Nota da (ilustríssima) autora: mais uma vez, quero agradecer a todos pela atenção dada a esta fic; sinceramente, não esperava reacções tão boas! :D

Bom, cá estamos, no último capítulo de Aranhas; andou rapidinho, há que aproveitar enquanto não se tem testes. ;) Mais fics virão com estes nossos camaradas.

P.S: o nome do cavalo do Aarne, Tir, provem do deus saxão da guerra com o mesmo nome.

Aranhas

Foi uma tarde chuvosa. Legolas e Aarne ficaram fechados no quarto do príncipe, espalharam almofadas pelo chão e deitaram-se nelas. Apesar de tentarem não o demonstrar, sentiam-se infelizes com a separação eminente.

Legolas foi o primeiro a quebrar aquele silêncio desconfortável:

-É um sítio magnífico. - começou. Aarne enterrou a cabeça na almofada:

-De que me serve um sítio bom se vou ficar sozinho...? - indagou, a voz abafada pela espessa almofada. Legolas pegou numa das pontas da almofada e puxou-a, arrastando Aarne para perto. Começou a desfazer-lhe as tranças:

-Mestre Elrond e os filhos... bom, toda a gente em Imladris é impecável. Vão gostar de ti e tu vais gostar deles.

Aarne ergueu minimamente a cabeça e lançou um olhar profundamente céptico a Legolas; o elfo sardento era o tipo de elfo que se encolhia a um canto, com medo que lhe quisessem fazer mal. Sozinho numa casa de nobres senhores, sentir-se-ia mais baixo que o tapete da entrada. Ssupirou:

-Já lá foste? - perguntou. Legolas assentiu:

-Antes de vires para cá. O meu pai ia lá muitas vezes tratar de negócios. E a Lórien também. - o príncipe sorriu - Íamos os dois no Cuchulainn, apesar do Yrjan estar sempre a dizer que eu devia ir num pónei mansinho.

-E... nunca mais lá foste? - Legolas abanou a cabeça:

-Mas continuo a corresponder-me por cartas com os filhos de mestre Elrond.

Aarne voltou a afundar a cabeça na almofada enquanto Legolas lhe fazia uma única trança. De súbito, o príncipe começou a rir e Aarne virou a cabeça para ele, preguiçosamente:

-O que é que estás a fazer, elfo maldito? - teve de esperar um bom bocado até Legolas se acalmar para lhe conseguir responder:

-Lembrei-me de quando era criança...

-Se eu me lembrasse disso não me ria, chorava... - o elfo sardento sentou-se, sorridente, e o príncipe continuou a entrançar-lhe o longo cabelo:

-Eu era um querido!

-O teu pai também acha...

Um novo ataque de riso por parte de Legolas. Tombou para a frente, agarrado à barriga, e ficou encostado a Aarne. O elfo sardento suspirou e revirou os olhos:

-Se me babas o cabelo...

-Lembraste quando pensei... - o príncipe enxugou as lágrimas, o rosto muito vermelho de rir - que as tuas sardas eram sujidade?

-Claro, até me querias lavar a cara e tudo... - o corpo frágil do elfo de olhos verdes foi sacudido por uma gargalhada. Legolas rebolou pelo chão, assolado por um novo ataque de riso:

-E quando eu achei que te tinham entornado tinta no cabelo?

Aarne dobrou-se para a frente, a rir. Por momentos, esqueceram por completo o que estava para vir e entregaram-se à habitual galhofa. Quando se recompuseram, Legolas rastejou novamente para trás de Aarne e continuou a mexer-lhe no cabelo. Ficaram em silêncio durante algum tempo, e os únicos sons que se ouviam era o cair da chuva lá fora e o trovejar ocasional e longínquo.

O elfo de olhos verdes olhava para as mãos. Sentia-se adormecer enquanto os dedos de Legolas passeavam alegremente pelo seu cabelo. Sinceramente, não se conseguia imaginar sem o amigo por mais de dois meses... quanto mais dez anos! Dez anos, o que para os elfos é nada! A quem se iria apoiar, quando precisasse de apoio? A que ombro iria chorar, quando sentisse necessidade de tal? Mordiscou o lábio e tentou ver o lado positivo daquela aventura; dez anos era a pechincha a pagar por uma eternidade ao lado do príncipe!

