Um outro grito desesperado de dor ecoou. Era uma outra e terrível sessão de tortura e Anna já não sabia se seria capaz de suportar mais um dia aquilo. Perguntou-se onde raios estaria V que ainda não fora buscá-la e salvá-la; ou se ele tinha o interesse de fazer isso. Uma repentina sensação de que talvez ele não se importasse com ela perfurou seu coração de forma tão dolorosa que chegou a ranger os dentes. Queria chorar mas não podia. Queria viver mas... Não sabia se viveria por mais tempo.

O estado de seu corpo era lastimável. Muitos hematomas começavam a ficar evidentes em sua pela alva e meio pálida. Cortes e cicatrizes de cortes em quase todo o seu feminino corpo. Marcas de queimaduras feitas por ferro quente ainda ardiam e marcavam sua pele. O rosto meio inchado e o cabelo todo desgrenhado, sujo e oleoso. Até mesmos seus pulsos e tornozelos estavam com cicatrizes por causa das algemas.

A sessão de tortura acabou, finalmente, e Anna foi deixada sozinha na sala. Do jeito que estava, sabia que ela não seria capaz de escapar. Não davam água ou comida para ela, deixando-a morrer de fome.

- Por favor... Dê-me um pouco de comida... – pedia ela, a voz bastante fraca.

- Não. Ordens do chefe. – ria o guarda e saia do cômodo.

Há cinco dias Annas estava presa. Há cinco dias ela era torturada sem piedade. Há cinco dias não comia ou bebia água direito. Há cincos dias... E nem sinal de V.

- Hey, quem é você?! – perguntou um guarda, apontando sua arma.

Um vulto negro moveu-se com tanta velocidade que, em um piscar de olhos, o guarda morto no chão.

Era o mesmo armazém daquela vez em que Anna se metera em confusão. Por isso não fora muito difícil para V chegar ao local e matar todos os guardas externos antes que pudesse entrar. Por mais que andasse de forma furtiva e cautelosa, era percebido assim que se aproximava. Sua aura esta noite era de raiva e ódio e assim fazia de sua presença mais forte. Sua vontade era matar todos. Todos aqueles que tiverem feito algum mal à Anna ou estejam envolvidos.

Movia-se rapidamente, matando todos que estivessem em seu caminho com suas adagas. Poderia estar escuro porque V apagara todas as luzes mas podiam ver perfeitamente bem na escuridão. Não tinha visão noturna, apenas seus olhos eram mais adaptáveis a escuridão.

O único problema era que não fazia a mínima ideia onde estaria Anna. Onde eles a esconderam.

- Onde vocês esconderam-na? – V perguntou, erguendo um homem com as mãos envoltas em seu pescoço, sem nenhuma dificuldade. – Onde está Anna?!

- E você acha que eu direi? – debochou o homem.

Sem esperar e sem piedade, V quebrou o pescoço do homem antes de continuar seu caminho pelo armazém em busca de sua amada.

Anna podia ouvir um barulho vindo de fora. Seus ouvidos eram sensíveis e captavam muita coisa assim como os de V. Era incapaz de distinguir os sons e identificar o que poderia estar acontecendo. Imaginou que os malditos de seus torturadores estivessem fazendo uma mini festa entre si, comemorando sua desgraça e que, no dia seguinte, seria executada. Sentiu mais nojo e raiva, queria sair dali mas não sabia como.

Estava sozinha naquela minúscula sala de quatro paredes brancas e simples. Havia apenas Anna acorrentada e uma mesa com os objetos usados para sua tortura. Seus olhos verdes, ofuscados, alternavam entre a mesa, a porta e as algemas de suas mãos. Parou um momento e pensou. Pensou e decidiu como sairia dali mesmo que fosse ser uma loucura.

Respirou fundo várias vezes, os olhos fechados para maior concentração, preparando-se tanto fisicamente quanto mentalmente para o que estava por fazer.

Abriu os olhos e cerrou os dentes, forçando seus braços para os lados. Queria quebrar as correntes à força. Sua força. Sabia que, em condições normais, seria capaz de fazer isso com alguma dificuldade mas conseguiria a liberdade. Porém ali, fraca e mal alimentada, quase sem energias, não tinha tanta certeza assim.

Era quase como o V, fisicamente, com força sobre humana que, aos poucos, as correntes iam cedendo. Seus pulsos doíam que atordoava seus sentidos mas apenas fez mais e mais força. Soltou um baixo gemido quando ouviu o metal quebrar-se e ter seus braços livres da correntes mas não das algemas. Desatou a corda que mantinha seus pés presos e tentou ficar de pé.

