Nota da (ilustríssima) autora: há já bastante tempo que não pedia emprestadas as personagens do Mestre Tolkien.

Aranhas

Os elfos são exactamente como os humanos. Há crianças, adolescentes e adultos, e, também como os humanos, os elfos têm as suas fobias, as suas paranóias, as suas esquisitices.

Posso afirmar que Aarne é aquilo a que num humano corresponde um adolescente de 18 anos e Legolas uma criança.

Aarne. Um elfo franzino, muito nervoso, com a mania de endireitar tudo por onde passa; tapetes, quadros, jarras... Tinha uma longa cabeleira loira, dum loiro quase branco, com algumas madeixas de cobre. Os olhos verdes, muito abertos e irrequietos, e o rosto magro de tez pálida, conferiam-lhe um ar cadavérico. Além do mais, o jovem Aarne possuía algo invulgar para um elfo; sardas.

O pai de Aarne morrera alguns anos atrás, resultado duma queda de cavalo. A partir desse dia, a mãe de Aarne ficara sentada à janela, imóvel qual estátua de mármore num cemitério, sem se alimentar ou comunicar com os filhos. Coubera então a Aarne sustentar os seus quatro irmãos mais novos, e a única coisa que conseguira arranjar fora um emprego no palácio real. E a sua missão era tomar conta do irrequieto príncipe.

E era exactamente isso que, naquele dia calmo de Primavera, Aarne estava a fazer. O príncipe era um elfinho adorável e muito querido... mas não parava quieto. Naquele exacto momento o jovem elfo já percorrera o palácio de uma ponta à outra, mas não encontrara Legolas. Tomou uma nota para si mesmo para nunca mais brincar às escondidas com o pequeno diabrete.

Desceu as escadas para o jardim, o único sítio onde ainda não tinha procurado. Eram quase horas de jantar e o rei era especialmente pontual à hora das refeições. E ainda havia o banho, que Legolas detestava, e a complexa missão de atafulhar a pequena criatura com camadas e camadas de roupas finas e pouco práticas.

Aarne transpôs a porta e, ao fundo do jardim, junto aos arbustos, lá estava Legolas. Sentado na lama, certamente entretido a desenterrar minhocas e outros bichos nojentos. Aarne tinha horror a bichos nojentos. Suspirou e dirigiu-se para o príncipe em passadas largas:

-Pronto, encontrei-te. - disse - Agora vamos para dentro, tenho de te arranjar para jantar.

-Aarne, olha! - exclamou o pequeno elfo, espreitando por cima do ombro. O jovem elfo aproximou-se mais, Legolas ergueu-se e mostrou-lhe as mãozinhas. E nas mãozinhas sujas do príncipe passeavam quatro aranhinhas. O elfo sardento mandou um berro e fugiu para o interior seguro do palácio:

-LEGOLAS, QUE NOJO! - berrou histéricamente - Mete essas porcarias nos arbustos e vamos embora!

-Não, vou ficar com elas. - decidiu Legolas. E avançou, decidido, as mãos bem erguidas a exibir as aranhas. Aarne sentiu-se muito enjoado:

-Uma vassoura, é isso... - suspirou para si mesmo. Uma vassoura, o seu emprego por uma vassoura! Legolas fez uma careta:

-Não as mates... - pediu - São nossas amigas, comem as moscas!

-Ah, e quem te disse que comer moscas é bom? - Aarne cruzou os braços, mantendo uma distância segura - Elas também foram criadas pelos seres superiores!

Nisso Legolas não tinha pensado. Suspirou tristemente e voltou ao jardim. Aarne cerrou os punhos, vitorioso; não era todos os dias que levava a melhor de Legolas sem passar por um maciço ataque de caneladas. O jovem príncipe voltou, aparentemente inofensivo, e deixou que Aarne o conduzisse para o quarto:

-Agora, - começou o jovem elfo, tendo o cuidado de trancar a porta - não fujas, não te escondas, não faças escândalo. Vou preparar-te o banho. - e, surpreendentemente, Legolas assentiu. Devia ser truque... Rapidamente, Aarne entrou na casa de banho anexa ao quarto do príncipe, colocou água ao lume, foi buscar toalhas fofinhas ao armário e despejou a água quente na banheira. Voltou ao quarto e Legolas, sentado na berma da cama, baloiçava as pernas alegremente.

Aarne sorriu; talvez o pequeno elfo já tivesse percebido quem mandava.

Uma semana depois, enquanto Legolas tinha uma aula de equitação, Aarne estava a limpar e a arrumar impecavelmente o quarto do príncipe. Legolas tinha o péssimo hábito de deixar um rasto por onde quer que passasse; roupa, papel, lápis, livros, botas... Pacientemente, Aarne pegou nas roupas, certificou-se de que não estavam sujas, sacudiu-as e dobrou-as impecavelmente. Abriu a porta do grande roupeiro, arrumou as roupas e depois reparou num frasquinho de vidro. Certamente Legolas assaltara a cozinha e trouxera um frasco de compota. O jovem elfo revirou os olhos e pegou no frasco.

E quatro aranhas piscaram-lhe os olhos, calmamente. Uma delas, a maior e coberta por uma espécie de penugem castanha, bateu com uma das patas contra o vidro. Aarne berrou, horrorizado, largou o frasco e fugiu.