Porém, o lado negativo de Aarne era maior e mais forte que o lado positivo; aranhas, orcs... e se, durante a sua ausência, acontecesse algo a Legolas? E se ele fosse gravemente ferido, raptado, apanhado, envenenado, comido vivo... morto! O pensamento desagradável fê-lo arregalar muito os olhos, horrorizado; o que faria, se soubesse que Legolas morrera na sua ausência?

A resposta veio, inata: morreria também!

Foi arrancado dos seus obscuros devaneios pelos olhos azuis de Legolas, que se cravaram nos seus:

-Aarne? - chamou o príncipe, preocupado - Está tudo bem?

O elfo de olhos verdes abanou a cabeça. Não falaram muito mais e abraçaram-se, ficando assim durante muito tempo.

Dias depois a resposta de Mestre Elrond chegou e, tal como Thranduil esperara, o nobre meio-elfo não recusara Aarne. O entusiasmado rei começou entou a fazer os preparativos para a viagem; iria com Aarne, obviamente, e Legolas iria também, mais um punhado de elfos para fazerem escolta.

Foi dado ao elfo sardento um cavalo pequenino e robusto, de pernas musculosas e peludas, de cascos largos e altos. O corpito arredondado, aliado ao pescoço grosso e pequeno e ao focinho acarneirado conferiam-lhe um aspecto rude e resistente. No entanto, a crineira e rabada longas e onduladas, loiras com as pontas pretas, e a pelagem baio cereja tornavam-no um animal belíssimo. Até ao solestício de Verão, Aarne teve de praticar equitação todos os dias, vigiado de perto pelo próprio Thranduil e enfiado entre os experientes cavaleiros que os iriam acompanhar.

O pobre elfo sentia-se desolado sempre caía em frente a tão ilustres elfos e humilhado quando o pequeno cavalo, Tir, fugia do picadeiro e o elfo tinha de ir atrás dele.

Na véspera da partida, após as celebrações do solestício, Aarne quis despedir-se dos seus irmãos mais novos, mas a frieza com que foi tratado deixou-o ainda mais triste. Decidiu então ocupar-se com a bagagem; era óptimo a arrumar, organizar e verificar coisas.

Partiram na manhã seguinte. O dia prometia ser quente e solarengo, mas uma fina camada de névoa enroscava-se em torno das pernas dos cavalos que esperavam, ensonados, no pátio. O entusiasmado Thranduil andava de um lado para o outro ordenando isto e aquilo, enquanto apertava as correias de cabedal do peitoral de ferro e couro. Yrjan trotava atrás do rei, tentando fazê-lo parar para lhe puder vestir a capa de viagem.

Tjaden dormitava no arreio. Aelle, muito direito, esperava ao lado do cavalo do rei. Legolas segurava Tir para que Aarne conseguisse montar. O elfo de olhos verdes agarrou imediatamente as rédeas e suspirou:

-Quanto... quanto tempo? - perguntou. A seu lado, Legolas subiu para o arreio e fez de propósito para acertar com a biqueira da bota no ombro de Tjaden:

-Se tudo correr bem... e se não pararmos... uma semana. - volveu o príncipe. Aarne abriu a boca, horrorizado; uma semana sentado naquele arreio duro, às costas do animalzinho irrequieto! Abanou a cabeça:

-Define 'correr bem'...

-Se não formos atacados pelo caminho. - continuou Legolas, despreocupadamente, enquanto ajustava os estribos. Aarne deu-lhe um soco no ombro:

-Detesto-te! Mas detesto-te tanto!

Gerou-se uma pequena bulha entre os dois amigos, acompanhada pelos incentivos dos soldados que apoiavam a rebelião de Aarne. Aelle, mais afastado, olhava-os com um ar superior.