Caiu no chão na primeira tentativa. Não podia andar direito, suas pernas estavam debilitadas demais para isso. A única maneira era rastejar-se até a porta e abri-la; estava aberta porque, para eles, uma pessoa algemas como ela não poderia abri-la. Esse pensamento era cômico.

- É a última chance que lhe dou para me informar onde está Anna. – a voz de V era fria e áspera. A boca contraída em uma linha dura atrás da máscara. Estava irado.

Apertava a ponta de uma de suas adagas contra a garganta de um homem mediano e carrancudo. Ele tremia de medo, a essa altura, urinara nas calças como uma criancinha assustada. Estava erguido contra a parede e tentava inutilmente falar porque saia apenas murmúrios e letras avulsas; nada com sentido era proferido.

O som do ranger de uma porta se abrindo chamou a atenção de V que imediatamente olhou na direção, em alerta. Quando viu quem saiu, completamente nua e terrivelmente machucada, arregalou os olhos e sentiu uma pontada de dor no coração. Sua mão afrouxou-se e o homem caiu no chão arquejando em busca de ar.

Era Anna.

- Anna! – V gritou e ela virou a cabeça em sua direção. Ele suspirou aliviado ao vê-la e corado pela sua nudez feminina.

Ela abriu um sorriso quando o viu e ia caminhando desajeitada em sua direção porém mãos rudes a agarraram e Albert, com mais outros atrás de si, pegaram-na novamente. Ele segurava um canivete contra o pescoço dela com uma mão e outra o seu seio. Queria provocar V... E estava conseguindo porque ele rangeu os dentes e bufou de raiva por trás da máscara.

- Solte-a agora mesmo. – disse friamente, apertando o cabo de sua adaga com força que sua luva de couro chiou um pouco. – Solte-a!

- E o que vai fazer? Me matar? – debochou Albert, rindo e apertando o seio de Anna que estava imóvel e tensa. – Tente alguma coisa e ela morre, codinome V. Solte sua arma.

- Não, V! Mate-os logo e não se importe comigo.

- Heh, como se ele fosse fazer isso, menina estúpida. Ele deve estar caidinho de amores por você para permitir que perca a vida.

Anna ignorou as palavras dele e olhou fixamente para as orbes vazias e escuras da máscara de Fawkes. Lançava-lhe um olhar que somente V poderia ser capaz de entender. Um olhar que o desagradava e o fazia retorcer o rosto como se estivesse sentindo dor. Não queria, de modo algum, que ela se machucasse mais do que aparentava estar. O pior de tudo era que, para Anna, estava tudo bem isso, que não se importava desde que ele o fizesse o que fora pedido em um único e simples olhar.

O silêncio pairava ali de forma tensa e inquietante. Albert estava impaciente e provocou ainda mais, apertando o seio de Anna até que esta gemesse de dor. Isso chamou a atenção de V que sentia sua ira subir-lhe a mente cada vez mais.

- Então, o que irá fazer, codinome V? Vai nos matar e ela morrer junto ou vai largar a arma e você e ela morrerem?

Todos riram com a opções propostas. Anna ainda olhava fixamente para V e uma ideia surgiu em sua mente. Engoliu em seco, respirou fundo, suspirou e disse:

- Atire nele.

V arregalou os olhos, incrédulo. Albert, por sua vez, abriu um sorriso e guardou o canivete no bolso, pegando uma pistola automática de seu cinto. A ideia de atirar no vigilante ali era muito boa para ele. Havia esperado muito tempo para isso em vingança pelo que acontecera a primeira vez que Anna se metera em confusão com eles. Vingança pela morte de seus companheiros.

- Atirar nele? Parece que os dias que você demorou para resgatá-la, chapa, deixaram-na com raiva de você. – ele debochou, mirando no peito de V.

- Descarregue suas balas nele. – disse ela, o olhar fixo sobre V.

Então ele compreendeu e sorriu levemente. Anna respirou fundo e sorriu também como se tivesse visto o sorriso dele; como se tivera visto por trás da máscara.

Albert deu uma risadinha satisfeita enquanto mirava com voraz vontade a pistola na direção de V. Entregara Anna para os braços de outro enquanto cuidaria, com total foco, no seu alvo de vingança. Abriu um sorriso e apertou o gatilho.

Bang... Bang, bang... Bang… Bang, bang!

