Férias frustradas de verão.

1996

O chevete prateado corria por uma autoestrada que levava até um local bem inóspito. Região cheia de vales e montanhas era comum ter forte névoa o que acabava atrapalhando a direção. O motorista dirigia com calma, apesar da estrada estar livre. Temia duas coisas, bater contra algum possível carro que viesse pela contra mão ou, pior, jogar o carro pelo desfiladeiro.

Heitor Sacramento vinha no banco de trás, como todo garoto de oito anos gosta de tudo o que é novidade. Bem magrinho, apesar de ter descendência oriental isso não era muito evidente. Seus olhos não eram muito puxados e sua pele era um pouco morena, esse último detalhe ele havia puxado da mãe. O pai do menino, Joaquim, dirigia o carro. Ao seu lado, no banco do carona, vinha sua esposa, Manoela.

Heitor estava sendo levado para passar férias com o avô, um velho que mora em uma fazenda nas montanhas, um lugar bem isolado, mas que Heitor gostava de visitar por achar uma "aventura". Ele era muito novo para perceber a verdadeira intenção de seus pais. Eles queriam é que aquelas férias do garoto fossem também férias de suas responsabilidades. Resumindo, iriam jogar o trabalho de cuidar do menino, mesmo que só por dois meses, para uma outra pessoa. Joaquim e Manoela tiveram Heitor muito cedo, por isso sentiam falta da juventude "perdida". Tal ato, assim como outras demonstrações de desinteresse, não ficará impune. Após ter mais idade Heitor ainda irá respeitar seus pais, mas não terá muito carinho por eles.

Da janela do carro Heitor conseguia ver a mata fechada que cercava a estrada. Imaginava quantos mistérios um local assim poderia guardar. A névoa dava um visual ainda mais enigmático pra região. Sua memória relacionava isso com um certo jogo a qual o personagem principal tenta escapar de uma cidade deserta que era acometida por uma forte névoa que escondia vários monstros. Tal pensamento não o deixava assustado, mas, ao contrário, interessado.

A cancela já estava aberta, Joaquim adentra na propriedade de seu pai e estaciona seu carro a poucos metros da casa. Quase matando um gato no processo. Ele e Manoela saíram do carro e foram até a porta da casa, o velho já esperava por eles. De dentro do chevete Heitor viu seus pais conversarem com seu avô. Não pôde ouvir nada, mas suas expressões estavam severas, como se estivessem tido uma discussão.

A briga durou pouco, logo o rosto carrancudo dos três foi desmanchado e eles foram até Heitor, dizer pro garoto sair e desarrumar a bagagem. Tratavam o garoto com sorrisos falsos, algo que ele não percebeu. Alguma coisa estava errada e faziam de tudo pra manter a verdade afastada do rapaz.

Akira Sacramento tinha oitenta anos. Apesar de ser filho de mãe japonesa e pai brasileiro tinha muito sotaque ao falar português já que viveu quase toda a sua vida no Japão, só vindo morar no Brasil já perto da velhice quando teve seu filho, Joaquim. Ele era magro e, pra idade, cheio de vida. Possuía cabelos grisalhos já ralos e olhos bem esticados. Mais até do que os do seu filho.

A casa de Akira era grande, apesar de simples. A coisa mais moderna era uma televisão que ficava na sala. Fora isso quase não havia tecnologia na fazenda. Era uma propriedade pequena, quase um sitio. Produzia bem pouco, o velho vivia de sua aposentadoria.

Akira vivia com uma mulher de cinquenta anos chamada Jacira. Mais uma vez, Heitor era jovem demais para compreender. Ela era empregada na casa, mas por muitas vezes suas funções excediam os de uma doméstica.

Heitor estava já dentro de casa quando ouviu o som do carro de seu pai indo embora. Nesse momento o jovem sentiu um aperto no peito. Um receio de que seus pais partissem e nunca mais voltassem.

Apesar de não ter amiguinhos da sua idade e nem brinquedos eletrônicos Heitor não se sentia entediado. Sempre tinha algo a fazer. Desde ajudar seu avô nas tarefas da fazenda como treinar luta e tiro ao alvo.

Akira fazia questão que seus filhos e netos soubessem como desmontar e montar uma arma, assim como acertar um alvo a distância de modo certeiro. Esse tipo de ensinamento poderia não ser visto com bons olhos pelos educadores e pelas pessoas de modo em geral, mas Akira não se importava com isso. Além de manusear armas Akira ensinava a Heitor noções básicas de várias artes marciais que ele havia aprendido durante sua vida.