Igualmente um pouco mais afastado, Thranduil prendia uns últimos alforges ao arreio. A seu lado, Yrjan não parava de papaguear recomendações e de verificar constantemente a cilha e a barbela de Cuchulainn. O cavalo negro seguia-o com olhos ameaçadores. Por fim, o rei elfo, cansado da voz do conselheiro e do barulho de fundo provocado pelos outros elfos, içou-se com elegância para o arreio:

-... e sobretudo cuidado com os orcs. E as aranhas! E Thranduil, que caminho vais tomar?! Não me contaste nada, para que sirvo eu, afinal? - esganiçou-se Yrjan, arregalando muito os olhos glaciais. O rei elfo ajustava os estribos, calmamente:

-Estou careca de ouvir os teus avisos, sabes? - volveu. Ergueu-se nos estribos e resolveu encurtá-los mais - Estribos curtos! - gritou à companhia, que se apressou a obedecer à ordem - Mandei batedores, está tudo bem. Contei sim, não te faças de coitado!

-Olha o respeito, meu jovem... - resmungou o conselheiro, insatisfeito - Por que caminho vão?

-Pela estrada... - suspirou Thranduil. Olhou em redor; sim, tudo bem com o cavalo... - E pelas montanhas.

-E os orcs? - exasperou-se Yrjan. O rei elfo franziu o cenho:

-Os orcs não vêm das montanhas, não sejas estúpido! Vá, vai para dentro e olha pelo meu reino na minha ausência.

-Vai e vem depressinha, nada de aventuras inesperadas! - resmungou Yrjan - Daqui a duas semanas tens uma reunião importante, é tempo à justa para... - mas Thranduil, enfadado, incitou o cavalo a andar e deixou o conselheiro a falar sozinho. Irritado, Yrjan voltou para dentro a praguejar.

O rei elfo voltou a parar o cavalo ao pé dos seus soldados, que o fitaram. Percorreu o grupo com os olhos, calculando, e por fim decidiu:

-Vocês, - abrangeu os arqueiros com a mão - formam em quadrado atrás do Tjaden. Tu e o Tjaden, - apontou Aelle, que ficou visivelmente insatisfeito por não ir ao lado do rei - vão em par com o Aarne no meio. E tu, - apontou o filho, de igual modo visivelmente desapontado por não ir ao lado de Aarne - vens comigo.

Assim organizados, partiram. A viagem decorreu sem problemas, paravam apenas à noite e prosseguiam antes de o dia raiar.

Ensanduichado entre Aelle e Tjaden, Aarne seguia, apreensivo e chocalhado pelo cavalinho. Sorria apenas quando, de dia, Legolas o olhava por cima do ombro e quando, de noite, se sentavam juntos e falavam dos mais absurdos assuntos. De resto mantinha uma expressão melancólica, os olhos verdes assustadiços fixos no nada, baços. Parecia tudo um sonho estranho. E, para se tentar abstrair das dores nas costas provocadas pelo galope do cavalinho, pensava.

Como ficaria Legolas durante a sua ausência? Quem é que o iria acordar a horas, preparar o banho, entrançar os cabelos e servir-lhe o pequeno-almoço? Quem é que aturaria o seu romance da Felpuda? A quem é que ele contaria, empolgado, que matara uma dezena de orcs na fronteira, que acertara em todos os alvos, que conseguira fazer uma habilidade nova com Ragnar? A quem confidenciaria que escondera a coroa do pai? Com quem trocaria sorrisos cúmplices enquanto observava o rei procurar a coroa? A que ombro se iria encostar para chorar, caso o dia lhe corresse mal?

Olhou em redor e sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. O sociável Legolas era adorado por todos, e mesmo que sentisse a sua falta, os dois seres que lhe eram mais próximos tratariam de o distrair, certamente; Thranduil e Tjaden.

Agora ele, Aarne, ficaria isolado. Oh, cruel certeza...

Quando chegaram ao seu destino, o elfo sardento não pôde deixar de se maravilhar; Imladris, tão solarenga e protegida, era realmente um local espantoso. Alguns elfos espreitavam das casas, curiosos, enquanto a companhia seguia. À sua espera, no alpendre de uma majestosa casa, estavam Elrond e os filhos.

