Nota da (ilustríssima) autora: mais uma vez, quero agradecer a todos que têm dado atenção a esta fic, com ou sem sabotagem por parte do site. ;) E, tal como prometido, aqui está o Aarne!

Aranhas

Quando terminou de fazer a cama de Legolas de lavado e de lhe endireitar os tapetes do quarto, Aarne foi para a biblioteca, pegou num livro de História Antiga e começou a ler. Vindo de uma família de humildes elfos silvestres, nunca tivera uma educação erudita, mas sabia distinguir perfeitamente as ervas boas das más e a que animais pertenciam as pegadas na lama. Por isso, enquanto Legolas era criança e recebia lições de Yrjan, Aarne tentara absorver o máximo de conhecimento que conseguira.

E sabia, recordava-se perfeitamente, que aquele livro de História poderia ter uma resposta importantíssima a uma questão urgente. Estava tão absorto na pesquisa quem nem reparou que Yrjan se sentou junto a ele e o observava. O conselheiro sorriu:

-Aarne? - chamou. O elfo sardento sobressaltou-se e deixou cair o grande livro. Fitou Yrjan, confuso, para depois as suas feições pálidas ganharem um tom rosado:

-Peço desculpa... - murmurou, apanhando o livro. Voltou a folheá-lo, esperando que Yrjan se fosse embora sem o molestar. Já tivera a sua dose. Mas os olhos glaciais do outro elfo continuavam pregados a ele:

-Porque é que pedes desculpa? - indagou o conselheiro, curiosamente - Eu é que te assustei.

-E eu fiz figura de idiota, como sempre... - foi a resposta seca. O outro elfo assentiu e supôs algum encontro infeliz com sua majestade, Thranduil. Yrjan estudou Aarne durante um pedaço e concluiu que, o que quer que o jovem elfo procurava, devia ser importante. Quis saber mais:

-O que procuras tão incessantemente?

-Aquele capítulo que fala sobre... encontrei! - abriu muito os olhos verdes, vitorioso. Yrjan franziu o cenho, curioso:

-Sobre...?

-Ungoliant!

Um silêncio tenso caiu sobre a biblioteca e o sorriso curioso de Yrjan desapareceu. Abanou a cabeça, confuso, enquanto Aarne lia atentamente as páginas dedicadas a tão tenebrosa criatura:

-Não... não é isso um tema um pouco mórbido? - perguntou o conselheiro. Aarne fitou-o, como se estivesse prestes a dizer a coisa mais óbvia de toda a Terra Média:

-Ungoliant, a aranha gigante, deixou descendência. - disse. E então Yrjan percebeu. Voltou a sorrir:

-Muito esperto! O trabalho de investigação é tão importante como o de campo.

Aarne respondeu com um sorriso triste; só estava a tentar ser útil... Voltou a fechar o livro, arrumou-o e sentou-se novamente junto a Yrjan. O conselheiro observava-o interessadamente; parecia-lhe ter descoberto algo sobre Aarne. Ofereceu um sorriso amigável ao jovem elfo:

-Tens frio? As tuas mãos tremem. - observou. Aarne abanou a cabeça e tentou em vão escondê-las nas mangas largas da túnica:

-Não meu senhor...

-Vais ficar por aqui? - já sabia a resposta, queria apenas a confirmação. O jovem elfo assentiu e Yrjan ergueu-se - Estarei na enfermaria, se precisares.

Aarne perguntou a si mesmo se lhe tinham acabado de chamar doente mental. Abalado, trocou a biblioteca pelo ar livre e foi sentar-se na grande escadaria do palácio. Faltava pouco para o meio-dia. E ali esperou, esperou, esperou, esperou, os olhos fixos no portão, sem piscar uma única vez, os lábios apertados e o maxilar cerrado. Era a amargura em forma de elfo. As mãos tremiam-lhe incontrolavelmente.