No fundo da casa havia o que o velho chamava de sala de treinamento. Uma sala ampla sem móveis, apenas com um tatame bem velho no centro e dois armários junto a parede. Os armários era onde Akira guardava suas armas. Era quase que um pequeno arsenal. Manoela chegou a questionar sobre o perigo de ter o tanto dessas armas em casa, já Joaquim não ligava. - Os bandidos devem pensar duas vezes antes de invadir aquela fazenda. - Era o que argumentava à sua mulher.

Dez horas da noite, na casa do avô Akira era costume ir pra cama cedo. Algo que um jovem que viveu na cidade grande custa a se acostumar. Heitor ficava deitado em sua cama e se mexia de um lado ao outro tentando pegar no sono. Nada. Olhando para o teto o garoto começou a imaginar várias coisas. Mil ideias diferentes invadiram sua mente. Inclusive uma duvida. O garoto começou a comparar sua vida na fazenda com a de seus amigos e começou a notar algumas diferenças. Treinar com armas, treinar lutas, treinar táticas de guerra... Heitor começou a perceber que aquele tipo de coisa não era comum entre as outras crianças. Heitor temeu que existisse certos padrões que se enquadrassem no que seria normal e que ele e sua família estivessem fora deles.

Heitor já ia pegar no sono quando uma luzinha verde começou a chamar sua atenção. O menino sai de sua cama e vai até a janela do quarto. Que dava uma ótima vista para área de fora. No escuro, naquele quarto, com uma janela dando aquela vista, de início Heitor demorava a dormir imaginando vários perigos que pudessem vir de dentro da mata. Essa noite parece que seus temores haviam se realizado. Mas desta vez o garoto não demonstrava medo. Apenas curiosidade.

Uma bola luminosa verde dançava na mata hipnotizando e chamando a atenção do garoto. Heitor abre a janela e começa a se aproximar. Estava descalço, vestido de pijama. Mas ele não ligava. Estava acostumado a por os pés nus na terra. Nem o frio da serra parecia incomodá-lo aquela noite.

Quanto mais Heitor chegava perto da bola de luz, mas ela se afastava. Parecia querer guiá-lo para algum lugar. Após quase quinze minutos de caminhada se embrenhando na mata a esfera luminosa chega até o que parecia ser um poço. Mais perto a criança percebe que tal poço era bem grande, tendo uns três metros de raio, e que tinha escadas. Se não fosse pela esfera de luz a escuridão naquele poço seria total. O pequeno Heitor foi descendo e não se deteve até descobrir o que tinha lá embaixo.

A esfera luminosa pousou no que parecia uma estátua. Uma estátua bem feia, feita de madeira, que representava um homem com rosto de bode. Tal homem sentava em um toco de árvore de uma maneira que lembrava O Pensador de Rodin. Heitor chegou mais perto da bola luminosa e chegou a tocá-la. Só para perceber que aquilo não era um vaga-lume como ele chegou a supor. O que emitia aquela luz tão única era uma criatura que parecia ser uma mulher em miniatura. Heitor chegou a enrubescer ao perceber que a mulher minuscula não usava roupa nenhuma.

Heitor não teve tempo de sentir muita timidez. O susto falou mais alto quando a estátua de madeira se mexeu para olhar em sua direção. A criança gritou, mas onde estava ninguém ouviria seu clamor. O homem bode se levantou e a passos vagarosos andou na direção de Heitor. O menino ficou paralisado por alguns instantes. Quando o monstro chegou próximo o suficiente para tocá-lo ao esticar seus braços houve uma descarga de adrenalina fazendo com que Heitor conseguisse se mover. O menino correu e subiu as escadas mesmo sem não ter mais a ajuda da esfera luminosa.

- Vô! Vô! - Heitor voltou correndo pra casa e foi até o quarto onde seu avô dormia. Bateu na porta várias vezes pra chamar sua atenção. Akira acordou assustado e foi correndo atender ao pedido do seu neto.

- Um monstro, vô! Eu vi um monstro! Foi horrível! - O garoto se agarrou a cintura de Akira. De tão assustado que estava não percebeu que o velho estava dividindo a cama com Jacira. Que tratou logo de se esconder embaixo dos lençóis pra evitar algum problema.

O velho levou o neto até a cozinha e esquentou um pouco de café pra dar pra ele. Mesmo estando bem quente o menino bebia com grandes goles. - Me diga com mais calma! O que foi que você viu?

- Eu vi uma luz verde pela janela do quarto e resolvi segui-la. - Disse Heitor em meio a soluços. - Fui parar num buraco grande no meio da mata. Desci as escadas e vi um bicho lá embaixo. Parecia um capeta só que era feito de madeira.