Pareciam ritmos cardíacos quando os sons dos tiros ecoaram em um som ensurdecedor. V havia dado dois passos para trás por conta dos impactos e despencava em direção ao chão, de joelhos, o queixo encostado contra o próprio peito. Seus braços caíram desfalecidos nos lados de seu corpo mas não soltara sua adaga, mesmo suas mãos semiabertas e inertes. Uma visão terrível e assustadora. Não podia saber se sangrava por causa de suas vestimentas negras mas Albert não se importava. Estava visivelmente satisfeito.

Anna mordeu o lábio inferior, o rosto retorcendo-se tristemente. Teria ela matado V? Lembrava-se perfeitamente da armadura antibalas que ele ostentava por baixo de suas roupas mas será que ele a usava? E se não estivesse usando? O medo e desespero tomou conta de sua mente e pesou em seu coração. Estava arrependida; havia arriscado demais.

Albert riu em escárnio e aproximou-se do cadáver, ainda ajoelhado, de V e tocou-lhe o ombro e virou-se para Anna.

- Vê? Está bem morto agora e a culpa é sua, vadia. – riu ele. – Você é a próxima, conforme as ordens de seu pai.

Voltou-se para encarar a máscara de Guy Fawkes, agora mais de perto, tentando ver além das orbes negras. Sem esperar mais, resolveu tirar-lhe a máscara e revelar-lhe o rosto por trás dela. Não obstante, antes que sua mão chegasse próxima do limite dela, no queixo, uma adaga foi cravada bem no meio de sua garganta, fazendo o sangue percorrer a prateada lâmina mortal.

De olhos arregalados, engasgando-se no próprio sangue, encarou V com surpresa antes que perdesse a vida e caísse imóvel no chão.

Todos assistiam com olhos assustado o corpo de Albert caído no chão. Eram os últimos ali naquele armazém e apenas três estavam armados com pistolas e revolveres. Eram no total seis homens, sendo um deles o que tinha Anna presa. Como a minoria, segurava um revolver consigo.

V ficou de pé em um salto, erguendo a cabeça lentamente para encará-los como se nada tivesse acontecido, para alívio da jovem Anna. Ela suspirou e sorriu contente para ele.

Com habilidade e rapidez, sob efeito da adrenalina, ela pisou no pé de seu torturador e segurou a mão que ele portava a arma, mirando em seus companheiros e atirando neles. Enquanto isso, V sacava suas adagas e as arremessava nos outros restantes e corria em auxílio de Anna.

Uma dupla infalível. Uma dupla que sabia como trabalhar um com o outro com naturalidade espontânea.

Quando o perigo havia sido aniquilado, Anna correu para os braços d abraçou com força, enterrando seu rosto em seu peito. Era um abraço saudoso. Entretanto, algo molhou-lhe a bochecha e, afastar-se e passar os dedos sobre a pele, viu que era sangue. Arregalou os olhos e encarou a máscara.

- Oh, não, você está ferido! – disse ela com arrependimento na voz.

- Não preocupe, minha pequena, eu estou bem. – V disse com uma voz tranquila e afagou os cabelos dela com carinho com uma de suas mãos enluvadas. – Uma ou duas balas trespassaram minha armadura.

- Desculpe-me por ter sido baleado. Estava confiando que trajava sua armadura e que não morreria baleado.

- Está tudo bem. – repetiu ele, trazendo-a para si em um abraço carinhoso.

Anna podia sentir a tensão do corpo dele devido a dor que deveria estar sentindo, no entanto, também tinha conhecimento sobre a tolerância a dor que V tinha e adquirira no tempo que serviu como experimento biológico em Larkhill assim como ela.

Quando se afastou dela, desatou sua capa negra e colocou em Anna, para esconder sua nudez feminina e fazerem seus caminhos de volta para a Shadow Gallery. No caminho V teve que carregá-la nos braços porque a dor e exaustão física dela pelos dias de tortura começaram a fazer efeito assim que a adrenalina cessou de seu corpo.

- Deixa eu te ajudar com as balas! – resmungou Anna, atravessando a cozinha para beber um pouco de água. – Caramba, como você é teimoso, V.

- Eu aprecio o seu desejo em querer me ajudar, minha querida, mas estou bem e posso cuidar das balas sozinho. – retrucou V, a voz mansa e normal.

