...E VIRÁ UMA GRANDE ESCURIDÃO

Carlos Abraham Duarte

CAPÍTULO 1

"O pensamento é a partícula infinitesimal que conspurca um oceano."

Antigo provérbio cortusano

Diário pessoal da Comandante. Data estelar 90212.613. Estação Terminus, planeta Lahthi. Sistema Hogla IX. A Al-Burak permanece atracada na doca espacial que orbita o planeta para uma já programada inspeção técnica, que demandará catorze quadrons. Concluímos com êxito nossa missão de exploração e pesquisa do sistema planetário da estrela Wassu – em particular do quarto planeta, classe M -, no ainda não mapeado Setor 77B do Braço Karidian. Tendo em vista que o planeta Wassu IV, ou Yphsis, comprovadamente possui formas de vida autóctones dotadas de consciência – uma população humanoide degenerada de mutantes fotófobos e hematófagos similares aos que se conhece na Terra como vampiros, presumivelmente descendentes dos últimos sobreviventes de uma guerra global com armas biológicas e metagênicas em priscas eras – e não está, portanto, aberto à colonização, decidi colocar o planeta sob quarentena, com uma boia de aviso em órbita, de conformidade com as normas da Federação Estelar. Ademais, a hostilidade manifestada pelos nativos, que preferem o isolamento, torna a interdição do planeta à navegação interestelar duplamente justificada. Quanto ao uso dos demais planetas do sistema e suas respectivas luas (todos desabitados) para a montagem de bases de apoio secretas, visando o lançamento de futuras missões exploratórias nesta parte da galáxia, é uma decisão que caberá apenas ao Comando da Frota Estelar. Nossa estada na Estação Terminus, o posto avançado da Frota mais afastado no Braço Karidian, deu-me a oportunidade de autorizar uma licença para a tripulação. Exceto eu mesma, é lógico. Afinal, é notório que vulcanianos não saem de licença, e esta vulcaniana não pretende fugir à regra. Saril desligando.

A Comandante Saril calou-se. Terminara seu relato. Já tinha enviado seu relatório preliminar para o Comando Estelar, via sistema de hipercomunicação, quinze centiciclos antes. Sua hipermensagem codificada percorreria em alguns metrociclos, graças a um sistema de amplificadores de retransmissores de sinal, os 1.227 parsecs que a separavam do QG da Frota, no planeta Terra, na longínqua União Solar; ao passo que com os transmissores subespaciais convencionais levaria meses para ser recebida.

Como sempre, em tais casos, usou um computron de mão – um retângulo cinza-aço do tamanho de uma barra de chocolate, constituído inteiramente de osmirídio, sem qualquer espaço oco interno – que servia tanto de gravador de registros quanto de terminal de acesso às redes interestelares de dados. Esse computador diminuto era um dos triunfos da ultratecnologia da Federação do século VI D.V., combinando gravação molecular e transmissão subespacial com nível de armazenamento infinito. Uma verdadeira maravilha capaz de gravar a nível molecular, em circuitos selados de puro hiperespaço, bilhões de petabytes de informações necessárias, e de projetar imagens através de um sistema holográfico. A comunicação com outros computrons e com a onipresente e toda-poderosa Starnet era feita através do subespaço a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz. Com tal aparelho, fonoativado e alimentado por uma ligação pontual cosmóvica, até mesmo o comum dos mortais podia entrar em contato com qualquer ponto da Galáxia.

Pessoalmente, Saril achava esse equipamento ativado por voz "um tanto ou quanto primário". Em Vulcano, onde crescera, todos os computadores e computrons de pulso ou de mão, dotados de memória molecular e ligações pontuais via subespaço, eram ativados por comando indutório; bastava pensar ou desejar uma determinada ação do aparelho, e ele instantaneamente obedecia. Devido às suas habilidades telepáticas naturais, além do treinamento nas técnicas de concentração, os vulcanianos não tinham dificuldades em operar quaisquer produtos computadorizados por comando mental. O mesmo valia para outras raças telepáticas muito antigas, como pleiadianos, betazoides e huzzies. Os habitantes de Bynar, por exemplo, já nasciam com o com-sole microminiaturizado implantado no cérebro, não necessitando de nenhum aparato externo para se conectarem em RV através de telepatia eletrônica. Contudo, a grande maioria das tripulações navais da Frota – como também em 80% dos planetas federados – pertencia a raças mais jovens (como os humanos), para as quais a arte da concentração ao se lidar com comandos controlados pelo pensamento requeria um esforço bem maior do que o desenvolvido ao beber um copo d'água. Assim, por medida de segurança, optou-se por manter comandos fonoativados em todos os equipamentos de comunicações e transportes da Frota Estelar.