- Acho que você viu um fauno. - Disse Akira com um grande sorriso no rosto. Heitor não entendia o que deixava seu avô assim tão contente ao ouvir a sua história. Será que ele achava graça? - Espere aqui. Vou te trazer uma coisa e te contar uma história.

Akira se ausentou por uns cinco minutos e nesse curto espaço de tempo, que parecia uma eternidade, Heitor ficou assustado. Imaginando quais males uma cozinha escura poderia proporcionar. Akira retornou com um livro bem velho em mãos. Ele mostrou a seu neto fazendo-o ficar imediatamente interessado. Trazia imagens exóticas de criaturas fantásticas, fazendo com que o menino lembrasse de algum romance de fantasia ou livro de regras de RPG.

- Não conte a ninguém o que irei te dizer. Ou poderão te julgar mal. - Disse Akira. - Toda criatura que a humanidade já imaginou é real. Todas as lendas e folclores que você ouve ao longo da vida existem de fato, mas nem todos são capazes de vê-los. Treinei seu pai na esperança dele ser uma dessas pessoas com o dom de ver o fantástico. Infelizmente ele não era. O mesmo eu fiz com você e que grata surpresa! Você tem o dom!

Akira virou as páginas do seu livro até encontrar uma em que aparecia a criatura descrita por Heitor. - Esse é um fauno, uma criatura da floresta. Não é perigosa, apesar de sua aparência indicar o contrário. Provavelmente não iria te fazer mal algum.

Heitor estava boquiaberto. Aquele tipo de revelação significava muito para uma mente juvenil como a dele. - Fique com o livro. Espero que lhe seja muito útil. - Heitor não dormiu aquela noite. O medo havia dado lugar a fascinação. Gastou o resto da madrugada lendo aquele livro. Achando tudo impressionante demais.

2016 (20 anos depois).

No mundo fantasioso onde vive Heitor há uma cidade chamada Gotham. Uma megalópode moderna cheia de vários problemas urbanos, como toda cidade grande. Apesar do nome familiar não espere encontrar algum vigilante vestido de morcego cuidando do bem estar dos seus cidadãos.

Não nessa Gotham.

Nos becos escuros de Gotham a noite só se corre por dois motivos. Vítimas fugindo de bandidos ou bandidos fugindo da polícia. Nesse exato momento ocorre a segunda situação. O meliante é um sujeito magro, de cabelo comprido, com os olhos marcados com fortes olheiras. Vestia uma roupa escura e desleixada. Em seu encalço vinha um detetive. Um sujeito forte e de pele morena. Com descendência oriental. Heitor. O detetive Heitor vestia roupas civis, detetives não usam uniforme como o resto da polícia. Calça jeans com blusa branca e uma jaqueta de couro preta pra espantar o frio da madrugada de Gotham.

Nessa situação se quisesse Heitor poderia disparar sua arma, mas evitava fazer isso ao máximo. Não queria uma morte, mesmo daquele tipo de gente, em sua consciência.

O bandido comete um erro, faz uma entrada errada em sua rota de fuga e vai parar em um beco sem saída. Sem ter tempo pra concertar a burrada que fez o bandido é alcançado. Heitor o pega pelas costas e põe rapidamente as algemas, não dando oportunidade para que se defendesse.

Heitor vira o bandido para que pudesse olhá-lo no rosto. Iria falar alguma coisa, fazer uma pergunta ou ler seus direitos. Isso não importava. Ele desiste assim que vê a transformação no rosto do indivíduo. As feições humanas foram deixadas de lado para dar lugar a um rosto reptiliano. O bandido havia se transformado em um híbrido homem-lagarto. Mesmo algemado o meliante tentou atacar com uma mordida. Seus dentes eram afiados e poderiam causar algum estrago. Heitor desvia da investida sem problema e dá uma cotovelada no rosto do criminoso como represália. Esse não causaria mais problemas.

Muitos anos haviam se passado desde que Heitor era uma criança que passava as férias com o avô na fazenda. Ele se tornou um adulto. Com 24 anos ingressou na força policial e devido ao seu ótimo trabalho poucos anos depois foi promovido a detetive. Ele tinha um parceiro que o ajudava na maioria das investigações, um homem calvo e um pouco acima do peso chamado Jeremias Bolevar. Além de colegas eram grandes amigos. Na delegacia Heitor também tinha amizade com o legista, um imigrante árabe, e com seu comandante, Levi Straus. Apesar disso nenhum deles sabia do seu segredo. Nenhum deles sabia o que incentivava seu instinto apurado para localizar criminosos.