Anna fuzilou o vigilante com os olhos verdes e grunhiu de raiva, pondo um pouco de água em um copo transparente de vidro. Haviam chegado à Shadow Gallery há pelo menos meia hora. Ela tomou um bom banho para limpar não somente seu físico como também sua mente de tudo pelo que passou de horrível naquele armazém, nutrindo mais ódio ainda por seu pai. Vestiu roupas mais confortáveis e leves de cores preto e cinza e V lhe preparara um pão com ovos para comer. Anna estava tão faminta que se esquecera de pentear os curtos e cabelos castanhos, deixando-os desgranhados.

- Por que você nunca permite que eu o ajude? – perguntou ela, indignada. – Se acha que tenho medo ou sei lá qual reação você espera de mim, por causa de seu corpo, está equivocado.

- Medo não é palavra correta. Nojo e repulsa seriam mais apropriadas.

- Você não pensou nisso quando tirou a máscara e me beijou naquele dia.

O silêncio reinou e ambos se encararam, tensos e sem saber o que dizer.

- É uma situação diferente... – V disse de forma baixa e inclinando a cabeça para fitar o chão. – Eu sou um monstro.

Anna revirou os olhos e bufou de frustração por aquela situação. Nunca o viu como um monstro, pelo contrário, ele era como um anjo para ela. Um anjo mascarado, revolucionário, que vestia somente preto e ostentava uma máscara de Guy Fawkes no rosto. Um anjo e ao mesmo tempo um homem. O homem que amava.

Amava? Sim, descobriu isso agora com o pensamento. Seu coração bateu mais rápido que pensou que morreria por taquicardia ali mesmo.

Com passos rápidos se aproximou dele e o envolveu carinhosamente em seus braços. Podia sentir o cheiro de seu sangue sob suas vestes ainda, o que significava que ele ainda não se tratara.

- Repita isso e juro que te amarro, subo os elevadores contigo, e te arremesso lá do terraço.

- Como se você fosse ser capaz de tal feitio. – V riu, abraçando-a de volta. Uma risadinha nasal. – E se conseguir me capturar.

- Por acaso você está me subestimando?

- Jamais. – ele deu de ombros, sorrindo por trás da máscara. – Um pouco, quem sabe.

- Sorte sua que está baleado e eu em péssimas condições de persegui-lo por aí e fazer tudo o que lhe disse.

Ficaram assim por algum tempo, abraçados, aproveitando aquele momento tão único e delicado. Ambos sentiram saudade de estarem próximos dessa forma. De um se entregar aos braços do outro. No entanto, esse momento não durou muito tempo.

Cada músculo de V estava tenso porque sentia a dor das balas dentro de seu corpo. Era preciso retira-las e cuidar dos ferimentos antes que pegasse uma infecção.

- Anna, querida, preciso extrair as balas. – afastou-se um pouco dela. – E depois será importante que eu cuide de você. Precisarei ver seus machucados e ferimentos.

A lembrança de ver o hematomas tão roxos e meio azulados na pele alva de Anna, além da nudez ao qual foi submetida, fê-lo ranger os dentes de raiva. Estava satisfeito de tê-los mortos agora. Cada um responsável pelo sofrimento de sua Anna morto... Menos um.

- Certo. Obrigada, V.

- Não há motivos para agradecimentos. Apenas estou fazendo minha parte.

Nada mais foi dito e V desapareceu no corredor, deixando Anna sozinha com os próprios pensamentos.

V encarava estupefato o corpo machucado de Anna sobre a cama. Estava sentado em uma cadeira e usava luvas brancas de hospital enquanto passava pomadas nas regiões onde fora marcada a ferro quente. Conteve a vontade de passar o dedo indicador sobre a queimadura em forma de V logo acima do quadril dela. Concentrou-se em limpar com antisséptico os cortes e arranhões e fazer os devidos curativos neles.

Estava arrependido e enraivecido consigo mesmo por ter levado muito tempo para ir resgatá-la. O que fizeram com ela fora monstruoso.

Suspirou e começou a guardar seus itens médicos na caixa de primeiros socorros.

- Pronto.

- Você é bom nisso. Onde aprendeu a fazer essas coisas?

Ele sorriu sem olhar para ela e inclinou a cabeça, indicando com o queixo a montanha de livros que tinha no quarto. Anna arquejou as sobrancelhas e assentiu com a cabeça, compreendendo.

- Ah... Era de se imaginar.

V afagou os cabelos de Anna e levantou-se da cadeira, caminhando para a porta. Antes que pudesse desaparecer, voltou o corpo para ela e disse:

- É importante que passe os próximos dias de cama. – seu tom era severo para mostrar que falava sério. – Nem pense em fazer besteiras ou irei me certificar de que não o faça ao meu modo.