E ali ficou, perdido em pensamentos, as palavras do rei a ecoarem-lhe na cabeça, a imagem de Legolas entre os arqueiros. Não comeu, não sentia fome.

Viu os irmãos mais novos andarem de um lado para o outro; no palácio, os irmãos desprezavam-no, consideravam-se mais úteis do que ele. A maldita utilidade novamente! Um acesso de raiva fez com que os olhos verdes e imóveis de Aarne se marejassem de lágrimas; teria chorado se tivesse energia para tal.

Pouco depois da hora de almoço, viu Aelle sair a cavalo. Outro útil. E ele ali, inútil, sentado nas escadas, a ocupar espaço! Francamente, que vergonha... Então, porque não se levantava? Porque não ia lavar pratos, varrer, alimentar os cavalos? Queria ver o príncipe chegar, certificar-se de que ele estava bem. Queria que ele lhe contasse como fora, o que acontecera, se o problema já estava resolvido.

Queria partilhar com Legolas as suas próprias conclusões; por certo o amigo acha-las-ia úteis...

Passou-se o dia e Aarne não se mexeu mais. Apenas se ergueu ao anoitecer e ali ficou, de pé, imóvel; a qualquer momento, Legolas voltaria. Prometera-lhe...

Porém, foi escurecendo e nem sinal dos arqueiros. De Legolas. O dia solarengo deu lugar a uma noite sem lua e Aarne continuou de pé no degrau da escada de mármore, um elfo com o brilho do fogo-fátuo:

-Não saio daqui enquanto não o vir chegar são e salvo... - murmurou Aarne para si mesmo. Começava a sentir-se cansado e a sombra da fome toldava-lhe o estômago. Suspirou e quando deu por isso Yrjan estava a seu lado, de mãos atrás das costas:

-Está frio, vem para dentro. - sugeriu o conselheiro. Mas o jovem elfo abanou a cabeça - E se eles só voltarem amanhã à noite?

-Fico aqui à espera.

Yrjan estudou um pouco mais a postura rígida de pedra tumular de Aarne. Se viesse um vendaval, muito provavelmente o jovem elfo continuaria ali, hirto, minimamente afectado com o vento, apesar da sua compleição franzina. Passado algum tempo o conselheiro voltou para dentro. Aarne ali ficou, novamente sozinho, vigilante.

Devia passar pouco da meia-noite quando o tropel de cavalos arrancou Aarne do seu estranho transe. O jovem elfo piscou os olhos, rapidamente, e esticou o pescoço para ver a companhia regressar. O coração caiu-lhe aos pés; quatro arreios vazios, soldados feridos, sujos de sangue e pó... e Ragnar e Legolas não estavam ali.

Sem saber ao certo o que estava a fazer, avançou decididamente para o grupo. Thranduil, andando de um lado para o outro com o cavalo negro, quase o atropelou. Fez uma careta:

-Mas o que é que fazes aqui? - perguntou, irritado - Não atrapalhes!

-Eu quero ajudar, senhor. - fazer-se útil... Aarne afastou-se imediatamente de Cuchulainn. O grande cavalo negro tinha uma ferida na espádua. O rei elfo ignorou-o, continuando a gritar ordens aos seus soldados e a clamar por gente que os viesse ajudar. Agora que ali estava, entre elfos mal-dispostos, feridos , e cavalos nervosos que andavam de um lado para o outro, Aarne encolheu-se de medo. Procurou um rosto amigo no grupo e, quando o detectou, correu para ele, evitando por um triz o vigoroso coice de um cavalo. Tjaden arregalou os olhos e Aarne tentou não fazer uma careta enojada; um golpe fundo atravessava a face sem idade de Tjaden:

-Ora ainda bem que aqui estás, ajuda-me a levá-los! - pediu o arqueiro. E antes que Aarne pudesse dizer alguma coisa foi-lhe praticamente atirado um elfo moribundo, com um pedaço de pano ensanguentado atado ao pescoço. O elfo sardento sentiu o estômago vazio dar uma volta... Porém, servindo-se de uma força completamente desconhecida, deu por si a carregar o ferido nos braços e a subir a escadaria com ele. Aarne, tão frágil, a carregar alguém escada acima!