Aarne não conseguia parar de olhar em redor; que sítio tão diferente da sua terra natal! Distraído, quase se desequilibrou quando Tir imitou os outros cavalos e parou. Olhou em frente e viu Thranduil e Legolas, que tinham desmontado, cumprimentarem a família de elfos morenos. Aarne sentiu-se diminuir e perguntou a si mesmo se haveria mais algum elfo de cabelo claro por ali. Presumiu que o elfo com quem Thranduil falava deveria ser Elrond, portanto os três elfos a quem Legolas se dirigia deveriam ser os seus filhos; uma elfo, muito bela, e dois gémeos. Gémeos! Aarne tinha medo de gémeos!

Quando deu por si Legolas estava junto a Tir, sorridente:

-Anda, vem conhecer a casa! - disse. Em seu redor, a companhia dispersava, uns levando os cavalos, outros seguindo elfos morenos. Elfos morenos em todo o lado! Timidamente, Aarne assentiu e desmontou. As pernas e as costas doíam-lhe, tal como os braços, as mãos, os dedos... tudo! Como detestava andar a cavalo...

Seguiu Legolas, ou melhor, foi arrastado pelo príncipe, até à família de Elrond. Todos o olhavam de maneira amigável e simpática, e mesmo não tendo dúvidas das melhores intenções daqueles elfos, Aarne não conseguia deixar de se sentir aterrorizado. Tentou sorrir, mas teve noção que falhava miseravelmente:

-Este é o Aarne. - apresentou Thranduil, apoiando a mão, pesadamente, no ombro frágil do elfo franzino. Elrond sorriu-lhe, e Aarne, mesmo tendo a certeza de que o elfo moreno era a encarnação da bondade, continuava aterrorizado:

-Bem vindo! - saudou Elrond. Aarne fez uma reverência e o mestre elfo abrangeu a família com um gesto da mão - A minha filha Arwen, e os meus filhos Elladan e Elrohir.

-Não não, eu sou o Elrohir! - reclamou um dos gémeos, arregalando os olhos acinzentados. Aarne engoliu em seco e Legolas abafou o riso. Elrond ergueu uma sobrancelha, inquiridor, e logo o jovem elfo se recompôs - Pronto... sou o Elladan...

-Que mania, de me roubar a identidade! - queixou-se o outro gémeo, empurrando o irmão. Arwen permanecia impávida a custo - Qualquer dia entro em crise!

Os dois gémeos afastaram-se a correr e engalfinhados um no outro. Elrond ergueu os olhos para o Céu, pedindo paciência, e Thranduil olhou de soslaio para o filho; deveras, muito mais prático ter apenas um filho.

Entraram, Aarne já não estava muito certo sobre a vida pacífica que levaria por ali. Para aumentar o seu desespero, a casa senhorial era gigantesca e bastante aberta, havia janelas e luz por todos os lados; que horrível sensação de estar exposto!

Conduziram-no até aos seus aposentos, mas o elfo sardento foi incapaz de memorizar o percurso. Legolas acompanhou-o e ficou com ele no quarto, para o ajudar a desarrumar a grande mochila de cabedal.

O quarto de Aarne era enorme, muito espaçoso, com uma grande cama e um roupeiro, tudo em madeira trabalhada. Uma cortina púrpura separava o quarto da casa-de-banho anexa. Havia duas janelas redondas e, entre elas, uma varanda enorme com um divã. Aarne engoliu em seco, especado no meio do quarto enquanto Legolas lhe começava a arrumar os poucos pertences:

-E então, gostas? - perguntou o príncipe:

-Gostar, gosto... - murmurou o elfo de olhos verdes, incapaz de relaxar - mas... mas é tudo tão diferente! Odeio mudanças repentinas, odeio!

Legolas sorriu, divertido, mas o seu sorriso esmoreceu quando os seus olhos encontraram os de Aarne. Avançou para o amigo e deu-lhe um empurrão leve. O outro elfo esboçou uma careta:

-Estás muito divertido... - resmungou. O príncipe revirou os olhos azuis; já conhecia o amigo tão bem...:

-Para o caso de não teres reparado, os corações pesados ficam leves em Imladris.

