente ignorou as ameaças do seu interlocutor.

- Não interessa a você saber quem somos, apenas o que pretendemos com você e sua nave. - a voz saia sem expressão, e Tami não podia dizer se era por causa do comunicador, ou se a própria criatura era assim, apática.

- Nós não queremos lhe fazer nenhum mal ou mesmo guerrear, viemos apenas por que recebemos um pedido de socorro. - O Capitão foi interrompido pelo 'Caçador'.

- O que vocês desejam ou o que vieram fazer também não é importante, gado. Você invadiu nosso território de caça e por isso, sua nave e sua tripulação são nossas presas. Entregue-se ou lute.

Tami sentiu um arrepio percorrer sua espinha, e pode ver T'mir fazer um gesto, como se estivesse se benzendo. A resposta de Spencer foi a altura da ameaça.

- Nós não vamos aceitar suas ameaças, e não queremos agredi-los, mas eu não vou deixar nada de mal acontecer com a minha tripulação. Podemos encontrar uma solução pacífica para tanto.

- A escolha foi sua, gado. Esteja pronto para a luta. - a transmissão foi cortada, e Tami não conseguiu reabrir. O Capitão falou com Chaz em tom irônico.

- É, Sr. Chaz, isto está ficando cada vez mais interessante. - Tami sabia que era a maneira dele pedir a opinião do Conselheiro. Prestando atenção no que Chaz dizia, não percebeu quando T'mir se levantou e foi até o posto de Ciências.

- Sim Capitão. Interessante e visivelmente perigoso. É obvio que a criatura não tem intenção alguma de se entregar, ou ceder, assim como nós. E temos dois pontos que nos colocam em uma desvantagem cruel. Eles não só tem membros de nossa tripulação a bordo, como também nos conhecem. Talvez possam não conhecer tudo o que somos capazes, mas certamente sabem sobre nós muito mais do que sabemos sobre eles. Afinal, até agora não sabemos de praticamente nada. Precisamos reverter esta situação de qualquer maneira. Os dois lados estão requerendo direitos de exploração e rendição, mas no momento, infelizmente, estamos em desvantagem.

A Ponte ficou em completo silêncio, enquanto Spencer pensava. Tami viu o Primeiro Oficial se postar ao lado do Capitão, provavelmente ansioso para a batalha. Foi quando notou que T'mir não estava do seu lado. Ao procurá-la, viu que estava junto da Oficial de Ciências. As duas estavam de cabeça baixa, olhando para o console, e a tensão era visível no rosto da meio-vulcana. De repente, ela sorriu.

- Tínhamos razão, Tenente Wills. - e voltou para seu lugar, enquanto a Oficial de Ciências informava ao Capitão o que ambas haviam descoberto.

- Senhor, a Alferes T'mir e eu conseguimos abrir um canal de desvio nas comunicações deles utilizando os próprios neutrinos como fonte de energia. Com isso, estou conseguindo captar nossos oficiais.

- No áudio.

Wills já havia passando as configurações para o console de T'mir. Tami olhou e ficou impressionada. T'mir reparou e disse, sorrindo.

- Os cálculos foram dela, eu só entrei com a idéia. - Tami preparou-se para pegar as coordenadas assim que possível, para poder teletransportar os dois de volta, enquanto sua assistente abriu o canal de comunicação.

- Canal aberto, Capitão. - e a Alferes prosseguiu. - Heavyside, Bannik, aqui é a Endeavour. Respondam.

Os segundos se passaram lentamente, até que pelo comunicador, cheia de estática mas audível, chegou a voz do oficial de segurança.

{Endeavour? Nossa, estou feliz em ouvir vocês!}

A voz de Bannik também se ouviu, parecendo plena de alivio.

{ T'mir, é bom ouvi-la. Mas tire-nos daqui.}

- Imediatamente. - Tami olhou para seu console. "Essa não, os neutrinos não me deixam travar o sinal deles." Parecendo ler seus pensamentos, o Capitão olhou em sua direção.

- Tenente Adachi, consegue travar no sinal deles?

- Não, senhor. Os neutrinos estão interferindo. - e nesse momento a nave alienígena pareceu se mover ainda mais na direção da Endeavour. T'mir tentou contatar novamente os dois oficiais prisioneiros, mas não conseguiu resposta. Tami a escutou tentando diversas vezes.

- Heavyside, Bannik, aqui é a Endeavour, respondam por favor...

T'Gar, que havia ido para o console tático, levantou a cabeça, muito preocupado.

- Senhor, a nave parece estar carreg... - não chegou a terminar, pois o Capitão gritou antes, intuindo o que estava acontecendo. Tami também podia sentir que em breve estariam sobre ataque.

- Potência máxima para os escudos! Carregar phasers! Armar torpedos! - Um raio verde saiu da nave, atingindo a Endeavour em cheio, fazendo a nave sacudir, com a falha dos amortecedores de inércia. Antes que o Capitão pedisse reportes, Tami se adiantou.

- Perdemos os escudos dianteiros, sistema de navegação, e transportes!

- T'Gar, dispare todos os phasers!

- Os bancos de phaser não estão carregados, senhor, de alguma forma eles foram drenados também! - respondeu o meio-klingon.

- Então, os carregue novamente! - ordenou Spencer. Tami pode perceber pela tela que outro raio vindo da nave. Mais uma vez a Endeavour sacudiu bastante. O Capitão que estava em pé se segurou na sua cadeira para não cair.

- Status?

- Fomos atingidos diretamente, decks 15 e 16 com casco rompido. - informou Wills.

- Alferes T'mir, reporte as baixas. - a meio-vulcana rapidamente fez um chamado pelos setores.

- Estão faltando 16 tripulantes na Engenharia Principal, Capitão. E a Enfermaria reporta 15 feridos graves em diversos setores.

O Capitão, preocupado, bateu em seu comunicador.

- Spencer para Salek.

{Engenharia aqui, Senhor. Aqui é o Alferes Welker, o Tenente Salek não está a bordo. E mais 15 dos nossos sumiram de repente.}

Tami sentiu um calafrio, que logo controlou. A gravidade da situação não permitia qualquer deslize emocional. O seu console registrou um aumento da energia nos motores da outra nave.

- Senhor, a nave deles está energizando os motores! Eles vão entrar em dobra!

- Podemos ir atrás?

Tami olhou para T'mir, que estavam checando os sistemas de dobra. Ela balançou a cabeça e apontou para as leituras no seu console. Tami respondeu ao capitão.

- Não senhor, o motor de dobra está avariado.

- Droga! - gritou Spencer batendo no braço de sua cadeira e vendo a nave se afastar na tela.

Tami quase podia ouvir o que todos na ponte pensavam. O que teria acontecido com Heavyside e Bannik?