Ninguém sabia do seu dom.

Como advertido pelo seu avô Heitor não compartilhou com ninguém suas habilidades. Um segredo que as vezes o corroía. Nem seus pais, nem seus amigos e muito menos seus envolvimentos amorosos sabiam daquela verdade. O único com que Heitor podia compartilhar aquilo era com Akira. E, infelizmente, isso era uma realidade que iria mudar.

Heitor estava em sua mesa, trabalhando em algum relatório quando o telefonema tocou trazendo uma péssima notícia.

No dia seguinte Heitor pediu uma semana de dispensa, o seu chefe concedeu sem pensar duas vezes. Um membro da família morto é um problema, seria insensibilidade não entender isso.

Heitor subiu as montanhas dirigindo seu corola azul. O percurso feito normalmente em duas horas ele fez em uma hora e meia. Assim que chegou perto da fazenda ele viu o carro de seu pai estacionado assim como a de outras pessoas conhecidas, pessoas amigas do finado ou outros membros da família. O velório já deveria ter começado.

Sem ninguém dar boas vindas Heitor estaciona o carro e vai andando até a casa que uma vez foi de Akira. Lá dentro, na sala, Heitor viu vários rostos conhecidos. Um padre falava palavras de conforto enquanto as pessoas olhavam para o caixão que fora colocado em cima de uma mesa. Heitor achou estranho o velório ter sido dentro de casa, um costume que há muito já havia saído de moda. Deixando isso pra lá ele se aproximou e viu o rosto de seu avô pela última vez.

Apesar de ter pouco mais de cem anos era incrível como Akira não parecia ser abatido pela passagem do tempo. Sua fisionomia era quase a mesma de que Heitor se lembra de sua infância. Mesmo com toda aquela vitalidade a idade avançada parecia não perdoar. - Pelo menos morreu dormindo. - Pensou Heitor. Achando que seu velho havia tido uma morte tranquila.

- Filho, filho. Venha cá. - Heitor procura pela origem daquele chamado e encontra seu pai, Joaquim, escorado na parede. Heitor se aproxima a fim de descobrir o que ele queria. Não eram muito próximos, mas ao menos cordialidade ainda existia entre pai e filho.

- Oi, pai. Sinto muito.

- Obrigado. Mas mentiria se dissesse que não esperava por isso. Cem anos, seu avô poderia se considerar sortudo por ter chegado tão longe.

- E mãe? Ela está aqui?

- Temo que não. Tenho uma coisa a te contar. Nós dois... Nós nos separamos.

- Nossa! - Disse Heitor, tentando expressar uma surpresa que não sentia. - Por quê?

- Acho que nossa relação já estava desgastada. Ela foi minha primeira namorada e sabe como é, acho que por um bom tempo apenas nos acostumamos um ao outro sem nos amar de fato.

- Sinto muito.

- Não sinta. Nem tudo está perdido. Conheci uma outra pessoa e quero que você a conheça.

Heitor sorriu, fingindo interesse. - Que bom, marque um jantar ou qualquer coisa do tipo, não faltarei.

Após se afastar de seu pai e da aglomeração de gente que se juntava na sala Heitor foi visitar os outros cômodos da casa. Fazendo com que sua cabeça fosse invadida por lembranças. Visitou a sala de treinamento, a cozinha, a área externa e, por fim, o quarto em que costumava dormir quando ia passar as férias com o vovô, na época em que era apenas um menino.

Da janela do quarto Heitor viu uma esfera luminosa verde "dançando" no ar. O detetive sorriu, pois já sabia o que aquilo significava. Após pular a janela, Heitor foi seguindo a esfera, sem muito prestar atenção a ela, a final já sabia o caminho.

- Diga, Pan. O que deseja falar comigo? - Heitor entra no poço descendo as escadas e já vai indo procurar o morador do lugar.

Pan, o fauno com corpo de madeira, se levantou do lugar a qual estava acostumado a ficar sentado e foi falar com o detetive. Sua cara estava chorosa, Heitor já compreendia o porque. - Você era muito chegado ao meu avô, certo? Sinto muito, mas nós humanos não costumamos viver tanto.

Pan, ainda chorando, colocou o dedo sobre sua boca. Sinalizando para que Heitor se calasse. Em seguida começou a falar. - Bobagem, ainda não havia chegado o tempo de Akira!

- Sobre o que está dizendo?

- Seu avô não morreu uma morte natural. Ele foi assassinado!