-Então o meu coração deve ser um caso à parte...

-Ou então estás preocupado à toa. - Legolas cruzou os braços e por momentos ficou uma cópia exacta do pai - Não me digas que estás preocupado com aquilo que eu estou a pensar...

Aarne suspirou, derrotado, e foi sentar-se na berma da cama. Entrelaçou os dedos, poisou as mãos sobre os joelhos e ali ficou, cabisbaixo. Legolas sentou-se a seu lado e puxou-o para um abraço:

-Vais sentir a minha falta? - perguntou Aarne, dando finalmente voz ao seu mais profundo receio:

-Elfo estúpido, claro que vou!

-Elfo ainda mais estúpido! - tentou sorrir, mas o que acabou por fazer foi enterrar a cabeça no ombro de Legolas e soluçar. O príncipe mordiscou o lábio, também ele bastante infeliz com a separação. Mas se demonstrasse o seu verdadeiro estado de espírito, então Aarne ficaria absolutamente impossível.

Naquela noite houve um banquete à luz das estrelas e, para a mínima satisfação de Aarne, havia mais um outro elfo loiro naquele sítio; Glorfindel. Ficou minimamente satisfeito por ele e o mítico elfo constituírem uma minoria não muito significativa... Legolas e Aarne passaram a noite juntos, a jogar um jogo de tabuleiro que acabou numa luta de almofadas.

E no dia seguinte a companhia de Mirkwood partiu. Legolas e Aarne abraçaram-se uma última vez, depois o príncipe montou e seguiu o grupo, olhando algumas vezes para trás. Nenhum dos dois queria chorar, pelo menos, enquanto houvessem mais elfos por perto.

Aarne ficou a vê-los desaparecer, a saudade a apoderar-se do seu pequeno coração. Por fim, sentiu uma mão no ombro e olhou para o lado; Elrond e os filhos sorriam e o mestre elfo conduziu-o novamente para dentro:

-Vou mostrar-te a biblioteca. - anunciou Elrond, calmamente - Tenho a certeza de que vais gostar.

O elfo de olhos verdes limitou-se a assentir, cabisbaixo.


Legolas seguia muito calado. Por diversas vezes, Thranduil pensou em iniciar uma conversa, mas sentia que o filho queria ficar sossegado. Fez-lhe a vontade, como geralmente fazia.

Era o último dia de viagem e galopavam pela estrada da floresta, calmamente. Os elfos, já que o seu rei parecia ter adoptado o silêncio do filho, conversavam animadamente. Mas de súbito os cavalos estacaram bruscamente, de pescoços erguidos e orelhas espetadas para a frente. Atentos, nervosos, assustados.

Apenas Cuchulainn ousou dar um passo em frente, cauteloso, e depois, ao sentir uma leve cedência nas rédeas, trotou confiante para fora da estrada e meteu pela mata. Os outros cavalos seguiram-no, encolhidos.

Os elfos já tinham os arcos preparados para disparar e Thranduil poisara a mão no cabo longo da espada. Guiados pelos cavalos, foram dar ao que parecia ser um campo de batalha das aranhas. O rei elfo fez uma careta; então as bandidas já andavam por ali também! Havia teias nojentas pelas árvores que, privadas se sol e oxigénio, esperavam moribundas pela tempestade que as deitasse abaixo, dando o golpe de misericórdia.

A par das teias, jaziam pelo chão os corpos exangues de aranhas mortas por outras aranhas, envoltas em teias, e pernas esqueléticas espalhadas naquela área.

Mas o que fez Legolas empalidecer e quase deixar cair o arco foi ver Felpuda pendendo de uma árvore, com a penugem castanha coberta de teia e sangue. Os seus muitos olhinhos fitavam-no, baços, enquanto ela girava monotonamente, como um pêndulo estranho que não indicava nada. Faltava-lhe outra perna e tinha um ferrão negro, venenoso, cravado no dorso macio.