Saril prendeu o computron à cintura e acomodou-se numa poltrona articulada que adaptou-se automaticamente às curvas do seu corpo. Estava só, completamente só, na ampla sala de estar da suíte do apartamento que ocupava na Estação Terminus, um ambiente esterilizado e despojado, com predominância de tons pastéis, bege e branco, bem de acordo com o gosto vulcaniano pela assepsia e claridade do vidro e da porcelana (os ambientes interiores eram separados por paredes de plastividro "recheado" com uma camada de cristal líquido; sob a ação de uma corrente elétrica que fluía através da película cristalina, a parede variava de transparente a opaca e vice-versa, conforme a conveniência do ocupante). Em seu chão abriam-se vários sulcos ou ranhuras quase invisíveis, dispostos em círculo; era ali que ficavam, embutidas, prontas para o uso, as mesas de serviço automáticas. Sentada rija e ereta em sua poltrona, Saril ordenou ao computador do apartamento:

- Suco de lhamunkaa vulcaniano, à temperatura de 278 K.

Em sete microciclos, a mesa de formato triangular subiu do assoalho a uma altura confortável, regulada pela posição da poltrona em que Saril se sentava. Sobre o tampo liso como um espelho havia um copo de suco azul-esverdeado. Direto do sintetizador de alimentos. O sabor era picante, a um só tempo doce e ácido, exatamente igual ao suco que sua segunda antemãe fazia no solar dos Kam. Perfeito, considerou Saril. Ela bebeu tudo, depositou o copo vazio sobre a mesa (que voltou a afundar-se no assoalho) e recostou-se na poltrona. Em seguida ordenou ao computador que reduzisse a intensidade das luzes, mergulhando o apartamento numa semiobscuridade crepuscular.

Agora poderia enfim descansar – no sentido estrito, literal, cessando por completo o dispêndio de energia. Talvez, meditar.

Pareceu-lhe lógico. Depois dos horrores por que passaram em Yphsis – o "planeta dos vampiros", com seu gado "humano" vampirizável para regalo da aristocracia hematófaga dos Odiadores do Sol, suas tribos bárbaras de zumbis e ghouls canibais e necrófagos, seus pequenos roedores semelhantes a ratos deslocando-se, aos milhões, em tapetes vivos que devoravam tudo que se movesse em seu caminho, fosse humano, animal, vampiresco, zumbi ou ghoul! -, não existia um único membro da tripulação da Al-Burak que não necessitasse de descanso. Até mesmo Saril, filha de Shahhak, da estirpe de Kam, natural de Céculo, a "lua" tamanho gigante do "gêmeo" planetário de Vulcano, Caco. (Por um singular capricho da natureza, os três astros de massa similar e períodos de rotação e revolução síncronos compartilhavam exatamente a mesma órbita, a 4ª partir de seu sol Diphda, num assim chamado planeta triplo ou "rosácea". Astrofísicos mais radicais chegavam a murmurar que uma formação tão estranha quanto improvável só poderia ser obra dos misteriosos Astroengenheiros.)

Ainda havia Laurette Hebe McNab, sua ordenança pessoal – uma allukan. Pensou: Poderá levar tempo até que a tripulação humana aceite tal criatura.

O apartamento estava vazio, exceto, naturalmente, pelos incontáveis bilhões de nanitas – robôs pequeníssimos, de não mais que alguns bilionésimos de metro, fruto dos avanços científicos da nanotecnologia – que, invisíveis a olho nu, enchiam todos os cantos como vírus e bactérias, purificando o ar, monitorando e equilibrando a umidade e a temperatura do ambiente, destruindo microrganismos patogênicos, reorganizando átomo por átomo de algum trecho de parede a fim de combater o desgaste dos materiais. Mas os nanitas, por serem totalmente "dedicados" a tarefas específicas em escala atômica ou molecular, tendiam a ignorar a presença dos homens ou de qualquer ser vivo maior que uma bactéria (se bem que fossem capazes de atender a comandos de voz); igualmente, a recíproca era verdadeira.

