...E VIRÁ UMA GRANDE ESCURIDÃO – APÊNDICE 2

GALACTOGRAFIA E ASTROPOLÍTICA

Para todos os efeitos práticos, a Via Láctea tem a forma de um disco (uma girândola espiralada), tendo em seu centro uma "barra" de estrelas muito antigas e um buraco negro gigante, dois grandes braços espirais, Scutum-Centaurus e Perseus, presos à barra central, e dois "braços" secundários, Norma e Sagittarius, além de algumas dezenas de ramificações menores, ou "plumas", com bem menos concentração de gás e estrelas recém-formadas. A divisão é feita traçando duas linhas perpendiculares que se cruzam no centro do disco, formando quatro partes, os "quadrantes"; todavia, como a Galáxia é dividida em Superior (parte acima do plano galáctico) e Inferior (do plano galáctico para "baixo"), o que está acima é repetido em baixo (o hexagrama?). Os subquadrantes – subdivisões da espiral que, grosso modo, contêm a principal parte de cada braço, inclusive sua junção com o núcleo galáctico -, ou "octantes", num total de oito, quatro superiores e quatro inferiores, são chamados de Alfa (Setentrional e Meridional), Beta (idem), Gama (idem) e Delta (idem), partindo-se do octante superior direito (o Alfa Setentrional), em sentido horário. O Sistema Solar (e Terra, por tabela) situa-se no Quadrante Alfa, numa espécie de "apêndice" interno, que os astrônomos antigos haviam batizado tão erroneamente como Braço de Órion. O Eastside e o Westside, para usar a terminologia federal, são duas grandes subdivisões que abrangem quatro subquadrantes cada, e que, formalmente, designam o lado "conhecido" do "desconhecido" da Galáxia (tal convenção já foi alterada algumas vezes ao longo dos últimos 100.000 anos). A nomenclatura dos diversos acidentes cosmográficos segue convenções "geográficas" entre inúmeras culturas, como a solariana: golfos, baías, istmos, penínsulas etc.

O assim chamado Braço Karidian, também conhecido como Carina-Sagittarius, no Quadrante Beta, um dos principais quadrantes galácticos inexplorados e não-previamente habitados (com baixo índice de populações autóctones), é nosso vizinho braço secundário adjacente ao de Órion (e de Sol), e, como reúne dois dos oito subquadrantes existentes – Beta Setentrional e Beta Meridional -, pode possuir até 25% dos totais galácticos, de estrelas e planetas. Desta forma, mesmo no século XXV, não é de se estranhar que tudo o que os federais conheçam se resuma nos Sistemas Hogla, os planetas Muran e Lamur, Shogal, Sylvania, Krotal, Lasmhor, a Liga Astronáutica dos Conglomerados Ferengi, e os Clorze, heteromorfos respiradores de hidrogênio que mandam na "Federação" Unnarcleon (regiões subplano, próximas ao centro galáctico, e nos aglomerados globulares inferiores).

A raça dos hoglaneshes, humanoides de pele cinza-azulada (ou azul-acinzentada), ocupa 17 sistemas estelares, os Sistemas Hogla, independentes e frouxamente associados, no Braço Karidian, distante mais de 2.000 anos-luz das fronteiras da F.E.U.; em geral são aliados da Federação, que consideram mais como "força defensiva" – e a vinculação política é frouxa, quase inexistente. Nível técnico-científico, pela Escala Palmer-Yoshida: média de A18- (comparável ao da própria Federação em 2364 A.D.T.T.).

Shogal, planeta periférico do Braço Karidian, habitado por uma civilização humanoide anfíbia no patamar A15- (que corresponde mais ou menos ao estágio técnico-científico que a humanidade terrana atravessou por volta de 1990 A.D.T.T.), estava tornando-se um ponto de atração para duas civilizações inumanas díspares: Krotal e Lasmhor, ambas no patamar A19 (técnica e cientificamente comparáveis à Federação Estelar – e em poderio bélico), o que, eventualmente, acabou por chamar a atenção dos federais. O motivo desta atração? Um portal estelar, tipo Fenda Espacial, de um gigantesco sistema de hipervias cobrindo toda a Galáxia, com ramificações que se estendem além da região do Halo, e do Anel de Monoceros, às Nubecula Magellanicas, cruzando o abismo de 2.200.000 anos-luz até a Galáxia de Andrômeda e algumas de suas galáxias-satélites, como M32, M110, NGC 147 e NGC 185. Por isso, em razão de sua importância estratégica como "via de acesso" a todos os quadrantes da Galáxia e muito além, Shogal entrou para a Federação como "membro adventício", apesar de não participar efetivamente daquela entidade política interestelar. (Um "membro adventício" da F.E.U. é aquele que, sem se filiar formalmente ao conjunto das nações representadas, dispõe de alguns dos direitos dos membros efetivos: proteção militar etc.)

Quem projetou as hipervias foi a fabulosa cultura pré-humana Kang, formada exclusivamente por biomáquinas capazes de se reproduzir por troca de matrizes, três milhões de anos atrás. A execução do projeto, entretanto, foi delegada a uma espécie biológica, especialmente treinada pelos Kang: os antepassados dos Runners, 2.500.000 anos atrás. Estes, uma vez concluída sua tarefa, passaram a dedicar-se a serviços de manutenção e cada vez mais se especializaram, terminando por se converter também em biomáquinas – ou melhor, bionaves. Os portais são pré-navegação hiperfótica, pois sendo automáticos, funcionam em percursos pré-estabelecidos, invariáveis, e em velocidades idem; a única coisa que muda é o sentido, se "indo" ou "vindo". Alguns, mesmo sem manutenção, funcionam até hoje (século XXV).