Thranduil sentiu o queixo descair; então aquilo fora Felpuda. Olhou para o filho, um misto de pena, surpresa e compreensão estampados nos seus olhos, ao qual Legolas respondeu com um virar de costas. O rei virou Cuchulainn e incitou-o a trotar:

-Vamos embora, elas podem voltar. - ordenou. E seguiram para o palácio.

Naquela noite Legolas trancou-se no quarto e ficou sentado na cama. Aarne fora-se, Felpuda fora-se! Fungou; parecia estúpido, se contasse a alguém que pretendia travar amizade com a simpática aranha, certamente o achariam louco ou, pura e simplesmente, ignorá-lo-iam. Mas se Aarne ali estivesse, ele iria compreender. E iria apoiá-lo.

Mas não estava. E como sentia a falta daquele elfo histérico! Sorriu, triste; Aarne certamente começaria a armar barraca se o visse com as botas em cima da cama.

Mas Aarne não estava ali. E não estaria por muito tempo.

Que tristeza...

Foi quando ouviu o puxador da porta. Certamente Thranduil quisera fazer uma entrada triunfal e dera, literalmente, com o nariz na porta trancada... O príncipe levantou-se, sem energia, e foi abrir a porta. O rei lançou-lhe um olhar ameaçador:

-Já te disse para não trancares a porta, não já? - resmungou. Legolas suspirou e voltou a encaminhar-se para a cama, onde se sentou. Queria ficar sozinho.

Mas o rei sentou-se à sua frente, sério como sempre. Porém, lentamente, as suas feições amenizaram-se e Thranduil tirou a coroa e pô-la de parte:

-Não é o fim do mundo... - disse. Legolas encolheu os ombros:

-Quando é que o posso ir visitar?

-No Verão. - era a única altura em que Thranduil podia dispensar soldados. O Sol tinha a bondade de manter muitas coisas escondidas nas sombras, durante o Verão. Depois fez uma festa na cabeça no filho, despenteando-o - E... e lamento, pela tua aranha.

-As outras aranhas devem ter-lhe armado uma emboscada... - murmurou Legolas, tristemente - Deviam ter medo dela.

-Realmente, a Gadelhuda era grande. - o rei esperava que o príncipe sorrisse, mas tal não aconteceu. Ficou embaraçado com a situação e piscou os olhos, atrapalhado; era sempre tão constrangedor não ter graça... - Mas a vida segue, meu filho.

-Com ou sem Aarne... - Legolas deixou-se cair para trás, melancólico - Sinto a falta dele...

-É muito stressado, mas tem um bom coração. Gosto dele. - admitiu Thranduil, voltando a colocar a coroa - Vai ser melhor assim, para ambos. Agora dorme, amanhã não vais ter um dia fácil.

-Para onde vou? - não que estivesse muito interessado. O rei abriu a porta do quarto:

-Podes ficar por aqui a deprimir enquanto andas de um lado para o outro a ajudar-me com papéis e a assistir a reuniões, ou podes ir vingar a Felpuda.

Legolas sorriu:

-Chamou-a pelo nome!

-Pretendia fazer dela a mascote do reino, pôr-lhe um arreio e passear por aí. - Thranduil riu, divertido consigo mesmo. Mas o olhar aborrecido de Legolas fê-lo parar - És um chato, Mandos te leve... Agora dorme.

Fechou a porta. Legolas fitou o tecto e ali ficou durante muito tempo, a pensar em Aarne e no cadáver giratório de Felpuda. Seriam as aranhas capazes de vingança? Lembrar-se-iam elas de quando Felpuda o salvara a ele e a Aarne, impedindo-as de os comerem? Ou teriam elas eliminado Felpuda por medo, já que a aranha penugenta era muito maior do que elas? Teria sido fome, necessidade? Ou crueldade? Nunca viria a saber...

Adormeceu.


E assim termina Aranhas. Haverá mais fics, certamente, mas a pobre Felpuda fica por aqui. Mais uma vez, obrigada pela atenção dada a esta fic.

Review?