Anna levou a mão até a testa fazendo o típico sinal militar, assentindo as ordens, e sorrindo. V balançou a cabeça e sorriu por trás da máscara. Fechou a porta atrás de si e deixou que sua amada descansasse e se recuperasse.

Os dias se passaram e ambos seguiram sua vida de forma tranquila. Anna pedira que V fosse pegar a encomenda feita no dia que fora sequestrada na condição de que ele não espiasse de modo algum o que seria. Segundo ela, era uma surpresa de natal que faria e não queria estragar isso e ficou contente que ele tenha respeitado isso.

Era um dia chuvoso em Londres e fazia frio em todo lugar, até mesmo na Shadow Gallery. Anna assistia a um filme natalino com V que ela tinha desde a infância. Ele a abraçava contra si para mantê-la aquecida e próxima, sentindo seu perfume de rosas e afagando seus curtos cabelos.

Anna adormecera daquela maneira deixando um V assistindo sozinho o resto do filme. Quando este terminou, pareceu estranhamento tenso e a acordou para conversar.

- Anna – começou, segurando-a pelo queixo com carinho. – Há algo que gostaria de dar-lhe e mostrar-lhe.

Ela balançou um pouco a cabeça para acordar e ouviu-o com atenção, abrindo um sorriso e ficando curiosa e feliz para saber o que era. Receberia um presente ou veria algo surpreendente. Isso a despertou e a fez parecer uma menininha animada.

Saíram da sala de estar e caminharam pelo corredor, abrindo uma porta de madeira que levava a outro corredor. Era totalmente cinza e Anna reconhecia que era a prisão falsa que V tinha construído e a prendera quando perdera o controle. Não entendia porque ele a estava levando para lá ou o que haveria em alguma das cinco celas.

Começou a ficar nervosa e tensa, puxando-o para que ele a olhasse nos olhos.

- V, por que estamos aqui?

Ele não disse nada, apenas encarando-a por um momento e seguindo o caminho até parar diante da cela de número III. Ignorada, Anna o seguiu e parou ao seu lado, o cenho franzido de confusão para seja lá o que ele queria fazer.

Será que ele queria seduzi-la dentro daquela cela? Pensamento estúpido.

Quando finalmente a pesada porta de ferro fora aberta, Anna arregalou os olhos, incrédula e boquiaberta. Seu corpo começou a tremer e seu rosto passou de surpresa para raiva e ódio. Não podia acreditar no que estava vendo. Em quem estava lá dentro.

- Esse é o motivo pelo qual tardei a ir resgatá-la, minha querida. – começou V, virando a cabeça para encará-la. – Estive vigiando aquele armazém porque sabia que ele iria visitá-la algum dia.

Nada. Anna não disse nada. Começou a tremer e fechou as mãos em punhos trêmulos.

- Então eu o segui e descobri onde morava, instalando câmera em sua moradia para quando estivesse indefeso, capturá-lo e trazê-lo até aqui. – explicou, suspirando e pondo uma mão no ombro de Anna. – Para assim ser capaz de salvá-la e não ter mais problemas com sequestros e suas fugas da Shadow Gallery. Para por um verdadeiro fim nisso tudo.

Dentro da cela, em pé, de braços cruzados e cabeça baixa, estava o pai de Anna, John Blake. O responsável por tudo. Por todo o sofrimento, dor e lembranças ruins dela. Pela destruição de sua felicidade e da linda família que eram no passado.

- Não acredito que, no final, conseguiu isso. – John disse com desprezo, levantando a cabeça para encarar a filha. – Olá, Anna. Vejo que está viva ainda mas não me parece muito bem.

- Seu...

Sem pensar, ela cortou a distância entre os dois e cravou seu punho no queixo do pai. Este teve que se apoiar na parede para não cair, levando a outra mão até o local atingido e cuspindo um dente. Voltou a encará-la com um sorriso satisfeito nos lábios, seus olhos verdes, iguais aos dela, inabaláveis.

Anna trincou os dentes e começou a socá-lo, ignorando algumas dores em suas costelas sempre que esticava os braços. Era um soco atrás do outro, carregados de fúria e ódio contidos por muitos anos.

- Maldito! Como pôde ser capaz de fazer isso comigo e com a mamãe! – vociferou ela entre um soco e outro. – Como pôde dizer que nos ama se foi o responsável por tudo?! E ainda por quase me matar.

- Calma, Anna!