Tjaden seguia-o, carregando dois companheiros como se fossem sacas de batatas postas nos ombros:

-O Legolas? - perguntou o elfo de olhos verdes. Correram pelo longo corredor, iluminado por archotes esporádicos, e finalmente entraram de rompante na enfermaria. Yrjan, que organizava uns frasquinhos, fitou-os imediatamente. Aarne estacou, sem saber bem o que fazer, até imitar o exemplo de Tjaden e deitar o moribundo numa das muitas camas da enfermaria:

-O que aconteceu? - perguntou o conselheiro, olhando os feridos:

-Orcs... - suspirou Tjaden, pesadamente - Perdemos um... Bom, onde está o Taisto?

-Qual Taisto?

O arqueiro empalideceu:

-Valar...

Já Yrjan se atarefava com o moribundo:

-Senta-te para aí, já me contas melhor.

Tjaden assim fez, avançou para a janela e sentou-se numa cadeira. Parecia devastado. E Aarne, esquecido naquele súbito caos, sentiu-se inútil. Inútil... Atrapalhado, avançou timidamente para Tjaden e fitou-o. O elfo limpava à manga o sangue que lhe escorria do golpe:

-O Legolas foi a Rhosgobel... - suspirou o elfo. Aarne ficou parado durante algum tempo e descobriu que era irresistível tentar descobrir a cor dos olhos do arqueiro; naquele momento aparentavam ser cinzentos, mas olhando com mais atenção, pareciam azul-claro. Tjaden devia estar exausto...

Olhando em redor, Aarne reparou em Yrjan a aplicar umas plantas no pescoço do elfo moribundo. Olhou para as prateleiras por cima da janela e de novo para Yrjan. Depois esticou-se, pegou num frasco e leu o rótulo: Cicatrizante. Eram ervas embebidas numa qualquer substância. Aarne supôs que bastava embebedar um pano com aquilo e aplicar.

Tjaden franziu o cenho ao ver Aarne fazer aquilo em que estava a pensar:

-Sabes mexer nisso? - perguntou o arqueiro. Ainda assim permitiu a aproximação do pano com a estranha substância:

-Não... - murmurou Aarne - Só queria ajudar...

-Se me cair o olho vais ver o que te faço... - ameaçou Tjaden. Sorriu e decidiu colaborar com o elfo sardento. Aarne limpou-lhe o golpe, cuidadosamente, e o arqueiro deixou de sentir dor:

-O que aconteceu? - quis saber Aarne. Precisava de notícias, urgentemente! Tjaden relatou-lhe o que acontecera e terminou com um suspiro pesado:

-... e o Taisto já devia ter chegado...

-Não chegou ninguém. - assegurou Aarne, arrumando novamente o frasco - Estive lá fora e não vi chegar ninguém. Só o Aelle é que saiu.

O outro elfo baixou a cabeça, tristemente. Yrjan aproximou-se e examinou Tjaden, depois ergueu as sobrancelhas e fitou Aarne. O elfo recuou imediatamente, certo de que fizera algo errado:

-O que é que usaste? - perguntou o conselheiro. Aarne apontou timidamente o frasco na prateleira - Como é que sabias que esse era o frasco certo?

-Dizia lá... - murmurou Aarne.

Yrjan assentiu. Olhou em redor; os outros três elfos já estavam tratados. Colocou um braço em torno dos ombros de Aarne e fê-lo avançar até à cama do moribundo:

-Vigia-o. - ordenou - Volto já.

Aarne viu o outro elfo deixar a enfermaria e ali ficou, de pé, olhando para o moribundo. Tjaden tentou suprimir uma gargalhada:

-Eu recuperava-me logo!