Sozinha em sua privacidade, a Comandante Saril da nave estelar U.F.S. Al-Burak permitiu-se sorrir discretamente – um comportamento não-vulcaniano que aprendera com a bêlita Sabrath, que exercia as funções de conselheira da nave. Vulcanianos não saem de licença, ela gravara em seu diário computadorizado. Isso era um estereótipo, Saril sabia bem. E não era o único, mas sim um dos muitos que corriam há mil stanrevs: "vulcanianos não almoçam", "vulcanianos não sentem sono", "vulcanianos não choram nem riem". Nem sorriem, pensou a comandante com seus botões, a boca de lábios verdes levemente torcida no mais próximo de um sorriso irônico a que ela se permitiria chegar. Arie'mnu, a rígida disciplina da lógica e controle das emoções em que se baseava o modus vivendi de seu povo, proporcionava-lhe paz e serenidade ímpares na Federação Estelar, mas havia um preço a ser pago. Nenhum indivíduo tinha o direito de mostrar-se vulnerável aos olhos dos outros – e especialmente dos alienígenas -, sendo sua obrigação parecer perfeito para eles, vulcanianos e não-vulcanianos. Isto não se mencionava jamais em voz alta, porém era tacitamente compreendido e usado como diretriz em Vulcano e suas colônias. Em se tratando de um oficial comandante vulcaniano da Frota Estelar, então, essa expectativa implícita, não-verbal e não-escrita, de um paradigma de perfeição que não admitia fraqueza, erros ou emoção era tanto mais implacável (acima de tudo, a autocensura praticada pela mente lógica de cada vulcaniano que ocupava a cadeira de comando). Por fim, Saril era uma oficial da Inteligência da Frota Estelar; tais oficiais, qualquer que fosse a sua raça ou planeta de origem, eram reputados como pessoas meticulosas, que davam um certo ar de desconfiança e faziam de tudo para ganhar status dentro da Inteligência da Frota – pelo simples fato de terem acesso às informações capitais de forma mais sigilosa.

Não obstante, havia algo de profundamente ilógico nessa atitude dos vulcanianos de compactuar com a persistência de estereótipos de si próprios como superseres. Até parecia que estavam interessados em exagerar suas "diferenças conscienciais" em relação a outras formas de vida para preservar sua identidade racial no vasto conjunto multiforme da Federação Estelar e evitar a assimilação alienígena.

No fundo, Saril divertia-se com tudo isso – algo que ela, a inflexível cumpridora de regras, jamais admitiria publicamente.

Seu link mental com a Central de Dados da Estação Terminus informou-a de que as informações colhidas pelos sensores remotos da Al-Burak sobre a movimentação das naves de Lasmhor e Krotal em todos os setores do Octante Beta Meridional, transferidas e armazenadas nos computadores da base estelar para serem irradiadas na primeira oportunidade, estavam prontas para transmissão por canal hiperespacial. Saril assentiu mentalmente, sem mexer um músculo. Mais qubits de informação estratégica para a fria análise dos integrados moleculares. As altas patentes militares da F.E.U. estariam muito interessadas em saber a respeito de uma atividade extraordinária de duas civilizações inumanas díspares em um subquadrante da Via Láctea aonde os federais estavam agora se aventurando. Pior ainda: a uma distância comprometedora da entrada de um portal estelar da antiquíssima rede de hipervias Kang que a Frota Estelar estava apenas começando a explorar – uma porta aberta, por assim dizer, para os mundos da Galáxia de Andrômeda (e, quiçá, de M33, a Galáxia do Triângulo).

Saril compreendia que a F.E.U. estava constantemente ampliando suas fronteiras, mas não via lógica em utilizar os túneis Kang parcialmente reativados para enviar missões científicas a outras galáxias, ao passo que os trechos não mapeados da Via Láctea ainda no século VI D.V. eram esmagadora maioria, como os Quadrantes Gama e Delta (abrangendo a maior parte dos braços espirais de Centaurus e Perseus), no temido Eastside.