V correu para dentro, afastando-a de John, que mal se aguentava em pé, pelos braços. Ela se debateu para se libertar mas a força dele era muito maior que a sua. Não tirou os olhos raivosos do pai até que a porta de ferro fosse fechada novamente. Agora uma pesada porta os separava. Estivera tão perto e agora estava, estranhamente, tão longe.

- Calma é o caramba! Por que não me disse nada a respeito?

- Não queria que estragasse tudo e já imaginava que fosse agir dessa forma.

- Não interessa! Eu vou matá-lo! Agora que ele está ali, preso e indefeso, vou matá-lo e assim terei minha vingança.

Anna fora arrastada de volta para a sala de estar e lá libertada dos braços fortes de V. Caminhava inquieta de um lado para o outro, murmurando diversas pragas e tentando se acalmar de alguma forma.

Paciente, V ficou de pé com as mãos cruzadas atrás do corpo, acompanhando-a com os olhos.

- Será que sua vingança realmente a fará se sentir melhor? – questionou ele.

- Mas é claro que sim! Tudo o que mais quero e acabar com a vida dele como ele acabou com a minha e da mamãe.

- Isso irá apenas te destruir, Anna. Matá-lo só a fará ser igual a ele.

- Não. Não me fará igual a ele porque estarei fazendo justiça. – retrucou ela, parando para encará-lo.

V suspirou e balançou negativamente a cabeça, andando na direção de Anna e parando a sua frente. Ele a olhou bem fundo em seus olhos mesmo que ela não pudesse fazer o mesmo. Estava triste por fazê-la passar por aquela situação, vê-la agir daquela maneira tão leviana.

- Uma vingança particular como essa não a levará a nada. Não fará diferença nenhuma porque apenas irá matá-lo e você continuará viva com as lembranças do que sofreu e com a responsabilidade de tê-lo matado.

Anna respirou fundo e não disse nada. Não sabia exatamente como argumentar.

- Mas você cumpriu com sua vingança. A sua vendeta! – tentou ela, acusadora. – Nada o parou e foi até o fim.

- Não. – cortou ele de forma séria. – Não fui até o fim porque de minha particular vendeta. Fiz isso pelo povo e pela nossa nação também que precisavam de algo que as dessem esperança. Eu dei esperança a elas e cumpri com minha vendeta, matando todos aqueles culpados pelo o que fizeram comigo.

V tocou no ombro dela e a puxou para si, acalentando-a em seus braços. Descansou o queixo no topo da cabeça dela e afagou seus cabelos com uma de suas mãos enluvadas.

- Sequer pretendia viver. – sua voz era baixa e fraca ao falar. – Pretendia morrer junto com minha vingança naquela noite... mas você apareceu e me salvou. Estava dando esperança ao país e você a mim.

Anna o abraçou com força e começou a chorar nos braços dele. Soluçava e chorava como nunca antes havia feito. Há anos não chorava porque nunca se permitira chorar e agora, naquele momento, não tinha mais forças emocionais e psicológicas para se conter.

- Não quero que se torne como ele, matando-o por mero capricho vingativo. Isso é um ato egoísta.

Ele tentou acalmá-la cantarolando por um tempo uma música de dormir. Apertou o abraço e continuou.

- Porém fazer isso ou não caberá somente à você. O que decidir eu irei apoiar mas saiba que não sou a favor, particularmente, de matá-lo como deseja. Por acaso que ser como seu pai, Anna? Praticando atos egoístas e de puro capricho próprio igual a ele?

Ficaram um tempo em silêncio, abraçados, mas não com aquela paz e tranquilidade como antes. Era um momento tenso para ambos, principalmente para Anna. Ela desejava mais que tudo matar seu pai e perdoá-lo era a única coisa que queria mas não desejava ser como ele. Viver com o pensamento que no final havia se tornado a mesma coisa e ser comparada por isso.

Não sabia mais o que fazer. Sabia mas estava incerta. Justiça e vingança. Teria ela se equivocado nos significados? Não sabia.

O seu desejo de vingança estava além da consciência do perdão.

V afastou-se dela e andou na direção de seu quarto. Todavia, parou no caminho e virou-se para encará-la.

- Terá até amanhã para se decidir então pense bem, pequena. – disse ele suavemente.

Ela baixou a cabeça, pensativa, e não disse nada. V a observou e voltou a andar porém, de longe, lá no corredor, ele disse alto o suficiente para Anna ouvi-lo.

- "Ser ou não ser: Eis a questão!"