-Porquê...?

-Que medo, ter alguém assim a olhar para mim! - era inútil, tinha de se rir! Aarne lançou-lhe um olhar aborrecido e voltou a fixar os olhos no elfo moribundo. Mas a sua mente estava a milhas dali. Legolas...

Yrjan correu lá para fora, para o pátio. Os elfos, muitos deles feridos com ligeireza, estavam mais preocupados com os seus cavalos do que consigo próprios. E Thranduil não era excepção; um pouco mais afastado dos outros, o rei elfo lavava o golpe na espádua do seu corcel, pesarosamente:

-Tenho umas coisas interessantíssimas para te contar! - exclamou o ofegante Yrjan, parando ao lado do cavalo negro. O rei elfo olhou-o, irritado; estava sujo mas aparentemente incólume:

-E achas que estou interessado nas tuas fofoquices?!

-E se eu te disser que o Aarne é capaz de ter descoberto a origem do teu problema aracnídeo? - tal como Yrjan pensava, Thranduil desviou a atenção do cavalo ferido e concentrou-a no conselheiro - E que ele tem um certo jeito para medicina.

-Agora estou ocupado... - resmungou novamente Thranduil - Odeio imprevistos... vai lá para dentro que já falamos.

-E o Taisto não chegou. - informou Yrjan. Lamentou ter dado aquela informação e voltou rapidamente para dentro sobre uma salva de impropérios e pragas de todo o tipo. Foi espreitar a enfermaria; Aarne continuava a vigiar o moribundo e Tjaden tinha adormecido na cadeira, encostado ao parapeito da janela redonda. Foi então para os aposentos de Thranduil e lá esperou.

Passado um bom bocado o rei elfo entrou no quarto e sentou-se numa cadeira. Bufou, esticou as pernas e cruzou os braços:

-Desembucha. - ordenou. Yrjan assentiu:

-O Aarne ficou cá, como deves imaginar. - Thranduil revirou os olhos - Estava na biblioteca a ler, ou melhor, a pesquisar a possível origem das aranhas. E o que ele me disse pareceu-me extremamente provável.

-E o que foi que ele disse?

-Que podem ser descendência de Ungoliant. Eu acho que sim.

Thranduil cerrou os punhos:

-Mandos vos leve aos dois se isso for verdade! - exasperou-se o rei - Os bichos bastardos daquele monstro na minha floresta!

-É a única explicação lógica! - prosseguiu Yrjan, disfarçando um bocejo - Não caíram do céu, certamente, nem se materializaram na tua floresta!

-Mas porquê aqui?! - Thranduil levou as mãos à cabeça - Com tanta floresta abandonada que há por aí!

-Isso só o tempo o dirá. - o conselheiro avançou para o rei e pretendia tirar-lhe a capa, mas Thranduil enxotou-o:

-Andas a aprender com o Aarne a apajar os outros?

-Grande bruto... - resmungou Yrjan - Se o dia te correu mal não me culpes a mim!

O rei elfo suspirou, exausto, e permitiu ao conselheiro livrá-lo da capa suja e do colete de couro:

-E... o Aarne deu-se a esse trabalho para...?

-Não sei, talvez estivesse a tentar ser útil. - Yrjan olhou para o rei elfo de soslaio, mas Thranduil ignorou-o - Acho que o vou ensinar a curar.

-Excelente, fá-lo útil para a sociedade! - aprovou de imediato Thranduil, satisfeito. Yrjan esboçou uma careta e puxou-lhe o cabeço de propósito enquanto lhe desmanchava as tranças:

-O rapaz tem potencial; gosta de aprender, tem um raciocínio rápido e aquela grande força interior de que te falei.

-Às favas com a força interior; saltitam aranhas e orcs na minha floresta... - o rei fez uma pausa e prosseguiu, amargamente - e mandei o meu filho sozinho aos confins do reino...


E termina aqui o nono capítulo. Review?