Ela entrelaçou os dedos das mãos branco-esverdeadas como só os vulcanianos sabiam fazer, o anular e o mínimo direitos, unidos, superpostos ao anular e ao mínimo esquerdos, também unidos. Seus olhos de um cinza-prata lunar, profundos e imperscrutáveis como o hiperespaço, pareciam estar se concentrando para dentro. Dali a trinta centiciclos, a jovem Comandante Saril mergulharia no seu trabalho exaustivo e de grande importância para o Serviço de Inteligência da F.E.U. Até lá teria um tempo reservado só para si. Era ambiciosa e almejava progredir, tanto na hierarquia quanto no Serviço Secreto da Frota. Esta meia hora, porém, era só dela.

Fechou fortemente os olhos. Em seguida entrou em meditação.

Os Kang...

Embora não fossem os primogênitos das galáxias, podiam ser contados entre eles. Sua gênese recuava na noite cósmica ao tempo dos Antigos, aos eons primevos em que a vida biológica não era sequer uma vaga ideia na mente incomensurável do Grande Programador.

Os Kang...

Originalmente biomáquinas capazes de se reproduzir por troca de matrizes, integrantes de uma das primeiras civilizações robóticas procedentes de Andrômeda, tinham sido criados – pelas fabulosas Unidades de Processamento em Paralelo de segunda geração, de cujas origens obscuras poucos ousavam falar – para a consecução de um projeto monumental de astroengenharia: a construção de um gigantesco sistema de hipervias cobrindo toda a Galáxia, com ramificações que se estendem além da região da Coroa, para as Nuvens de Magalhães, cruzando o imensamente vasto e tenebroso abismo intercósmico de 2.200.000 anos-luz, ou 674.846,62 parsecs, até a galáxia espiral vizinha e suas galáxias-satélites de M32, M110, NGC 147 e NGC 185. Isto foi há cerca de três milhões de anos solares. Para tanto foi necessário selecionar uma espécie biológica emergente e treiná-la, especificamente, para construir portais estelares através da Galáxia – os antecessores orgânicos das criaturas-astronaves biorrobóticas que chamamos Runners, das quais bem poucas haveriam de restar no século VI D.V. Nessa época – quando, na longínqua Terra, a mais alta forma de vida era o Australopithecus afarensis, e os próprios deuses negros do planeta Nibiru não passavam, então, de selvagens seminus que poliam seus machados de sílex -, foram contatados os Guardiões Namósic das Nuvens Sartog, considerados o último remanescente da mítica primeira geração robótica da Galáxia, e firmados muitos tratados solenes entre as duas raças de biomáquinas.

Meio milhão de anos transcorreu na Via Láctea de 300 bilhões de sóis.

E agora, as hipervias totalmente implantadas, os infatigáveis Kang, como bons engenheiros, debruçavam-se sobre novos e mais arrojados projetos. Agora as entidades biomecânicas eram capazes de disseminar sua influência com velocidade superior à da luz, por toda a Galáxia. Linhas regulares uniam os conglomerados de sistemas estelares entre o Eastside e o Quadrante Alfa, onde, num recanto perdido do Braço de Órion, cintilavam na negra noite sideral os primeiros e tímidos lampejos do espírito humano.

Por esta época, foi atingido o sistema estelar de Adser, num aglomerado aberto distante 6.134,97 parsecs do plano galáctico, lar da civilização mecânica Nomak, que, por milênios sem conta, dedicou-se a explorar a Via Láctea com suas usinas autorreprodutoras, fundando pequenas colônias de robôs num processo de lenta ramificação em subluz. Em Adser VII, um centro supertecnológico de cultura robótica e o 42º ponto de parada na longa perambulação dos Kang, alguns dos seus optaram por fixar-se, e transmitiram aos Nomak instruções elementares sobre o funcionamento de seus portais, enquanto os demais lançaram-se uma vez mais nas silenciosas e frias profundezas da noite intergaláctica de onde tinham vindo há tanto tempo.

Meio milhão de anos após o êxodo dos Kang, foi a vez dos Runners. E as bionaves zarparam para o espaço galáctico em busca de seus próprios objetivos, depois de servirem por 500.000 anos como construtores e técnicos de manutenção de portais para os amos ausentes – talvez para sempre.

Sabendo que os expertos Nomak se encarregariam de manter em funcionamento, pelos milênios vindouros, ao menos algumas das linhas principais de sua rede de portais até o dia em que – conforme prognosticado pelos próprios Runners antes de deixarem o serviço ativo – as hipervias se tornariam perfeitamente dispensáveis.

Dois milhões de anos se passaram desde então.