Legolas trotava alegremente no pónei quando o rei lhe fez sinal para parar. Legolas assim o fez e conduziu o pónei para junto do rei elfo. Thranduil aparentava não estar satisfeito:

-Desmonta. - ordenou. Abrindo muito os olhos azuis, Legolas desceu do arreiro e gemeu de dor quando o pai o agarrou pela orelha e o conduziu para o palácio - Encontrei o Aarne a chorar debaixo das escadas que dão para a cozinha. Estava completamente aterrorizado. - Legolas engoliu em seco, sabendo perfeitamente que vinham aí sarilhos - Fiquei curioso em saber o que poderia ter assustado alguém num quarto de criança. Criança real, ainda por cima. - Legolas engoliu em seco e já não sentia a ponta da orelha - E qual não foi o meu espanto quando me deparei com um frasco partido e três aranhas a fazerem turismo.

Subiram as escadas para o segundo andar, seguiram pelo corredor austero e entraram no quarto de Legolas. O pequeno elfo sentiu os olhos encherem-se de lágrimas quando se deparou com três aranhas esmagadas no chão, junto aos cacos de vidro. Thranduil apertou um pouco mais o puxão de orelhas e aproximou os lábios da orelha do filho:

-Limpa. E ai de ti que voltes a repetir. - resmungou. Sozinho, Legolas permitiu que uma lágrima solitária se escapasse; que tristeza ver amigos mortos... Pegou na pá e na vassoura e varreu os cacos e os cadáveres das três aranhas. Mas, além da mágoa pelas aranhas brutalmente assassinadas, sentia-se culpado. Quando acabou de limpar foi procurar Aarne.

Aarne estava sozinho na cozinha, sentado num banquinho. Tremia bastante e suava, e tentava a todo o custo beber um chá. Quase entornou o chá sobre si quando Legolas apareceu de repente e parou de pé à sua frente. O elfinho parecia desolado e Aarne franziu o cenho, desconfiado.

O pequeno príncipe desenhou um círculo no chão com a biqueira da bota, fitando intensamente os olhos verdes de Aarne:

-Desculpa. - murmurou. Aarne abanou a cabeça violentamente:

-Não, és uma praga! Detesto-te! - ripostou. Porém, ao ver os olhos azuis de Legolas encherem-se de lágrimas, suspirou, cansado, remoeu uma praga e bebeu o chá de um trago - Pronto, pronto! Não chores, eu desculpo-te...

Legolas sorriu, um sorriso adorável capaz de despedaçar montanhas. Aarne permitiu que o elfinho o abraçasse, bufando e rosnando de que, se Legolas voltasse a fazer algo assim parecido, atirava-o da janela duma das torres. Depois acalmou-se, desconfortável com os bracinhos de Legolas em torno do seu pescoço, e abraçou-o também:

-Vou ter pesadelos com aquelas quatro aranhas até ao fim dos tempos... - suspirou. E sentiu as costas do príncipe enrijecerem - Legolas?

-A Felpuda! - exclamou o pequeno elfo e foi-se embora a correr. Aarne olhou para a caneca vazia do chá, sentindo-se subitamente agoniado e muito doente. Levantou-se e seguiu Legolas. Quando chegou ao quarto, o pequeno príncipe vasculhava debaixo da cama, e a cor fugiu do rosto pálido de Aarne:

-Legolas... não me vais dizer que...

-SIM! - cantou Legolas, vitoriosamente, erguendo-se. Tinha as mãos fechadas em concha, formando um abrigo, e olhou desconfiadamente para Aarne. O elfo sardento blasfemou, fechou a porta e cruzou os braços. Sentindo-se seguro, Legolas abriuas mãos e revelou uma aranha com o diâmetro de um malmequer, coberta por uma penugem castanha. Aarne deixou-se escorregar até ao chão e escondeu a cara nas mãos:

-Isso é a Felpuda... - concluiu - Isso tem um nome, um nome que qualquer elfo normal daria a uma gata ou a uma pónei... a uma canária, quanto muito! - fitou Legolas, horrorizado e com as mãos a tremer. A voz falhou-lhe e quando voltou saiu muito aguda - Mas uma aranha...!?

Legolas olhou para as mãos, inocentemente, e colocou a aranha no ombro. Aarne gemeu, em puro sofrimento:

-Por favor, livra-te dela!

-Mas lá fora a chuva pode afogá-la, e os pássaros podem come-la... - lamuriou o pequeno elfo - E ela é tão fofa, não faz mal a uma mosca!

Um tique por baixo do olho de Aarne conferiu-lhe uma expressão verdadeiramente ameaçadora:

-Ou a liberdade da natureza, ou vou chamar o teu pai! - ameaçou.

E foi assim que, no dia seguinte, Legolas deixou Felpuda entregue à sua sorte. Foram a uma clareira solarenga, o príncipe desmontou do pónei, tirou a aranha dum bolso da túnica e colocou-a no tronco dum carvalho. Felpuda afastou-se sem se despedir.

Legolas suspirou, tristemente, e voltou a montar o pónei. Aarne seguiu a seu lado, a uma distância segura do pequeno animal:

-Muito bem, fizeste a coisa certa. - congratulou-o o jovem elfo. Legolas lançou-lhe um olhar aborrecido e Aarne devolveu-lhe uma careta - Detesto-te...

-E eu a ti! - volveu Legolas, metendo-lhe a língua de fora. Ainda assim, sorriam-se.


E termina aqui o primeiro capítulo. Review?